O investimento na prevenção da violência contra a mulher deve ter alta prioridade

A violência de gênero é um problema de longa data no Brasil e diante dos níveis alarmantes, sobretudo no estado, governo e população estão investindo esforço, pesquisas e políticas públicas para melhorar a aplicação das punições, mas, devem concentrar esforços para investigar e implantar ações que visem coibir a violência. Precisamos desesperadamente, aí incluo todos, fazer mais no que diz respeito à formulação, implementação e monitoramento de políticas eficazes de prevenção e proteção às mulheres, porque apesar do debate público sobre papéis de gênero e violência de gênero, não houve uma redução significativa no número de vítimas, nem, em termos gerais, aumentou o número de pessoas que buscaram ajuda.

No Senado Federal, parte da programação do ‘agosto lilás’ aconteceu uma sessão temática no Plenário, com representantes do parlamento, governo e sociedade civil para debater caminhos para além das leis específicas, como a Lei Maria da Penha e Lei do Feminicídio que consigam coibir a violência dentro dos lares. O debate reforçou que toda possibilidade de prevenção ao feminicídio passa pela elevação da condição social da mulher, com a participação maior de mulheres nos espaços econômicos de decisão, para retirá-las da posição subalterna que são colocadas nos relacionamentos.

Enquanto isso não ocorre, o relatório do Fórum Brasileiro de Segurança Pública divulgado em 2025, mostram com grande preocupação o aumento das taxas de violência e assassinato de mulheres no Brasil, onde uma pesquisa revelou que quase metade das mulheres brasileiras, cerca de 40,7%  com mais de 16 anos sofreram violência por parte de um parceiro ou ex-parceiro, a maioria da violência, 60 desses casos, aconteceram na casa da vítima casa, muitas na frente de familiares, incluindo crianças. A pesquisa mostra que o sentimento das mulheres agredidas é de solidão, abandono e desconfiança no estado para garantir a justiça e o recomeço de uma nova vida.

O Observatório Caliandra, ligado ao Ministério Público Estadual registrou 36 feminicídios em Mato Grosso até o momento. Os últimos dias foram críticos para as mulheres no estado: Larissa Bezerra teve a casa incendiada pelo ex-parceiro; a violência política mostrou o detestável vereador Gilson chamando prefeita Iraci Ferreira de ‘cachorra viciada’ na tribuna da Câmara Municipal; um homem assassinou a ex-namorada  Ana Paula Abreu com 18 facadas e enviou fotos para os familiares dela e para o próprio irmão; a estudante Jacyra Grampola foi morta pelo ex-namorado em Sorriso; a jornalista  Angélica Gomes foi agredida em plena rua, na frente de testemunhas, quando cobria um acidente de trânsito; encerrando a semana, a servidora pública Makiane Brito foi assassinada pelo ex-namorado, dentro de casa, na frente da mãe e da filha.

O Instituto Natura, o Senado Federal e a Associação Gênero e Número criaram uma plataforma e atualizaram dados do Mapa Nacional da Violência de Gênero, que mostram que o desafio continua gigantesco e não há sinal que indique a diminuição da violência contra a mulher. O estudo revela que a maioria dos casos de feminicídio são crimes que poderiam ser evitados se como sociedade, falássemos mais abertamente sobre o assunto. A dor causada pela violência é silenciosa, muitos casos não são denunciados por medo ou vergonha. A plataforma reforça a responsabilidade de todos, no sentido de intervir e questionar falas e atitudes ofensivas e agressivas ou subjetivas dirigidas às mulheres, indicando controle, ciúme excessivo e isolamento. É preciso dar a esses comportamentos, o nome real: violência.

Adianta acirrar a discussão em torno da prisão perpétua e pena de morte para o agressor ou assassino da mulher se não fazemos valer as penas vigentes no código penal? A prisão perpétua é proibida no Brasil pelo art. 5º, inciso XLVII, da Constituição Federal de 1988: “não haverá penas de caráter perpétuo”. Esse artigo faz parte dos núcleos protegidos pelas cláusulas pétreas (que não podem ser alterados) e isso significa que para a prisão perpétua e pena de morte fossem permitidos no Brasil, seria necessário romper a ordem constitucional, convocar uma Assembleia Constituinte e escrever uma nova Constituição. Impossível? Não, improvável. Ainda assim estaremos falando do assassino enquanto a pauta prioritária deve ser a proteção, a prevenção da violência e do crime contra a mulher.   

Se o afobado come cru, o atrasado perde o trem

Há quem diga que está cedo para articulações políticas, pesquisas, tomadas de decisões visando as próximas eleições. Luiz Carlos Mendonça de Barros, engenheiro e economista, foi presidente do BNDES e ministro das Comunicações do governo FHC, escreveu uma belíssima crônica, em 2003, respondendo a uma comunicação do governo recém-eleito de Lula, que pedia calma e dizia que a política econômica havia acabado de assumir e estava sendo cobrada de forma afobada e que ‘o afobado come cru’. Mendonça de Barros não perdoou o uso de uma metáfora popular na fala do presidente. Escreveu que a sociedade e os que entendem a função de presidente da República esperam uma certa liturgia na comunicação do governo e completou, recorrendo também a sabedoria popular; se o ‘afobado come cru’, o ‘atrasado perde o trem’.

Discutiam ali, o orçamento, liquidez monetária, controle de inflação, rentabilidade de investimentos e Mendonça de Barros escreveu que o excesso de confiança de Lula na qualidade de sua gestão era perigoso e ingênuo, e, novamente recorreu a uma metáfora popular, dizendo que ‘é preciso de alma e porrete’ para enfrentar os descompassos da economia. As metáforas utilizadas na crônica encaixam perfeitamente no momento político que vivemos, há pouco mais de um ano das eleições. É preferível comer cru a perder o trem e é igualmente preferível se lançar transparente e corajosamente nas articulações do que alimentar recuo especulativo e frouxidão.

Em momentos de crise de confiança na política, seja por motivação interna ou externa, quando se pensa no Brasil de hoje em dia e nas próximas eleições, poucos se sentem tranquilos. Estamos transitando entre os extremos, com o volume emocional ligado muito alto. Nos dividimos entre; animados ou desanimados; com medo ou com confiança no futuro; triste ou feliz; seguro ou inseguro; com mais medo ou com mais esperança. A violência simbólica da discussão política presencial ou, mas mídias sociais é creditada as campanhas publicitárias e equipes de mídia dos candidatos, segundo o psicólogo brasiliense Gilberto Godoy, para quem as eleições têm sido dominadas por raiva, medo e discursos emocionais, onde um é bom, e o outro é mau. Um presta, e o outro não presta.

Por essa razão não é cedo para explorar e massificar nomes que em lugar do medo, possam transmitir a esperança. Não é cedo para afinar o discurso que, em vez da divisão, do comportamento radical e intolerante pregue a promoção do bem-estar social, da construção de casas, escolas, creches, hospitais. Não é cedo para mostrar aos 2,6 milhões de eleitores que você não é só retórica, que você, candidato, discute ideias e planos e não apenas emoções, impressões e fantasias.

Em Cuiabá, semana passada, o presidente do Supremo Tribunal Federal, Ministro Luís Roberto Barroso, lembrou que a polarização entre grupos políticos rivais sempre tensionou as eleições no Brasil; nos anos 1930 a 1964, o período de Getúlio Vargas trouxe polarização entre o PTB e UDN, com o PSD, tentando, sem sucesso, a conciliação. No período mais recente, houve a polarização entre o PT e PSDB e agora PT e PL (ou bolsonarismo). Observamos que a polarização, contudo, se deu muito mais em torno de figuras políticas fortes, como, Vargas, Lula e Bolsonaro do que em torno de conteúdo e pautas partidárias.

A cura é falar mais e mais sobre política para melhorar a qualidade do voto, para assegurar que as divergências não reproduzam radicalismos, ódios ou paixões violentas, para que, enfim, as relações voltam a ser reconstruídas com equilíbrio e civilizadamente.

Exposição nenhuma é conteúdo fofo

Não existe um ‘influenciador’ que eu siga e da grande maioria nunca ouvi falar. Considero, no verbo presente, uma perda de tempo. Ao conversar com meu neto de 11 anos, ele disse que conhece e assiste vídeos do Felca e nunca havia ouvido falar em Hytalo tampouco em Kamilinha. Alívio! Após o vídeo denúncia vir à tona, me informei demoradamente sobre o ocorrido, sobretudo lendo especialistas e governo dada a seriedade e gravidade do tema exposto. Nas mídias, há tempos, o pediatra brasileiro Daniel Becker, palestrante, consultor do UNICEF e da OMS, docente da Universidade Federal do Rio de Janeiro, tem sido uma voz ativa nas denúncias e na defesa do desenvolvimento infantil saudável e tem denunciado que crianças pobres têm sido manipuladas para monetizar conteúdos perniciosos.

Mas, quem prestou atenção nos gritos e argumentos do Dr. Becker pela aprovação do Projeto de Lei 2628/2022, de autoria do Senador Alessandro Vieira, que dispõe sobre a proteção de crianças e adolescentes em ambientes digitais? O Senado fez o trabalho cuidadoso, com apoio da sociedade civil, das entidades de proteção à criança. A polarização absurda, que se sobrepõe a tudo neste país, fez com que parlamentares de vários partidos conseguissem evitar que o PL 2628/2022 fosse votado, temendo que sua aprovação calasse seus discursos de ódio e desinformação na internet.

O Dr. Becker tem lutado, arrebanhado apoios para a aprovação do Projeto de Lei que regulamenta as redes sociais, visando auxiliar no combate a esse tipo de exposição e exploração. Diz ele que o Projeto de Lei foi amplamente discutido com especialistas, ele próprio participou e orientou alguns trechos, porque teme que os riscos trazidos pela internet, de modo geral, sejam completamente naturalizados e sejam tratados como parte inevitável da vida moderna. A pré-adolescente que foi submetida a realizar uma cirurgia para colocar prótese nas mamas, o rebolado para impressionar homens adultos babões, é apenas uma das formas de adultização, que junto a outras são como uma amputação da infância, a extirpação de um período da vida, que geralmente dura 12 anos.

Agora, a pergunta incômoda: ‘Por que não ouviram o Dr. Daniel? Especialista sério, pediatra, pesquisador, professor, que tem colocado suas falas de forma incisiva, às vezes acusatórias aos parlamentares que não se preocupam em pautar o Projeto de Lei 2628/2022, que regulamenta o mundo digital e seus conteúdos nocivos, aos pais, que tudo consentem, ora por comodismo, outra por vantagens financeiras e quase nunca por ignorância. Porque as mídias não ampliaram a voz do Dr. Daniel Becker, assim como fizeram com esse moço que denunciou?  O ‘influenciador’ Felca, agiu pelo bem, prestou um serviço de utilidade pública, tem mérito, claro, mas percebe-se que ele travou uma guerra direta com nome e sobrenome para atingir outro ‘influenciador’, que já deveria ter sido observado, denunciado e tirado do ar, se o Projeto de Lei tivesse sido aprovado na Câmara dos Deputados.

Falhamos todos. Lamentavelmente a sociedade, as mídias, a classe política e o governo estão optando por dar credibilidade a quem ganha mais ‘likes’ nos seus vídeos, sejam de denúncias ou outra abordagem qualquer. Numa mesma rede social, dr. Daniel tem apenas 1 milhão e oitocentos mil seguidores, o ‘influenciador’ tem mais de 17 milhões.

Agora, muitos pegarão carona no vídeo, que acumula mais de 36 milhões de visualizações, o PL deve ser pautado e votado. Enquanto isso, resta perguntar onde andam os Conselheiros Tutelares, os guardadores do Estatuto da Criança e do Adolescente, que não se levantaram sequer para questionar a hipocrisia das redes sociais, que dizem não permitir contas de crianças abaixo de 13 anos, mas abre-lhes a participação literal em contas alheias, de conteúdo notadamente exploratório sexual e financeiramente. Li o comentário de um pai que administra a conta de conteúdo comportado da filha, embora seja uma criança de 10 anos. Ele diz que todos os dias, atinge o limite de bloqueios de homens adultos pervertidos, enviando mensagens inapropriadas para a criança e ainda assim, mantém a conta ativa.

Ao falarmos da exposição de crianças na internet, não nos limitemos a criticar os pobres. Cantores famosos postam a rotina de suas crianças, dirigindo carros, fazendo dancinhas, em momentos constrangedores ou íntimos de birras e choros atrás de engajamento. Isso é exploração. No esquecido Estatuto da Criança e do Adolescente reza que a criança deve ter protegida sua dignidade, a imagem e o desenvolvimento.

Pacificação política

Uma frase importante sobre a crise institucional ocorrida nesta semana foi escrita numa manifestação, inclusiva muito criticada da Ordem dos Advogados do Brasil, mas salvo a frase: “Não se constrói democracia sabotando o próprio país. Ataques à soberania nacional são inadmissíveis. A liberdade de expressão é um valor constitucional, mas não pode servir de escudo para práticas antidemocráticas.” Sabotagem contra o Brasil tem ocorrido há certo tempo, quando o delírio e paixão injustificável pelos Estados Unidos, levou um deputado brasileiro a tramar contra a soberania e interesses nacionais e recentemente, nesta semana, a sabotagem ganhou o contorno de indisciplina com parlamentares amotinados na Câmara e no Senado, durante dois dias, desmoralizaram suas próprias lutas e pautas devido ao formato de circo imposto momentaneamente nos plenários, quando tentaram impor negociações de interesses pessoalizados, atrapalhando votações de interesse do povo.

Quando finalmente o presidente da Câmara, Hugo Mota conseguiu oficialmente restabelecer os trabalhos, ainda no meio do tumulto, fez um pronunciamento: “Nós não podemos negociar a nossa democracia, o nosso país, que tem que estar sempre em primeiro lugar, e não deixarmos que projetos individuais, projetos pessoais ou até projetos eleitorais possam estar à frente daquilo que é maior do que todos nós, que é o nosso povo, que é a nossa população que tanto precisa das nossas decisões.”

Em todos os aspectos, a democracia não é um regime onde tudo é permitido. A democracia envolve limites e a submissão da lei. E apesar da obstrução de pauta ser um instrumento democrático previsto no regimento das duas Casas, a presepada sem precedentes, que paralisou o parlamento, foi pautada pelo excesso, falta de educação, num momento em que todos os parlamentares deveriam estar negociando acordos para pacificar o Brasil. Estamos todos, eleitores, sociólogos, cientistas políticos, exaustos desse clima desequilibrado, com diálogos interrompidos por ofensas e ataques de políticos nacionais, em tentativas de abalar a soberania nacional.

O que o governo de muitos países e do Brasil tem reforçado é que seus países são soberanos e nós deveríamos nos orgulhar e lutar para que a independência do nosso país seja uma pauta inegociável. As tentativas de desmoralizar as instituições tem um único propósito, negociar e pressionar para livrar o ex-presidente das medidas cautelares impostas pela justiça e garantir continuidade do mandato de um parlamentar que há quase cinco meses não comparece ao trabalho e se autoexilou em outro país. A ausência sem justificativa a um terço das sessões é uma das hipóteses que prevê perda de mandato.

Caminhamos para eleições gerais daqui há um ano, com demandas urgentes em nosso estado, como a violência brutal contra a mulher, o crescimento e dominação das facções criminosas, a conclusão da obra de duplicação da BR-163, que todos os dias registra acidentes com vítimas fatais, como a colisão frontal entre uma carreta e ônibus, que deixou 11 mortos no local e vários feridos, inclusive em estado grave. Não podemos ficar aqui esticando a corda da polarização, torcendo contra a vitalidade da democracia brasileira e agindo contra nossos mercados comerciais, aplaudindo medidas de retaliação e intromissão estrangeira. O mercado caça jeito, novos parceiros surgem, como uma companhia aérea da Dinamarca que comprou 45 jatos da Embraer e pediu preferência para comprar mais 10, companhia aérea mexicana adquiriu 20 aeronaves brasileiras, a China está ampliando significativamente as importações do café brasileiro e autorizou recentemente 183 novas empresas brasileiras a exportar café para o país, além disso, vários itens que estavam sobretaxados tiveram as tarifas revistas e retiradas.

Portanto, a vida segue, a diplomacia opera dentro de suas lógicas e devemos parar de superestimar a hostilidade e recorrência à violência política e organização de motins desrespeitosos e violentos, que tiveram que ser negociados com pulso firme pelas lideranças partidárias.

O que nós queremos é que o debate seja restabelecido.

O amor não pode ser perigo mortal

Se o amor muitas vezes machuca, não dá para mensurar a dor que o ódio é capaz de provocar. Em tempo em que predomina a aspereza, a necessidade de machucar, de diminuir e ofender, o espetáculo da grosseria, da violência está no meio das discussões, novamente e sempre. Não temos controle sobre o outro, embora acreditemos que conhecemos profundamente as pessoas com quem nos relacionamos, a quem atribuímos expectativa sobre nossa felicidade. O amor de quem te ama não está sobre seu controle. Ame-o de volta, mas concentre-se nas coisas que estão sob seu controle. Assim, se perder o amor, não perderá a identidade.

A raiva é uma emoção destrutiva, mas causa raiva e repulsa contar os socos, olhar para o rosto desfigurado de uma jovem mulher que foi brutalmente espancada, sabendo o namorado que a cena brutal estava sendo filmada e poderia ser usada contra ele. Logo no dia seguinte, aqui perto, tiros calaram os sonhos de uma migrante que fez sua travessia com as filhas em busca de uma vida melhor no Brasil. Mas logo aqui? O quinto país do mundo que mais mata mulheres, com arma branca, tiro, socos. O estado de Mato Grosso há dois anos é o estado brasileiro onde mais se mata mulheres. 2,5 casos por 100 mil habitantes, a maior taxa de feminicídio do país. Mato Grosso tem 2 cidades entre as dez mais matam mulheres no país, Sorriso e Tangará da Serra e os dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2025, confirma ainda que os assassinos dormem ao lado.

Em geral, a violência parte de homens com vínculos afetivos com as vítimas. E o uso das câmeras de celular que poderiam aumentar o risco de o agressor ser identificado e denunciado não causa intimidação. A violência é um espetáculo que não tem freio. Numa cidade de Mato Grosso, há dias atrás, o ex-companheiro atacou a ex-mulher sob as vistas de dois outros homens que passavam pela rua e calmamente escolhiam o melhor ângulo para filmar as agressões e tentativa de assassinato.

A cantora Joelma sempre nas mídias performando alegremente, revela para a mesma mídia o inferno que viveu durante 18 anos de um relacionamento repleto de abusos físicos, psicológicos e materiais. As idas e vindas, as promessas rompidas, o ciclo se repetindo, com olhos roxos, lábio partido, ameaça de ser jogada pela janela de um hotel. Essas denúncias dão visibilidade ao tema e reforçam a urgência de discutirmos a prevenção e a conscientização sobre a violência contra a mulher.

Ocorre que as famílias não conversam sobre a violência, a escola não encaixa o tema na grade escolar, as medidas de segurança pública não conseguem antecipar medidas de proteção, sobretudo porque a violência é mascarada com cenas de arrependimento, choro, promessas e as agressões são trancadas dentro dos lares, como um segredo de família, é o que sente o corregedor nacional do Ministério Público, o procurador Ângelo Fabiano Farias da Costa, que quase solitariamente colocou o combate à violência doméstica como a prioridade absoluta de sua gestão. O dr. Ângelo tem viajado pelo Brasil, analisando de que forma o Ministério Público pode se tornar mais ágil, oferecer rede de proteção efetiva, mais conscientização das mulheres para que busquem apoio e medidas protetivas o quanto antes. 64% das vítimas de feminicídio são mortas dentro de casa.

Por mais que o tema da violência contra a mulher tenha ganhado destaque em todas as mídias, nas políticas públicas dos governos, o procurador registra que não há nenhum arrefecimento, os números e as imagens continuam assustadores.

O Senado italiano não buscou meio termo para tratar o tema, recrudesceu a pena o máximo possível e aprovou, por unanimidade, 161 votos favoráveis e nenhum contra a pena de prisão perpétua, para quem comete feminicídio. O projeto precisa ainda ser aprovado na Câmara Baixa. Há prisão perpétua no sistema jurídico italiano e a pena já foi aplicada em 2024 depois de grande mobilização e pressão diante do assassinato da jovem Giulia Cecchettin, morta pelo ex-namorado.

A soberania e o rigor da lei em oposição a ideologia

Antes de tudo, cito Norberto Bobbio, para quem a soberania de um país é absoluta, perpétua, indivisível, inalienável e imprescritível. Embora, no momento estejamos cercados de adversários e vendedores da nossa soberania, vamos entendê-la não como um retorno ao estado absoluto, mas como uma vitória do constitucionalismo.

Percebemos que a busca por uma colaboração internacional cada vez mais estreita e às vezes, promíscua em termos políticos, com alianças construídas fora das relações institucionais, caso recente entre Brasil e Estados Unidos, onde a ideologia baseada em narrativas que não merecem credibilidade falou mais alto e levou o presidente americano a invadir nossa fronteira com agressões verbais, com estabelecimento de medidas coercitivas ao impor taxas alfandegárias de 50% aos produtos brasileiros e vetar a concessão de visto americano para ministros, verbalizando em alto e bom som, que as medida podem ser revistas num possível recuo do judiciário para beneficiar o ex-presidente da república, em aliado, sem utilidade outra, senão facilitar a entrada atropelada de Trump no maior país e mais importante economia da América Latina. Tarifaço e veto a vistos são moedas para negociação política.

Vale lembrar que a parceria Trump-Bolsonaro começou em 6 de janeiro de 2021, quando Donald Trump perdeu a eleição presidencial para Joe Biden nos votos e seus aliados, alegando que a eleição fora fraudada promoveram ataque sem precedentes ao Capitólio, quebrando móveis, símbolos nacionais, a ordem vigente, desrespeitando a Constituição. Foram todos processados e muitos presos. Em 2022, ao perder a eleição no Brasil, o ex-presidente Bolsonaro copiou o presidente americano derrotado e iniciou uma ladainha interminável, sem provas de que a eleição havia sido fraudada. Liderou então, o movimento de manter pessoas alienadas acampadas ou ao relento na porta dos quartéis. Reuniu-se durante meses, fato comprovado por vários colaboradores, em depoimento à justiça, tentando elaborar uma minuta de ordem para um golpe de estado, apoiado por alguns cabos e soldados. Faltou apoio de militares graduados, faltou apoio político, mas a violência dos atos de 8 de janeiro de 2023, copiado dos apoiadores do derrotado Trump, culminou com prisões e processos dos participantes dos atos violentos contra as instituições brasileiras. Tempo depois, as pessoas que serviram de marionetes na porta dos quartéis foram abandonadas à própria sorte e chamadas pelo ex-presidente de ‘malucos’.

Porém, a eleição perdida em 2022, tem nome: COVID-19. Ao ignorar a ciência, protelar até não poder mais para comprar as vacinas, ao debochar, ao vivo na televisão das pessoas morrendo sem ar, pelo agravamento do quadro da doença, ao chamar a dor do luto das pessoas de mimimi. Em depoimento no Senado, o diretor do Instituto Butantan disse que o Brasil poderia ter sido o primeiro país do mundo a promover a vacinação, porque ofereceu vacinas ao Ministério da Saúde em julho de 2020 e somente em janeiro de 2021, depois de muita negligência, o governo brasileiro resolveu agir. Bolsonaro enterrou junto aos mortos pela pandemia, aí incluo meu pai, sua chance de reeleição.

Curtindo a vida nos Estados Unidos, num autoexílio, sem trabalhar, está o filho, deputado licenciado, Eduardo Bolsonaro, inflando o ego megalomaníaco do presidente americano com narrativas fantasiosas, influenciando o entorno do presidente Trump para que a administração americana imponha sanções ao Brasil.  Patriota? Na verdade, ele mira o próprio umbigo, buscando certo protagonismo para alavancar sua candidatura à presidente do Brasil em 2026. Não é pelo pai dele, não é pelo Brasil e sim, por um projeto pessoal de poder.

O mimimi causado pelo cumprimento da ordem judicial, de colocar tornozeleira eletrônica em Bolsonaro, diante de possibilidades concretas de ele deixar o país e se autoexilar nos Estados Unidos, sob a proteção de Trump, não faz sentido. Nesse caso, é mimimi mesmo. O ex-presidente Fernando Collor, de 75 anos, usa o adereço e passa bem.

A premonição de Jair Bolsonaro de que deve ser preso até final de agosto é uma revisita dele aos atos que praticou quando era livre e poderoso.

A violência é de todos e está em toda parte

A violência é um problema social que afeta a todos os povos, independentemente da raça, idade, condição socioeconômica e cultura. A violência é tão antiga quanto todas as sociedades. A violência na sociedade existe em todos os lugares e conforme definição da Organização Mundial da Saúde é o uso intencional de força física ou poder, em forma de ameaça ou real, com alta probabilidade de causar danos, ferimentos e morte. 80% das mortes por violência ocorrem fora das áreas de conflitos armados.

Diante da impressionante, alarmante e repugnante incidência de violência ocorrida esta semana, independentemente de classe social, cor, raça, idade e método da violência, deparamos com a notícia de um adolescente de 14 anos, que usou a arma do próprio pai para matá-lo e também a mãe e o irmão ainda bebê porque os pais não permitiram que ele viajasse sozinho do interior do Rio de Janeiro para uma cidade de Mato Grosso para conhecer pessoalmente uma namorada virtual. Ao ser apreendido declarou não haver arrependimento algum.

Uma mãe e o padrasto agrediram brutalmente uma criança de menos de 2 anos; um homem jovem apunhalou a esposa e a filha de 7 anos enquanto ambas dormiam. A mulher não resistiu, a criança encontra-se hospitalizada em estado grave. Ontem, um homem foi flagrado por câmeras de segurança, andando pelas ruas segurando uma faca, havia acabado de tirar a vida da esposa e fugia com a tranquilidade de quem sabe que a justiça é pouca.

A sociedade brasileira foi construída em moldes violentos em praticamente todas as instâncias sociais numa cultura herdada, diluída no cotidiano. Fica evidente que tudo que se tem feito até agora não tem sido o suficiente para erradicar o fenômeno da violência tão evidente, em uma cultura caracterizada pelo machismo, possessividade, falta de dignidade humana e pela certeza da pena pouca, da frouxidão das leis e pela mania absurda de normalizar os atos selvagens de seres humanos.

O Papa Francisco, ao tratar da violência, citou o excesso de controle, a possessividade como arma inimiga do bem, que mata o afeto. Disse que a violência decorre, em parte pela pretensão de possuir o afeto do outro, da busca de uma segurança absoluta que mata a liberdade e sufoca a vida, tornando-a um inferno.

Michel Foucault, em Vigiar e Punir narra a execução do condenado Damiens, condenado por tentativa contra Luís XV. foi submetido a um suplício público brutal, que incluía queimaduras com tochas de cera e com metais derretidos e esquartejamento. Tirado da carroça, seu corpo foi puxado e desmembrado por quatro cavalos. Os membros consumidos pelo fogo.

O sofrimento do corpo de Damiens foi exibido para intimidar a população e comunicar que a mão do estado era dura para punir. Com a transição para o Estado Moderno, os suplícios foram substituídos pela punição moderna. Cada nação construiu seu código de punição, as penas passaram a ser calculadas de acordo com a gravidade do crime e o grau de periculosidade do criminoso. Os corpos assassinos deixaram de ser punidos e passaram a ser vigiados por sentinelas e agora a tarefa está a cargo das câmeras.

Não, não vamos voltar a era dos suplícios, deve haver medidas que contemplem o vigiar e o punir rigorosamente.

A política na terapia

Sim, a política está piorando a saúde mental das pessoas. É o que mostram estudos e pesquisas feitas no Reino Unido e Estados Unidos. No Brasil, em Mato Grosso, em meio à polarização política que não cessa e a aproximação das eleições, a política se tornou uma fonte significativa de estresse para muitos políticos e eleitores, empresários, professores e efetivos das forças de segurança. Em audiências públicas durante a semana, foram feitos relatos de servidores adoecidos por falta de melhores condições de trabalho, pela tensão e risco que a própria profissão os expõe e notadamente há a falta do apoio emocional efetivo e humanizado por aqueles que estão em posição de oferecer políticas públicas que possa minimamente reparar-lhes a vulnerabilidade.

A política coletiva ou individual tem um custo diário. Seria interessante ver até que ponto a política cotidiana afeta a saúde mental dos cidadãos de outros países menos polarizados ou com sistemas políticos diferentes. O cientista político americano Kevin Smith, da Universidade de Nebraska disse que muitas pessoas veem a política como algo que exige um conjunto significativo de custos para sua saúde social, emocional, psicológica e até física, ou seja, as pessoas estão se envolvendo na política e criando um problema de saúde pública.

Médicos ligados a Associação Psiquiátrica Americana, relataram que nunca conversaram tanto sobre política com seus pacientes, como nos últimos anos e que a política divisionista adotada em vários países (citados Brasil e Estados Unidos) tem afetado a saúde mental e trazido temas políticos para as salas de terapias como uma fonte significativa de ansiedade e negatividade, sobretudo entre os mais jovens, politicamente engajados e de oposição ao governo. Ouvidos nos relatos, os pacientes admitem que a política faz parte das razões, pelas quais, buscam a terapia.

A política não é algo que afeta as pessoas apenas a cada quatro anos durante as eleições, ela está infiltrada na vida cotidiana e tem severo impacto no nosso dia a dia. A política moderna, suas controvérsias diárias, alguns graus de incivilidade impõem um fardo emocional constante, faz desenvolver doenças, especialmente transtornos de ansiedade, depressão e do sono e os indivíduos que percebem altos níveis de polarização são mais propensos a relatar o desenvolvimento de transtornos depressivos.

Há dias leio um estudo da Queens University sobre a relação da política com o estresse, ansiedade e depressão. Os políticos não estão imunes. O estresse, ansiedade citados envolve o trato com a política, o discutir política e fazer política. Mas algo se perdeu na maneira como as pessoas pensam sobre política e o que nos é devido por coexistirmos em sociedade. Na realidade, estamos nos estressando, discutindo, divergindo de pessoas que nunca conhecemos e nunca conheceremos.

Sem paciência para terapia, tampouco competência para terapeuta, creio que a grande maioria de nós não quer viver num ambiente dividido e contencioso. Temos muito mais em comum do que diferenças, mas é uma tendência humana nos categorizar, rotular e dividir. O processo de adulterar e desumanizar nossos semelhantes é um mal antigo e isso nos leva a olhar para o sofrimento dos outros sem compreensão e empatia.

Um vende a cura, a outra vende a sorte grande e outras enganam a si mesmas

O tolo é caracterizado pela falta de discernimento, pela incapacidade de perceber o sofrimento e as causas da sua existência, e pela adesão à crenças e comportamentos que o levam a um ciclo de vida artificial. O tolo geralmente se perde em minúcias, mesquinharias e de todo tipo de banalidades. A autorreflexão, introspecção e contemplação não fazem o menor sentido para um tolo, porque ele não pensa existencial e profundamente sobre vida.

O tolo subestima os dilemas existenciais, pois, não vê nada além de si mesmo, vive completamente embrulhado em seu conteúdo egoísta e raso. Em Espinosa, o tolo é uma figura amoral, é aquele que não consegue compreender a realidade e, portanto, permanece preso em um ciclo de superficialidades. Platão, por exemplo, utilizava a figura do tolo para criticar a sofística e defender a busca pela verdade através da razão. Uma célebre frase atribuída a Platão afirma que “o sábio fala porque tem algo a dizer e o tolo porque precisa dizer algo.” Ao não compreender a verdade, o tolo age de forma impulsiva e egoísta, atraindo sofrimento para si e muitos em seu entorno.   

Escrevo essa introdução sobre o tolo, para falar sobre a influenciadora Vírgina Fonseca, o falso profeta, missionário Miguel Oliveira e sobre pessoas adultas pais e mães de bebês reborn, criaturas que adotam bonecas hiper-realistas, como se filhos fossem.

Tão jovem e já aprendiz de charlatão, o mini missionário Miguel Oliveira não deve ser nenhum instrumento de Deus para a realização de curas e milagres. Deve ser sim, um enganador, explorador da fé, da crença e da vulnerabilidade das pessoas para a obtenção de doações, de forma enganosa e abusiva. No púlpito da igreja disse que quanto mais rápido a doação for feita, na mesma velocidade o milagre chega até o fiel. Rasgou laudos médicos, prometeu cura de doenças graves, como câncer. Acabou denunciado ao Ministério Público pelo Conselho Tutelar, afastado das pregações e das mídias sociais pela justiça, porém profetizou um retorno ‘assustador’.

Já tramita, na Câmara dos Deputados, um Projeto de Lei (PL nº 1341/23), que criminaliza e pune o charlatanismo religioso e quem promover, divulgar ou realizar falsos milagres, curas ou outras manifestações supostamente sobrenaturais com o intuito de obter vantagens financeiras.

Virginia Fonseca, arrolada para ser ouvida na CPI das Bets, com acusação de criar falsas expectativas e negligenciar informações sobre os malefícios do jogo, que banca sua vida de luxo, não é muito diferente do profeta Miguel. Mente, engana, explora a boa-fé de pessoas vulneráveis e se mostrou indiferente e ignorante ao ser ouvida no Senado, alegando que sequer percebe o mal que causa na vida das pessoas, porque considera o jogo um complemento de renda. O profeta vende a cura, a subida aos céus, a influenciadora vende a ‘sorte grande’, o dinheiro fácil à custa do vício e do comprometimento da miserável renda familiar em jogos de azar.

Há uma linha de explicação que os bebês reborns são usados ​​por razões terapêuticas, como perda de filhos, ansiedade, estresse e depressão, transtorno bipolar. Mas há também histórias ridículas, que não me causam outra reação senão o riso debochado, como o relato de uma advogada que foi procurada para regulamentar a “convivência” de uma mãe com a boneca e impedir que a ex-companheira da cliente tivesse acesso à “filha reborn”. São demandas reais”, disse a advogada. Mulheres de condutas ilícitas e antiéticas, simulam a maternidade para obter vantagens indevidas em serviços prioritários. Já há várias leis tramitando mirando o uso indevido desses bonecos em serviços públicos e privados.

Minha perplexidade diante desses seres estranhos que ocuparam a mídia recentemente, na verdade, meu pesadelo, é que essas pessoas votam e influenciam votos.

Há muita pressão extra e desnecessária

Fui criada em uma cultura que me ensinou que o papel mais importante que eu deveria assumir na vida era ser mãe.  Antes dos vinte anos, casei-me e tive dois filhos. Escrever sobre meus triunfos sem mencionar nenhuma das minhas inúmeras dificuldades com a maternidade seria hipocrisia, porque a maternidade é composta de momentos de profunda alegria e profunda insegurança e cansaço. À medida que o Dia das Mães se aproxima, lembro-me da importância de exercermos a compaixão e empatia com todas as mulheres que tentam desesperadamente conciliar suas próprias deficiências com a mãe que idealizaram e que são cobradas a ser.

Falar de maternidade sincera não é falar de atitudes brilhantes, renúncias recheadas de amor. A beleza da maternidade transcende a estética e se manifesta na força, na resiliência e transformação que a mulher experimenta ao tornar-se mãe. A maternidade é um período de profunda mudança, onde a mulher se reinventa e expande a sua capacidade de amar. Enquanto, a frustração, o estresse, a ansiedade, a dúvida e a sobrecarga são reflexos de uma cultura confusa que ainda não descobriu o quanto a saúde e o bem-estar das mães são essenciais para manter a família toda no eixo.

Assisti um vídeo do pediatra brasileiro Daniel Becker, abordando a complexidade da experiência da maternidade, reconhecendo que nem sempre é um período fácil e prazeroso e que é importante apoiar as mães em seus desafios. Ele compartilha mensagens enfatizando a necessidade de termos um olhar e atitude de empatia quando visitamos uma pessoa que acaba de dar à luz. Ele diz: “Visite a mãe e não bebê. Leve uma refeição gostosa, cuide da criança para a mãe descansar um pouco, lave a louça”.

É preciso muito mais do que esforço esporádico para ensinar os filhos sobre justiça, solidariedade, tolerância e amor, é preciso certa maturidade (não necessariamente, idade) para conseguir conciliar mamadeira, choradeira com a carreira. No Brasil, 2,3 milhões de crianças de até 3 anos de idade não frequentam creches por dificuldade de acesso a vagas num contraditório momento em que uma proporção maior lares são chefiados por mães solo, aqueles em que a pessoa de referência é uma mulher com filho.

A maternidade é difícil, é exaustiva. Mas, é a experiência mais gratificante e incrível que uma mulher viverá. Felizmente, cada vez mais, os pais estão desempenhando um papel ativo na criação dos filhos e nas tarefas domésticas, embora no tempo atual ainda vigore, geralmente, o padrão de maternidade sobrecarregada, esperando que as mães entretenham seus filhos, levando-os de uma atividade para outra, trabalhe fora e cuide da casa, fazendo tudo isso em perfeito equilíbrio.

Porém, não existe uma maneira única de ser mãe, e as narrativas sobre a maternidade perfeita perpetuadas pela sociedade, são profundamente prejudiciais e irreais.

Meu marido era pediatra, havia, portanto, muita pressão para que eu me enquadrasse nos propósitos neonatais que a pediatria ainda hoje espera das mães: a expectativa que as mães amamentem por, pelo menos seis meses.

Minha primeira grande divergência. Não me senti confortável amamentando e interrompi o processo nos primeiros dias, apesar de ouvir e acreditar em todas as alegações do benefício que o ato de amor traria para o bebê, mas eu não superei a tempo o estranhamento à cena e não amamentei nenhum dos dois filhos.

Encerrei o assunto sem culpa e sem julgamentos. Decidimos que nossos filhos jamais, por razão nenhuma seriam castigados. Não foram. Podem aí, considerar-me ter sido uma mãe leniente. Tentei ser uma mãe feliz, não perfeita!