Sem vocação para a felicidade

Os países que têm a população mais feliz no mundo são nórdicos e governados por mulheres, Finlândia, Dinamarca, Islândia, Noruega, Suécia. O estudo do “World Happiness Report de 2023”, com pesquisa feita pela Gallup classifica a felicidade de 150 nações, com base em uma média de três anos, considerando elementos que incluem além da renda e expectativa de vida, os indivíduos foram questionados sobre o apoio social que recebem por parte de familiares e amigos quando enfrentam problemas, sobre o exercício dos direitos humanos, a liberdade de escolher o que fazer com a vida, envolvimento com instituições de caridade, sobre o nível de confiança nas instituições governamentais e privadas e como age em caso de percepção de corrupção.

As mulheres que lideram os países citados são jovens como a primeira-ministra finlandesa Sanna Marin, uma figura feminista, que faz manchete por comportar-se naturalmente como uma jovem de 37 anos, que dança e bebe com amigos até tarde da noite, fala contra o sexismo e rebate tentativas de desmerecê-la por ser muito jovem. Mais da metade do seu ministério é composto por mulheres, que aprovaram uma nova lei que concede até sete meses de licença remunerada para cada novo pai.

São mulheres que governam com um olho no sistema de tributação, saúde e educação e o outro, voltado para o apoio às vítimas de agressão sexual, fazem pronunciamentos contundentes contra o sexismo e a discriminação no local de trabalho, seus países ocupam as primeiras posições nas questões. de igualdade de gênero, mantém em seus governos política de garantia de que todas as crianças até a idade escolar estejam frequentando uma creche e os pais, com renda menor, podem reivindicar o subsídio do governo de até 75% dos custos com os cuidados da criança. Não surpreende que nesses países cerca de 96% de todas as crianças estejam matriculadas na educação infantil.

E como estamos nós? No Brasil onde se ganha eleição falando de economia e não de políticas de bem-estar, ainda estamos mitigando a pobreza e sem conseguir garantir sequer o direito à educação da primeira infância, previsto na Constituição Federal, conforme o Art. 208 – O dever do Estado com a educação será efetivado mediante a garantia de: […] IV – educação infantil, em creche e pré-escola, às crianças até 5 (cinco) anos de idade. Na questão de igualdade de gênero estamos na 78ª posição entre 144 países e entre os 25 países da América Latina, patinamos na 22ª posição.

A redução da pobreza e a garantia dos direitos previstos na Constituição é um estica/encolhe inadmissível. O progresso social do Brasil está sempre ameaçado pelo medo de se implementar reformas que podem aumentar a inclusão e isso resultar em aumento de custos fiscais e penalizar os que pouco se importam com o bem-estar e felicidade das pessoas.

Por mais ingênuo que possa parecer, o ex-senador Cristovam Buarque, embalado pelo ativismo do Movimento Mais Feliz, tentou que fossemos cidadãos felizes apenas alterando o texto da Constituição Federal. Apresentou uma Proposta de Emenda à Constituição – PEC 19/2010, chamada de PEC da Felicidade, que alteraria o artigo 6º da Constituição Federal para incluir a frase “a busca da Felicidade” no texto e o artigo passaria a ser escrito: “São direitos sociais essenciais, à busca da felicidade, a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição”. Em meio a zombaria geral, a PEC foi arquivada.

É elementar que garantir, de fato, os direitos sociais ao cidadão, tira-lhe um peso aflitivo dos ombros, mas até hoje, 35 anos depois de promulgada a nossa Constituição a classe política e a justiça não conseguiu sequer fazer cumprir o que, originalmente está escrito lá. Assim, enquanto caminhamos um passo, nossa felicidade, enquanto nação, caminha mil passos adiante. No ranking dos países com a população feliz, o Brasil caiu da 38ª posição para 49ª em 2023.

Estamos exaustos

Asociedade do século XXI transformou-se na sociedade de cobrança por desempenho e nós, nos tornamos sujeitos forçados a aceitar todas as tarefas e realizá-las a qualquer custo. O filósofo Byung-Chul Han, nascido sul-coreano e radicado na Alemanha escreveu um livro sobre o que ele denominou de “sociedade do cansaço”, o adoecimento de uma sociedade que sofre sob o excesso de positividade, individualismo, competição e consumo excessivo. A consequência de todo esse sistema de cobrança de desempenho foi pior saúde mental – pior sono, menos calma, mais ansiedade.

Uma sociedade que atribui e cobra do ser humano as qualidades do computador (multitarefa, velocidade, desempenho) não seria a causa do fenômeno generalizado dos esgotamentos mentais, dos infartos da alma?

Diz Han, que a técnica temporal de sermos multitarefas (multitasking) não representa nenhum progresso civilizatório. A multitarefa não é uma capacidade para a qual só seria capaz o homem na sociedade trabalhista e de informação pós-moderna. Trata-se de um retrocesso. A multitarefa está amplamente disseminada entre os animais em estado selvagem. Trata-se de uma técnica de atenção, indispensável para sobreviver na vida selvagem. “Um animal ocupado no exercício da mastigação de sua comida tem de ocupar-se ao mesmo tempo também com outras atividades. Deve, no mínimo, cuidar para que, ao comer, ele próprio não acabe comido”.

O sujeito escravo da busca pelo bom desempenho em todas as atividades da vida, encontra-se em guerra constante consigo mesmo. Diante da preocupação em viver bem reagimos com hiperatividade, com a histeria do trabalho acelerado, da visibilidade, da boa performance, não é de admirar que as pessoas estejam se sentindo sobrecarregadas e exaustas.

A sociedade do desempenho e a sociedade a mil por hora geram um cansaço e esgotamento excessivos. Esses estados psíquicos são característicos de um mundo que se tornou pobre em negatividade e que é dominado por um excesso de positividade quanto a cumprir todas as tarefas, no menos espaço de tempo e a qualquer custo.

É possível associar o estudo da ‘sociedade exausta’ à depressão e síndrome de burnout, descrevendo como consequência da nossa incapacidade de dizer não e de, no fundo, não ser capaz de fazer tudo. Uma forma de autodestruição que nos vence com um colapso nervoso ou esgotamento.  A Síndrome de Burnout expressa a consumação da alma e a ilusão de acreditar que quanto mais ativos nos tornamos tanto mais livres e felizes seremos.

O que causa o esgotamento é a pressão pelo desempenho, pela realização pessoal e a ideia turva de que a felicidade somente será atingida se tivermos sucesso individual.  A lamúria do indivíduo exausto de que nada é possível só se torna possível numa sociedade que crê que nada é impossível.

O vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 2019, Peter Handke, também escreveu um Ensaio sobre o cansaço, diferencia os graus de fatiga e fala sobre um estado onde nem todos os sentidos estariam extenuados e levaria o homem para um abandono especial, para um não fazer o que não suporta, para ao final, sugerir uma reavaliação da vida, dedicar a momentos de contemplação e fugir das pressões e artimanhas do ego que nos escraviza.

Você pensa assim porque é mulher

OSegundo Sexo escrito pela filósofa francesa Simone de Beauvoir, em 1949, aborda a posição da mulher na sociedade da época e descreve as maneiras pelas quais a mulher é percebida como “outro”, secundária ao homem, que é considerado e tratado como o primeiro ou sexo padrão. Contextualizando o período europeu do pós-guerra, a passagem do tempo, exatamente 74 anos, os avanços comportamentais advindos de lutas e exposição de figuras femininas, é extremamente pertinente que as jovens modernas de hoje façam uma leitura crítica do texto. 

Uma das frases mais famosas do livro é: “Não se nasce mulher, torna-se mulher”. Simone de Beauvoir explica com isso que os papéis que associamos às mulheres não são dados a elas inerentemente, em virtude de sua biologia, mas são construídos socialmente, através de lutas, levantes diante da opressão que sofrem. As mulheres aprendem o que devem ser na vida, que tipo de papéis podem ou não desempenhar em virtude de serem do “segundo sexo”.

Faz sentido, que se alguém é ensinado durante toda a sua vida que para ser uma mulher, para aceitar a relação de hierarquia e normas, ela deve ter uma certa aparência, agir de certa maneira, desempenhar um papel subserviente dentro de sua família e trabalhar apenas em certos tipos de empregos, ter filhos, organizar a casa, isso vai afetar o senso de liberdade e autenticidade do ser feminino. Ser visto e muitas vezes, se sentir como “o segundo sexo” certamente é complicado e isso vai moldar o que você pensa que são suas escolhas de vida e vai mudar a forma como você percebe sua própria liberdade.

Na introdução do livro, a autora cita o filósofo grego Aristóteles, para quem “a fêmea é fêmea em virtude de certa carência de qualidades, devemos considerar o caráter das mulheres como sofrendo de certa deficiência natural”. São Tomás de Aquino, decreta que a mulher é um homem incompleto, um ser não autônomo. Acrescento aqui a fala desconcertante do filósofo alemão Arthur Schopenhauer: “O que distingue o homem do animal é a razão; confinado no presente, lembra-se do passado e pensa no futuro: daí a sua prudência, os seus cuidados, as suas frequentes apreensões. A razão débil da mulher não participa dessas vantagens nem desses inconvenientes; sofre de uma miopia intelectual que lhe permite, por uma espécie de intuição, ver de uma maneira penetrante as coisas próximas; mas o seu horizonte é limitado, escapa-lhe o que é distante”.

   Ainda hoje ouvimos: “você pensa assim porque é mulher”, numa tentativa de reduzir nossa capacidade de elaborar um raciocínio lógico, ao que Simone de Beauvoir respondia prontamente: “penso-o porque é verdadeiro”, eliminando assim a subjetividade se dissesse: “você pensa o contrário porque é homem”. Ainda hoje, não há vestígios e sim evidências de que os avanços ocorridos na trajetória das mulheres desestabilizam milhares de homens.

Nesse sentido, sinto-me compelida a dar visibilidade às violências cometidas contra as mulheres, que foram silenciadas, mortas, impedidas de se colocarem como sujeitos de suas próprias existências porque certos homens impuseram limitações a sua liberdade de escolha, sobretudo quando decidiram pôr fim a um relacionamento. Padrões machistas seguem firmes e encerram precocemente a vida de milhares de mulheres, que ainda pela desinformação sobre seus direitos, pela falta de apoio de familiares, vulnerabilidade e dependência não denunciam os companheiros na primeira observação que estes não superaram sequer a tradição da posse do corpo feminino.

Sobre isso, Simone de Beauvoir disse: “Ninguém é mais arrogante em relação às mulheres, mais agressivo ou desdenhoso do que o homem que duvida de sua virilidade.”

  As questões fundamentais da mulher residem ainda no conflito entre realizar suas aspirações essenciais, viver a situação de independência e liberdade, desbloquear as estradas que estão fechadas, sem pagar com a vida.

Para mudar é preciso mais do que resolver mudar, é preciso agir

Durante muito tempo viveu-se na crença de que a família seria o refúgio seguro de qualquer pessoa, sendo apontada dentro do contexto de proteção, capaz de garantir segurança e fornecer os bens essenciais e os cuidados básicos necessários ao desenvolvimento integral da criança.

Todavia, atualmente, os estudos têm demonstrado que a violência dentro da instituição familiar é uma realidade assustadora, que vitimiza a criança que se encontra exposta à violência entre duas pessoas com as quais compartilha o mesmo espaço e, muitas vezes, o mesmo sentimento de amor.

Cerca de 55,3% dos crimes são cometidos no ambiente doméstico e 33,2% dos homicidas eram parceiros ou ex-parceiros das vítimas e o tema da orfandade deixada pelo feminicídio se apresenta como uma questão de extrema urgência a exigir novas políticas públicas a respeito.

A situação dos órfãos, vítimas indiretas e que até certo ponto eram invisíveis da violência doméstica, começam a aparecer nos artigos, pesquisas, trabalhos nas bases das famílias destruídas após o assassinato da mãe e em muitos casos, a prisão do pai e lançou luzes sobre a situação dessas crianças e adolescentes que representam um grave problema social, que precisa ser enfrentado com políticas públicas que minimizem os efeitos do trauma e impeçam a perpetuação do ciclo da violência doméstica entre as gerações.

Cada criança desenvolve, obviamente, forma diferente para lidar com a vitimização. Dentro da profundeza de seus dramas, muitas crianças que perdem a mãe são criadas pelos avós, que sobrevivem com minguadas aposentadorias. Portanto, as crianças de famílias de baixa renda, órfãs do feminicídio insurgem como uma emergência nacional e a situação só pode melhorar se o governo fizer algo por elas. 

É papel do Estado mitigar os impactos trágicos causados pelo feminicídio por meio de benefícios sociais. Lei que contempla a ajuda financeira aos órfãos de feminicídio já existe no município de Cuiabá há mais de um ano e tem sido referência para outras capitais que também implementaram o auxílio.

Semana passada a Câmara dos Deputados votou e aprovou benefício a ser pago a crianças e adolescentes, de famílias de baixa renda, que tenham ficado órfãos em decorrência de feminicídio, nos termos da Lei Federal nº 13.104, de 09 de março de 2015, a lei que torna o feminicídio um homicídio qualificado e o coloca na lista de crimes hediondos, com penas mais elevadas. Será pago um salário-mínimo, hoje de R$ 1.302 por família até que todos os filhos completem 18 anos. A proposta segue para análise do Senado.

Finalmente, em termo nacional, pensa-se numa reparação financeira, considerando a importância da figura materna como provedora não somente de estímulos afetivos mas também, provisão de recursos materiais nas camadas mais vulneráveis da população brasileira. O projeto é de autoria de várias deputadas e ex-deputadas federais.

Não é necessário ler a justificativa do projeto de lei, basta ler a manchete estampada nos principais meios de comunicação do país: Brasil bate recorde de feminicídios em 2022, com uma mulher morta a cada 6 horas. Este número é o maior registrado no país desde que a lei de feminicídio entrou em vigor, em 2015.

Ser o quinto país que mais mata mulheres, não basta, o Brasil segue firme em direção da liderança mundial em feminicídio. Em um grupo de 83 países avaliados, o Brasil detém a quinta maior taxa de homicídios contra a mulher (4,8 homicídios para cada 100 mil mulheres).

A mensagem transversal que deixa a lei aprovada recentemente é o reconhecimento da nossa incapacidade como sociedade, apesar do endurecimento das leis, de reduzir os casos de feminicídio, restando a opção de amparar minimamente os órfãos produzidos por essa tragédia, para que não abandonem os estudos e seus sonhos.

Não nos iludamos. Ainda há um vasto caminho a percorrer

AConvenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher, adotado pela Assembleia Geral da ONU em 1979 é o primeiro tratado internacional que dispõe amplamente sobre os direitos humanos da mulher. São duas as frentes propostas: promover os direitos da mulher na busca da igualdade de gênero e reprimir a discriminação contra a mulher nos países signatários da Convenção.

“Discriminação contra a mulher” significará toda distinção, exclusão ou restrição baseada no sexo e que tenha por objeto ou resultado prejudicar ou anular o reconhecimento, gozo ou exercício pela mulher, independentemente de seu estado civil, com base na igualdade do homem e da mulher, dos direitos humanos e liberdades fundamentais nos campos político, econômico, social, cultural e civil ou em qualquer outro campo. (Artigo 1º da Convenção adotada pela Assembleia Geral da ONU em1979).

A vida das mulheres no Brasil traz a marca característica da desigualdade em todos os seus aspectos, do sofrimento, da persistência e superação. As conquistas de direitos das mulheres têm coexistido no meio das desigualdades de gênero, de condições econômicas e sociais desfavoráveis. As mulheres continuam sendo as principais responsáveis pelas atividades domésticas e familiares e ainda assim, estão estudando mais. O acesso à educação formal tem possibilitado que um número significativo de mulheres saia das atividades precárias, que ganhem salário melhor e conquistem a sonhada autonomia financeira, exercendo profissões que até um passado recente eram desempenhadas majoritariamente por homens.

É possível para você, mulher, dimensionar o esforço empreendido pela ativista em defesa dos direitos dos povos tradicionais, hoje Ministra de Estado, Sônia Guajajara, para romper todos os níveis de preconceito e discriminação que sofreu ao longo do seu processo de crescimento? Destacando que o racismo, a discriminação, o preconceito e outras formas de violência ampliam de forma significativa as desigualdades para mulheres indígenas e negras.

No mês da mulher 2023 chamou-me à atenção a história de uma mulher que exala atitude ao exibir-se com a pele desenhada com jenipapo ou urucum, retratando a cultura do seu Povo Guajajara. Sônia Guajajara nasceu na terra indígena de Araribóia, no estado do Maranhão. Com ajuda da Fundação Nacional do Índio (Funai) foi levada para estudar em um internato em Minas Gerais.

Voltou ao Maranhão já engajada na luta pela defesa dos direitos dos povos tradicionais. Continuou os estudos. É graduada em Enfermagem e Letras na Universidade Estadual do Maranhão e pós-graduada em Educação Especial. Não se afastou da sua comunidade, onde atuava na saúde e educação.

Nas eleições de outubro de 2022, a líder indígena já com vasta visibilidade nacional e internacional, teve mais de 150 mil votos e foi eleita a primeira deputada federal indígena pelo estado de São Paulo. Em seguida, foi convidada pelo presidente Lula para assumir a pasta do Ministério dos Povos Indígenas. Guajajara é a primeira indígena a ocupar um ministério. Por sua luta pelo reconhecimento dos direitos dos povos indígenas, além de ter voz no Conselho de Direitos Humanos da ONU, foi eleita pela revista Time como uma das 100 pessoas mais influentes do mundo, no ano passado (2022).  

Sônia Guajajara venceu todas as etapas das tentativas de desconstruir a bela história que vem escrevendo e quer ir além, “garantir autonomia e espaço para os povos tradicionais tomarem decisões sobre seus territórios, seus corpos e modos de viver”. Mas não nos iludamos, de modo geral, as desigualdades e a violência continuam marcando a vidas das mulheres de maneira rigorosa e indelével.

Tudo, menos humanos

Causa-me consternação quando tragédias e violência se juntam para impactar assustadoramente nossas vidas. Em dois anos tivemos redução nas taxas de criminalidade no país devido as restrições impostas pela pandemia. Com a população trancada em casa, a violência, nossa companheira inseparável, que era observada nas ruas, aconteceu dentro dos lares.

Explodiram os casos de violência doméstica. No mesmo período, a política de flexibilização para armar a população atingiu seu ápice. De acordo com o Anuário de Segurança Pública, o número de armas registradas alcançou a inacreditável marca de 1 milhão e meio de posses de armas ativos, grande parte nas mãos dos chamados CAC (caçador, atirador e colecionador).

Melina Risso, uma das diretoras do Instituto Igarapé (ONG dedicada à estudos sobre segurança pública e direitos humanos), ouvida pelo Senado Federal disse que a única política pública de Bolsonaro para a área da segurança foi a disseminação das armas para a população civil. Diz ela: “Quando se anuncia que as pessoas têm que se defender com as próprias mãos, o governo está dizendo: ‘Esse não é meu trabalho. Vocês que se virem’. Na verdade, o governo está enganando as pessoas. A segurança pública é uma das primeiras responsabilidades do Estado e não pode ser terceirizada para os cidadãos”.

De arma nas mãos, os cidadãos maus por natureza, saem à caça. Na cidade de Sinop, ao Norte de Mato Grosso, uma chacina à luz do dia foi registrada por câmeras de segurança. Várias mesas de sinuca, um bar da periferia, que promovia jogos com apostas de valores altos. Dez pessoas estavam no ambiente. Após perder várias rodadas, 2 indivíduos foram embora irritados. Premeditaram a vingança e voltaram horas depois para nova rodada de jogos para recuperar o valor que haviam perdido. Perderam novamente e abriam fogo contra os parceiros de jogos e outros. Executaram à queima roupa 7 pessoas, inclusive uma criança de 12 anos. A mãe da menina, que acompanhava o marido no bar, foi deixada viva, a única sobrevivente da chacina.

A repercussão da barbárie foi grande na mídia nacional e internacional. O ministro da Justiça e da Segurança Pública, Flávio Dino, se manifestou sobre a chacina e assim como a pesquisadora do Instituto Igarapé, criticou a “irresponsável política armamentista” executada durante o governo de Jair Bolsonaro. Na mesma linha de raciocínio, estudiosos da segurança pública recordaram que viram e se manifestaram com preocupação a flexibilização exagerada do armamento da população. De acordo com muitos, a literatura científica mostra que mais revólveres circulando na sociedade pioram seguramente as estatísticas de violência letal.

Um dos assassinos, morto em confronto com as forças de segurança, que o identificou como um indivíduo severamente perigoso, com vários processos nas costas, inclusive denúncias de ser traficante de madeira, no entanto,  frequentava bares e andava armado, livremente. O segundo assassino, que se entregou à polícia, exibia-se com armas nas redes sociais e dizia pertencer a um clube de tiro.

Por outro lado, é importante, para o conforto e restauro da saúde mental, entender que esses dois assassinos, em algum ponto de suas vidas sofreram um processo de desumanização, que é o que abre a porta para a crueldade e chacinas e permitiu que esses seres superassem todas as inibições naturais contra a prática de infligir atrocidades a outras pessoas e saíssem à caça, como predadores perigosos.

Recontando os pobres, exaltando os ricos

Estudo recentemente divulgado pela Fundação Getúlio Vargas, inverte o objeto costumeiro do estudo, ou seja, a desigualdade social da população e expõe dados aparentemente satisfatórios sobre a situação econômica da população com base nos rendimentos das pessoas que declaram imposto de renda. Sistematizados esses dados, a FGV divulgou um amplo relatório, situando Cuiabá entre as 10 capitais mais ricas do Brasil, com renda per capita (por cabeça) acima de R$ 2.400,00.

Chega-se a esse valor somando a renda dos cidadãos que declaram o imposto, dividido pelo número total da população. Trocando em miúdos, os altos salários dos funcionários públicos, sobretudo do executivo e judiciário, dos grandes produtores rurais fixados na capital puxam para cima a renda da cidade e isso não quer dizer exatamente que a população, em geral, esteja enriquecendo.

As 5 cidades mais ricas de Mato Grosso têm renda per capita acima de R$ 2.000,00 e 4 delas tem o agro como base econômica. O rendimento milionário dos grandes agricultores mascara a realidade de uma grande parcela de cidadãos que vivem nas periferias de Primavera do Leste, Sapezal, Sorriso, Lucas do Rio Verde e Cuiabá. É atraente mostrar o crescimento inegável do estado de Mato Grosso, porém, não nos desviemos das nossas verdades inconvenientes. Em levantamento divulgado pela Secretaria de Estado de Assistência Social e Cidadania, no Cadastro Único Nacional 301.065 mulheres vivem em estado de pobreza e sobrevivem graças aos programas de transferência de renda do governo federal e estadual. Além disso, desde o Natal, a fila dos ossinhos, voltou a movimentar as madrugadas em frente ao açougue no bairro do CPA 2.

Em outro estudo da Fundação Getúlio Vargas – FGV Social, com foco nas desigualdades sociais, os dados apontam que 20,24% da população do estado de Mato Grosso vive na pobreza, com renda mensal de no máximo R$ 497.00 por mês. O estado, como ente federativo pode ser rico, milionários do agro e outros setores moram aqui, mas essa é uma realidade paralela, que não reflete em benefícios na vida da D. Maria que mora no Bairro Bela Vista em Primavera do Leste. 

Em 2011 a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura – FAO, comemorou o fato de o Brasil, pelo segundo ano consecutivo liderar o ranking dos países com melhor performance no combate à fome. Em 2021, exatamente 10 anos depois, o contingente de pobres brasileiros atingiu seu ápice durante a pandemia da Covid-19 e pouco mudou desde então. A Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania Alimentar e Nutricional, elaborou um estudo no início de 2022, apontou que existiam no Brasil 33,1 milhões de pessoas cujo domicílio tinha um ou mais membros da família que não conseguiam fazer suas refeições por ao menos um dia. Estudos publicados há bons e em excesso.

No mesmo ano, o Grupo de Pesquisa Alimento para Justiça: Poder, Política e Desigualdades Alimentares na Bioeconomia, com sede na Universidade Livre de Berlim também concluiu que quase 60% da população enfrentavam algum nível de insegurança alimentar. Dentro desse grupo, mais de 30 milhões da população eram casos graves. Enfim, os dois estudos apresentam números semelhantes.

Os programas de transferência de renda são imprescindíveis. Porém, apesar dos impactos positivos dos programas, sobretudo do Bolsa Família, o desafio de superar a pobreza vai muito além de instituir uma renda mínima e acreditar que a pobreza será superada. Os esforços da rede de assistência precisam ser aprimorados e expandidos para encaminhamentos transversais para a rede pública de educação e saúde. 

A grande mentira da sociedade contemporânea

Aempatia é geralmente definida, no senso comum, como a capacidade de compreender e compartilhar os sentimentos do outro. Portanto, se você está com dor e eu sinto sua dor, se você está ansioso, eu vivo sua ansiedade, se você está triste e eu me entristeço e será exaustivo o peso que carregarei, estou sendo empática. E isso é diferente de compaixão. Compaixão significa que eu dou importância à sua preocupação, eu a valorizo, eu me preocupo com você, mas não necessariamente entro em seus sentimentos e na busca de solução para eles.

Muita gente pensa que isso é apenas uma distinção verbal, que não tem tanta importância, mas na verdade, os dois sentimentos têm consequências diferentes e nem todos os seres humanos são capazes de demonstra-los. A falta de compaixão e empatia foram expostas essa semana no episódio envolvendo duas médicas do estado do Amazonas, que gravaram um vídeo zombando das crianças que chegaram aos gritos numa unidade de saúde após serem atingidas por um raio. Mesmo diante do quadro das crianças, resolveram gravar um vídeo para as redes sociais. Elas riam debochadamente e uma delas disse que as crianças gritavam e se contorciam como se estivessem sendo exorcizadas.

A empatia é sobre colocar-se no lugar das crianças que aguardavam atendimento, ajudar cobrar providências, independentemente de você ter filhos pequenos porque o sentimento de empatia não é sobre você e seu entorno. Em suma, a empatia é ver o mundo de outra pessoa através dos olhos dela naquele momento e sentir na pele a dor que ela sente. Pode soar um pouco demais imaginar que existem pessoas que podem captar tão profundamente as vibrações de outras pessoas, debruçar sobre suas dores, mesmo diante da nossa predileção por relações ligeiras, onde há sempre algo que nos atrai para que não permaneçamos muito tempo parados na mesma notícia.

 Não importa como você defina empatia. Mas ela decorre do interesse de entender e conhecer o problema que aflige o outro. Tem a ver com conhecimento, com valores éticos e ação. Não precisamos de poderes intuitivos e mágicos para elevar outras pessoas, para nos colocar à disposição para ajudar e tentar reparar erros e injustiças. O que podemos fazer para ajudar pode importar muito mais do que como nos sentimos diante do drama dos outros. Ser emocionalmente sensível pode garantir a satisfação a você mesma, mas não garante que você tomará medidas necessárias para efetivamente ajudar alguém.

O terrível terremoto que abalou cidades da Turquia e da Síria produziu imagens que por si expressam a dor imensurável dos que agonizavam debaixo dos escombros e o desespero de familiares diante das buscas, a imagem da criança sendo alimentada com água numa tampa de garrafa, único objeto que cabe no exíguo espaço onde ela está presa. Esse tipo de imagem abala todos os seres humanos, acende a chama da compaixão, a empatia, no entanto, faz a pessoa ir além, a interessar-se pelas ações de resgate e pelo menos buscar no mapa a localização da tragédia, ler sobre as dificuldades encontradas pelas equipes de resgate para chegar ao local. Não se vira a página rapidamente diante de uma tragédia.

 A empatia, em tempo de vigilância on-line, pode ser apenas uma ilusão sedutora. Até porque, no fundo, tendemos a ser empáticos por aqueles que nos são semelhantes. Se temos filhos, nos sensibilizamos por fatos que ocorrem com crianças, se somos mulheres, tendemos a demonstrar mais empatia por situações vividas por mulheres. Na verdade, sentimos muito menos empatia por pessoas que não fazem parte da nossa cultura, que não compartilham nossa rede de conhecimento e relacionamento. Este é um fato terrível da natureza humana e talvez opere em um nível subconsciente, mas sentimos que isso acontece.

A casa dividida

Na convenção Republicana de junho de 1858, Abraham Lincoln foi indicado a concorrer ao Senado pelo estado americano de Illinois. Na oportunidade, fez um de seus mais famosos discursos conhecido como a “Casa Dividida”, que diz: “Uma casa dividida contra si não subsistirá. Acredito que esse governo, meio escravocrata e meio livre, não poderá durar para sempre. Não espero que a União se dissolva; não espero que a casa caia; mas espero que deixe de ser dividida”. Foi derrotado na disputa ao Senado. Mesmo derrotado, conquistou a confiança do partido pela moderação, dois anos mais tarde, foi eleito o 16º presidente dos Estados Unidos.

No livro “Mutual Radicalization”, Fathali Moghaddam, psicólogo e professor da Universidade de Georgetown, diz que os líderes podem ser muito eficazes em apaziguar ou criar, fortalecer e fomentar a radicalização mútua, usando um termo que ele criou para descrever o crescimento de dois lados opostos em direção a posturas cada vez mais divergentes. Já os esforços de reconciliação são processos lentos, “porque é difícil fazer com que antigos inimigos repensem uns aos outros como concidadãos e passem a uma condição de coexistência não-violenta e mutuamente aceitável”.

O processo de reconciliação nacional proposto pelo presidente Lula na sua posse foi pelos ares com a violência de 08 de janeiro. A ruptura alargou-se, a desconfiança reacendeu. Maus cidadãos e cidadãs quebraram e saquearam as maiores instituições do país, exibiram cenas de vandalismo impressionante. Muitos foram presos. Após a fracassada insurreição apareceram as digitais das forças armadas e da polícia no ato. Reconciliar, como?

A Casa quase caiu, mas o presidente Lula e as autoridades mostraram que estão no comando do país. Prenderam um ex-ministro da justiça, afastaram o governador do Distrito Federal e prenderam o comandante da polícia militar. A política de reconciliação cedeu lugar a prisões e quebra de confiança. Histórias assombrosas vieram à tona, como a do cidadão que havia espalhado bombas ao redor do aeroporto de Brasília, para matar inocentes. Segue a caça aos graúdos financiadores do golpe ‘tabajara’. Foi um janeiro tenebroso e longo!

Enfim, o que parecia ser uma insurreição, uma tentativa malfadada de golpe, tem revelado ser uma trapalhada sem limites. Mal desponta fevereiro, trazendo nova esperança de reconciliação nacional mas surge do Senado Federal, Marcos do Val, militar do Exército Brasileiro, senador capixaba, que elegeu-se exibindo-se com armas, vangloriando-se de haver participado do grupo de elite da Swat americana.

O senador acorda de madrugada, ou no meio de numa noite de insônia e faz uma Live, acusando o ex-presidente Bolsonaro de tê-lo coagido a colaborar com a elaboração de uma insurreição, concebida pelo bolsonarista Daniel Silveira, cujo alcance seria afastar o Ministro Alexandre de Moraes do julgamento das heresias cometidas após a eleição de outubro passado. Daniel Silveira foi preso.

Live gravada por milhares, imagens do valente senador exibindo print de conversas sobre a missão em destaque na mídia nacional, tensão. Eis que o senador volta atrás após receber telefonema dos filhos de Bolsonaro alertando que ele, o senador deveria ‘frear’ as acusações que estava fazendo. O senador repentinamente, convoca a imprensa, fala do amor pela filha única e puxa o freio. Anunciou que renunciaria ao mandato, recuou.

A Casa segue dividida!

Escolas cívico-militares, contrárias à ideia de uma escola democrática

Uma das principais bandeiras do governo Bolsonaro na educação foi o emblemático programa de escolas cívico-militares. No decreto justifica-se que a gestão de escolas públicas convencionais seria compartilhada com os militares das Forças Armadas, Policiais e Bombeiros militares, os quais não atuariam em sala de aula, dariam apoio no acolhimento e preparo dos alunos na entrada dos turnos, no intervalo de aulas e nos períodos de encerramento dos turnos, colaborariam nos projetos educativos extraclasses baseados em princípios militares. Então, onde justifica que militares abandonem seus postos para ficar à disposição das escolas para exercerem funções desqualificadas no contexto do próprio texto do decreto?

Criado em setembro de 2019 por meio de um decreto, o programa apresentou-se com o objetivo de diminuir a evasão escolar e inibir casos de violência na escola e na comunidade a partir da disciplina militar. É possível regatar o discurso de lançamento do programa, onde, tanto o ex-presidente quanto o ex-ministro da educação à época, se exultavam da possibilidade de que a presença dos militares nas escolas públicas pudesse resgatar os valores da ‘sagrada’ família brasileira e instaurar a ordem, a moral e o patriotismo.

O educador Anísio Teixeira, no livro A autonomia para a Educação ensina que “embora todos os regimes dependam da educação, a democracia depende da mais difícil das educações e da maior quantidade de educação e há educação e educação. Há educação que é treino, que é domesticação. E há educação que é formação do homem livre e sadio”.

Considerando a sociedade diversa que vivemos, há artigos e estudos consensuais de que as escolas cívico-militares sugiram na contramão da democracia. E a pluralidade, as políticas de inclusão são, quase sempre, recebidas com desconfiança pela população mais conservadora, que segue martelando o discurso de que os princípios democráticos da liberdade desmantelaram os valores da família e corromperam a ordem moral que havia no passado.

Ademais, os bons índices alcançados por muitas dessas escolas deve-se ao fato que as matrículas são triadas, portanto são escolas que abrigam alunos que apresentariam desempenho destacado em qualquer escola. O outro ponto que usam para justificar a presença de militares nas escolas é que melhora a segurança na escola e na comunidade, ninguém duvida disso, mas esse objetivo pode ser alcançado por meio de parceria, sem a militarização do ensino e os jovens que queiram este tipo de formação e carreira têm a opção de procurar escolas militares bem-conceituadas existentes.

O fato é que os colégios militares não atendem à pluralidade que está presente na sociedade brasileira. É um projeto que foi concebido valendo-se de um equivocado plano de impor disciplina aos jovens, subtrair a autonomia de profissionais com formação continuada na área educacional, que estão na condução da gestão escolar. O professor de Ciência Política da Unicamp, Wagner Romão disse que o Programa Nacional de Escolas Cívico-Militares foi uma infeliz ideia, iniciada num contexto permeado de programas de caráter autoritário e de retrocesso e não vê nenhuma fundamentação que sustente a militarização dentro das escolas públicas, o que afronta, inclusive a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. 

Mais de 350 municípios declararam que pretendem insistir na implantação do modelo, entretanto, em ato comemorado por educadores, de fato, o presidente Lula extinguiu o programa.