Sobre conhecer a si mesma e ser compreendida

“Ser você mesmo, simplesmente ser você mesmo, é uma experiência tão incrível e totalmente única que é difícil convencer a si mesmo de que algo tão singular acontece com todo mundo”, escreveu a filósofa Simone de Beauvoir em sua biografia.

Temos partes de nós que são desconhecidas dos outros e muitas vezes até de nós mesmos.

Somos incompreendidos porque não há ninguém exatamente como nós. Somos únicos e portanto, ser incompreendido parece fazer parte da experiência humana.

Mas é fundamental perceber que não somos os únicos incompreendidos e que na mesma medida entendemos mal os outros.

Apesar de sermos mal compreendidos somos cobrados a ser nós mesmos em um mundo que está constantemente tentando fazer de nós outras pessoas. E a forma mais comum de desespero é não ser quem você é intimamente.

O filósofo Friedrich Nietzsche perguntou: “Como podemos nos encontrar novamente? Como pode o homem conhecer a si mesmo?”

O paradoxo de conhecer a si mesmo é que nunca termina. Apesar do esforço ser infinito, isso não significa que deva ser abandonado. Assim como viver uma vida totalmente virtuosa não é realista, devemos nos esforçar para trilhar o caminho do auto conhecimento. Como muitos empreendimentos valiosos, conhecer e entender a si mesmo é uma busca sem fim.

A realidade humana está sempre se expandindo, sempre mudando. Então, no que eu me transformo  e como eu me reconheço se estou apenas aderindo aos rótulos? É importante entender em quem estamos nos tornando, é importante entender nosso passado para que possamos nos ver numa perspectiva panorâmica, é importante assinalar qual é o eu do qual estamos tentando estar cientes, que está sempre em fluxo, sempre mudando.

Não podemos eliminar nossa solidão porque não podemos  eliminar nossa singularidade. Digo isso para justificar o meu propósito de viver cem por cento o que é minha essência e tentar ser minimamente compreendida a partir das minhas particularidades, do meu tempo e imperfeições.

Quanto melhor e com mais precisão expressarmos nosso estado interior, mais as pessoas nos entenderão. Meu objetivo implícito e explícito, é me libertar das correntes da expectativa e alcançar um estado de auto-realização, onde não exista barreira entre meus objetivos, pensamentos e capacidade de me expressar.

Às vezes, as barreiras entre nós e nossos objetivos são externas. Podemos considerar que temos barreiras técnicas, logísticas, raciais, políticas, familiares ou financeiras, entre outras, que nos impedem até mesmo de iniciar nossa busca interior. Por outro lado, podemos ter barreiras mentais internas e outras ansiedades que primeiro precisamos superar para alcançar nosso estado interior ideal.

Não seguirás a multidão para fazeres o mal

Quando você adota os padrões e os valores de outra pessoa você abre mão de sua própria integridade e se torna, na medida de sua rendição, menos ser humano, escreveu Eleanor Roosevelt em um texto sobre conformidade. No entanto, a conformidade não é apenas uma estratégia de sobrevivência, mas também algo institucionalmente doutrinado em nossa cultura.

O escritor e pensador dinamarquês Soren Kierkegaard (1813 – 1855), celebrado como o primeiro verdadeiro filósofo existencialista contemplava a continuada tensão entre o indivíduo e a multidão. Sua obra, que a rigor é sobre a religião cristã e lida com temas como a fé, o desespero e a angústia, não soou diferente quando escreveu The diary of Soren Kierkegaard, um curto ensaio, onde ele considera o quanto nossa incapacidade de contemplação silenciosa das coisas e dos fatos nos separa de nosso verdadeiro eu e, em vez disso, nos leva a adotar passivamente, sem contrapontos, os ideais dos outros.

Se outras pessoas fazem isso, significa que isso está certo e eu devo fazer também. Certo? Não. Isso se chama o princípio da prova social, quando, para determinar o que é correto precisamos olhar para o que outras pessoas estão fazendo e o que necessitamos mesmo é despertar o espírito humano individual do transe da multidão.

O ponto central do ser humano é sua unidade exclusiva, cada ser humano tem uma realidade infinita, e é orgulho e arrogância de uma pessoa não respeitar a individualidade de seu semelhante. O papel vital das minorias é ser um antídoto para o pensamento arrasador e grupal da maioria, teoriza Kierkegaard levantando a questão do indivíduo e da multidão.  “A verdade está sempre com a minoria, e a minoria é sempre mais forte que a maioria, porque a minoria é geralmente formada por quem realmente tem opinião, enquanto a força da maioria é ilusória, formada pelas gangues que não têm opinião”.  

A evolução do mundo tende a mostrar a importância absoluta da categoria do indivíduo à parte da multidão, cada um é um indivíduo, que, embora viva num mundo conectado e compartilhado deve conduzir-se lado a lado da liberdade, da vontade. Entretanto impressiona perceber pessoas que se deixam guiar inertes, que reverberam discurso de ódio, sem reflexão, percepção e sentimento enquanto nem mesmo a fé está livre da dúvida.

“Não seguirás a multidão para fazeres o mal”. Êxodo 23:2

O pior analfabeto

Imagine você pegar um livro, ler e não conseguir compreender o enredo, tomar um medicamento e não entender a posologia e contra-indicações, visitar uma cidade e não ter conhecimento algum desde a sua fundação.

Dentro da premissa que uma população plenamente alfabetizada seja a base central para promover o bem-estar e uma democracia que funcione bem, o Brasil está mal colocado. No Brasil, três em cada dez brasileiros são analfabetos funcionais, pessoas incapazes de organizar suas próprias ideias para expressá-las.

Segundo a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura – UNESCO –, é considerada alfabetizada a pessoa capaz de ler e escrever pelo menos um bilhete simples no seu idioma. Dentro desse conceito, a UNESCO define analfabetos funcionais como sendo as pessoas com menos de quatro anos de estudo. Mesmo que essas pessoas saibam ler e escrever frases simples, elas não possuem discernimento necessário para absorverem informações plenas, para tomarem decisões baseadas em leituras e estudos.

No passado a alfabetização era como uma ferramenta utilizada pela burocracia dos estados, comércio e pela igreja, que através da leitura, expandiam seus poderes e exerciam controle sobre o povo. Mas a partir do século 19 a instrução, sobretudo através da leitura tornou-se habilidade obrigatória para os indivíduos serem capazes de ter controle sobre as suas vidas.

Aprender a ler e escrever é o passo inicial do saber. Mas ler, ouvir e escrever são processos mais profundos, não apenas sons, repetições e vocabulário. Serve enfim, como instrumento para proteger as pessoas da exposição e exploração.

Estudando técnicas de persuasão eleitoral constata-se que a grande mídia e profissionais de marketing político optam por adotar um formato que concilia mensagens repetidas, ingênuas e de fácil memorização visando encantar exatamente os indivíduos que não assimilam além do que ouvem e que não leem nem discutem política ao longo do ano. O analfabetismo político, uma insuficiência que atinge a sociedade brasileira em todas as classes, germina onde falta leitura, abstração, onde a manipulação lenta e gradual deforma os valores.

Sobre o analfabeto político, há um texto atribuído a Berthold Brecht, poeta e dramaturgo alemão: “O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo da vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio depende das decisões políticas.

O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia política. Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, o corrupto e lacaio dos exploradores do povo.”

Amazônia – o ‘lugar errado’ do mundo

Oque nos comove? A floresta devastada? Os povos originários? A ausência do Estado? A morte de Bruno e de Dom? pergunta a historiadora e filósofa Janice Theodoro, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP em artigo publicado essa semana.

São quatro questionamentos imbricados sobre a violência que hoje representa o Brasil muito mais do que o samba e futebol. Embora a proteção aos defensores de direitos humanos no Brasil esteja amparada pelo Decreto nº 9.937/2019, que instituiu o Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos, Comunicadores e Ambientalistas, o Brasil foi nomeado em quarto lugar como o país que mais mata ativistas ambientais no mundo. Mary Lawlor, relatora Especial das Nações Unidas, em fala sobre a situação dos defensores dos Direitos Humanos enfatizou que, no Brasil, há violência sistemática contra lideranças indígenas e defensores de direitos humanos devido ao que considera um ambiente favorável para a ação de mineiros, madeireiros, grileiros e pecuaristas.

Os relatórios também apontam que persistem os assassinatos de ativistas porque as investigações dos casos ficam travadas na esfera estadual e que a  impunidade e a ausência de responsabilização na maioria dos casos permanece como uma característica do problema da violência na Amazônia.

O cruel assassinato de Dom Phillips e Bruno Pereira remete sobretudo à história de Chico Mendes e Dorothy Stang, também assassinados na Amazônia. Chico Mendes, seringueiro no Acre, sindicalista e ativista respeitado, liderou manifestações nos anos 1970 para conter o desmatamento na Amazônia. Suas ações pela preservação, o levou a ser premiado pela ONU e assassinado no Brasil, em 1988 em frente à sua casa, em Xapuri, no Acre.

Os autores do crime, pai e filho fazendeiros planejavam transformar uma área defendida por Chico Mendes em uma grande propriedade da família. Sua morte foi uma reação a sua luta como sindicalista pelos direitos dos seringueiros e povos indígenas da Amazônia.

O poderoso Diretor Geral da Polícia Federal à época, Romeu Tuma, foi para o Acre acompanhar pessoalmente a apuração do assassinato, José Sarney, presidente, fez discurso inflamado das Nações Unidas, criou o Ibama, os assassinos, pai e filho se entregaram à polícia e foram condenados a 19 anos de prisão.

A missionária americana, naturalizada brasileira, dedicou-se por décadas a luta pela proteção ambiental e pelos direitos de pequenos trabalhadores rurais. Ameaçada de morte inúmeras vezes, a missionária dizia: “Não vou fugir nem abandonar a luta desses agricultores que estão desprotegidos no meio da floresta. Eles têm o sagrado direito a uma vida melhor numa terra onde possam viver e produzir com dignidade, sem devastar”. Relatou as ameaças ao Secretário Nacional de Direitos Humanos. Não adiantou. Dorothy foi assassinada com sete tiros. Presidente à época, Lula disse que não descansaria enquanto não prendessem os responsáveis pelo assassinato.

A ministra do Meio Ambiente, Marina Silva instalou seu gabinete no Pará, para acompanhar o desfecho do caso. Mais de cinco outros defensores dos povos originários e da floresta foram assassinados recentemente, conforme citação nos noticiários recentes.

E até aqui, qual tem sido a reação do governo brasileiro diante do brutal assassinato de Dom e Bruno? Frases desconexas como: “o inglês é mal visto na Amazônia”, “eles embarcaram numa aventura, num lugar errado e deveriam tomar cuidado”, contrastam com a mensagem enviada por Bruno a uma ONG:  “Estou indo ao Javari de novo. Tem muita coisa acontecendo lá. O garimpo está violento novamente no entorno da terra indígena, muito próximo dos isolados.  Perseguição e tentativa de intimidar não sou só eu que estou recebendo, tem muita gente junto, mas tudo isso vai passar, eu espero, tudo isso vai passar”.

Coisas inatingíveis

O Brasil é um dos países mais desiguais do mundo e por ser este um problema secular, sistêmico, sustentado pela má distribuição de renda, dorme esquecido num canto, enquanto discute-se amenidades. No senso de 2020, o IBGE apontou o Brasil na sétima posição entre os países mais desiguais do planeta.

Um país onde os 10% mais ricos detém 43% da renda nacional e tem a segunda maior concentração de renda entre os mais de 180 países. O problema, embora urgente, parece ter solução inatingível. Como escreveu Mário Quintana, “se as coisas são inatingíveis… ora! não é motivo para não quere-las…Que tristes os caminhos, se não fora a presença distante das estrelas”.

A cada campanha eleitoral que se inicia renasce a esperança de ver temas considerados direitos básicos assegurados pela Constituição serem pautas prioritárias dos candidatos, como investimento em saúde, cultura, lazer, educação, todavia continuamos andando em círculos, envoltos no mar de desigualdade, pobreza extrema, racismo, violência, desemprego, precariedade da saúde, falta de habitação, etc.

Um jornal local publicou essa semana que o alarmante número de 361 mil mato-grossenses não tem acesso à moradia digna. São cidadãos que não possuem acesso ao crédito formal, que não conseguem assumir compromisso mensal de pagamento de parcelas, porque sua condição como trabalhador é instável. Estes são os mesmos que sobrevivem com o auxílio do cartão Ser Família, da distribuição de cestas básicas, de cobertores, enfim, de soluções emergenciais, porém, paliativas.

Mesmo ratificado na Declaração Universal dos Direitos Humanos e na Constituição Federal, considerada a Constituição Cidadã, o acesso à moradia, no Brasil, em Mato Grosso, é um direito assegurado só no papel, não um programa de governo, infelizmente! Em Mato Grosso mais de 140 mil famílias vivem com renda mensal abaixo de R$ 150, o que contrasta sensivelmente com o PIB elevado do estado.

Nos boletins diários da Câmara Federal, onde dão destaques aos projetos aprovados, há pequenos e significativos avanços aqui e acolá, como a distribuição de absorventes higiênicos sobretudo para meninas de baixa renda e realização do centésimo seminário para abordar a importância da participação da mulher na política. Assuntos que perdem a relevância diante da violência praticada pelo aparato do estado na morte do jovem Genivaldo de Jesus, no estado de Sergipe, ocorrida essa semana. Ele morreu asfixiado pelo uso excessivo de spray de pimenta e gás lacrimogêneo aplicado já dentro da viatura, quando ele já estava imobilizado. Genivaldo era negro.

Assim, com episódios recorrentes do aumento da pobreza, falta de moradia digna, precariedade por falta de investimento na saúde pública, falta de oportunidades de emprego, a pandemia escancarou o péssimo quadro de desigualdade social e econômica vigente no Brasil. O cenário dos sonhos seria o governo continuar assistindo quem precisa, com uma renda mínima decente e gerar trabalho e renda para a grande maioria que quer ter sua própria capacidade de trabalho e viver exclusivamente dela e não depender de favores do Estado, que quase sempre, falha na proteção aos seus.

Não vamos esperar 150 anos

É senso comum entre a classe política a afirmação que os partidos encontram dificuldade para encontrar mulheres com perfis de candidatas. O fato é que a atividade política é, desde sempre, uma atividade predominantemente masculina e no estado de Mato Grosso a baixa representatividade é evidente. Em toda a história do parlamento estadual, apenas 13 mulheres se elegeram deputadas.

A Secretaria da Mulher da Câmara Federal, segundo a Agência Câmara de Notícias, fez levantamento após as últimas eleições gerais em 2018 e confirma que houve evolução de 52,6% no número de mulheres eleitas com relação a 2014. Um avanço inegável, mas, que ao ser traduzido em números, continua preocupante. Ao todo, em todo país, apenas 290 candidatas foram eleitas.

 percentual de mulheres eleitas foi infinitamente inferior aos 30% das candidaturas femininas registradas. De acordo com o demógrafo José Eustáquio do IBGE, se o avanço da participação feminina continuar no ritmo atual, a paridade entre os sexos nos espaços municipais demorará ainda 150 anos para ser alcançada.

A efetiva participação da mulher no processo eleitoral pode ser expressa nos números abaixo:

No ano de 2018, as mulheres eram 52,50% do eleitorado e apenas 16,11% de candidatas foram eleitas. Na última eleição, em 2020 as mulheres representavam 52,50% do eleitorado e 15,80% foram eleitas, 77 deputadas federais, 161 deputadas estaduais e 7 mulheres foram eleitas senadoras.

A Agência Patrícia Galvão, que produz dados e divulga conteúdos sobre os direitos das mulheres brasileiras, revela que para as eleições de 2022 a presença das mulheres no eleitorado chega a 53%, contra 47% dos homens, uma diferença de 8,5 milhões de eleitores.

Com dados mais otimistas do que o IBGE, diz também que, se o país não tivesse adotado o sistema de cotas e se não houver ampla insistência na construção de candidaturas femininas, apenas no ano de 2118, as mulheres alcançarão a igualdade na representação política com os homens.

Embora haja muitas mulheres engajadas em projetos sociais, em atividades de organização de equipes de campanhas, eleitas não há o suficiente, porque são preteridas no processo de escolha e muitas quando são escolhidas não são acolhidas no processo de construção de suas campanhas, até mesmo devido a problemas inerentes a sua condição feminina e com isso o Brasil fica patinando entre os países com o mais baixo percentual de cadeiras ocupadas por mulheres nos parlamentos mundo afora e vemos aqui ao lado, a Bolívia como o país que tem a maior representação das américas, de mulheres no parlamento, porque os partidos, por iniciativa própria, destinam 50% de suas vagas para as mulheres.

No ano de 2020, uma campanha veiculada pelo TSE trazia a seguinte mensagem: “Quando uma mulher tem voz ativa, ela incentiva outras a falarem também. Quando uma mulher lidera, ela incentiva outras a liderarem também. Quando uma mulher ocupa um cargo público, ela incentiva outras a ocuparem também. Quando uma mulher defende seus direitos, incentiva outras a defenderem também”.

Comporte-se como em um banquete

 Em meio aos infinitos pensamentos que percorrem nossas mentes a todo momento perdemos de vista o que mais importa. Ou seja, estar verdadeiramente em sintonia com o presente, desconectar a tagarelice e cobranças incessantes que desarmonizam nossas mentes, sem considere primeiro, o que nossa própria natureza é capaz de suportar.

Quando nos deparamos com turbulências em nossas vidas, desejamos ter um manual para nos guiar, palavra por palavra. Isso é exatamente o que é o Encheirídion ou Manual de Epicteto, um manual para a vida, escrito com apaixonada sensibilidade no século II, por Epicteto. Há 1800 anos, as palavras filosóficas de um escravo pobre e com deficiência física chamado Epicteto foram escritas pela primeira vez. Epicteto nasceu como escravo em 55 EC na atual Turquia. Continuou escravizado na casa de um secretário do imperador romano Nero.

“Das coisas existentes, algumas coisas estão sob nosso encargo e outras não. As coisas sob nosso controle são opinião, busca, desejo, repulsa e, em uma palavra, quaisquer que sejam nossas próprias ações. As coisas que não estão sob nosso controle são o corpo, as posses, a reputação, os cargos públicos e, em uma palavra, tudo o quanto não seja ação nossa”. A citação resume o que é a dicotomia de controle,  a compreensão do que está e do que não está sob nosso controle, um ensinamento filosófico para nortear a vida.

O Manual de Epicteto ensina que não são as coisas em si que perturbam as pessoas, mas os julgamentos que pesam sobre elas. O Manual exalta a liberdade que há no exercício daquilo que está sob nosso controle. Intenções e julgamentos são lindamente livres e irrestritos, por isso devemos colocar nossos esforços nos espaços abertos sobre o quais temos controle e muitas vezes não conseguimos, por falta de tempo e habilidade resolver assuntos que são encargos nossos e ainda, tendemos a nos meter sobre a maioria das coisas que não são da nossa conta. Bastaria que cada um cumprisse bem a sua função.

Uma vida de realização e felicidade é estabelecer domínio sobre as coisas que podemos controlar. “Se você depositar suas esperanças em coisas fora de seu controle, tomando para si coisas que pertencem legitimamente a outros, você estará sujeito a tropeçar, cair, sofrer e culpar deuses e homens. Mas se você focalizar sua atenção apenas no que é verdadeiramente seu interesse, e deixar para os outros o que lhes diz respeito, então você estará no comando de sua vida interior. Ninguém poderá prejudicá-lo ou impedi-lo.” — Epicteto.

O Encheirídion é um manual  cujo ponto central é a lição que embora não possamos controlar tudo o tempo todo, sempre podemos ter um controle firme sobre nossas emoções, não apenas inclui esta lição, mas aplica esse conceito de controle a assuntos mais banais, como aprender a lidar com insultos e com a opinião das pessoas sobre nós. Um ensinamento é que na vida devemos nos comportar como em um banquete; Se um prato que está sendo servido chega até você, estenda a mão, toma a sua parte disciplinadamente. A bandeija não passou por você, não a persiga. Ainda não chegou? Não se desespere de desejo, mas espera que o prato venha até você.

Lido apressadamente e fora do contexto, trechos do livro Enchiridion pode parecer uma referência vaga a nos isolarmos dentro das nossas bolhas, nos entregarmos as limitações da nossa zona de conforto. Não estão na sua bolha e na zona de conforto, suas palavras ofensivas e suas decisões mais destrutivas? Não carregas por onde andas o apego, a aspereza e o vazio desconcertante?

Epicteto completa: “Se você deseja ter paz e contentamento, libere seu apego a todas as coisas fora de seu controle. Este é o caminho da liberdade e da felicidade.”

Podemos tentar melhorar as habilidades sociais e podemos tentar despertar julgamentos e desejos que nos torne mais queridos e respeitados, mas, isso não está sob nosso controle direto. Partes do meu caráter dependem de mim, eu sou a causa das partes indesejáveis contidas nele. Este é um ponto sutil, eu sou responsável pelo meu caráter, não posso colocar a responsabilidade por quem sou nos outros ou em circunstâncias passadas. Portanto, sempre que somos impedidos, perturbados ou angustiados, nunca devemos culpar ninguém, mas apenas a nós mesmos.

É ato de uma pessoa mal educada jogar a culpa nos outros quando as coisas vão mal; aquele que deu o primeiro passo para se educar lança a culpa em si mesmo; enquanto aquele que é totalmente educado não lança culpa nem a outro nem a si mesmo.

A luta feminina por justiça, igualdade e respeito

O Presidente Jair Bolsonaro diz que as mulheres hoje estão ´praticamente´ integradas à sociedade, em evento comemorativo ao Dia Internacional das Mulheres. Bolsonaro tem uma filha, concebida numa ´fraquejada`.

Para o Presidente Bolsonaro a resposta vem de um trecho do discurso da deputada constitutinte em 1934, Carlota Pereira de Queirós: “Sou a única representante feminina nesta Assembleia e sou, como todos que aqui se encontram, uma brasileira,´ integrada´ nos destinos do seu país e identificada para sempre com seus problemas.”

O procurador-geral da República, Augusto Aras homenageou as mulheres limitando-as a seres cujos prazeres são escolher sapatos e esmaltes. Aras tem uma filha. Ao Aras não respondo porque não encontrei estudos ou textos que tratem concomitantemente de sapatos e esmaltes.

Em Mato Grosso, dois presidentes de Câmaras Municipais deram show de arrogância e violência política contra mulheres. O presidente da Câmara de Indiavaí impediu a realização de uma Sessão Solene para homenagear mulheres, requerida pela vereadora Rhillary Milleide, uma jovem de apenas 21 anos.

A vereadora não se calou, expôs o ocorrido e recebeu apoio do estado inteiro. Bem próximo dalí, na mesma região do estado de MT, no município de Araputanga, a vereadora mais votada do município, Sandra Ferreira, passou por constrangimento igual. O presidente da Câmara negou-lhe a instalação da Sessão para homenagear mulheres da cidade. Mulheres que tiveram suas prerrogativas cerceadas pela truculência masculina dos colegas.

Não são falas e atitudes ao acaso. Convenhamos, a forma como nos  expressamos, revela nossas crenças, verdades que contruímos ao largo da nossa jornada, verdades íntimas, por isso preocupa os fatos e falas que permearam as comemorações do Dia Internacional das Mulheres, logo após a indesculpável fala sexista e agressiva do tosco deputado Arthur do Val sobre as mulheres ucranianas.

Se você pessoalmente não sente nenhuma discriminação, se todos os homens ao seu redor lhe tratam como igual, dando-lhe oportunidade de boa posição, salário igual dos homens, se não a interrompem quando está falando, se não reparam enviezados o vestido justo, o decote, parabéns!  Mas o Dia Internacional da Mulher  não é sobre você individualmente, é sobre mulheres de todos os lugares, que sofrem violências em suas formas múltiplas.

É uma data que desde a sua concepção, em 1910 carrega em si o ideal pelo protagonismo feminino, quando a feminista alemã Clara Zetkin propôs a ideia do Dia Internacional das Mulheres para mais de 100 mulheres trabalhadoras representantes de 17 países, em uma Assembleia realizada na Dinamarca, ela propôs um dia para as mulheres pressionarem o poder público, privado, a sociedade, em geral por suas demandas. A conferência aprovou por unanimidade a proposta mas a ONU institucionalizou a data somente em 1975.

Vês? a luta é antiga e desde o início foi forjada para ser de cobranças de demandas, de alerta e prontidão para denunciar e avançar. E sem desconsiderar qualquer avanço, que claro, são imensuráveis e bem vindos, é preciso manter a militância sim, é preciso cotas para as candidatas mulheres ingressarem na política. O aumento da presença de mulheres eleitas se deve principalmente à adoção de cotas eleitorais de gênero.

Os ataques contra as mulheres políticas geralmente se intensificam e tornam-se mais visíveis à medida que o período eleitoral se aproxima. Então, o momento é de vigilância e solidariedade, é momento de apontar as injustiças, cobrar reparações e admitir que ainda serão necessárias muitas intervenções para que genuinamente se torne possível criar um ambiente de diálogo e respeito entre homens e mulheres.

Não há notícia boa?

Por um bom tempo o colapso econômico, o desastre ambiental e a agitação social estão praticamente garantidos. Bem vindos ao persistente mundo pandêmico!

Quase dois anos depois, parece que os indivíduos responsáveis estão vivendo março de 2020, com planos adiados, alegria e riso contidos, medo da nova face do mesmo mal que os tem desafiado desde então. Acabo de ler uma entrevista preocupante que o bilionário americano e fundador da Microsoft Bill Gates, concedeu ao jornal americano Financial Times dias atrás, onde ele, muito provavelmente baseado nas pesquisas que financia através da Bill & Melinda Gates Foundation, alerta para a possibilidade de enfrentarmos nova pandemia, com vírus tão contagioso quanto o Ômicron, porém com taxa maior de mortalidade.

Bill Gates cita médicos e cientistas e faz um chamamento aos governos e donos de grandes corporações para que doem recursos para que Organização Mundial de Saúde e outras organizações possam investir em inovação e desenvolver insumos para vacinas para oferecerem respostas mais rápidas na próxima pandemia global.  Ao Financial Times ele assegura que somente com esforços enormes e grande doação financeira será possível evitar danos e perdas maiores do que as que o mundo vem enfrentando há dois anos.

A entrevista polêmica, não causou surpresa porque no ano de 2015, Bill Gates fez uma bombástica palestra, onde alertou que o mundo enfrentaria uma grande pandemia num futuro próximo. É um exagero dizer que Bill Gates profetizou a chegada da pandemia da Covid-19.  Pela recente entrevista, ele foi duramente questionado por estar falando de um tema sobre o qual ele não tem formação mas  sabemos que a Fundação Bill & Melinda Gates faz doações de valores surpreendentemente altos para financiar pesquisas e desenvolver vacinas contra várias doenças nas populações pobres, principalmente da África. Portanto, ele deve ter informação de pesquisadores e para nosso azar, ele pode saber do que está falando.

Bill Gates tem credibilidade pela visão macro que compartilha do mundo porém,  para muitos médicos que comentaram a entrevista, o que ele disse nem chega a ser uma previsão mas a constatação de fatos simples  incontestáveis pela ciência. Surgem vírus potencialmente perigosos a cada década e uma vez a cada 50 anos, pelo menos, esse vírus se espalha e afeta vários países. Tem sido assim, porém, esse tempo entre uma pandemia e outra tem-se reduzido. A fala de Bill Gates é reforçada então, no sentido que é apenas uma questão de tempo até que um patógeno (vírus, bactérias, fungos…) capaz de causar muito mais danos do que a Covid-19 nos atinja e estabeleça um precedente muito perigoso com a raça humana.

Nos comentários há elogios, agradecimentos e muita desconfiança de que Bill Gates esteja agindo desinteressadamente. Chamado de alarmista, uns creem que ele esteja se transformando num vendedor de vacinas, outros creem que sua fortuna aumente em decorrencia do caos econômico global trazido pela pandemia. Vale também crer que seja possível um indivíduo ser bilionário, ambicioso e ainda assim, seja benevolente, pensa em fazer o bem aos outros e investir bilhões de doláres da fortuna pessoal para oferecer o mínimo acesso à saude para áreas miseráveis do mundo, é um prenúncio disso.

Parecem precauções razoáveis os preparativos pelos governos e organizações para futuras pandemias ou para a longa duração desta, porque milhares de indivíduos brasileiros, mesmo cientes de que suas ações podem levá-los a própria morte, decidiram desde dezembro retornar suas vidas às festas, férias, praias, bares, shows, onde aglomerações são inevitáveis, mesmo sob  os reiterados alertas da fácil propagação da variante Ômicron. É uma aposta compreensivelmente ruim substituir a capacidade de viver com alegria, de jantar fora, divertir-se por ficar dentro de casa, recebendo comida por aplicativo. Mas neste momento, devemos nos sacrificar pelo bem de todos, nos prepararmos cuidadosamente para o futuro porque dependendo da escolha de cada um, a vida segue ou não…

Entendo que o isolamento e as limitações estão asfixiando. É onde estamos agora. Mas onde quer que você olhe, não há vida sem pandemia. Na melhor das hipóteses, as vidas estão sendo mantidas no modo sobrevivência até que o sistema (governos, organizações, grandes corporações, bilionários, cientistas) se sobreponha ao colapso e restabeleça uma nova ordem onde possamos voltar a viver segundo nossas vontades e interesses.  

Ninguém está seguro até que todos estejam seguros

A pandemia não chegou ao fim. Não estamos liberados do uso de máscara em local fechado, temos que ser vacinados e as normas sanitárias estabelecidas continuam vigentes, embora percebamos um relaxamento desproporcional das norma de biosegurança, considerando o “inferno” que estamos vivendo há quase 2 anos. O que vou relatar agora está nas capas dos maiores jornais do mundo e no site da Organização Mundial da Saúde este final de semana; os países estão lutando para impedir a entrada de uma nova variante da covid, batizada de Ômicron, com casos confirmados na África do Sul, Bélgica, Egito e líderes globais reconhecendo o quanto estamos vulneráveis. O alerta ao mundo foi feito por cientistas sul-africanos.

A descoberta é muito recente e o rastreamento do novo vírus está sendo feito especialmente na África, em Botsuana, onde pesquisadores indicam que pode ter ocorrido uma mutação genética, com suposta capacidade do vírus se disseminar mais rapidamente do que a variante Delta, amplamente conhecida. Outra grande preocupação é saber se as vacinas até aqui produzidas e aplicadas serão eficazes para conter a propagação dessa variante, considerada altamente infecciosa e evitar mortes.

Cientistas alertam que a nova variante não precisa de muita ajuda para encontrar as dezenas de milhões de pessoas que estão desprotegidas, sem vacinação completa. E enquanto houver partes do globo com baixas taxas de vacinação, continuaremos a ter criadouros ideais para novas variantes.

Todos os lugares do mundo, das metrópoles aos vilarejos foram alcançados pela pandemia do coronavírus, porém, nem todos foram alcançados pela vacinação. Agora, a realidade de um mundo globalizado não apenas pelas relações comerciais, mas ligado também pelas misérias volta a nos assombrar. Sob muitos aspectos essa nova situação muda definitivamente nossa ideia de lugar, de segurança. Para onde tentarmos ir, não encontraremos terra segura, esta epidemia está a nos acompanhar por onde andarmos. Se os cientistas a debelam de uma forma, o vírus se transmuta e ressurge numa terra que muito provavelmente tenha sido negligenciada ou esquecida.

Para quem decidiu sair e viver a vida, virando a página da tragédia das 614 mil mortes e mais de 22 milhões de casos no país, apresentando a narrativa de que a pandemia essencialmente chegou ao fim, seria bom um recuo mental e reavivar as imagens das unidades de terapia intensiva colapsadas, os anúncios dos números assustadores de mortes diárias incluindo aí, familiares de muitos de nós.

Pode parecer uma ideia atraente acreditar que atingimos o equilíbrio, porque ansiamos voltar à vida normal, mas isso vai de encontro à realidade da existência de uma pandemia que continua latente. Existe uma realidade ruim eclodindo hoje na Africa que pode ser irradiada para muitas outras populações, inclusive a nossa.

Além disso, vale relembrar as entrevistas de cientistas, infectologistas e virologistas afirmando que  novas variantes continuariam a evoluir, mas com os cortes das verbas do fundo para a ciência, a comunidade científica brasileira não tem recurso (equipamento e reagentes) para fazer pesquisas para entender se as variantes são mais ou menos virulentas. Entretanto, virologistas mundo afora estão voando em alta velocidade para entender se as propriedades e o potencial da nova variante pode evitar a imunidade das vacinas e das pessoas que já foram infectadas.

A narrativa cruel de que “todos vamos morrer um dia e não adianta fugir dessa realidade e que temos que deixar de ser um país de maricas”, não pode se repetir, caso o monitoramento da nova variante mostre que ela tem potencial para causar surto em países com alta taxa de cobertura da vacina.