A política na terapia

Sim, a política está piorando a saúde mental das pessoas. É o que mostram estudos e pesquisas feitas no Reino Unido e Estados Unidos. No Brasil, em Mato Grosso, em meio à polarização política que não cessa e a aproximação das eleições, a política se tornou uma fonte significativa de estresse para muitos políticos e eleitores, empresários, professores e efetivos das forças de segurança. Em audiências públicas durante a semana, foram feitos relatos de servidores adoecidos por falta de melhores condições de trabalho, pela tensão e risco que a própria profissão os expõe e notadamente há a falta do apoio emocional efetivo e humanizado por aqueles que estão em posição de oferecer políticas públicas que possa minimamente reparar-lhes a vulnerabilidade.

A política coletiva ou individual tem um custo diário. Seria interessante ver até que ponto a política cotidiana afeta a saúde mental dos cidadãos de outros países menos polarizados ou com sistemas políticos diferentes. O cientista político americano Kevin Smith, da Universidade de Nebraska disse que muitas pessoas veem a política como algo que exige um conjunto significativo de custos para sua saúde social, emocional, psicológica e até física, ou seja, as pessoas estão se envolvendo na política e criando um problema de saúde pública.

Médicos ligados a Associação Psiquiátrica Americana, relataram que nunca conversaram tanto sobre política com seus pacientes, como nos últimos anos e que a política divisionista adotada em vários países (citados Brasil e Estados Unidos) tem afetado a saúde mental e trazido temas políticos para as salas de terapias como uma fonte significativa de ansiedade e negatividade, sobretudo entre os mais jovens, politicamente engajados e de oposição ao governo. Ouvidos nos relatos, os pacientes admitem que a política faz parte das razões, pelas quais, buscam a terapia.

A política não é algo que afeta as pessoas apenas a cada quatro anos durante as eleições, ela está infiltrada na vida cotidiana e tem severo impacto no nosso dia a dia. A política moderna, suas controvérsias diárias, alguns graus de incivilidade impõem um fardo emocional constante, faz desenvolver doenças, especialmente transtornos de ansiedade, depressão e do sono e os indivíduos que percebem altos níveis de polarização são mais propensos a relatar o desenvolvimento de transtornos depressivos.

Há dias leio um estudo da Queens University sobre a relação da política com o estresse, ansiedade e depressão. Os políticos não estão imunes. O estresse, ansiedade citados envolve o trato com a política, o discutir política e fazer política. Mas algo se perdeu na maneira como as pessoas pensam sobre política e o que nos é devido por coexistirmos em sociedade. Na realidade, estamos nos estressando, discutindo, divergindo de pessoas que nunca conhecemos e nunca conheceremos.

Sem paciência para terapia, tampouco competência para terapeuta, creio que a grande maioria de nós não quer viver num ambiente dividido e contencioso. Temos muito mais em comum do que diferenças, mas é uma tendência humana nos categorizar, rotular e dividir. O processo de adulterar e desumanizar nossos semelhantes é um mal antigo e isso nos leva a olhar para o sofrimento dos outros sem compreensão e empatia.

Um vende a cura, a outra vende a sorte grande e outras enganam a si mesmas

O tolo é caracterizado pela falta de discernimento, pela incapacidade de perceber o sofrimento e as causas da sua existência, e pela adesão à crenças e comportamentos que o levam a um ciclo de vida artificial. O tolo geralmente se perde em minúcias, mesquinharias e de todo tipo de banalidades. A autorreflexão, introspecção e contemplação não fazem o menor sentido para um tolo, porque ele não pensa existencial e profundamente sobre vida.

O tolo subestima os dilemas existenciais, pois, não vê nada além de si mesmo, vive completamente embrulhado em seu conteúdo egoísta e raso. Em Espinosa, o tolo é uma figura amoral, é aquele que não consegue compreender a realidade e, portanto, permanece preso em um ciclo de superficialidades. Platão, por exemplo, utilizava a figura do tolo para criticar a sofística e defender a busca pela verdade através da razão. Uma célebre frase atribuída a Platão afirma que “o sábio fala porque tem algo a dizer e o tolo porque precisa dizer algo.” Ao não compreender a verdade, o tolo age de forma impulsiva e egoísta, atraindo sofrimento para si e muitos em seu entorno.   

Escrevo essa introdução sobre o tolo, para falar sobre a influenciadora Vírgina Fonseca, o falso profeta, missionário Miguel Oliveira e sobre pessoas adultas pais e mães de bebês reborn, criaturas que adotam bonecas hiper-realistas, como se filhos fossem.

Tão jovem e já aprendiz de charlatão, o mini missionário Miguel Oliveira não deve ser nenhum instrumento de Deus para a realização de curas e milagres. Deve ser sim, um enganador, explorador da fé, da crença e da vulnerabilidade das pessoas para a obtenção de doações, de forma enganosa e abusiva. No púlpito da igreja disse que quanto mais rápido a doação for feita, na mesma velocidade o milagre chega até o fiel. Rasgou laudos médicos, prometeu cura de doenças graves, como câncer. Acabou denunciado ao Ministério Público pelo Conselho Tutelar, afastado das pregações e das mídias sociais pela justiça, porém profetizou um retorno ‘assustador’.

Já tramita, na Câmara dos Deputados, um Projeto de Lei (PL nº 1341/23), que criminaliza e pune o charlatanismo religioso e quem promover, divulgar ou realizar falsos milagres, curas ou outras manifestações supostamente sobrenaturais com o intuito de obter vantagens financeiras.

Virginia Fonseca, arrolada para ser ouvida na CPI das Bets, com acusação de criar falsas expectativas e negligenciar informações sobre os malefícios do jogo, que banca sua vida de luxo, não é muito diferente do profeta Miguel. Mente, engana, explora a boa-fé de pessoas vulneráveis e se mostrou indiferente e ignorante ao ser ouvida no Senado, alegando que sequer percebe o mal que causa na vida das pessoas, porque considera o jogo um complemento de renda. O profeta vende a cura, a subida aos céus, a influenciadora vende a ‘sorte grande’, o dinheiro fácil à custa do vício e do comprometimento da miserável renda familiar em jogos de azar.

Há uma linha de explicação que os bebês reborns são usados ​​por razões terapêuticas, como perda de filhos, ansiedade, estresse e depressão, transtorno bipolar. Mas há também histórias ridículas, que não me causam outra reação senão o riso debochado, como o relato de uma advogada que foi procurada para regulamentar a “convivência” de uma mãe com a boneca e impedir que a ex-companheira da cliente tivesse acesso à “filha reborn”. São demandas reais”, disse a advogada. Mulheres de condutas ilícitas e antiéticas, simulam a maternidade para obter vantagens indevidas em serviços prioritários. Já há várias leis tramitando mirando o uso indevido desses bonecos em serviços públicos e privados.

Minha perplexidade diante desses seres estranhos que ocuparam a mídia recentemente, na verdade, meu pesadelo, é que essas pessoas votam e influenciam votos.

A aliança com os homens não é opcional, é crucial

Há chamamento global no sentido de reafirmar o compromisso com um futuro mais justo e seguro para as mulheres. Os relatórios unanimemente indicam que as ações passam pelo processo indissociável da educação transformadora, porque as garantias previstas na Constituição brasileira, por exemplo, não foram suficientes para conter o assédio, a discriminação, a desvalorização, a posse, que são, em muitos casos, o indício das tragédias contra a vida de mulheres. Desnecessário reafirmar que todos, homens e mulheres merecem viver seguros e serem tratados com compaixão, dignidade e respeito. E as mulheres, particularmente, deveriam ser capazes de dizer “não” livres do medo da violência.

Não é o que acontece, infelizmente. Mas quando analisamos as ligações entre as formas de violência de homem contra mulher, podemos perceber claramente os sistemas que permitem isso florescer.

O DataFolha/FBSP 2025 divulgou a 5ª edição do documento Visível e invisível: a vitimização de mulheres no Brasil e as principais violências sofridas por mulheres brasileiras no ano de 2024 foram: ofensas verbais (17,7 milhões de mulheres); agressão física (8,9 milhões); stalking (8.5 milhões); violência sexual (5.3 milhões) e divulgação de fotos ou vídeos íntimos na internet (1.5 milhão de mulheres).

A educação não corrompe, ela protege. Precisamos mudar a forma como falamos sobre a violência do homem contra a mulher. Precisamos educar nossos garotos não para serem os mais fortes, os mais espertos, mas, para que sejam mais carinhosos, para que se importem mais com o outro. Ter conversas desconfortáveis é agora é um dos meios para criar espaço de fala e escuta seguras na escola e em casa, desafiando estereótipos preconceituosos, sem desviar o olhar. O desafio real não é apagar a masculinidade, mas expandir a forma como falamos sobre isso. Os meninos precisam ser envolvidos como aliados no trabalho de restauração da convivência amorosa entre os gêneros, porque certamente, eles anseiam um mundo melhor, muito além das narrativas tóxicas da masculinidade que acentua a desigualdade. O que devemos trabalhar não é sobre divisão, é sobre responsabilidade e transformação.

A masculinidade não é inerentemente tóxica, mas algumas expectativas de masculinidade podem ser. Quando pensamos que não nos falta ver nada mais diante do quadro de epidemia de violência contra a mulher, eis que a retórica misógina online cresce dentro da manosfera ou machosfera, um termo usado para identificar comunidades misóginas interconectadas online direcionadas a garotos, com conteúdo certeiro para espalhar o ódio contra as mulheres. A novidade nas mídias sociais é um movimento que opera dentro da manosfera chamado incel, que se refere a uma subcultura online de homens, predominantemente jovens e heterossexuais, que concentram absurdas crenças e normas para reativar teorias biológicas estereotipadas de masculinidade onde o homem deve ter poder sobre a mulher.

O termo incel era apenas uma abreviação de “celibatários involuntários”, porém, mudou ao longo do tempo, e agora o termo se refere a homens que acreditam ser incapazes de estabelecer relacionamentos e tendem culpar as mulheres em particular, pela falta de experiências românticas ou sexuais. O movimento incel se tornou profundamente ideológico, promovendo ódio e violência contra mulheres em plataformas de mídias sociais. De acordo com essa visão de mundo extremamente misógina, o movimento incel espalha a versão de que as mulheres selecionam seus parceiros com base apenas na aparência e na riqueza material, por isso elas são vistas como pessoas imorais e indignas de confiança.

Vai ficando cada vez mais difícil corrigir o impacto que essas comunidades online têm sobre os jovens e suas atitudes em relação às mulheres. A ascensão da retórica misógina volta a assombrar às mulheres. E esta não é uma questão que diz respeito apenas as mulheres: a igualdade de gênero exige aliança em todos os níveis. Se queremos uma mudança real, os homens devem desafiar ativamente as narrativas prejudiciais e movimentos de ‘modinha’ que dominam os discursos de uso de força e controle contra às mulheres.  

Respeita as gurías na folia

O respeito é a base de tudo. Entender o não consentimento como uma violência em atos de conotação sexual é um problema e as análises feitas por grupos respeitáveis que pesquisam o tema, confirmam que apesar dos esforços dos governos através de campanhas educativas voltadas para os foliões, os registros de violência contra as mulheres aumentam no período de carnaval.

O título desse artigo tirei de uma ação do Programa Jovens Multiplicadoras de Cidadania, da Themis – Gênero, Justiça e Direitos Humanos, que há quase 30 anos atua na defesa e direitos das mulheres e organiza campanhas de conscientização durante o carnaval em Porto Alegre, com apoio do Fundo Canadá e do Fundo de População das Nações Unidas. “Respeita as gurias na folia” é uma ação idealizada em parceria com a Liga das Escolas de Samba, para tentar desnaturalizar a violência de gênero nas festas de Carnaval em Porto Alegre.

As jovens distribuem materiais educativos nos eventos de rua alertando que: fantasia não é convite para intimidade; bebida não é carta branca para avançar o sinal, tampouco desculpa para quem avança; ofensa não é brincadeira; racismo, homofobia são crimes; roubar beijo, tocar no corpo de alguém sem permissão é crime e reforça o espírito da sororidade, orientando que, ao presenciar uma cena de assédio, intervenha, ofereça ajuda, denuncie.

O estudo, de abrangência nacional apresentado pelo Instituto Locomotiva e Question Pro, divulgado semana passada, dia 06, revela que metade do público feminino já foi alvo de importunação durante o carnaval e 73% das mulheres brasileiras têm medo de sofrer assédio durante o carnaval. Metade das entrevistadas relataram já terem sofrido algum tipo de violência durante o feriado. No levantamento quase 100% das pessoas entrevistadas, que incluem homens e mulheres maiores de 18 anos, consideram que as campanhas de combate a esse tipo de crime e são fundamentais.

A responsabilidade de combater a prática do assédio é de todos e não podemos normalizar o discurso de 15% dos entrevistados de que as mulheres que decidem pular carnaval, não têm o direito de reclamar caso sejam assediadas, que o contato íntimo, o beijo, é do jogo, que o momento é quente, que não se pode controlar a multidão. Segundo o Instituto Locomotiva, estamos avançando e 81% dos brasileiros acham problemático um homem beijar uma mulher embriagada ou com roupas curtas, sem que ela dê consentimento, são os casos de assédio no espaço público, o ‘street harassment’.

O álcool, sem dúvida é um fator de risco, mas não justificativa para os crimes que acontecem no período de carnaval. Os dados do Sinan, que gera informação das notificações gerados pelo Sistema de Vigilância Epidemiológica indica que 52% dos crimes de estupro que ocorreram nos dias de Carnaval, em 2020, foram cometidos por indivíduos alcoolizados. No restante do ano, essa proporção foi de 38%.  A bebida baixa os limites dos valores que já estavam lá, enraizados no indivíduo, o machismo, a desigualdade de gênero, a tendência à violência. 

Em 29 de dezembro de 2023, foi sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a lei que estabelece o protocolo “Não é Não”. O objetivo da lei é evitar o constrangimento e a violência contra a mulher em ambientes nos quais sejam vendidas bebidas alcoólicas, como casas noturnas, boates e shows. É exigência da legislação que se fixe em locais visíveis informações sobre como acionar a Polícia Militar (190) e a Central de Atendimento à Mulher (180).

Nos afogamos em dados mas temos temos sede de significado

2023 foi ano que trouxe o fim da pandemia. Oficialmente declarada em 5 maio, pela Organização Mundial da Saúde.

Ao pesquisar artigos e ensaios sobre as perspectivas para o ano que se inicia, superado o fardo do medo da morte, identifiquei que certo desconforto está crescendo em todos os setores da sociedade. É um descontentamento ainda lento, que tem permeado as forças sociais, econômicas e tecnológicas, que cresce nas sombras do nosso mundo hiper conectado, onde as brilhantes promessas da globalização da tecnologia não conseguiram materializar-se para a maior parte das pessoas. 

O que parece um estardalhaço, à primeira leitura, são as afirmações de que os próximos 10 anos testemunharemos mudanças dramáticas e radicais. Estas são as linhas iniciais de um capítulo da história humana, que dizem estar começando em 2024. Uma década de descontentamento está chegando. 

Uma das causas apontadas é o investimento sem precedentes nos sistemas de inteligência artificial, que podem executar tarefas que antes estavam no domínio dos trabalhadores humanos, com isso, cresce o temor que esta mudança irá retirar empregos em quase todas as áreas de trabalho. E a nova narrativa de descontentamento, não é apenas com políticas ou líderes específicos, mas com os sistemas e estruturas que moldaram o mundo atual, escorado em conexões virtuais e informações sem precedentes, em fluxo e velocidade.

Entendo que transformações, são cruciais num mundo que atingiu em primeiro de janeiro o número espantoso de 8.019.876.189 de pessoas. Atualmente a taxa de crescimento está em declínio e deverá cair ainda mais nos próximos anos, mas a população mundial continuará crescendo, porém num ritmo mais lento.

Como crer que seja possível estabelecer ligações sociais genuínas ou melhorar as interações no mundo real para esse contingente gigantesco de pessoas, quando efetivamente estamos presenciando o desenvolvimento de plataformas sociais baseadas em inteligência artificial para simular a interação humana, proporcionando uma aparência de conexão placebo, sem a profundidade e riqueza das relações humanas genuínas?

Um mundo com 8 bilhões de pessoas oferece infinitas possibilidades. Sim, positivas e negativas em maior escala se nova abordagem não for tentada, no sentido de compreender essa aldeia global, onde se fala mais de 6 mil línguas, mais da metade falam dialetos chineses, inglês, indiano, espanhol, árabe, bengale e português. As crenças se dividem sobretudo entre cristãos, mulçumanos, hindus, budistas e judeus.

No planeta falta água potável, sistemas sanitários adequados, nem todas as famílias têm eletricidade em casa, nem todas as crianças frequentam escolas, nem todas que frequentam aprendem a ler, num sistema educacional ainda machista, onde mais meninos são ensinados a ler do que meninas.

Temos, então, mais de 8 bilhões de razões para prestar mais atenção no planeta, para ter mais cuidado um com o outro, atentarmos sobre os efeitos devastadores causados pelos desmatamentos e, mais importante, cuidar mais da saúde e do bem-estar sobretudo das mulheres e crianças.

Muitos tem razão para estar aflitos e com certo medo. Para quem cultiva a vaidade, não é fácil reconhecer-se em apenas um pontinho entre 8.019.876.189 pessoas. Para outros, é uma inspiração viver numa sociedade de diferentes, onde cada pessoa é um conjunto de substantivos e adjetivos, sem que nenhum destes a defina completamente.

A sociologia, quase sempre desconfia da felicidade humana

Começo escrever destacando o valor da reflexão, o processo de olhar para trás e aprender com o que fizemos, antes de seguir em frente. Dessa forma, podemos aplicar pequenos passos para a melhoria da caminhada. A felicidade é subjetiva, não objetiva, e o que definimos como sendo a felicidade pode ser debatido ‘ad infinitum’. A ansiedade, diante do nosso tempo conturbado, associada à nossa crescente compreensão da brevidade da vida, pode ser a principal razão pela qual aparentemente e incessantemente nos tornamos buscadores da felicidade.

A maioria dos livros de sociologia, sem dúvida, debate os tópicos tradicionais e inevitáveis ​​de “estratificação social”, “socialização”, “papéis”, ‘status’, ‘classe’, ‘racionalização’, só para mencionar alguns. Embora todos esses tópicos consagrados pelo tempo tenham mérito, relevância e potência sociológica, é raro que alguém considere a ‘felicidade’ como uma preocupação fundamental dos sociólogos. Na maioria dos índices de livros de sociologia, a felicidade quase nunca aparece.

Comecemos por considerar se a felicidade ou a busca da felicidade pode encontrar alguma justificação no discurso da sociologia e se a sociologia tem um vocabulário adequado para capturar experiências de felicidade. Considerando-se uma disciplina crítica, a sociologia, quase sempre desconfia da felicidade humana. De forma provocativa, posso sugerir que a sociologia de fato prospera com base no fato de que as pessoas, fatalmente ou no contexto social, devem ser de alguma forma, infelizes e se revezam em algum tipo de estado de infelicidade; ou seja, são reprimidos, alienados, oprimidos, sem liberdade, impotentes, miseráveis.

Nos últimos anos, a chamada ‘sociologia das emoções’ ganhou posição como uma preocupação promissora no campo da sociologia. Em vários autores, entre os quais, Zygmunt Bauman, encontramos referências relativamente frequentes a emoções como solidariedade, compaixão, amor, medo, liberdade e felicidade, dando início, gradualmente, a reflexão sobre a importância social das emoções, estudos que nunca foram proibidos, mas foram largamente ignorados em tempos anteriores.

Perguntado se a sociologia pode ajudar as pessoas e na verdade também os próprios sociólogos a alcançar a felicidade, Bauman respondeu que a felicidade não consiste em estar livre de problemas, mas em enfrentá-los, combatê-los e superá-los.

Sociólogos estão realmente preocupados em identificar as muitas enfermidades e males enfrentados pela sociedade contemporânea. O sociólogo americano, naturalizado canadense, Robert Stebbins sugeriu uma agenda para uma chamada “sociologia positiva” que, em vez de focar sobretudo no que parece estar errado na sociedade, mostra mais preocupação com o estudo sobre como as pessoas podem organizar suas vidas de modo que essas vidas se tornem substancialmente gratificantes, realizadas e felizes.

O sociólogo tem inúmeros trabalhos publicados, destacando que o lazer é o caminho para uma vida feliz.  O lazer pode ser casual, onde exercemos atividade prazerosa no tempo livre, como leitura, caminhar, conversar com amigos; lazer sério, que é a busca por uma atividade interessante, hobbies, atividades voluntárias, que valorizam a construção de um mundo social e o lazer baseado em realização de projeto, que pode ser evento que evidencia a criatividade e a habilidade para gerar a autorrealização, como eventos esportivos, festivais artísticos.

Podem me matar em nome do ódio, ainda assim, vou me levantar

No site do Senado Federal já é possível acessar a 10ª edição da pesquisa de opinião nacional, ‘Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher’ realizada pelo Instituto DataSenado em parceria com o Observatório da Mulher a cada dois anos e tem por objetivo ouvir mulheres brasileiras acerca de aspectos relacionados à desigualdade de gênero e agressões contra mulheres no país. O levantamento mostra que 30% das mulheres já sofreram algum tipo de violência doméstica ou familiar provocada por um homem. Enquanto 64% das mulheres que recebem mais de seis salários-mínimos declararam ter sofrido violência física, esse índice chega a 79% entre as vítimas com renda de até dois salários-mínimos.

A pesquisa é restrita à violência no âmbito familiar, porque há uma comissão formada para estudos e apresentação de soluções, vindos de todos os segmentos da sociedade, para garantir segurança e integridades às mulheres e as crianças, que tem presenciado muitos dos assassinatos. Fora do círculo familiar, os índices seguem escandalosos. A violência contra mulheres e meninas sempre permeou escamoteada ou visível em todos os ambientes sociais, inclusive nas escolas e  universidades. Essa semana foi divulgado o caso do professor do tradicional Colégio São Gonçalo, assediando insidiosamente meninos e meninas, manifestando o mal uso do poder e admiração, que certamente os professores têm e exercem sobre os alunos.

Também essa semana, uma estudante do curso de relações internacionais da Universidade Estadual da Paraíba, surpreendeu a reitoria e o público presente na abertura de um fórum internacional, ao usar o microfone para denunciar por assédio moral e sexual um dos mais famosos professores da instituição, professor doutor em ciência política, com estudos publicados e discursos enfocando a diminuição da violência, a construção da paz. Em ambos os casos, os professores foram afastados de suas funções em sala de aula, foi aberto processo de sindicância e tal. Punições iniciais brandas, apenas um sopro diante de tantos abusos.

As quatro mulheres selvagemente assassinadas na cidade de Sorriso mancharam de forma indelével nossa reputação como um estado violento, que tem sido incapaz de fazer o enfrentamento real da violência contra as mulheres. O assassino, foragido da justiça, condenado por vários crimes, inclusive na cidade vizinha, transitava e trabalhava livremente na imponente cidade de Sorriso.

Com força devemos repudiar a libertação prematura, menos de um ano de encarceramento do assassino da ex-namorada e seu atual namorado, cometido pelo filho de um eminente político. Todo e qualquer avanço, depende muito da punição severa aplicada aos casos, sobretudos dos que ganharam destaque na mídia. A notícia da prisão domiciliar do assassino de um duplo homicídio, com narrativas artificiais é um balde de água gelada em toda luta das mulheres pelo direito de continuarem vivas depois de romper relacionamentos abusivos.

De uma forma ou outra, a semana foi marcante em decepções acerca do tema. Maya Angelou, a extraordinária escritora americana, me vem à mente com um risco de esperança no verso:

“Pode me atirar palavras afiadas,

dilacerar-me com seu olhar,

você pode me matar em nome do ódio,

mas ainda assim, como o ar, eu vou me levantar.”

Dois processos migratórios recentes

AVenezuela é o segundo país com maior número de deslocados e refugiados no mundo, depois da Síria. Segundo a Organização das Nações Unidas, espera-se que uma média diária de 138 refugiados e migrantes venezuelanos entrem no Brasil ao longo de 2023 e 67, em 2024, atingindo um total estimado de quase 476 mil pessoas até o final de 2024. A migração venezuelana está consolidada como o maior deslocamento humano em direção ao Brasil. Foram mais de 144 mil pessoas registradas no ano de 2022.

Quinta-feira, dia 12 de outubro, a Arena Pantanal representou os dois processos migratórios recentes que Cuiabá vivencia: o haitiano e venezuelano. A bela Arena construída em grande parte com a mão de obra de imigrantes haitianos, trazidos principalmente pela empresa Mendes Júnior 10 anos atrás. Grande parte dos haitianos seguiram suas diásporas rumo aos Estados Unidos após a conclusão da obra, os que permaneceram, enfrentam dificuldades para prosperarem, mas estão melhor do que estavam no Haiti, devastado pelo terremoto quando iniciaram suas travessias.

A Venezuela, cuja seleção enfrentava o Brasil, é o país que acumula o maior número de imigrantes em nossas esquinas, famílias inteiras, visivelmente vulneráveis e cerca de outros quatro mil venezuelanos vieram encaminhados pela Operação Acolhida, um programa oficial de triagem e acolhida humanitária do governo federal. A migração venezuelana foi precedida de um processo de empobrecimento abrupto do país e seu povo, que correu para as fronteiras da Colômbia e do Brasil.

Em Cuiabá, o Centro de Pastoral para Migrantes Scalabrini, no bairro Carumbé, está operando com capacidade máxima. Mais de noventa pessoas estão acolhidas na casa, com raras exceções de alguns poucos cubanos e africanos, a quase totalidade é de famílias venezuelanas. Prioritariamente o abrigo é familiar. Improvisadamente há um serviço de creche sendo estabelecido no local, o que altera a rotina do espaço de convivência coletiva, há cerca de vinte crianças pequenas, bebês.

Dois venezuelanos se aventuraram para assistir à partida de quinta-feira viajaram de ônibus da Bolívia até Cuiabá. Entraram em contato com um jogador e ganharam os ingressos para o jogo. Ao sair da Arena Pantanal, um deles caiu e fraturou o pé. Sem dinheiro, foram encaminhados para o Centro de Pastoral para receberem ajuda e mediação junto a Prefeitura para que após, o atendimento médico, conseguissem passagens para retornar.

Inúmeros venezuelanos que se encontram em Cuiabá vieram de processos migratórios frustrantes na Colômbia, Equador e Perú. Outros tantos entraram por Roraima e pelas conversas percebe-se que Cuiabá não deve ser o destino final do deslocamento para a maioria deles. A situação das diásporas se repete e é baseada nas dificuldades de esperar pelo fim da crise social e colapso econômico, no qual o país está mergulhado desde 2014. A imagem externa é de um país abalado pela pobreza e inflação estratosférica.

“Nunca quis sair do meu país, estou aqui por necessidade” é uma frase que se ouve continuamente no Centro de Pastoral para Migrantes. As histórias de vida também se repetem: família de classe média, bom emprego e bom padrão de vida, filhos matriculados em escolas privadas, plano de saúde. A medida que a crise se agravou, os pais perderam o emprego, os filhos deixaram a escola privada e foram matriculados em escolas públicas em bairros distantes, o transporte escolar foi cortado, o alimento foi racionado. A vida foi complicando com a falência do estado e cortes nos auxílios concedidos ao povo. Mesmo que economizassem algum recurso para comprar alguns itens, a escassez já havia atingido nas gandolas dos supermercados, não havia mais alimentos para todos.

É urgente ouvir o que Krenak tem a dizer

Há dois anos eu escrevi neste espaço sobre Ailton Krenak. Hoje o líder indígena mineiro da etnia crenaque, ativista do movimento socioambiental e da defesa dos direitos indígenas. Jornalista, escritor, que desde a década de 1980, dedica-se a articulação do movimento dos povos indígenas, também professor Honoris Causa pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e pela Universidade de Brasília (UnB), é o mais novo membro da Academia Brasileira de Letras. Foi eleito, na última quinta-feira, 5 de outubro, numa disputa onde superou o educador e escritor indígena Daniel Munduruku. A Academia Brasileira de Letras acerta em cheio na escolha de um indígena, visto que a UNESCO proclamou o decênio 2022-2032, como a década Internacional das Línguas indígenas.

Escrevi sobre Krenak quando eu havia acabado de ler o impressionante discurso dele “Ideias para adiar o fim do mundo”, que encantou o Instituto de Ciências Sociais em Lisboa, mais tarde tornou-se um livro, onde ele usa a alegoria poética dos paraquedas coloridos, para propor que sejam construídos com nossa capacidade crítica e criativa, para aproveitar a queda, que é inevitável. Krenak potente e inspirador diz que os paraquedas são projetados de lugares onde são possíveis as visões e os sonhos, lugares que devemos aprender a habitar.

Krenak fala da urgência de agir para transformar o mundo que agoniza e diante da certeza de que estamos em queda como civilização, ele diz que devemos aproveitar e ressignificar a queda e recomeçar a partir dela. Diante da certeza de que a Terra não suporta nossas demandas, ele propõe uma virada de perspectiva para salvarmos não apenas as populações originárias que agonizam, mas todos nós que estamos debaixo do abraço generoso da Terra. O líder indígena encarece que devemos lutar para adiar o fim do mundo porque não aprendemos sequer a lutar por uma sobrevivência digna, com respeito à luta dos outros, precisamos de tempo para aprender estabelecer uma relação amorosa com os que nos são iguais, com todos e com a natureza.

Entre uma metáfora e outra em Lisboa ele falou das pequenas constelações de pessoas felizes, que experimentam prazeres simples, cantam, dançam, fazem chover e sem querer, viram alvo da intolerância daqueles que não toleram a fluidez e leveza. Krenak compartilha poeticamente a ideia de um outro mundo possível, onde nos tornemos uma constelação gigante de pessoas felizes!

O mais novo imortal não saiu de uma cidadezinha no estado de Minas Gerais direto para a Academia Brasileira de Letras. Sua vida seguiu um traçado de importância inestimável para a construção do currículo que apresentou à Academia. Jornalista, desde o início da década 1980, passou a dedicar-se exclusivamente ao movimento indígena. Fundou o Núcleo de Cultura Indígena, teve papel fundamental e intransigente à época da Assembleia Nacional Constituinte, na defesa dos direitos dos povos indígenas, até conseguir incluir suas demandas na Constituição Federal.

Ativo, participou das grandes movimentações dos Povos Indígenas, publicou livros, narrou documentários. Foi assessor do Governo de Minas Gerais para assuntos indígenas, durante as gestões de Aécio Neves e Antônio Anastasia. Palestrante em seminários nacionais e internacionais, acabou sendo a grande estrela da Festa Literária Internacional de Paraty – FLIP de 2019. Leciona na Universidade Federal de Juiz de Fora, as disciplinas “Cultura e História dos Povos Indígenas” e “Artes e Ofícios dos Saberes Tradicionais”, em cursos de especialização.

Articulado e versátil, foi um dos protagonistas da série Guerras do Brasil, na Netflix, que relata com detalhes a formação do Brasil ao longo de séculos de conflito armado, começando com os primeiros conquistadores até a violência na atualidade. Com vários livros publicados, traduzidos para mais de treze países, conquistou o Prêmio de Intelectual do Ano concedido pela União Brasileira dos Escritores, em 2020.

Atualmente vive na Reserva Indígena Krenak, no município de Resplendor, no estado de Minas Gerais.

Quando casais se distanciam, nunca é repentino

Fomos socializados para acreditar e buscar um futuro feliz para sempre em todo relacionamento significativo. Mas o que acontece quando o amor, qualquer que seja a sua categoria e classificação, se dissolve sob as forças indomáveis ​​do tempo e da mudança? No meio do que parece ser uma perda impossível de sobreviver, como podemos nos amarrar ao fato de que mesmo as coisas mais belas e mais singularmente gratificantes da vida são meramente emprestadas do universo, concedidas por um tempo, depois se vão, inexoravelmente? 

Causa estranheza tantas manifestações ocorridas acerca do fim de alguns relacionamentos de famosos ocorridos durante a semana. Nada é fixo. Nada é permanente, para ninguém. Apreciar e compreender a vida em cada instante é uma arte a ser praticada. Cada vez que sofremos uma desilusão estamos mais perto da verdade porque se fomos iludidos é porque não estávamos plenamente atentos. Quando os casais se distanciam, nunca é repentino.

No mundo moderno e líquido, uma relação pode ser vista como uma transação, uma coligação de interesses confluentes, e nesse mundo fluido as coligações tendem ser flexíveis e frágeis. Se acharmos que precisamos fazer com que cada momento seja profundo, significativo e eterno, arruinaremos o relacionamento. Há uma afirmação budista(Koan) sobre o esforço demasiado para fazer um relacionamento dar certo: “o fim pode vir a qualquer hora, relaxe.”

Relações estagnadas não valem a pena, tampouco relações de conflitos e nem sempre é possível dar nova vida ao relacionamento, seja curto ou longevo. Separar-se dói, confunde, mexe com sonhos e estruturas básicas dos envolvidos. Recorro a minha descrença com relacionamentos que dispendem de grande energia e pirotecnia verbal, como a tradicional hipérbole “eu quero ficar com você pelo resto da minha vida”, para lembrar que os seres humanos, imperfeitos, impermanentes e confusos, com raras exceções, inevitavelmente vão te decepcionar. 

Sobre amor e relacionamento, a história que me fala a alma é contada também por um famoso, pelo escritor colombiano Gabriel Garcia Marquez no livro “O amor nos tempos do Cólera”. Uma irretocável história que se estendeu por mais de cinco décadas de amor e espera entre Fermina Daza, filha de um dos mais importantes homens da cidade e Florentino Ariza, um menino simples e puro.

Proibidos de se encontrarem, aos 20 anos, ela se casou com o médico da cidade, Juvenal Urbino, dedicado a pôr fim à epidemia do Cólera. Florentino tomou a decisão de esperar por Fermina o tempo que fosse necessário e estabeleceu com ela um sistema de trocas e juras de amor através de cartas e telegramas.

Florentino dedicou sua vida ao seu amor, mas enquanto esperava contabilizou cerca de seiscentos e vinte e duas (622) aventuras amorosas fugazes. Ela sabia que ele a amava mais que tudo no mundo. Eles estavam de certa forma juntos em silêncio além das armadilhas da paixão, além do próprio amor. Amor, que em Florentino, doía o corpo, como os sintomas do Cólera.  

53 anos, quatro meses e 11 dias depois morreu o Doutor Juvenal Urbino. Florentino aproximou-se de Fermina e sussurrou: “Eu esperei por esta oportunidade há mais de meio século para repetir para você o meu voto de amor e eterna fidelidade.” Tempos depois, Florentino recebeu um envelope com um bilhete de uma só linha que dizia: “Está bem, me caso com o senhor”.