Discursos poderosos de uma luta inacabada

A justiça é representada por uma mulher, a própria ideia de justiça, de democracia com a balança é feminina e no entanto, nós continuamos em desvalor profissional, social, econômico e é exatamente sob a égide de uma Constituição que 35 anos depois de seu primeiro momento de vigência, estampou expressamente que homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações  nos termos dessa Constituição e mesmo sendo obrigação atuar igualmente as possibilidades desta construção conjunta muitas vezes nos é negada. Dizem que nós fomos silenciosas historicamente, Mentira! Nós fomos silenciadas, mas sempre continuamos falando, embora, muitas vezes não sendo ouvidas. Trecho de discurso da Ministra Carmen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal, hoje, a única mulher na atual composição do STF que tem 11 integrantes.

A Ministra, disse ainda que o país precisa pensar sob o prisma da promoção da paz. Um país que assassina milhares de mulheres precisa muito que todos nós comecemos a pensar na construção da paz e não apenas no combate à violência. E citou os números assustadores dos feminicídios consumados e tentados.

Trechos do discurso postado numa mídia do STF, recebeu comentários misóginos, deselegantes e polarizados. Sobre comentários maldosos após a fala de uma mulher, a Ministra disse que o discurso de ódio contra as mulheres tem se acentuado e que é um discurso de ódio diferente do discurso contra os homens. É sexista e de costumes, para atingir a família. Apontou que esses comentários são enormemente prejudiciais num momento em que há um esforço centrado pela maior participação das mulheres na política e o medo da exposição diante de ataques de misoginia, preconceito e sexismo as afastam da disputa. 

Dez anos atrás, a atriz Emma Watson, conhecida e querida por ter feito o papel da eterna Hermione da saga Harry Potter lançou a campanha HeForShe, um projeto que visa a participação de homens na luta das mulheres por igualdade de gênero. Em um evento para a apresentação da campanha realizado na ONU, ela pronunciou um discurso poderosíssimo, onde falou sobre o feminismo e liberdade. Disse que precisamos ver gênero como um espectro, ao invés de dois conjuntos de ideais opostos., que devemos nos esforçar e parar de nos definir pelo que não somos e nos definir pelo que somos. O projeto HeForShe é baseado no propósito de liberdade e convida os homens a se engajarem na luta para emancipar suas esposas, filhas, irmãs do preconceito existente.

Disse a atriz que os homens estão aprisionados em estereótipos de gênero e quando eles conseguirem se libertar, as coisas irão mudar para as mulheres como consequência natural. Se os homens não precisam ser agressivos a fim de serem aceitos, as mulheres não se sentem compelidas a serem submissas.

Enquanto a discriminação e as desigualdades persistirem, enquanto as meninas e mulheres forem menos valorizadas, sendo mal pagas para executarem o mesmo trabalho que homens, submetidas a violência dentro e fora de suas casas, o potencial humano para criar um mundo pacífico e próspero não será realizado.  O fato é que a discriminação existe. No contexto global, apenas a Islândia teve a coragem de se declarar como um país onde as mulheres conseguiram igualdade de gênero em todas as etapas de suas vidas.

Normalmente, mulheres não tem as mesmas oportunidades que os homens e as mulheres que não se conformam com o sistema, que tentam quebrar os padrões normatizados, são chamadas de descontroladas e feministas. O fato é que uma mulher que aspira um cargo político, a direção de uma empresa, o faz pelas exatas mesmas razões que qualquer homem. Basicamente, porque ela entende e firmemente acredita que é capaz de fazer trabalho.

A rádio Mulher de Bafatá

Um animal imperfeito, sem fé, sem lei, sem medo, sem consistência”. Ditado francês do século XVII sobre as mulheres. Era uma época em que a violência era realizada com total apoio de homens brutalmente poderosos. Por muito tempo, as mulheres não foram ouvidas ou acreditadas quando ousavam falar a verdade diante do poder desses homens.

A violência contra as mulheres assume muitas formas. Pode ser físico, sexual ou emocional. Pode ser público ou privado, online ou offline, perpetrado por um estranho ou por um parceiro íntimo. Independentemente de como, onde ou por que acontece, tem graves consequências a curto e longo prazo para as mulheres e jovens vítimas de violência e assédio sexual, práticas que transcendem qualquer cultura, geografia, raça, religião, política ou local de trabalho.

Na longínqua Guiné-Bissau, um país africano, a violência contra mulheres é muita e as denúncias eram poucas. Para facilitar as denúncias, da união de várias associações de mulheres com uma parlamentar surgiu a Rádio Mulher de Bafatá, uma tentativa de emancipar e dar voz as mulheres da região leste da Guiné-Bissau. Muito difundida na Guiné e no exterior, a rádio só de mulheres está, há algum tempo, movimentando uma região onde elas sofrem discriminação e violência frequentemente, inclusive a mutilação genital. A ONU, reconheceu que a rádio funciona como um instrumento pedagógico de difusão dos direitos humanos.

A seguir, apenas um flash, um recorte mínimo do que lemos na semana que antecede o dia Internacional da Mulher no Brasil: A fala eloquente e misógina do vereador Noé Monteiro de Barros, aqui de Mato Grosso, de que não há mulher bonita na cidade onde ele mora, como se função de vereador fosse legislar sobre padrões de beleza.

Em Mato Grosso, casos de feminicídios ocorreram recentemente em Cáceres, Santo Antônio de Leverger, Peixoto de Azevedo. Mato Grosso terminou o ano de 2023 como o terceiro estado com maior taxa de feminicídio no Brasil, 90% superior à média brasileira e segunda maior taxa de estupros.

No interior de São Paulo ocorreu o caso mais brutal. Uma mulher denunciou o marido por violência, conseguiu medida protetiva e trancou-se em casa, mas horas depois, ele invadiu a casa, a matou e arrancou-lhe coração.

Um casal discute no trânsito, nas ruas de Porto Alegre, RS, o homem brutalmente toma o bebê dos braços da mãe e o atira pela janela do carro em movimento. A mãe abriu a porta e se jogou do carro para socorrer o bebê de apenas 11 meses. A mulher está internada em estado grave, com traumatismo craniano, o bebê sobrevive até o momento.

Falando de mulheres, no mês da mulher, li a matéria extraordinária sobre a professora emérita da Faculdade de Medicina do Bronx, o bairro mais pobre de Nova Iorque, a americana Ruth Gottesman, que doou 1 bilhão de dólares para quitar as mensalidades de todos os alunos matriculados e manter para sempre a gratuidade do curso de medicina, onde ela, doutora em Educação, trabalhou por 50 anos. Foi inevitável fazer uma comparação com os investimentos feitos por homens bilionários.  

Apesar de fazerem doações a instituições de caridade e bolsas de estudos, Elon Musk pagou 44 bilhões de dólares pela vaidade de comandar o Twitter, que hoje tem valor de mercado de 19 bilhões. Jeff Bezos investe 1 bilhão de dólares por ano para colocar sua nave espacial em órbita em voos que duram apenas 10 minutos.  

Não é admissível nenhum poder de um lado apenas

Filósofos importantes e bem difundidos no Brasil como Auguste Comte e Rousseau pensavam de modo parecido sobre mulheres, considerando-as menos capazes de compreender os assuntos complexos da política, os quais só os homens poderiam dominar. Já o filósofo inglês Stuart Mill foi deputado em 1865, escreveu ensaios apoiando a liberação das mulheres e acreditava que se as mulheres fossem social e politicamente emancipadas, elas seriam mais bem educadas e teriam melhor percepção sobre as coisas. Mill criticava o princípio que regulava as relações sociais e políticas entre os sexos e dizia que isso era um grande obstáculo ao progresso humano.

Stuart Mill trocou cartas por quase uma década tentando convencer o francês Auguste Comte de que a pouca inclinação das mulheres, de seu tempo, para as questões públicas era fruto da educação que recebiam, o que poderia e deveria ser mudado, porém o francês não mudou de opinião. Para Comte, as mulheres eram biologicamente inferiores aos homens e a sua única missão era educar os filhos e zelar pelo lar. Mill, irritado, escreveu um livro criticando duramente o pensamento de Comte e encerrou o ciclo de troca de cartas.

Os políticos e a elite intelectual brasileira liam muito John Stuart Mill e o filósofo era muito citado nos debates entre parlamentares. O escritor José de Alencar, era um deles e quando foi deputado, em 1861, reconheceu que as mulheres não poderiam ser impedidas de participar da política, porque elas tinham interesse no que acontecia na sociedade. No discurso favorável à participação da mulher na política, disse: “A civilização um dia concederá esse direito. Então, essa parte da humanidade que, na vida civil, comunga em nossa existência, não há de ser esbulhada de toda a comunidade política; aquelas que são esposas, mães, filhas e irmãs de cidadãos, e têm senão maior, tanto interesse na sociedade como eles, não serão uma excrescência no Estado. Participarão da vida política por seus órgãos legítimos.”

Em 1879, a Câmara dos Deputados voltou a discutir o sistema eleitoral brasileiro e não faltou citação as obras e pensamento do Stuart Mill sobre o voto feminino. Ocasião em que o Deputado Cézar Zama, médico e escritor se pronunciou convencido de que a igualdade em matéria de política fosse concedida às mulheres.  Apressadamente o Deputado Freitas Coutinho, respondeu: Deus nos livre disso!

Deus os livrou por algum tempo, porém em 24 de fevereiro de 1932, há exatos 92 anos foi instituído, através de decreto, o voto feminino no Brasil. Inicialmente limitado às mulheres casadas, com autorização expressa dos maridos. A data celebrada em 24 de fevereiro de 1932, incorporado a Constituição de 1934, foi um grande passo na luta pela igualdade, pelo direito de a mulher expressar-se politicamente.

Mulheres como Bertha Lutz, que fundou a Federação Brasileira para o Progresso Feminino, considerada a primeira organização feminista brasileira; a advogada Almerinda Farias Gama, que foi a única mulher aceita delegada na Assembleia Constituinte de 1934, Celina Guimarães, a primeira mulher a registrar-se como eleitora no Brasil; a professora Leolinda Daltro, que fundou o Partido Republicano Feminino em 1910. Essas mulheres lideraram movimentações importantes no sentido de sensibilizar os políticos a apresentarem projetos de lei em favor da liberação do voto feminino.

O aumento das desigualdades não é uma fatalidade

O aumento das desigualdades não é uma fatalidade. As desigualdades são escolhas ideológicas e políticas públicas podem ser implementadas para combater a desigualdade também. Não existe uma fórmula mágica ou matemática para definir o nível “bom” das desigualdades, mas se os partidos de esquerda retomarem programas de combate das desigualdades e questionarem a acumulação ilimitada da riqueza, o processo poder ser minimizado em níveis toleráveis, é o que diz o economista francês Thomas Piketty, reconhecido mundialmente por suas pesquisas sobre a economia da desigualdade e redistribuição de renda.

O último relatório da Oxfam, Desigualdade S.A, lançado em janeiro último, revela que os cinco homens mais ricos do mundo dobraram suas fortunas desde 2020, ou seja, em apenas 3 anos, passaram de US$ 405 bilhões para US$ 869 bilhões, enquanto quase cinco bilhões de pessoas tiveram suas condições de vida reduzidas no mesmo período. O relatório, que discute a relação das desigualdades e o poder corporativo global, mostra ainda que se a tendência atual continuar, o mundo terá seu primeiro trilionário em dez anos, mas a pobreza não será erradicada nos próximos 229 anos.

Prefaciado pelo senador americano Bernie Sanders, que inicia o texto afirmando que: “Nunca, na história da humanidade, tão poucos tiveram tanto. Nunca, houve tanta desigualdade de renda e patrimônio. Nunca houve concentrações tão grandes de propriedades. Nunca se viu uma classe bilionária com tanto poder político. E nunca se viu tanta ganância, arrogância e irresponsabilidade por parte da classe dominante.” Se cada um dos cinco homens mais ricos do mundo gastasse um milhão de dólares por dia, eles levariam 476 anos para esgotar todo o patrimônio deles.

O economista Piketty se juntou a ONU, FMI e Banco Mundial para apelar pelo estabelecimento de metas contra as desigualdades e na introdução do seu livro Uma breve história da igualdade diz que o momento é oportuno, que existe um movimento voltado para a igualdade e insiste no argumento de que as escolhas dos governos a respeito de seus sistemas educacionais e tributários serão sempre políticas e ideológicas e daí resulta o acirramento da desigualdade, com a distribuição de riqueza e poder para as instituições e suas estruturas.

Piketty vai além e ataca o que ele chama de desvio dos partidos socialistas e democratas, que se distanciaram da classe pobre para se tornaram clubes dos vencedores do sistema educacional, ou seja, diz ironicamente, que a esquerda eleitoral se tornou um tipo de esquerda brâmane, casta do hinduísmo que atrai professores, homens letrados com renda bem acima da média.

Sobre o Brasil, em entrevista ele assinalou que houve um pequeno progresso nos segmentos inferiores da distribuição da renda, beneficiados por programas sociais mas que os pobres ganharam às custas da classe média, não dos mais ricos e acha deprimente constatar que décadas de democracia foram incapazes de produzir mudanças e tirar o país dentre os mais desiguais do mundo.

Não podemos deixar de estabelecer vínculos entre a dura realidade da vida e a natureza destrutiva dos sistemas que recompensam a ganância e o lucro acima de qualquer outro valor humano, enquanto milhões de pessoas vivem na pobreza extrema, sem água potável, serviços de saúde regulares, moradia digna e educação para os filhos.

A correlação enttre a violência contra a mulher e saúde mental

A violência contra a mulher tem várias faces. Cada mulher é diferente e o impacto individual e cumulativo de cada ato de violência depende de muitos fatores complexos. Embora cada mulher sofra violência de forma única, há muitos efeitos comuns de viver com o estigma da violência e viver com medo. Antigamente as mulheres mantinham-se em silêncio sobre a violência, mas agora estão encorajadas a denunciar e procurar ajuda. A justiça de gênero, todavia, não pode ser estabelecida enquanto as estruturas misóginas não forem resolvidas.

Há um ano, os pesquisadores que participaram da Reunião Ordinária do Conselho Nacional de Saúde para debater as consequências da masculinidade sobre a saúde das mulheres, corroboraram a tese de que a violência contra a mulher tem alta correlação com transtornos mentais. Depressão, ansiedade, transtorno do sono, transtorno de estresse pós-traumático, ideação suicida e distúrbios mentais podem estar diretamente relacionados com relações abusivas e violentas contra as mulheres.

Enquanto foi diretora-executiva da ONU Mulheres, Michele Bachelet, médica, ex-presidente do Chile trabalhou focada em pesquisas e literaturas sobre a violência contra as mulheres por acreditar que essa violência é uma das violações mais frequentes dos direitos humanos, e, está enraizada no desequilíbrio de poder entre os gêneros, além de ser uma ameaça para a saúde das mulheres e dos seus filhos e sobretudo, um fator de risco para o desencadeamento de problemas de saúde mental das mulheres.

A violência é como uma pandemia silenciosa e não deixa nenhum país ou comunidade intocados. A violência é vivenciada por mulheres em casa, no local de trabalho, consultórios médicos e em espaços públicos, sem tréguas.

O livro ‘Violência contra as mulheres em todo o mundo’ e ‘Aspectos específicos da violência’, lido e adotado por Bachelet, examina o efeito da violência contra as mulheres na sua saúde em geral, na sua capacidade de trabalho, nas relações familiares e nas diversas formas de traumas e fornece provas substanciais da difusão da violência contra as mulheres em todo o mundo, destacando particularmente a desigualdade de gênero, como causa profunda da violência, que detona diretamente a saúde mental das mulheres.

A Organização Panamericana de Saúde, formalmente já reconhece a violência de gênero contra a mulher como um fator de adoecimento mental e desde então, várias perspectivas de estudos foram abertas, relacionando diretamente a violência praticada por parte do parceiro íntimo, do ex-parceiro, abuso sexual por parceiros do trabalho, situações de coerção, como causas de resultados fatais, como homicídios e suicídios. Fora essas tragédias, normalmente, a violência leva à vários transtornos de ansiedade, já citados e outros, como exaustão emocional, auto culpa, perda de humor e isolamento.

O livro, as pesquisas, são apelos a uma maior sensibilização na promoção de mudanças no sistema de tratamento de violência nas políticas de saúde mental.

Todavia, apesar das evidências, a maioria das políticas e programas de saúde mental não inclui voluntariamente a questão da violência como causa primeira para investigação, ainda.

Enquanto isso precisamos confrontar a masculinidade tóxica de quem é o vetor da violência contra as mulheres, porque são eles que espancam e matam.

Como não ser um político

Lançado em 2023, o livro ‘How not to be a politician’ escrito por Rory Stewart, historiador e filósofo foi considerado pela grande mídia internacional e por proeminentes políticos, o melhor  e mais cativante livro da memória recente da política, com revelações fascinantes e outras horríveis.

A Rory Stewart sobra bons adjetivos, qualificação e experiência na política britânica e internacional. Ex-professor da prestigiosa Universidade de Oxford, com a vida dedicada ao serviço público, como diplomata que acumulou conhecimento sobre várias culturas políticas na Indonésia, Turquia, Afeganistão, viajou a pé pelo Afeganistão e Paquistão, serviu no Iraque, caiu nas graças dos políticos americanos e de Harvard, onde deu aulas sobre direitos humanos. Em 2010 largou tudo e iniciou uma carreira na política parlamentar, esteve vários anos no Parlamento britânico, foi seis vezes ministro de várias pastas e concorreu a Primeiro-Ministro, quando Theresa May renunciou, contra Boris Johnson, que foi o escolhido, mais pelos discursos inflamados do que pelos cabelos, sempre desalinhados. 

O ex-diplomata Rory Stewart entrou na política inglesa com a esperança de promover mudanças profundas e necessárias. Relata que testemunhou confusão, corrupção e fracassos nos programas de ajuda internacional do seu país e que achou muito complicado o processo de se tornar candidato, buscar o apoio de partido em vários níveis e montar uma campanha, dentro de padrões amarrados e não independentes. Venceu tranquilamente para o parlamento e aí sim, diz ter entrado de fato, num sistema definido por uma claustrofobia deprimente e sem cultura, onde poucas conversas eram sobre política e o tempo junto com outros parlamentares era absorvido em fofocas sobre a promoção de um colega ou o escândalo que envolvia outro.

Com discurso culto, citando Shakespeare e às vezes, frases em latim, o ex- diplomata acreditava que os discursos deveriam ser valorizados porque era um tempo reservado para explorar todos os lados de uma discussão, o que era vital para ampliar os valores da razão, tolerância e igualdade, que, em tese, deveriam sustentar a democracia, em vez disso, diz ter percebido que relatar suas experiências, argumentar com voz e preceitos moderados, afastar-se das alas radicais não levam efetivamente à vitória, porque a maioria dos políticos vivem numa redoma de vidro, ignoram gráficos que expõem a realidade e com muito esforço, compreendem apenas o elementar sobre mercados, pobreza, renda, educação e saúde. Relata que na política sentiu-se impotente diante do ambiente de desconfiança, inveja e ressentimento.

Mesmo frustrado, decidiu continuar no parlamento. Mais tarde, foi promovido a cargos ministeriais, onde diz ter convivido com colegas vaidosos e alguns cínicos, sem precisão alguma para tomar decisões. Foi crescendo em Rory a ideia de que quanto mais permanecia na política, mais estúpido e menos honrado se tornava. A leitura revela que a hipocrisia e a ignorância que permeiam o universo da política é uma advertência séria que pode frustrar os esforços de quem escolhe a política como vocação ou dos eleitores, que esperam muito dos políticos que elegem.

Nos afogamos em dados mas temos temos sede de significado

2023 foi ano que trouxe o fim da pandemia. Oficialmente declarada em 5 maio, pela Organização Mundial da Saúde.

Ao pesquisar artigos e ensaios sobre as perspectivas para o ano que se inicia, superado o fardo do medo da morte, identifiquei que certo desconforto está crescendo em todos os setores da sociedade. É um descontentamento ainda lento, que tem permeado as forças sociais, econômicas e tecnológicas, que cresce nas sombras do nosso mundo hiper conectado, onde as brilhantes promessas da globalização da tecnologia não conseguiram materializar-se para a maior parte das pessoas. 

O que parece um estardalhaço, à primeira leitura, são as afirmações de que os próximos 10 anos testemunharemos mudanças dramáticas e radicais. Estas são as linhas iniciais de um capítulo da história humana, que dizem estar começando em 2024. Uma década de descontentamento está chegando. 

Uma das causas apontadas é o investimento sem precedentes nos sistemas de inteligência artificial, que podem executar tarefas que antes estavam no domínio dos trabalhadores humanos, com isso, cresce o temor que esta mudança irá retirar empregos em quase todas as áreas de trabalho. E a nova narrativa de descontentamento, não é apenas com políticas ou líderes específicos, mas com os sistemas e estruturas que moldaram o mundo atual, escorado em conexões virtuais e informações sem precedentes, em fluxo e velocidade.

Entendo que transformações, são cruciais num mundo que atingiu em primeiro de janeiro o número espantoso de 8.019.876.189 de pessoas. Atualmente a taxa de crescimento está em declínio e deverá cair ainda mais nos próximos anos, mas a população mundial continuará crescendo, porém num ritmo mais lento.

Como crer que seja possível estabelecer ligações sociais genuínas ou melhorar as interações no mundo real para esse contingente gigantesco de pessoas, quando efetivamente estamos presenciando o desenvolvimento de plataformas sociais baseadas em inteligência artificial para simular a interação humana, proporcionando uma aparência de conexão placebo, sem a profundidade e riqueza das relações humanas genuínas?

Um mundo com 8 bilhões de pessoas oferece infinitas possibilidades. Sim, positivas e negativas em maior escala se nova abordagem não for tentada, no sentido de compreender essa aldeia global, onde se fala mais de 6 mil línguas, mais da metade falam dialetos chineses, inglês, indiano, espanhol, árabe, bengale e português. As crenças se dividem sobretudo entre cristãos, mulçumanos, hindus, budistas e judeus.

No planeta falta água potável, sistemas sanitários adequados, nem todas as famílias têm eletricidade em casa, nem todas as crianças frequentam escolas, nem todas que frequentam aprendem a ler, num sistema educacional ainda machista, onde mais meninos são ensinados a ler do que meninas.

Temos, então, mais de 8 bilhões de razões para prestar mais atenção no planeta, para ter mais cuidado um com o outro, atentarmos sobre os efeitos devastadores causados pelos desmatamentos e, mais importante, cuidar mais da saúde e do bem-estar sobretudo das mulheres e crianças.

Muitos tem razão para estar aflitos e com certo medo. Para quem cultiva a vaidade, não é fácil reconhecer-se em apenas um pontinho entre 8.019.876.189 pessoas. Para outros, é uma inspiração viver numa sociedade de diferentes, onde cada pessoa é um conjunto de substantivos e adjetivos, sem que nenhum destes a defina completamente.

Grandezas e misérias da política

Manuel Azaña Díaz foi um dos políticos e oradores mais importantes na política espanhola do Século XX, doutor em Direito, um jornalista excepcional e escritor premiado. Foi deputado, ministro e presidente da Segunda República Espanhola, em 1936. Um crítico enérgico contra a ditadura, foi vigiado e caluniado por agentes do general Franco. Numa conferência histórica na cidade de Bilbao, proferiu um discurso intitulado ‘Grandezas e Misérias da Política’.

Encontrei informações sobre a preciosidade desse discurso, ao fazer uma busca de leituras interessantes para melhorar a argumentação em temas de política. O discurso, contextualizado em época e condição política, é uma corajosa declaração de apoio à mudança, quase um texto legislativo, argumentando hipóteses sobre como tornar a vida pública menos exposta às incertezas do sistema.

Com a profundidade, que lhe era peculiar, sobretudo por ter tido uma vida intelectual intensa, Azaña cobrou em discurso, a coerência entre o ideal político e os projetos de poder. Um político não deve ser apenas um líder ou um estadista, passando constantemente por processos de votação. São os políticos, verdadeiramente, pessoas que vivem sujeitos a ir da glória da superioridade à inferioridade do defeito. Grandezas e misérias marcam trajetória dos políticos e dos jogos políticos e ele, que prima pelas qualidades morais além do personagem do político, não crê que haja responsabilidade pública sem vocação ou inteligência.

Azaña foi publicamente contra os líderes privilegiados, amparados pela força dos grupos políticos, que estendiam proteção a elite política espanhola, defendeu a democracia, como incentivo à participação da população daquela época, nas decisões políticas. Um sistema político democrático, não pode ser sustentado em benefício de um grupo em detrimento de outro e deve ser estabelecido numa base coerente entre a política e a sociedade. Disse: “Sou um democrata e não sou apenas um republicano, sou um democrata porque acredito que é a única forma de tirar os políticos da posição privilegiada na qual estão deitados há séculos.”

Disse isso, com a propriedade de quem estabeleceu um espaço para ampliar as bases de um projeto republicano, já que criticava as formações de poder incapazes de reconhecer o talento do país e de seus filhos, para ficar, de forma menor, fazendo a vergonhosa política convertida em distribuição de cargos.

Promoveu grandes comícios por acreditar que a mobilização política era a base para a transformação da própria política, um eixo de mudança e modernização. Disse que a sua candidatura nunca foi capricho pessoal, nem honra a um grupo, nem uma transação de princípios abandonados, ele estava determinado a contribuir com a renovação da raiz até a folha da política. E a colaboração não era para o presente, mas para o futuro, para que fosse calmo, fecundo e glorioso para quem governa e para o povo.

Vote no garantidor de um futuro melhor

Dizem alguns estudiosos que a ciência política brasileira não tem dado a devida atenção às estratégias de comunicação das candidaturas, especialmente no que se refere à função de conduzir e mediar o diálogo político entre os candidatos e os eleitores. Não há diálogo. A disputa eleitoral tem sido, na verdade, disputa entre estratégias de convencimento, em um debate que se dá entre interpretações sobre o mundo atual, se ele está bom ou ruim, comparações sobre os mundos futuros que as campanhas prometem e sobre quem pode garantir a realização de um mundo futuro melhor. Enfim, as campanhas têm o objetivo de persuadi o eleitor a votar em determinado candidato e rejeitar seus adversários.

Os processos eleitorais têm sido entendidos como um processo de comunicação política de duas vias, onde candidatos e eleitores estabelecem um pacto fundamentado numa troca de intenções: os eleitores querem que seus desejos, interesses e demandas sejam atendidas e os políticos querem ser eleitos. Nos processos eleitorais, a ideia de convencer a maioria é complexa, pois os candidatos transitam, o tempo todo, entre mundos possíveis, atuais e futuros.

A estrutura dessa argumentação que arranjei se baseia em duas vertentes: se o candidato for oposição ao atual prefeito “o mundo atual está ruim, mas ficará bom se de votarem em mim”, ou se o candidato for continuação ou apoiado pelo atual prefeito: “o mundo atual está bom e ficará ainda melhor”. Sempre reforço que é fundamental e boa estratégia de campanha sustentar a credibilidade do candidato como garantidor de um futuro melhor. O livro de Thomas Holbrook, Do Campaigns Matter? é um trabalho exemplar elaborado para avaliar a importância das campanhas nas eleições americanas. Eu responderia que as campanhas são importantes, em toda parte e em todos os níveis de eleições.

Nos comentários de matérias políticas podemos perceber que as campanhas são importantes para o eleitor, que tem aprendido que é uma boa estratégia o candidato reduzir ao máximo a quantidade de temas em debate, de forma que os temas sejam aqueles que ele tem maior domínio; o eleitorado aprendeu a rejeitar o discurso destrutivo e a prática de alguns governantes de interromper as obras dos outros para fazer as suas. O eleitor aprendeu que isto é um desperdício, de tempo elaborando novos projetos e de recursos públicos.  

Os eleitores aprenderam que as mensagens negativas ou falsas de ataques a outros candidatos não são eficazes como foram anos atrás, onde algumas pessoas influentes na condução de campanhas eleitorais se caracterizavam pelos ataques pessoais negativos ao candidato da oposição. As ‘fakes news’ estão ainda absurdamente imbricadas no processo eleitoral, apesar de estarem sendo firmemente combatidas pela justiça e percebidas pelo leitor de bom senso.

As campanhas são tão importantes, que nos salvam da ignorância sobre o que está sendo feito na nossa própria cidade, sobre a economia local, os problemas. Estabelece ligações entre as informações sobre os candidatos e as questões sociais, as atitudes e crenças dos eleitores, que precisam ser encorajados a participarem do processo eleitoral, para calibrar um pouco mais as forças representativas nos cargos de poder. O perfil médio dos deputados federais em exercício do mandato são homens, brancos, com patrimônio de 1 milhão de reais ou mais.

Quer mudança? Aceite, ouça, opine, se envolva para não ter que votar com zero entusiasmo, no menos ruim.

A força da máquina pública é gigante

Uma pesquisa, divulgada recentemente, feita no estado de São Paulo, pela APPC Consultoria e Pesquisa, revela que quase 50% dos eleitores paulistas estão muito interessados nas eleições de 2024, algo que evidentemente gostei de tomar conhecimento. A decisão de efetivamente participar das eleições ou simplesmente votar é um fenômeno complexo, que envolve causas múltiplas e não vou aqui creditar apenas as questões ideológicas porque ainda não nos libertamos das influências de familiares, religiosos, amigos e patrões para votarmos inteiramente sob nossa própria inspiração.

Algumas dificuldades serão enfrentadas pelos partidos, que se agruparam em federações no ano de 2022. (uma variante mais elaborada das antigas coligações). Para a próxima eleição, esses partidos terão que lançar candidaturas conjuntas, para prefeito e vereadores, ou seja, a federação tem que ser mantida por pelo menos quatro anos, em que pese a cultura da baixa duração dos casamentos políticos.

A baixa representatividade feminina na política brasileira ainda é um fato constrangedor. Verificando as estatísticas publicadas pelo Tribunal Superior Eleitoral, sobre os números das últimas eleições municipais de 2020, é difícil explicar como pôde, um contingente feminino de 52% do eleitorado ter elegido 4.750 (87.9%) prefeitos e apenas 651 prefeitas (12%); 48.265 vereadores (84%) e apenas 9.196 (16%) vereadoras.

Esperamos que haja mudança significativa no número de mulheres eleitas em Mato Grosso no próximo ano, porque no ano de 2020 apenas 15 municípios elegeram prefeitas e na Capital, dos 25 vereadores eleitos, há apenas duas mulheres. Ouros 54 prefeitos de MT já foram reeleitos e estão fora da disputa, mas nas próximas eleições, com o poder da máquina pública ainda nas mãos terão chances de interferirem no processo e fazerem seus sucessores, controlando a agenda e a mídia a favor dos candidatos do grupo, o que quebra a paridade, torna o pleito desigual, mas é fato corriqueiro nas eleições brasileiras. 

Há tempos eu li o caso de um prefeito de Itabaiana, cujo filho candidatou-se a deputado estadual no estado de Sergipe. A propaganda eleitoral do candidato a deputado adotou a cor azul em todas as peças publicitárias e ficou conhecida como “a onda azul”. E o que fez o pai prefeito para empurrar a campanha do filho? Pintou todos os prédios públicos, praças e meio-fio da cidade de azul, balões azuis subiam aos céus nas inaugurações públicas e a cor foi adotada também no site e nas mídias sociais do município. O Ministério público, atento, identificou que o então prefeito utilizou a cor para deliberadamente tornar desigual a disputa e promover a campanha do filho e denunciou ambos.

Não adiantou a defesa alegar que o azul era cor do uniforme do time da cidade, do brasão… Azul é uma cor linda, lamentável que a corrente azul que atravessou a cidade tenha sido bancada com recursos públicos. Aplausos para o Tribunal Superior Eleitoral, que cassou o deputado eleito com o protagonismo descarado do pai, houve retotalização dos votos para a Assembleia Legislativa de Sergipe, que teve sua configuração alterada. O prefeito concluiu o mandato e ainda elegeu o sucessor.