Deixo o Haiti morar em mim

Quase 6 mil quilômetros separam o Brasil do Haiti, mas é possível reconhecer em Cuiabá inúmeros “pequenos haitis”, bairros inteiros (os haitianos vivem principalmente nos bairros da região leste de Cuiabá; Bela Vista, Carumbé, Planalto, Jardim Eldorado, Novo Horizonte, Pedregal) marcados pela cultura caribenha, pela língua crioulo e prática de uma religião apoiada por ritos pagãos, com elementos africanos, o voodou. A migração haitiana para Cuiabá, que começou tímida no ano de 2011, ganhou força com o fluxo frequente de grupos cada vez maiores. Entre os anos de 2012 a 2015, passaram pelo Centro de Pastoral do Migrante mais de 3.500 haitianos. Grupos imensos já deixaram Cuiabá, devido a escassez de trabalho, mesmo assim, há um contingente considerável de haitianos vivendo na capital e no interior do estado.

Construí uma trajetória de estudos e observação espontânea sobre o Haiti e seu povo, desde o ano de 2012; faço entrevistas e registros de reuniões e conversas com e sobre os haitianos que migraram para Cuiabá e nesta semana, ao ouvir relatos de três amigos haitianos, percebí que grande parte deles vivem seus dramas entre si, invisíveis ao poder público de onde quer que estejam.

Antes conhecido como a Pérola Negra do Caribe, este país que fez história ao renascer livre, em 1804, de um levante de escravos contra a dominação francesa, tornou-se o primeiro país da América Latina a abolir a escravidão, tem vivido uma crise após a outra e resulta disso, que o ciclo da pobreza e o ciclo migratório não cessam.

Ao longo de décadas, os haitianos atravessam a fronteira para cortar cana, e fazer trabalhos pesados na República Dominicana, em uma convivência carregada de ressentimentos e tensão. Esse ambiente hostil remete-nos ao massacre de haitianos, ordenado pelo ditador dominicano Rafael Trujillo, em 1937, narrado no livro “A festa do bode”, do escritor peruano Mário Vargas Llosa, onde há uma passagem em que o ditador dominicano assiste o lançamento de haitianos vivos num determinado local do mar, povoado por tubarões.

O Haiti está no caminho de furações, terremotos e tempestades tropicais. Com população estimada em aproximadamente 11 milhões de habitantes, composta por 95% de negros, predominantemente católicos, porém o voodou é praticado por mais de 50% dos habitantes. 80% dos haitianos são de famílias pobres.

No dia 12 de janeiro de 2010, um terremoto de grau 7,3 na escala Richter, arrasou o Haiti. O tremor teve seu epicentro na capital Porto Príncipe. Esse fenômeno da natureza deixou o Haiti, o país mais pobre das Américas, com 1,5 milhão de pessoas desabrigadas, além de matar mais de 200 mil pessoas, sendo 21 delas brasileiras, entre as quais a médica Zilda Arns.

O cenário em Porto Príncipe era desesperador. Corpos em decomposição debaixo dos escombros espalhados pelas ruas, alarmante risco de contrair doenças, paralisia total por parte do governo e pouca comoção na comunidade internacional. A tempestade trouxe tudo para o centro da cidade, todo mundo estava vivendo do lado de fora de suas casas, que ameaçavam desabar; o banho era coletivo, as refeições, a dor, o luto, tudo.

Anda se recuperando do terremoto de 2010, em outubro de 2016, os haitianos foram jogados para fora de suas casas, com o rugido do Furacão Matthew, que provocou inundações e deslizamentos de terra sobre as casas, matando 877 pessoas.

Há 58 anos não se via um presidente em exercício ser assassinado nas Américas. Mas em 07 de julho de 2021, o Haiti foi surpreendido pelo assassinato do seu presidente, morto a tiros em sua própria residência, numa tramacujo mentor foi o primeiro-ministro do país.

Um mês depois, 14 de Agosto, um terremoto de magnitude 7,2 atingiu novamente o Haiti, em outra região  e deixou ao menos 304 mortos, cerca de 2 mil feridos e centenas de desaparecidos segundo as autoridades da Defesa Civil do país. Em vídeo pude ver casas destruídas, entulhos retorcidos nas ruas, corpos sendo recolhidos, agora com mais pressa, para limpar o cenário para a próxima tragédia.

O que revelou a fila dos ossos

A fila dos ossos, que falsamente escandalizou a sociedade e a mídia de Cuiabá e de todas as partes do Brasil, tem causa social, e não é natural, mas não evidenciou nenhuma situação nova, apenas escancarou uma realidade sabida e tratada com indiferença por quase todos. (Para os amigos que me leem e não moram em Cuiabá: semana passada vazou um vídeo, que viralizou, onde havia muitas pessoas numa fila, nos fundos de um açougue, esperando para ganhar ossos, para colocar na sopa).

Confirmou que o Brasil, o gigante Latino-Americano, é o 9º país mais desigual do planeta. O Ministério da Cidadania admite que 39,9 milhões de pessoas vivem na extrema pobreza no Brasil, dos quais mais de 14 milhões de família cadastradas, com renda de até R$ 89. 140 mil famílias em estado de extrema pobreza em Mato Grosso, 18 mil famílias na mesma situação em Cuiabá.

Um em cada quatro brasileiros é pobre, de acordo com a pesquisa Sínteses dos Indicadores Sociais, do IBGE e entram na conta somente os moradores de residências permanentes, ou seja, estão excluídas da pesquisa as pessoas em situação de rua, o que aumenta ainda mais o rastro da fome espalhado pelo país.

No mundo, ano de 2020, mais de 588 milhões de pessoas viviam em pobreza extrema, o que significa que aproximadamente 7,7% da população global vive nessa situação inadmissível. A maioria dessas pessoas estão envoltas numa forma de ciclo de pobreza que, sem severa intervenção externa, sobretudo dos governos, é improvável que seja quebrado.

E o Brasil está a décadas de distância de atingir um nível razoável de igualdade social. Veja você, que um trabalhador que ganha salário-mínimo levaria 19 anos para acumular a mesma quantia que um dos brasileiros mais ricos ganharia em apenas um mês. É disso que estamos falando, da disparidade cruel e secular entre as classes sociais.

E sobre classes sociais existentes, o cientista, advogado e geógrafo Milton Santos tem uma frase profunda para identificá-las. “Existem apenas duas classes sociais, a dos que não comem e a dos que não dormem com medo da revolução dos que não comem”.

A pobreza é mais do que falta de recursos. Ela se caracteriza pelo descaso dos governantes, pela corrupção que embolsa recursos que poderiam ser aplicados em políticas públicas, em ampliação dos valores pagos pelos programas de transferências de renda. Tem sido, mas não precisa ser sempre assim: desemprego, pobreza extrema e desigualdade crescente são males estruturais que assolam a complexa sociedade brasileira. São famílias vivendo à margem da sociedade, vendo o crescimento e a prosperidade passarem por eles, mas em suas vidas há apenas escassez. Não tem comida suficiente, não tem água limpa ou saneamento, não tem acesso à educação e saúde.

Entretanto, o fardo que a pobreza representa para a sociedade e os indivíduos não é apenas econômico ou físico. Medir a pobreza desta forma ignora os outros tipos de pobreza que oprimem os marginalizados. As pessoas pobres sentem agudamente sua impotência e insegurança, a vulnerabilidade e falta de dignidade. A pobreza extrema faz com que os pobres sofram emocional e espiritualmente também.

Os pobres, mais do que qualquer outro grupo, dependem de serviços públicos básicos. Melhorar o acesso à educação de qualidade e a saúde são vias imprescindíveis para se sair da pobreza, cuja extensão, pode ser percebida de outras formas além da fila dos ossos.

Medo da fome e da morte

Essa loucura que o mundo está passando é fato inusitado para todos, em todos os continentes. Não existe vacina tampouco medicamento certo para o tratamento, ninguém conhece a receita para lidar com esta gigantesca crise epidêmica e  ainda não há um modelo matemático para evitar o caos econômico. Devemos então, dentro desta realidade mundial exposta e complexa, renovar a  confiança na ciência e evitar causar mal coletivo com discursos imprudentes.

O século XXI demoniza nossas vidas, irremediavelmente! Há uma imensidão de  pessoas no mundo que vão viver essa epidemia, estão sendo contagiadas, desenvolvendo a doença e não tem prognostico de quando retomarão suas vidas. Mas todos indistintamente atravessaremos a tensão de nos saber cercados do vírus por todos os lados, com medo da transmissão em família, medo dos vizinhos, com pavor de supermercados e shoppings.

Fico indignada ao extremo ao saber de pessoas ficando sem tratamento adequado, pelo colapso inevitável do nosso sistema de saúde. Mas também é muita coisa junta num momento em que o interesse público tem que prevalecer: o país em pandemia, um presidente tresloucado.

Pode-se pensar tudo durante a longa duração do isolamento social, entretanto vale mesmo lançar o olhar para observar e compreender as relações entre a estrutura da sociedade. Recomenda-se “ninguém” ao lado, uns porém, estão largados, experimentando, em toda sua crueza, a pressão dos dias que se arrastam opacos.

A pandemia veio com envergadura global e aos poucos foi juntando os povos do mundo para compartilhar a mesma epidemia, os mesmos medos: de perder o emprego, de perder-se em dívidas, de perder a vida. A sociedade global, em parte colaborativa, em parte fechada na ignorância, espera que os testes de medicamentos sejam apresentados num tempo menor que a auto imunização propagada.

Bem meus caros, o sofrimento nos catapulta além da nossa zona de conforto, lança nossas vidas ordenadas no caos. Resta consolo lembrar que experiências de profunda tristeza podem se tornar oportunidades de transformação. Quando nossos alicerces e segurança são significativamente abalados por algo a princípio desconhecido, depois intratável, um espaço inesperado pode se abrir em nossos corações, dando-nos uma capacidade de amor e compaixão que nunca experimentamos antes.

 

 

Enxergamos aquilo que reforça nossas convicções

Cidadãos querem ser candidatos para reforçarem suas convicções políticas, o
pregador aborda o fiel baseado em suas convicções religiosas, a família educa de
acordo com suas convicções morais. A vida porém, é mais saudável num espaço de
múltiplas visões e conflitos.
Temos testemunhado a ascensão do radicalismo por todos os lados e a raiva e
polarização são as forças vitais de qualquer movimento radical. Estou sentindo as
possibilidades de diálogo cada vez mais reduzidas, a capacidade de entendimento cada
vez menos praticada, já nem mesmo tentada. Nos diálogos já não se tenta convencer,
apenas marcar divergência.
O tom em que esses ideais são proferidos me irrita infinitamente. Onde quer que
estejamos estamos construindo muros de ideais, ideologias, intolerância e não
estamos bem intencionados quando propomos diálogo. Diálogo, em tese seria
submeter minhas próprias ideias à sua experiência, sem leva-la em consideração.
Sempre queremos ser vistos como certos, sempre certos. Mas como viver a certeza
diante do pluralismo, que mais remete a tolerância e ao encorajamento de lançar-se à
perspectivas conflitantes? Será necessário aflorar muito mais do que um ajuste
ideológico para cultivarmos a coragem necessária para não erguermos cercas entre o
que pensamos e o que pensa o outro. Precisamos educar nossos corações para o
convício e tolerância.
A sociedade está marcada pela ansiedade, reina uma inabilidade de experimentar
profundamente o que nos chega, o que importa é poder descrever aos demais o que
se está fazendo, reforçar as convicções exibicionistas. Entre nossas exibições e dos
outros, há um contexto a ser explorado, diferenças econômicas e sociais gritantes,
cenários e expressões que são reflexos das realidades individuais.
É fundamental notar que nem toda realidade compartilhada é objetiva. A subjetividade
eleva os níveis da realidade que revelamos. As convicções são geradas e reforçadas
nem sempre com base em valores do conhecimento, mas permeadas pela vaidade e
pelo desmerecimento do que é o outro. Uma das razões, pelas quais se atribui
relevância e valores a objetos, como casas, roupas e carros. Estes, passam a ter
importância porque reforçam e refletem parte do que somos; a superficialidade.
Objetos reforçam convicções. Objetos dão significados a realidade. E assim, o que
temos e a forma como percebemos as coisas em nossas mentes, se tornam nossas
verdades. Sem dar ouvidos, sem perceber o outro, sem adentrar no mundo do outro,
sem sorver conhecimento numa fonte diferente. Não ser capaz de conviver com
realidade, ideais e ideologias diferentes é o que tem nos tornado arredios, arrogantes
ou ignorantes.
Baseada em suas convicções esdrúxulas, ignorando a relevância da cultura e da
leitura, a Secretária de Educação do Estado de Rondônia listou nada menos que 43
obras clássicas da literatura brasileira e as baniu das escolas públicas, por considerar,
segundo o estreitamento de sua visão sobre a educação, que os livros contém
conteúdos inadequados. Entre os autores estão Mário de Andrade, Rubem Fonseca e
Machado de Assis. Partiu ela da premissa egoísta; se eu não gosto, ninguém aqui vai
ler.

Classifico como absurda essa ideia de que só existe uma verdade, e esta é a minha.
Sobre isso o filósofo francês, Foucault disse que as verdades nunca são livres, são
sempre manipuladas e vão gerar formas de comportamentos diversos e
constrangimentos.
Todos os assuntos estão polarizados. Ou somos contra ou a favor, ou somos aliados
ou adversários ferrenhos. Assim é quando discutimos as questões climáticas, religião,
futebol, corrupção, os rumos da economia, indicações ao Oscar e a política segue esta
vertente perigosa.
Por mais que sejamos ideológicos, os opostos não precisam se odiar, tampouco
menosprezar quem tenta fazer a paz reinar entre eles. Considero conviver um
exercício de observação e aprendizado fabuloso. A troca, sem intervenção, me
completa. Valores e princípios diferentes agregam sabor a existência. Acho que nasci
com a intuição para buscar a sabedoria que está no meio.

A mão que afaga é a mesma que apedreja

Vale tudo é um tipo de esporte, considerado agressivo e violento, uma luta com poucas regras e limites em que os mais diversos golpes são aceitos, tem a duração de 15 minutos, divididos em 3 blocos chamados de round. Isso quer dizer que um sujeito tem 15 minutos para espancar o outro, tentar nocauteá-lo. Só que normalmente as lutas se dão em igualdade de peso e potencial de bater e defender-se.

O vale tudo do qual vou falar é o que tem estampado as primeiras páginas de todos os jornais locais e nacionais e tem acontecido no ringue em espaço familiar, na sala, quarto e qualquer lugar público. Sim, tem tido audiência! A luta desigual em força física, tem acontecido inclusive, na frente das crianças e muitas vezes tem a duração de uma noite toda.

O que está acontecendo com os homens? A mão que afaga tem sido a mesma mão que espanca impiedosamente.

Temos lido sobre sessões de tortura, mordidas que arrancaram pedaços da face e dos lábios, casas incendiadas, animais de estimação sendo envenenados. Como pode o amor transformar-se em ódio brutal, como pode compartilhar uma gestação e depois matar o bebê apunhalado com chave de fendas por retaliação ao fim do relacionamento?

O que tem cegado os homens, que explodem em fúria, espancam, atiram, queimam, arrancam coração? Como crer que tenham sido humanos um dia?

O fim, não apenas de um relacionamento mas de tudo na vida é coisa certa, não perceberam ainda?

A ignorância de depositar no outro a responsabilidade sobre a própria felicidade e a confiança de que as coisas vão se ajeitar, de que a violência não vai se repetir tem resultado em mortes absurdas.

Os indomáveis estão à solta, os alvos estão ao alcance e vulneráveis e imagino o medo que tem permeado algumas relações, sobretudo quando baixa a noite.

Não estamos conseguindo superar a violência praticada por homens contra mulheres, na qual o agressor e vítima estão intimamente ligados à explicação dessa violência, quase sempre perpetrada pelos homens para manter o controle e o domínio sobre “sua” mulher. O fato é que, geralmente, as mulheres estão emocionalmente e economicamente envolvidas com seus agressores.

Torna-se cada vez mais evidente que os abusos cometidos contra crianças e adolescentes é tanto mais comum quanto mais severo nos segundo casamentos, com a figura dos padrastos. Mas a agressão contra as mulheres está acontecendo em toda esfera de relacionamentos.

Temos percebido a justiça mais ágil, os assassinos logo presos, mas nas manchetes do dia seguinte um novo rosto com marcas roxas estampará as capas dos jornais. Mais um assassino será preso e assim tem sido cumprido o círculo de sonhos, casamentos filhos, espancamentos e mortes.

Boas práticas e tentativas de diminuir a violência têm acontecido nos Conselho, nos Governos, com adoção de políticas públicas para prevenção e combate à violência, porém todas tem sido ineficientes no sentido literal de seus propósitos, inclusive a ativista Maria da Penha, que cede seu nome à Lei de proteção à mulher, criticou a Lei num evento recente, justamente porque não tem, com efeito, conseguido proteger as mulheres.

Seja como quer aparecer

Tenho consciência de mim. Não de como apareço para mim mesma ou para os outros, mas do que realmente sou. Não deve haver nenhuma linha separando o que você é e o que você quer aparentar. As paixões e emoções da alma não devem ficar guardadas na monótona mesmice do mundo das aparências. É saudável deixar transparecer o que vai no mundo interior, onde defeitos e virtudes buscam sobressair.

A maioria das pessoas depende exclusivamente do mundo externo para o seu bem-estar emocional, ou melhor, sua felicidade (ou falta dela); depende inteiramente do mundo físico e de suas constantes mudanças, que inclui todas as suas manifestações culturais e sociais nas quais nos tornamos coletivamente tão investidos.

Em outras palavras, o senso de felicidade de muitas pessoas depende do impossível – manter a permanência daquilo que é inerentemente impermanente.

Acreditam que o que mais importa é o que está fora de nós e, por causa disso, o senso de quem são – o senso interno de si – permanece separado do resto da realidade. É o que podemos chamar de aparência não autêntica.

Não há beleza no que é falso. Não há beleza no caminho tortuoso que leva a criação da realidade paralela. Embora, as mídias sociais tenham sido utilizadas para forjar perfis falsos, para expor fatos existentes apenas no mundo imaginário e criativo de quem inventa para si, uma história que nunca viveu, seria mais fácil utilizá-las para dar visibilidade ao mundo interior, para louvar os benefícios de uma vida justa e verdadeira.

Muitas narrativas são inventadas para criar encanto, muitas personalidades são deturpadas para causar emoção. Mas o interior vazio, a superficialidade das atitudes são colocadas à prova sempre que se lê com cuidado certos artigos e posts.

Procure conhecer a verdade, leia nas entrelinhas, analise os olhares perdidos num mundo de vaidades e falsidades e busca deliberada por elogios e afagos. No silêncio que povoa o mundo interior é que reside a verdade, alí perceptível, à mostra às possibilidades de se recriar a realidade, baseada na mais pura idoneidade.

Seja o que você é. Permita que sua essência se destaque, que vagarosamente suas verdades cubram as superficialidades e que suas palavras e atitudes sejam o retrato perfeito do que lhe vai na alma.

Não afasta-te do teu íntimo para agradar os outros. Faça escolhas inspiradas para agradar a si mesmo. O fracasso e o sucesso dependem da sustentação da sua imagem apresentada quando se está sozinho. A aparência falsa, que de certa forma, exige telespectadores, uma hora dissolve-se, inevitavelmente!

Esta ignorância da falta de verdade mantém você preso a um ciclo de sofrimento, que gira continuamente em torno do prazer porém, o certo é despertar do sonho para permanecer na verdadeira beleza e felicidade de tudo que é real.

Hannah Arendt diz que em todos os termos, onde quer que haja uma pluralidade de seres vivos, há diferença, e essa diferença não é percebida do lado de fora, mas é inerente a cada ente

Insights dos críticos de tudo

Todas as vezes que percebo um tema assumir a dimensão de incitar o recrudescimento do ódio, das campanhas para promover o medo, a falta de respeito à individualidade e a liberdade de expressão, tenho certeza que somos todos afetados por discussões estéreis e histéricas e nossos posicionamentos declarados recebem interferências indevidas, falsamente moralistas e disso resulta a clareza que não vivemos num país estável e que a grande maioria da população não tem uma visão realista da política, dos desdobramentos do processo político e da importância da participação popular.

Li uma entrevista do filósofo Renato Janine onde ele relembra um comentário feito por Carlos Lacerda acerca do marechal Castelo Branco. Disse Lacerda que o marechal parecia um santo da rua Conde Lages.

Uma rua que concentrava muitas casas de prostituição no Rio de Janeiro. Lacerda explicou: Todos os bordéis da rua tinham um santo na sala de entrada. E lá ficava o santo, assistindo inerte todas as safadezas que faziam na frente dele.

Assim estamos nós, feito o santo.

Não devemos jamais ter medo ou nos eximir da responsabilidade de rebater, debater e argumentar sobre assuntos que entendemos, sem as afrontas que tem perpassado algumas conversas recentes.

É igualmente inaceitável a intolerância, o preconceito que ainda dão o tom das discussões. Afinal, não se pode falar sobre política, pontuar as divergências sem ser arrogante ou ficar na defensiva?

O jogo nervoso de desfocar os acontecimentos reais, muitas vezes, se confunde com os despojos de um coração ferido. Não se pode discordar, contra-argumentar e continuar a amizade?

Não se atinge objetivos largos, politicamente falando, desprezando os estudos, as pesquisas, as convenções e a imprensa. A especulação em muitas searas não tem um transbordamento meramente negativo, mas ultimamente e falando de Brasil os críticos de tudo se envolvem com insistência nos problemas econômicos, políticos e afetivos da nação, apresentando suas intuições e insights que transcendem todas as lógicas do estado e dos indivíduos razoavelmente politizados e engajados.

Não podemos limitar as discussões por medo de sermos inapropriados e alijados de grupos de convivência. As divergências rejuvenescem as ideias sobretudo em um tempo em que a maioria dos discursos políticos são, na melhor das hipóteses, decorativos.

Difícil é encontrar soluções de longo prazo para endireitar as instituições que dispomos e a mentalidade de um povo que preocupa-se no dia-a-dia com banalidades efêmeras, palpita sobre política enquanto assiste a “centésima primeira” edição do Big Brother ou perde tempo postando fotos e falando do Brasil que não querem.

Você é uma pessoa horrível

A quem tamanha desordem pode interessar? O economista Luiz Gonzaga Beluzzo disse, numa entrevista recente, que há no Brasil um clima social típico de uma sociedade dilacerada.

Uma democracia habitável não se justifica apenas porque o país tem eleições livres. Não, isso não significa um completo modo de vida democrática e a democracia é enfraquecida sobretudo quando caímos na recorrência obtusa de levar no cinismo ou brincadeira os indivíduos que se expressam de maneira que pode ser ofensiva ou desprezível.

Há discursos que não se percebe a intencionalidade, a comunicação não funciona e termina em bate-boca como ocorreu semana passada no Supremo Tribunal Federal, entre os ministros Gilmar Mendes e Luís Roberto Barroso.

No ápice do descontrole de ambos, Barroso apropria-se de uma frase que ficou famosa durante uma discussão entre dois analistas políticos da rede americana CNN, logo após a vitória de Donald Trump. Hillary Clinton não sentiu-se confortável a aparecer na TV e dar entrevista logo após a derrota e os analistas Van Jones e Corey Lewandowski falavam e se posicionavam a favor e contra, respectivamente, essa decisão de Hillary.

Corey criticava Hillary contundentemente e tentava induzir a mídia e telespectadores a destruírem-na. Van Jones, mais estratégico tentava atenuar o fato, entendendo e respeitando que a candidata derrotada falaria na manhã seguinte e isso não faria diferença alguma.

Corey não se dava por satisfeito, interrompia os comentários de Van Jones, quando este, por fim disse-lhe: ”você é uma pessoa horrível, me deixa terminar de falar”. O ministro Barroso incrementou a frase e disse? “ Você é uma pessoa horrível, uma mistura do mal com atraso e pitadas de psicopatia”.

O âncora da CNN tentou conter os comentaristas várias vezes, mas faltou-lhe a mesma autoridade que faltou a presidente do Supremo, ministra Carmen Lúcia, que desde que assumiu nunca foi capaz de controlar os famosos rasgos de impropérios que tem sido pronunciados na mais alta corte da república e com isso frequentemente os ministros não se atem à pauta e de quebra esnobam-se uns aos outros.

 Não tem outro nome esse circo todo senão degradação da instituição, que mesmo em via de proceder um julgamento sério e de interesse da nação, deu ouvidos ao ministro Marco Aurélio quando este retirou um bilhete aéreo do bolso, exibiu-o para mostrar que não poderia prosseguir na sessão por conta de inadiável compromisso no Rio de Janeiro, onde mora e para onde viaja toda semana.Participaria de um colóquio da Academia Brasileira de Direito do Trabalho. Mas, argumentando firmemente dobrou a presidente e aos demais ministros a adiar o julgamento do habeas corpus do presidente Lula.

O julgamento poderia continuar sem ele, mas à aquela altura, ela, a presidente Carmen Lúcia não presidia mais nada.

Dos dois fatos fica a lição: pessoas horríveis são birrentas, centralizam as conversas e atenções em si, orgulham-se demasiadamente de suas próprias realizações e podem ser democratas ou republicanas, contra ou a favor da concessão do habeas corpus e claro, interrompem as outras enquanto estas falam.

E para quem delirou com o dissenso entre os ministros, saiba que há pelo menos 3 lojas online vendendo camisetas com a célebre frase: “Você é uma pessoa horrível”.

Racismo de classe

O homem livre é o homem consciente de suas possibilidades e de seus limites em sua relação com os outros. Não é apenas pela superação da ignorância, mas também pelo agir pautado pelo zelo coletivo, que nos tornamos livres e responsáveis enquanto cidadãos.

A rigor não precisamos descer ao nível de sermos indiferentes à vida alheia, assim como não devemos nos apropriar da vida alheia no sentido do que é importante ou insignificante. Na justa medida devemos ser espectadores, imparciais quanto aos julgamentos e estimular que as diferenças e valores venham a prevalecer para nos tornar cada vez mais, seres singulares, com gosto e estilos de vida próprios, seja excêntrico, sofisticado, “farofeiro” ou moderado.

Nós somos capazes de nos alegrar com o que acontece com os outros, entretanto, estamos navegando na estreiteza da mente, que faz com que olhemos para todas as experiências a partir das nossas próprias. Estamos exercendo vigilância aterrorizadora nas vidas alheias, para expor e perpetuar nossas diferenças sociais e reafirmar nosso estilo de vida sobre o do outro.

Transferimos para as fotos a busca das confirmações que precisamos para partir para os atos deliberados de bisbilhotice nas digitais sociais, que foram deixadas nos destinos, nas roupas, comida, praias e hotéis por onde passaram nossos amigos e conhecidos.

Em que pese termos tantas questões prementes e profundas para discutir, no mundo descortinado pelas mídias sociais não há vestígios de preocupação nem satisfação de uns pela felicidade dos outros. O que há num plano minimamente civilizado, são comparações, comentários desmerecedores, julgamentos preconceituosos e uma pontinha de inveja e deboche e assim no exercício vulgar de rotular os chiques e os bregas, os grupos foram passando a foto de um político com a família e amigos, comentando “com tantos lugares para ir, viu onde foram passar as férias?”

É impressionante como somos denunciados, estigmatizados, categorizados e julgados pelo estilo de vida que exibimos. Isso fica mais evidenciado no período pós final de ano, onde dado aos excessos de bebidas, gastos e exposição das superficialidades, ouvimos e às vezes fazemos coro aos comentários sobre como as pessoas que ascendem social e economicamente, escolhem gastar seu dinheiro.

Se de um lado temos as escolhas consideradas mal inspiradas por uns, do outro confirma-se o racismo de classe, denotado na arrogância dos que pensam que tudo tem que estar no seu campo de interesse e só merecem ascender na vida quem tem planos para as frivolidades do mundo ilusório.

Quando vamos aprender a cuidar de nossas próprias vidas e parar de nos desestruturar dentro de papéis conflituosos que só servem para desviar o foco das ações centrais?

Vamos falar do assédio?

O conceito de assédio vem se expandindo nos últimos anos. Desde uma cantada constrangedora na rua, enviar mensagem direta de conotação sexual, chantagem no ambiente de trabalho, abuso familiar, ataque inesperado de conhecidos ou amigos até chegar a acontecimentos agressivos e violentos. As opções são muitas.

É verdade que contar a história pode ajudar outras vítimas a não se sentir tão sozinhas e fazer com que os outros compreendam a amplitude e a profundidade do problema.

O jornal The New York Times e a revista New Yorker publicaram reportagens com relatos e documentos indicando que Harvey Weinstein, um dos executivos mais poderosos de Hollywood, havia estuprado três mulheres e praticado assédio sexual repetidamente durante quase 30 anos. Há casos que datam de 1980.

Na rede social Twitter, atrizes, que foram assediadas por este diretor, foram encorajadas a admitir o fato publicamente e encorajaram outras mulheres que tenham sido assediadas sexualmente por qualquer homem a escrever “me too” (eu também) no comentário.

A lista cresceu assustadoramente. Desde então, dezenas estrelas do cinema, incluindo atrizes como Angelina Jolie e Gwyneth Paltrow, vieram a público contar como o produtor se aproveitou da sua posição para assediá-las.

Como resultado da avalanche de denúncias, o diretor foi banido da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas e deve enfrentar um tumultuado processo na Justiça americana. Este final de semana outra figura de Hollywood, o escritor e diretor James Toback é acusado de usar sua posição para assediar mulheres.

No Brasil a Mira Filmes lançou ano passado o documentário “Precisamos Falar do Assédio”, dirigido por Paula Sacchetta. O trabalho é o resultado da sistematização de depoimentos colhidos numa van que percorreu as ruas das zonas nobres e pobres de São Paulo e Rio de Janeiro, ouvindo desabafos femininos.

As mulheres que não quiseram mostrar o rosto usaram máscara para ser filmadas. Impressionante como o documentário dá a sensação de estarmos sentadas frente à frente com as mulheres que fazem as narrativas.

Os inúmeros relatos são tão chocantes quantos os das vítimas dos diretores e produtores americanos. E embora as mulheres sejam incentivadas a denunciar abertamente, a maioria prefere o silêncio por medo de se expor e não conseguir trabalho, de perder o provedor da casa, medo de vingança, além disso, reconhecemos que há certo conservadorismo para sustentar discussões acerca do tema em espaços públicos.

E nada realmente vai mudar até que as consequências penais e sociais para os homens sejam severamente sentidas na pele deles. A cada hora 11 mulheres são vítimas de estupro no Brasil e incontáveis outras sofrem algum tipo de assédio e certamente entre os fatores que contribuem para isso, está o fato de que a grande maioria dessas ocorrências não vêm a público.

Saudemos a bravura das mulheres que se manifestaram, porque a exploração exercida através do poder acontece em toda parte e esse comportamento é inaceitável.