Eles tem ódio, nós temos sonhos

Desde 13 de setembro do ano passado, dia da criação do grupo, faço parte dos 250 comunicadores da região centro-oeste engajados na campanha de Lula. No país, o grupo chegou a 7.800 pessoas, indicadas pelos 10 partidos que formaram a coligação para apoiar a chapa Lula-Alckmin. Lembro-me da primeira mensagem do presidente, em reunião virtual de boas-vindas ao grupo: “nós temos uma vantagem em relação aos robôs do adversário. Somos seres humanos e não queremos perder nossos sentimentos. Vamos colocar nas nossas mensagens aquilo que mais toca o ser humano, vamos colocar nosso coração para falar de amor, de esperança, de futuro. Transmitam muita solidariedade e fraternidade nas mensagens de vocês”.

Edinho, coordenador da campanha, organizou a rede de comunicadores, sobretudo para combater os robôs e fake news. Na primeira reunião virtual, a mensagem de orientação foi significativa: “Nós não vamos competir com a mesma estratégia do gabinete de ódio. Vamos nos organizar, mostrar força, se eles têm robôs, nós temos sonhos”. Com o manual de comunicadores nas mãos, íamos fortalecendo a comunicação de Lula e repostando as mensagens, os vídeos, sendo cada dia mais convencidos que o Brasil dos nossos sonhos precisa ser construído com muitas mãos.

Diariamente e algumas vezes por dia, éramos alimentados com as notícias da campanha, como estava o vira-voto nas redes e nas ruas, como estava repercutindo o desempenho do presidente nas grandes reuniões e nos debates. A reta final, os programas eleitorais, os aliados pelo Brasil afora, o entusiasmo internacional com a possível vitória, o orgulho de Lula pelo povo brasileiro, o respeito pelo Brasil. Nas ruas e nas redes até hoje sob o mantra é que devemos unir os divergentes para enfrentar os antagônicos.

Ao tempo em que nos alimentava a esperança, convivíamos com um presidente que foi um mau militar, preso por indisciplina e processado pelo exército por planejar explodir bombas em quartéis. Depois de 26 anos no Parlamento, com apenas dois projetos de leis aprovados, o deputado omisso, defendeu a tortura e os torturadores, agressivo com as mulheres, chamou uma deputada de ‘vagabunda’, virou presidente e continuou pregando o ódio e espalhando notícias falsas nos quatro anos de mandato. 

Hoje, a posse, diante de uma gigantesca mobilização das polícias do Distrito Federal e da Polícia Federal para garantir a segurança não só do presidente, mas também das delegações estrangeiras com 12 chefes de estado com presenças confirmadas e a população diversa, alegre que está sendo esperada na esplanada. Como disse o Ministro da Justiça Flávio Dino: “Pequenos grupos terroristas e extremistas não vão colocar as instituições da democracia brasileira contra a parede”.

No dia seguinte à posse os desafios: O novo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva começará com o difícil desafio de reverter o isolamento e o desprestígio internacional e regional que marcaram a política brasileira nos últimos quatro anos. O desprezo do governo do ex-presidente Jair Bolsonaro pela governança global produziu uma imagem vergonhosa para um membro do Conselho de Segurança da ONU. Lula precisa limpar a poeira das cadeiras abandonadas pelo governo Bolsonaro nas Américas, a começar pela União das Nações Sul-Americanas (Unasul) e no mundo.

Em suma, o Brasil deve retomar as posições e princípios de convivência internacional, como o compromisso com a paz, os direitos humanos e o desenvolvimento, que nortearam ações dos governos brasileiros por muitas décadas, eliminando os vestígios das posições de Bolsonaro que fizeram do Brasil uma caixa de ressonância para as visões políticas da extrema direita.

Não esperava que o Supremo ficasse quieto

Não está em curso uma colisão contra a democracia brasileira. O que temos é um presidente que não acredita na democracia e um presidente eleito que acredita, são brasileiros de diferentes lados do espectro político que exibem antipatias e hostilidades recíprocas em níveis alarmantes. Não parece estar claro que uma identidade política anti-Bolsonaro não depende de vinculação prévia do cidadão ao Partido dos Trabalhadores. A distância ideológica de Bolsonaro é um dos pontos cruciais para muitos brasileiros terem se afastado dele e temerem que o Brasil continuasse nas mãos do grupo que governa o país até 31 de dezembro próximo. O coordenador do grupo de transição, vice-presidente Geraldo Alckmin, ao encerrar as atividades, atônito falou da bagunça generalizada que encontrou, apagão de dados, sistemas que deixaram de ser alimentados desde 2020.

Restaurar o consenso, o respeito pelas diferenças políticas, a esperança do maior número possível de brasileiros no novo governo é um propósito que deve ser severamente perseguido a partir de janeiro, essa é a aposta para conter o ímpeto dos políticos divisionistas, que estarão na oposição. Estamos vivendo um tempo de enfraquecimento dos laços partidários, do envelhecimento das práticas dos líderes políticos com mandatos, baixo nível de confiança na política como forma efetiva e única de diminuir as desigualdades sociais, não estamos sós, como país, vivendo o drama vergonhoso de ter parcela da população (que seja insignificante, numericamente) pedindo retorno da ditadura militar. Chega, né?

Enquanto o presidente derrotado destilava ataques à justiça, à mídia e ao sistema eleitoral, o Ministro Alexandre de Moraes reformulava seu trabalho em torno da proteção da democracia brasileira, autorizado pelos novos e amplos poderes que lhe foram concedidos desde 2019. A cada pequena erosão das normas democráticas, surge a figura do Ministro Alexandre de Moraes, para restaurar às fissuras, chamando à responsabilidade os que covardemente incitam e se escondem atrás dos indígenas (por serem inimputáveis), dos caminhoneiros, por serem seus empregados, das donas de casa, por serem suas esposas. Ou você já presenciou um grande empresário ou parlamentar dormindo em barraca na frente de algum quartel, aqui ou em Brasília?

O dinheiro de poucos tem sustentado a arruaça de ‘bois de piranha’ que viajaram para Brasília para fortalecer a ebulição da radicalização, queimando carros aleatoriamente pelas ruas, dificultando as perspectivas de consenso democrático. Essa semana foram expedidos 100 mandados de busca e apreensão contra alguns acusados de incitar e financiar atos antidemocráticos. A esses, a sugestão seria a leitura de obras que relatam as atrocidades cometidas pelos militares na época sombria do fechamento do congresso, da existência dos centros de tortura, do DOI-Codi. Então, chega de proselitismo, de pregação de falsas crenças. O TSE pós eleição tem tarefas a cumprir, o Ministro Alexandre de Moraes não pode nem deve ser o guardião solitário da nossa democracia.

Porém, por ora, tem servido a punição rigorosa daqueles que tentam tumultuar o processo eleitoral democrático, nenhum passo atrás rumo às trevas, nenhuma leniência com, seja lá quem for, que estiver atravancando nosso caminho para inaugurar um novo tempo no nosso país.  

Na política e no futebol, raramente perde quem deu o seu melhor

Temos que nos sentar com algum desconforto se quisermos ter uma coexistência pacífica e civilizada uns com os outros. Ser continuamente consumido em ver o outro como errado e fracassado nos impede de experimentar uma gama mais ampla de relacionamentos, de fazer novas descobertas e talvez também de nos maravilhar com a diversidade da vida e aprender com as derrotas.

Desarmar o espírito não é fácil, mas que arrogância desmedida é essa que nos faz crer que nascemos fadados à vitória, sempre? Milhares de pessoas não conseguiram absorver e superar a derrota na política e agora, no futebol. Há pessoas que não sabem o que é uma derrota, porque se recusam a reconhecê-la e vivem em estado de negação. Na verdade, aquele que nunca foi derrotado talvez nunca tenha, de fato, lutado.

Há uma tradicional frase que diz que política, futebol e religião não se misturam. Na prática, não é assim. Política e futebol se misturam há muito tempo e isso voltou latente durante a ditadura militar brasileira, quando o presidente Castelo Branco determinou intervenção dos militares na Confederação de Futebol. Em 1970, o Presidente Médici, que era apaixonado por futebol, tentou interferir na escalação da seleção brasileira, porque não gostou da convocação de Dadá Maravilha, o que levou o técnico João Saldanha a rebater corajosamente: “ele escala o ministério dele, que a seleção escalo eu”. João Saldanha mais tarde foi demitido, dizem, como ato de retaliação de Médici

Um sopro de esperança contra a ditadura militar nasceu dentro do grandioso clube do Corinthians. Atento ao cenário da época, quando a Ditadura Militar começava a perder força, o sociólogo Adilson Monteiro Alves decidiu que um movimento a favor do voto popular e da democracia deveria começar dentro do Parque São Jorge. E ao lado dos craques, Sócrates, Casagrande e Wladimir, iniciaram o movimento chamado Democracia Corinthiana. O nome foi criado pela lenda da publicidade brasileira, Washington Olivetto, que estampou frases de efeito nas camisas do time, com mensagens pedindo o restabelecimento das eleições e a volta da democracia no país. A democracia Corinthiana apoiou e vestiu a camisa da campanha das ‘Diretas Já’, idealizada por Dante de Oliveira. 

Também em plena ditadura, o ex-presidente do Flamengo Márcio Braga, ao candidatar-se anunciou na imprensa que a democracia brasileira começaria com eleições livres, sem interferência da diretoria do Flamengo. Novamente o presidente Médici tenta interferir, mas Márcio Braga venceu o candidato apoiado pelo presidente.

Pelo mundo afora, políticos populistas como o italiano Silvio Berlusconi, acreditaram na conexão entre política e futebol, como uma forma de legitimar a entrada dele na política e adotou como estratégia de campanha o lema de fazer com que os italianos falassem de política tanto quanto eles falavam sobre futebol.

Recentemente, no conflituoso momento pós-eleições, quando os manifestantes conservadores trancaram a Rodovia Presidente Dutra, no Rio de Janeiro, pedindo intervenção militar no país, foi a destemida torcida organizada do Corinthians que desobstruiu a estrada. Em São Paulo, a torcida liberou a marginal Tietê e levantou faixas com frases em favor da democracia brasileira.

Na prática da política e do futebol se leva em conta a preparação. Anos talhando, o político, o discurso e o jogador, o preparo físico e ambos, trabalhando suas habilidades. A política é coletiva, o futebol também. O time tem que estar coeso e em ambos os casos, há adversários, igualmente constituídos, treinados, almejando a mesma posição. Alguém vai perder e muito raramente perde quem deu o seu melhor!

Coisas que devemos deixar para trás

Final do ano sempre foi um período de reflexão sobre o que vivemos, onde avançamos, nos decepcionamos, o que aprendemos e sobretudo sobre o peso que não devemos carregar para o ano seguinte. Vivo um momento de emoções coletivas, portanto, minhas alegrias e preocupações são as mesmas de milhares de brasileiros; quero um Brasil melhor, exalando humanidade nas ações do governo, preocupado com a fome, com a intolerância, com a violência política.

Assim como milhares de brasileiros tenho me preocupado com o estado da democracia do Brasil e o risco de um retorno aos dias sombrios do regime militar, que já vivenciamos. Embora com solavancos, sem dúvida, até agora a democracia brasileira tem resistido bravamente e resiliente, apesar do clima político tensionado, que se inaugurou desde a eleição do presidente Jair Bolsonaro, que tem procurado abertamente causar danos à democracia, contudo, até agora não conseguiu infligir danos irreparáveis, até porque o Supremo Tribunal Federal, vigilante, tem tentado suprir as falhas mais flagrantes do próprio governo.

O presidente atacou veementemente às instituições democráticas, com ataques contínuos dirigidos ao judiciário e até pedidos para fechar o congresso. A relação de Bolsonaro com o STF é conturbada desde o início do governo. Certa vez, durante uma reunião de gabinete o presidente declarou que queria enviar tropas para fechar o STF, disse que não estava blefando e estava pronto para tomar medidas radicais se os ministros dificultassem sua vida, mas foi convencido a se conter do arroubo ditatorial por assessores próximos. Abandonemos esse tempo de desrespeito às instituições!

A imprensa tem sido outro alvo de críticas nos quatro anos do governo e acusada de fazer campanha contra o Brasil. Diante do ataque presidencial, os donos dos principais veículos da grande mídia e as três associações nacionais do setor, lançaram um manifesto reafirmando o compromisso com o Estado de Direito e as decisões soberanas das eleições, coordenadas por “uma Justiça Eleitoral cuja atuação tem sido reconhecida internacionalmente”. Até agora, Bolsonaro não conseguiu intimidar a mídia e o debate público no Brasil. Abandonemos a prática perversa de desacreditar a imprensa e constranger seus profissionais.

A saúde pública foi negligenciada antes, durante e depois da pandemia. No início do seu governo, o presidente encerrou o programa “Mais Médicos”, que supria a necessidade de atendimentos médicos nos municípios do interior do Brasil. Na Pandemia, ignorou estudos científicos, regrou orçamento e debochou de pessoas morrendo. Diminuiu gradativamente os investimentos no custeio do Sistema Único de Saúde (SUS), como resultado, hospitais, Unidades Básicas de Saúde (UBS) e Unidades de Pronto Atendimento (UPA) estão sucateados e com carência de profissionais qualificados e exames. Abandonemos o tempo obscuro de negligência com a saúde pública.

Com mais armas e munições do que nunca à disposição dos brasileiros, disseminação de notícias falsas e palavras de ordem que incitam o ódio, as memórias dos tempos duros do regime militar opressivo estão começando a desaparecer, fazendo surgir uma certa nostalgia da ditadura, levando pessoas para frente dos quartéis pedindo golpe militar.  O pior é que o retorno à ditadura é uma possibilidade real na mente de muitos brasileiros esclarecidos e da maioria, de alienados.  Vamos enterrar de vez os resquícios da ditadura militar e calar a voz dos ensandecidos que disseminam ódio e fazem apologia ao crime.  

É preciso calar a voz e muita reza para ‘desdemonizar’ o coração de pessoas como o militar, lotado no palácio do planalto que gravou um áudio incitando colegas a dar um tiro na cabeça de quem faz o “L”.

Aliás, essa ideia de matar opositor é alimentada pelo atual presidente desde os anos 1990, quando numa entrevista vociferou: “Através do voto você não vai mudar nada nesse país, nada, absolutamente nada! Só vai mudar, infelizmente, no dia em que partir para uma guerra civil aqui dentro, e fazendo o trabalho que o regime militar não fez. Matando uns 30 mil, começando pelo FHC (Fernando Henrique Cardoso, que era o presidente), não deixar ele pra fora não, matar. Se vai morrer alguns inocentes, tudo bem, tudo quanto é guerra morre inocente.”

Vamos deixar para trás o governante que promoveu tudo isso que citei acima.  

Não seja um mau perdedor

Há uma realidade que não pode ser ignorada. Nenhuma manifestação violenta, vigílias bizarras de pessoas com celular na cabeça e lanterna ligada para enviar sinais para extraterrestres, marchas nas frentes dos quartéis, pneus ardendo em chamas para bloquear estradas, teria acontecido se o presidente Bolsonaro não fosse um mau perdedor. O fato de haver sumido, ter deixado passar tão longo tempo sem uma palavra sequer aos seus eleitores, sem declarar aceitar o resultado soberano das urnas, mostra o quão pouco ele se importa com a governabilidade do país, com o movimento conservador, patriotismo, com a política e com seus eleitores.

  As manifestações violentas e antidemocráticas não teriam acontecido se o presidente Bolsonaro tivesse vislumbrado o tamanho da força que teria para comandar a oposição no país. Mas conscientemente escolheu o silêncio perigoso como senha para demonstrar sua crença nessas teorias da conspiração. Ele é, por isso, moralmente responsável pelos dias de caos e violência que vivemos. Deixando claro para os que se fizeram de desentendidos, que violência não é apenas um ato que deixa mortos e feridos.

Bolsonaro perdeu uma eleição que vários institutos de pesquisa anunciaram que ele perderia, não foi uma surpresa, não deu zebra. Perdeu para um ex-presidente da República que deixou o governo, após dois mandatos com índice de aprovação altíssima, superior a 80%, sem contar que o cidadão Bolsonaro, extremista, indisciplinado e rude foi um adversário potente contra o Presidente Bolsonaro, que tentou a reeleição. Perdeu e espelhou-se em Donald Trump! Ele e seus seguidores desafiaram os resultados de maneira semelhante a Trump e seus partidários republicanos após a eleição presidencial de 2020 nos EUA. Igualmente argumentaram, sem provas reais, que a eleição havia sido fraudada por todos os tipos de métodos, desde a fraude cibernética, até a falha no número de patrimônio das urnas. 

O jornal americano The New York Times, logo após as eleições brasileiras, publicou um artigo dizendo que o que acontece em Washington nem sempre fica em Washington, que Trump deixou como legado, um manual sobre como envenenar a política com desinformação, mentiras e tentar desacreditar os resultados eleitorais e as transições pacíficas de poder e o manual está sendo exportado e implantado além dos Estados Unidos e se tornando uma ameaça transnacional à democracia.

Disse ainda que os métodos de Trump foram rigorosamente adotados no Brasil por Jair Bolsonaro, que divulgou notícias falsas, desinformação durante sua presidência, semeou desconfiança no sistema eleitoral nos últimos anos e, por último tentou desacreditar o processo eleitoral depois de perder a eleição para Lula no mês passado. Os métodos de Trump foram repetidos na Colômbia nas eleições de maio, quando o candidato da direita radical inspirado no ex-presidente americano perdeu à eleição e contestou a contagem de votos. Como aconteceu nos EUA, a sustentação frágil da denúncia deu em nada. O presidente eleito, Gustavo Petro tomou posse em 7 de agosto.

Até o momento Bolsonaro não reconheceu a derrota, não cumprimentou o vencedor, não seguiu nenhum rito, rasgou o protocolo. Insiste e aposta na tese mal ajambrada que a eleição foi roubada em vários estados, no segundo turno e apenas nas urnas que ele teve menor votação. Ao cair na toca do coelho das teorias da conspiração de Trump, Bolsonaro sabotou o próprio final do mandato, delegou responsabilidades inerentes ao seu cargo de presidente nas semanas que não foi trabalhar. Agarrou-se ao seu partido, PL, para assumir a peça jurídica da anulação de parte dos votos do segundo turno, como resposta, o partido levou uma multa salgadíssima do Tribunal Superior Eleitoral por haver acionado a justiça de forma irresponsável (litigância de má-fé).

Parafraseando o ministro Barroso, diria que eu humanamente perdi a paciência!

Quando os iguais se juntam em uma realidade distópica

A ocasião e o contexto que a pessoa existe são assimilados à sua essência, aos valores que a pessoa preza e prega. E nos espaços onde os laços humanos foram substituídos por redes de relacionamento e os grupos se identificam por ações que os distinguem dos que estão fora de suas redes, são os iguais se juntando, ignorando que viver em sociedade é não ter controle sobre tudo e que as regras que orientam minhas ações são exatamente as mesmas que orientam as ações dos outros sobre mim.

Há muitas coisas acontecendo que são perturbadoras e expressam um movimento perigoso em que parte da sociedade está se envolvendo em situações delirantes e se tornando cada vez mais radical. Os iguais não querem se misturar, construíram uma realidade distópica, onde tudo está organizado de forma opressiva e invocam Deus para justificar os discursos de ódio, a exclusão e a vingança, mas quem leu a Bíblia conhece o principal mandamento de Deus, no livro de João 15:17 “este é o meu mandamento: amem-se uns aos outros,” ou em 1 João 4:20: “Se alguém afirmar: ‘Eu amo a Deus’, mas odiar seu irmão, é mentiroso, pois quem não ama seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê”.

Narro aqui pouquíssimos acontecimentos pesquisados na última semana para externar uma questão intrigante: a quantidade de pessoas que estão se expondo em solidariedade a um movimento onde falta humanidade, ética profissional e respeito às divergências.

Na cidade de Sinop, o diretor de uma escola particular demitiu um professor que criticou em suas redes sociais, o bloqueio das estradas no estado; uma empresária de Alta Floresta, em áudio escancara o preconceito, a xenofobia e crueldade ao dizer que já verificou como foi a votação dos funcionários e vai demitir um a um dos que votaram no candidato adversário ao dela, proferindo um discurso carregado de ódio, inclusive contra Deus, a quem ela acusa de tê-la abandonado depois de tantas orações fervorosas, de joelhos e promete que não mais o louvará. Ainda, no inconcebível áudio, a empresária ameaça separar-se do marido se este, ainda que por trabalho, pisar em terra nordestina. Ah, o Nordeste não perde muito!

O que dizer do áudio do médico sul-matogrossense, que causou pânico em mais de 10 mil eleitores, onde ele, carregado de ódio e desprezo disse: “quem votou no Lula e chegar morrendo no hospital, vai morrer. Porque eu não vou ajudar”. O doutor é diretor clínico do Hospital Regional de Nova Andradina e literalmente cuspiu no juramento de Hipócrates. “A saúde do meu doente será a minha primeira preocupação”.

Em Cuiabá, vários empresários estão sendo expostos numa “lista negra” intitulada ‘Empresas cujos donos são petistas’, com indicação de que suas empresas devem ser boicotadas pela classe empresarial e por clientes partidários do candidato que perdeu as eleições.

Aconteceu com o Restaurante Le Farine e sua proprietária tornou pública sua indignação, desacataram familiar do proprietário do tradicional Chopão. Também citado na lista, o médico, Dr. Michel Patrick emitiu nota repudiando veementemente a exposição a qual fora submetido, registrou boletim de ocorrência para que o covarde autor/a da nota seja identificado e responsabilizado criminalmente.

Li mensagens de mães ensinando filhos pequenos a excluir e se afastar do convívio de colegas, cujos pais sejam de “esquerda” e ouvi o áudio da inescrupulosa professora desligando alunos “de esquerda” do grupo de orientação no mestrado, por mensagem de WhatsApp, que aliás, é a forma única de comunicação válida que esses tipos conhecem.  

Fechar o comércio, acampar, orar, fazer churrasco na frente aos quartéis, grudar na frente de caminhões, dar berros e sair marchando, cantar o hino nacional 10 vezes ao dia, são direitos inquestionáveis, cada um com a porção de loucura que lhe é inerente, todavia, não é sinal de progresso observarmos que onde antes havia acampamentos das pessoas amontoados debaixo de lona preta, reclamando um lote de terra, vê-se tendas climatizadas, pagas por certo com dinheiro de grandes empresários, dos quais muitos gozam do benefício da renúncia fiscal ou algo que o valha para abrigar um grupo de pessoas birrentas, egocêntricas, que se nutrem de notícias falsas e não suportam o fato de suas vontades não terem prevalecido nas urnas.

Vitória da democracia no Brasil que sai das urnas

Em um documento de 26 páginas, a Missão de Observação Internacional da Organização dos Estados Americanos, composta no segundo turno por 56 integrantes de 17 nacionalidades, enfatiza que o sistema eleitoral brasileiro tem evoluído de forma sólida e correta e diz que o enfrentamento e combate a disseminação massiva de informações falsas foi certamente, o desafio mais complexo do sistema eleitoral brasileiro nessas eleições.

Desmontando a polarização estendida às regiões brasileiras, de que o Sul Sudeste e Centro Oeste são de Bolsonaro, Norte e Nordeste de Lula, observamos que a maior vitória proporcional de Bolsonaro foi na cidade de Pacaraima, em Roraima, de Lula foi na cidade mineira de Itutinga. Além de Lula ter tido importantes vitórias na região sudeste, venceu na maior cidade do país, São Paulo e no estado de Minas Gerais, segundo maior colégio eleitoral. Sem desconsiderar, claro a vitória excepcional de Lula nas capitais, Salvador, Fortaleza e Teresina. O Presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva, venceu em 8 das 20 cidades mais populosas do país. Dos 5.570 municípios brasileiros, Lula venceu em 3.123.

Vejamos alguns fatos interessantes que saíram das urnas mês passado. Um número expressivo de mulheres e negros foram eleitos e a Câmara dos Deputados terá entre os parlamentares 135 deputados federais pardos ou negros e  a bancada feminina na Câmara Federal aumentou 18%, terá 91 mulheres e terá pela primeira vez na história duas mulheres trans como deputadas federais: Erika Hilton, de São Paulo e Duda Salabert, de Minas Gerais.

Candidatas mulheres foram as mais votadas para a Câmara Federal em oito estados e no Distrito Federal e Mato Grosso também teria uma mulher como a candidata mais votada entre os oito deputados federais eleitos. Porém, Rosa Neide, do PT obteve mais de 124 mil votos mas a federação partidária na qual disputou a eleição não atingiu o quociente eleitoral exigido por lei para assegurar a vaga na Câmara Federal.

Pela primeira vez houve uma chapa formada por duas mulheres, as senadoras Simone Tebet e Mara Gabrilli. Simone Tebet, ao findar o primeiro turno, assumiu protagonismo inegável na campanha de Lula e se consolida como uma interessante liderança feminina nacional.

A eleição de 2022 é a primeira desde que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) passou a ter políticas afirmativas para pessoas pretas e pardas, possibilitando que as mesmas recebam maiores recursos do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC) e tenham privilégios também na distribuição do tempo de propaganda eleitoral gratuita.

Os estados da região norte e nordeste registraram e elegeram uma proporção maior de parlamentares negros. Em âmbito nacional percebe-se que houve maior registro de candidatos negros entre os partidos de direita e centro-direita e segundo o Observatório do Conhecimento, uma possível razão para o maior número de parlamentares autodeclarados negros dentro dos partidos de direita é que houve mudança na autodeclaração racial dos candidatos, com vista exatamente no aumento das cotas dos fundos eleitoral e partidário.

Dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostram que o índice de renovação da Câmara Federal caiu muito. De 47.37% em 2018 para 39,38%. Mais da metade, 280 dos 513 deputados federais eleitos em 2018 conseguiram se reeleger. Em Mato Grosso houve certa oxigenação, apenas 3 conseguiram se reeleger. No senado Federal, o índice de renovação segue sendo muito bom, apenas 5 dos 13 senadores que tentaram a reeleição se elegeram, embora, tradicionalmente a Casa seja abrigo de políticos experientes e tradicionais, prova disso é que apenas um senador eleito nunca exerceu cargo público ou teve envolvimento com pleitos eleitorais.

Atuação irrepreensível, embora esbarrando em interpretações contrárias de alguns juristas, do Ministro Alexandre de Moraes, presidente do TSE. “Nós conseguimos concluir uma eleição extremamente polarizada e esta etapa importantíssima das Eleições de 2022 se encerra com a vitória da democracia, da sociedade, dos eleitores que compareceram”.

Pacificação e reconciliação

Tenho expressado aqui a minha preocupação com o ambiente hostil, com a campanha difamatória em andamento, com os ataques contínuos contra as instituições democráticas, atos de intimidação e ataques online e offline. O Brasil entra na reta final de sua temporada de campanha, com uma enxurrada de ameaças de morte motivadas pela política, agressões e até assassinatos e em todo o país há o medo de uma violência mais generalizada ainda após a eleição de hoje. Autoridades e analistas confirmam que nesta temporada eleitoral houve um aumento incomum nos ataques entre apoiadores dos candidatos.

Feliciano Guimarães, diretor acadêmico do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI) no Rio de Janeiro, falou sobre o recente aumento nos ataques. “Embora sempre tenha havido violência política perto das eleições, era muito fragmentada e mais sobre questões locais do que motivações nacionais. Mesmo que os piores temores não se concretizem, a eleição terá efeitos duradouros. A polarização política que temos no Brasil hoje e os ataques ativos às instituições são muito perigosos para o sistema político”.

Mas precisamos caçar jeito para falarmos sobre a pacificação do país, a reconciliação com amigos e familiares, dos quais nos afastamos, porque permitimos que divergências políticas adentrassem a esfera familiar. A reconciliação é a chave para o futuro de uma sociedade pacífica, justa, democrática e inclusiva.

A palavra “reconciliação” é frequentemente usada no discurso público. Somos um país com profundas raízes espirituais, os brasileiros dizem que a religião é importante para suas vidas, e, portanto, não surpreende que a reconciliação para muitos, esteja ligada ao perdão. Muitas tradições de fé entendem a reconciliação como um processo restaurativo recíproco, é importante reconhecer que a reconciliação não é uma atitude mas a combinação de processos que, em conjunto, conseguem abordar o passado, seguir, construir confiança, construir coesão social e criar paz sustentável.

No primeiro turno das eleições tivemos um cenário de vitória histórica para a diversidade. Duas mulheres indígenas e duas mulheres trans foram eleitas e certamente o foco dessas ativistas deve ser a transformação do Congresso em uma casa mais inclusiva que possa promover, avançar e implementar políticas favoráveis à proteção do meio ambiente e contenção do racismo e preconceito.

Dom Orlando Brandes, Arcebispo de Aparecida, nos deu uma receita singela para instalarmos aqui a pátria ideal: “para ser pátria amada não pode ser pátria armada. Para ser pátria amada, devemos ser uma república sem mentiras e sem fake news. Pátria amada sem corrupção, pátria amada com fraternidade”. Seguir nessa direção pode ser o começo.

No momento em que preparava para enviar esse artigo, a deputada Carla Zambelli, desequilibrada, sacava uma arma e apontava para uma pessoa em uma rua de São Paulo. Senti-me ingênua e tola, escrevendo sobre paz e reconciliação.

Sinais ameaçadoramente contemporâneos

Em uma semana estaremos votando no segundo turno da eleição presidencial. Sempre temos escolha: podemos deixar que as circunstâncias de nossas vidas nos endureçam e nos tornem cada vez mais ressentidos e temerosos, ou podemos deixar que elas nos abrandem e nos tornem mais tolerantes e gentis. Eu escolhi abri mão do voto secreto e me posicionei sem discutir, sem invadir a privacidade de nenhum amigo para criticar ou atacar e na mesma linha também não permiti invasão nas minhas páginas para me questionarem. O tempo todo dessa interminável campanha, eu fui civilizadamente fiel às minhas convicções e cuidadosa no trato com as pessoas. 

Para acalmar a incerteza e preencher lapsos de ignorância, recorri à leitura. De forma desordenada cronologicamente, ia de “As origens do totalitarismo”, de Hannah Arendt à Platão, que catalogou algumas formas de governo experimentados pela humanidade, até o best-seller dos cientistas políticos americanos, “Como as democracias morrem”. Assustada, assinalava as coincidências encontradas nos fragmentos de nossa democracia, que foram ficando pelo chão.

Ao ler o título do último capítulo de ‘As origens do totalitarismo’, parei e pensei: sim, é isso que estamos vivenciando: Ideologia e terror: uma nova forma de governo. Não temos um presidente governando a nação, temos um homem obcecado pelo estabelecimento de padrões morais, escorados na família tradicional, na fé e patriotismo cegos, independentemente de o governante, ele mesmo, ser um bom cristão, cultivar valores morais no seio da família. Nessa perspectiva, importante é incutir e pregar a moralidade como uma ideia central, mas ser, de fato, um cidadão moral, não vem ao caso. 

Bolsonaro teceu uma estratégia de investir fortemente no apelo cristão e messiânico, dando ‘evidências públicas de ser um bom cristão’, ao mesmo tempo em que reverbera o desprezo pelas minorias, pelos pobres, pelos que não são conservadores, então, tem pregado para seduzir e mobilizar sua base religiosa conservadora.

Uma implicação interessante na análise de Arendt é que o governante totalitário normalmente não é justo ou sábio; ele é simplesmente aquele que veio para quebrar conscientemente o consenso, colocar o pé na porta das instituições que regulam seu poder. Exatamente como aqui, agora, há uma grande massa disposta a renovar a compra de uma narrativa que os enfeitiçou quatro anos atrás e que transcende a compreensão de valor e de realidade. 

Embora as observações de Hannah Arendt, obviamente não podem explicar tudo sobre os complexos desenvolvimentos políticos de hoje, não deixam de ser reveladoras, pois fornecem informações sobre os mecanismos que permitem que tantas pessoas aceitem prontamente viver de mentiras. “Num mundo incompreensível e em perpétua mudança, as massas haviam chegado a um ponto em que, ao mesmo tempo, acreditavam em tudo e em nada, julgavam que tudo era possível e que nada era verdadeiro”.

A polarização não parece ser uma manifestação efêmera

Em 2017, o historiador e escritor polonês, Karol Modzelewski, figura proeminente do movimento Solidariedade da Polônia, observou: “Agora existem duas Polônias. Recebemos as mesmas notícias mas não lemos os eventos da mesma maneira. Também não temos os mesmos valores. É como se estivéssemos perdendo nossa linguagem comum. Já não ouvimos uns aos outros e já não falamos uns com os outros. Pior, não queremos mais falar um com o outro”.

Um novo estudo sobre polarização política liderado por cientistas políticos da centenária Brown University, fundada em 1794 nos Estados Unidos mostrou que a polarização – percepções ideologicamente distorcidas da mesma realidade – é mais forte em pessoas com menor tolerância à incerteza em estágios gerais da vida. Isso estabelece que parte da animosidade e mal-entendido que vemos na sociedade não se deve a diferenças irreconciliáveis ​​em crenças apenas políticas, mas depende do grau de incerteza que as pessoas experimentam na vida cotidiana.

As interpretações dos fatos carregados de ideologia distorcida trouxeram consequência terrível para nosso mundo político. Grupos políticos tornaram-se ideologicamente mais homogêneos, distintos e desconfiados das pessoas que seguem do outro lado e as imagens dos apoiadores tornaram-se ridiculamente estereotipadas, para seguir, agradar e mostrar identificação cega com o líder.

Esse recrudescimento ideológico foi trazido para dentro dos lares, para os estilos de vida em sociedade. A diversidade de convivência mingou. Não estamos mais falando apenas de uma política polarizada, mas de uma sociedade dividida onde liberais, progressistas e conservadores cada vez mais se segregam. As pessoas intolerantes e preconceituosas estão mais confortáveis para deixarem escapar ‘suas verdades’, como o pronunciamento gravado da advogada mineira ridicularizando os nordestinos. Todo mal extravasado no discurso sempre existiu na mente da advogada, o momento polarizado a deixou confiante para se expressar.

Não é um bom sinal para a democracia quando as pessoas começam a usar a política para justificar todos os ângulos da vida. O pluralismo político pressupõe que os indivíduos e seus padrões de relacionamento determinam suas lealdades políticas, mas com a política partidária em segundo plano, organizando interesses e identidades, mas não ditando a vida cotidiana e as relações sociais.

Em contraste, quando o partidarismo ideológico assume o controle e afeta substancialmente as relações sociais que as pessoas expressam em público, a polarização partidária se torna esse processo descontrolado, que estamos vivenciando.

É cedo para entender se a atual onda de polarização vai remodelar permanentemente o cenário político e social do Brasil, ou se, ao contrário, é uma  paixão, que em breve vai passar.