A aliança com os homens não é opcional, é crucial

Há chamamento global no sentido de reafirmar o compromisso com um futuro mais justo e seguro para as mulheres. Os relatórios unanimemente indicam que as ações passam pelo processo indissociável da educação transformadora, porque as garantias previstas na Constituição brasileira, por exemplo, não foram suficientes para conter o assédio, a discriminação, a desvalorização, a posse, que são, em muitos casos, o indício das tragédias contra a vida de mulheres. Desnecessário reafirmar que todos, homens e mulheres merecem viver seguros e serem tratados com compaixão, dignidade e respeito. E as mulheres, particularmente, deveriam ser capazes de dizer “não” livres do medo da violência.

Não é o que acontece, infelizmente. Mas quando analisamos as ligações entre as formas de violência de homem contra mulher, podemos perceber claramente os sistemas que permitem isso florescer.

O DataFolha/FBSP 2025 divulgou a 5ª edição do documento Visível e invisível: a vitimização de mulheres no Brasil e as principais violências sofridas por mulheres brasileiras no ano de 2024 foram: ofensas verbais (17,7 milhões de mulheres); agressão física (8,9 milhões); stalking (8.5 milhões); violência sexual (5.3 milhões) e divulgação de fotos ou vídeos íntimos na internet (1.5 milhão de mulheres).

A educação não corrompe, ela protege. Precisamos mudar a forma como falamos sobre a violência do homem contra a mulher. Precisamos educar nossos garotos não para serem os mais fortes, os mais espertos, mas, para que sejam mais carinhosos, para que se importem mais com o outro. Ter conversas desconfortáveis é agora é um dos meios para criar espaço de fala e escuta seguras na escola e em casa, desafiando estereótipos preconceituosos, sem desviar o olhar. O desafio real não é apagar a masculinidade, mas expandir a forma como falamos sobre isso. Os meninos precisam ser envolvidos como aliados no trabalho de restauração da convivência amorosa entre os gêneros, porque certamente, eles anseiam um mundo melhor, muito além das narrativas tóxicas da masculinidade que acentua a desigualdade. O que devemos trabalhar não é sobre divisão, é sobre responsabilidade e transformação.

A masculinidade não é inerentemente tóxica, mas algumas expectativas de masculinidade podem ser. Quando pensamos que não nos falta ver nada mais diante do quadro de epidemia de violência contra a mulher, eis que a retórica misógina online cresce dentro da manosfera ou machosfera, um termo usado para identificar comunidades misóginas interconectadas online direcionadas a garotos, com conteúdo certeiro para espalhar o ódio contra as mulheres. A novidade nas mídias sociais é um movimento que opera dentro da manosfera chamado incel, que se refere a uma subcultura online de homens, predominantemente jovens e heterossexuais, que concentram absurdas crenças e normas para reativar teorias biológicas estereotipadas de masculinidade onde o homem deve ter poder sobre a mulher.

O termo incel era apenas uma abreviação de “celibatários involuntários”, porém, mudou ao longo do tempo, e agora o termo se refere a homens que acreditam ser incapazes de estabelecer relacionamentos e tendem culpar as mulheres em particular, pela falta de experiências românticas ou sexuais. O movimento incel se tornou profundamente ideológico, promovendo ódio e violência contra mulheres em plataformas de mídias sociais. De acordo com essa visão de mundo extremamente misógina, o movimento incel espalha a versão de que as mulheres selecionam seus parceiros com base apenas na aparência e na riqueza material, por isso elas são vistas como pessoas imorais e indignas de confiança.

Vai ficando cada vez mais difícil corrigir o impacto que essas comunidades online têm sobre os jovens e suas atitudes em relação às mulheres. A ascensão da retórica misógina volta a assombrar às mulheres. E esta não é uma questão que diz respeito apenas as mulheres: a igualdade de gênero exige aliança em todos os níveis. Se queremos uma mudança real, os homens devem desafiar ativamente as narrativas prejudiciais e movimentos de ‘modinha’ que dominam os discursos de uso de força e controle contra às mulheres.  

O inconcebível acontece com frequência

Para o filósofo e teórico político suíço, Jean-Jacques Rousseau, o homem como ser natural é um ser bom, “os homens não são naturalmente nem reis, nem grandes, nem cortesãos, nem ricos; todos nascem nus e pobres, sujeitos às misérias da vida, às tristezas, aos males, às necessidades, às dores de toda espécie; e finalmente todos estão condenados à morte. Eis o que é realmente do homem, eis o de que nenhum mortal está isento”. Para Rousseau, os homens deveriam ser forçados a ser humanos.

Pessoa em situação de rua não é anjo nem demônio, assim como nenhum de nós e não é isso que pretendo problematizar aqui. Estou falando de um assassino, de um assassinato com requinte de premeditação e banalização da dignidade e da vida humana. Ou você, numa avaliação simplista acha que matou-se o homem porque ele estava em situação de rua? Não. Matou-se um homem para saciar a sede de violência de um homem mau, que ansiava causar dor a alguém incapaz de fazer o mesmo com ele. É dito que o predador quando sai à caça, ele, covardemente atinge o alvo mais vulnerável, mas na ânsia de fazer o mal, poderia ter sido o filho de qualquer um de nós que estivesse usando a camisa da mesma cor da vítima porque o assassino não a conhecia.

Dizer que a violência faz parte do nosso processo evolutivo é uma simplificação tão exagerada quanto propagar que se romantiza a pobreza e as pessoas em situação de rua. Defender o direito à vida de uma pessoa em situação de rua não é romantizar a vida nas ruas, até porque, a cidade, não costuma ser generosa com essas pessoas. Estamos apavorados é com a convivência com o desprezível advogado e procurador que atirou, estamos atônitos com a facilidade com que o assassino, estudado, doutor, de classe social razoável transmuta de um mundo para outro, possivelmente, não pela primeira vez.

Eric Voegelin, filósofo alemão escreveu que o colapso em que se encontra o mundo é fruto da perda da consciência de experiências vitais para a ordem social e existencial. Neste quadro desolador, de deturpação dos valores surgem os homens de espíritos corrompidos, dotados de humanidade doente e desordenada, que Voegelin chama de pneumopatologia. É uma situação em que o indivíduo passa a viver uma realidade paralela, que é a ascensão das trevas: “o estúpido criminoso, não é um “psicopata”, mas algo mais profundo: ele sofre de uma doença do espírito, que acaba por enraizar-se em todo o seu ser.

Apesar de termos avançado muito como espécie e como sociedade, ainda há muitos que mantém os pés no nosso passado pré-histórico, cultivando a tendência de serem violentos e agressivos. Convencionalmente, entende-se que a violência é motivada por emoções negativas, como raiva e medo, mas há estudos que apontam que para muitos homens, a violência é uma arma poderosa e agradável de realização. E esse prazer é reforçado pelos sentimentos de poder e domínio.

Pessoa boa não mata. Homem de família? Todos os homens do mundo o são e alguns são maus e matam, a grande maioria, porém, são homens bons. O governador do estado de Mato Grosso e o presidente da Assembleia Legislativa repudiaram veementemente o crime brutal e vão acompanhar os desdobramentos legais e cobrar rigor na punição e aplicação da pena.

Nunca devemos pensar que o inconcebível não acontece. Acontece, com frequência.  

Respeito na política significa olhar para dentro, discordar sem deslegitimar

Se a política não servir para melhorar a condição humana seria pura expressão do poder. Não interessaria minimamente nem a mim nem a vocês, escreveu Norberto Bobbio, jurista italiano e senador vitalício da Itália, para quem não devemos assistir às coisas deste mundo com inerte resignação, tampouco com previsões ou apostas. “Deixemos as previsões aos astrólogos, e as apostas aos jogadores. Os primeiros contam com as correntes inexoráveis da necessidade, os segundos confiam no acaso. O homem de razão limita-se a levantar hipóteses, partindo de alguns dados de fato”.

Nicolau  Maquiavel, filósofo italiano, que foi diplomata e homem de estado, conhecedor dos mecanismos e instrumentos de poder, escreveu há quase 5 séculos, O Príncipe, um dos mais importantes escritos sobre política do mundo e ensinou que a natureza humana é variável, que os homens são inconstantes e que, se é fácil persuadi-los de alguma coisa, é difícil fortalecê-los ou mantê-los por muito tempo em tal persuasão, porque o povo sempre tem o desejo de mudança na política,  de mudar os governantes, esperando que algo positivo aconteça. Enfim, uma obra que dialoga conosco até os dias de hoje, é política na prática.

Aqui e agora, as opiniões políticas das pessoas tornaram-se as suas identidades, estamos meio bravos, meio descontentes, profundamente divididos, sem diálogo, cheios de rótulos e estereótipos, reforçando atitudes negativas, distorcendo as interpretações das pessoas sobre posicionamento político. Ainda assim, restamos parte esperançosos e tentando enviar mensagens aos políticos expressando a preocupação e a frustração. Se queres perceber em que nível está o pavio do cidadão leia os comentários escritos abaixo das entrevistas de políticos. Há rasgos enormes de descontentamento, sugestões e acusações, que precisam ser ouvidas e respondidas. Não é cedo para falar de política, para se informar, se posicionar, sem se desculpar pelo lado que você escolher.

Não nos preocupemos com a exatidão dos nossos movimentos à esquerda ou à direita, movamos para criar as condições para um desacordo produtivo, baseado em princípios respeitosos. Insistamos no respeito, sem evitar conversas complexas sobre política. Admitamos que o outro está engajado em projeto de viés contrário e respeitar isso não é ser legal, não é ser tolerante. Respeito na política significa olhar para dentro, discordar sem deslegitimar, falar por si e não pela tribo. Buscar a verdade sobre os candidatos e não seguir um ou outro pela aventada facilidade de vitória.

Nunca é cedo para se debater a política. A construção dos projetos leva tempo para amadurecer, depende de tantas coisas que escapam à compreensão profunda de uma maioria, mas que merecem ser acompanhados com atenção, ainda que em partes. A construção do tipo ideal na política também leva tempo. Não há como buscar no outro o reflexo do nosso caráter, das nossas relações, das circunstâncias, das durezas econômicas e sociais que vivemos. Não deve haver ansiedade por trás da escolha do homem em quem votar, até porque é necessário separar o homem dos rótulos que colam nele, com a finalidade de distorcer a imagem e saciar a sede de espetacularização que há na política, muitas vezes apresentada em um palco para manipular e conquistar a audiência.  

Leia sobre política, converse sobre política, envolva-se com a política. Eleve a voz sempre que precisar cobrar direitos. Vinicius de Moraes escreveu que a maior solidão é a do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana. A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo.

Até aqui nada foi concedido, tudo foi fruto de lutas

As mulheres são, pela primeira vez em cinco décadas, maioria em todas as grandes regiões do Brasil. As mulheres são mais escolarizadas que os homens, apesar de terem conquistado representatividade como gestoras, apenas 38% exercem cargos de liderança. Das 142 prefeituras de Mato Grosso, apenas 13 são administradas por mulheres. O estado tem a maior participação feminina nas Câmaras Municipais de sua história, das 1.404 vagas para vereador, 277 mulheres foram eleitas, cerca de 20% do total. Cuiabá elegeu 8 vereadoras. Há avanços aqui, retrocessos ou estagnação ali. Essa maioria da população brasileira, ainda sofre com agressões, ameaças, preconceitos, feminicídio e desigualdade salarial.

A história das mulheres foi, durante muito tempo, contada a partir do relato dos homens uma vez que a palavra era concedida somente a eles. Contam que no século XVII, havia uma crença sobre a mulher na sociedade francesa: “um animal imperfeito, sem fé, sem lei, sem medo, sem consistência”.

A incompletude citada e falta de autonomia da mulher seguiu sendo explorada pejorativamente, mesmo resguardando contexto histórico, por filósofos e sociólogos, como o francês Auguste Comte, que inicialmente descreveu as mulheres como seres biologicamente inferiores aos homens cuja missão natural era educar os filhos e zelar pelo lar para mais tarde, propor a transformação da humanidade a partir da educação das mulheres. Em Jean-Jacques Rousseau, a mulher tem mais espírito, o homem mais gênio, a mulher observa, o homem raciocina. Rousseau aconselhava que: “um deve ser ativo e forte, o outro passivo e fraco; para que um queira e possa, basta que o outro resista pouco.”

Na introdução do livro O Segundo Sexo, a filósofa francesa, Simone de Beauvoir, cita o filósofo grego Aristóteles, para quem “a mulher é fêmea em virtude de certa carência de qualidades, devemos considerar o caráter das mulheres como sofrendo de certa deficiência natural”. O filósofo alemão Arthur Schopenhauer, arremata afirmando que “a mulher sofre de uma miopia intelectual que lhe permite, por uma espécie de intuição, ver de uma maneira penetrante as coisas próximas; mas o seu horizonte é limitado, escapa-lhe o que é distante”.

O tempo passou, a participação feminina começou a ganhar destaque em algumas esferas da vida em sociedade. Porém, Simone de Beauvoir, em 1949, abordou a posição secundária da mulher em relação ao homem na sociedade da época. Uma das frases mais marcantes do livro é: “Não se nasce mulher, torna-se mulher”, que serviu para a filósofa ilustrar que os papéis que associamos às mulheres não são dados a elas inerentemente, em virtude de sua biologia, mas são construídos socialmente, através de lutas e levantes diante da opressão que sofreram. As mulheres aprenderam o que devem ser na vida, que tipo de papéis podem ou não desempenhar.

Betty Friedan, jornalista e psicóloga americana escreveu “A Mística Feminina”, lançado em 1963, denunciando o vazio existencial da vida das mulheres, com a limitação de seus papéis sociais, o que deu início a uma fase radical do movimento de luta por direitos iguais entre homens e mulheres e o lançamento do livro reforçou o movimento de libertação das mulheres das amarras machistas. O livro causou forte impacto na discussão apaixonada sobre o papel das mulheres na sociedade moderna. Simone de Beauvoir e Betty Friedan são leituras imprescindíveis para se entender o contexto em que as lutas por oportunidades e reconhecimento aconteceram e para que as mulheres sigam vigilantes àquilo que tem direito, porque até aqui, quase nada foi oferecido e sim, fruto de conquistas.

A liberdade gozada pelas mulheres é o que é hoje porque o movimento feminista foi o que foi no passado. O que passou a médica e mulher admirável, ex-presidente do Chile, Michelle Bachelet, para do alto de sua experiência dizer que uma mulher na política, muda a mulher. Muitas mulheres na política, mudam a política.

O caminho está sendo pavimentado, com muitas mulheres interessantes ocupando espaços políticos. Uma deputada americana certa vez foi perguntada, com ironia por um colega parlamentar sobre a “incoerência” de ser mãe e deputada ao mesmo tempo, ao que ela respondeu: “Tenho um cérebro e um útero e sei usar os dois”. Quando uma mulher aspira um cargo político, a direção de uma empresa, a presidência de um país, ela o faz pelas mesmas razões que qualquer homem, porque ela entende e firmemente acredita que é capaz de executar bom trabalho.

Que diplomacia é essa?

No ano de 2004 fiz a primeira visita ao Palácio Itamaraty, sede do Ministério das Relações Exteriores, em Brasília, no antigo Departamento de Relações Federativas. O governo brasileiro se preparava para receber o presidente da Rússia, Vladimir Putin, em visita oficial ao país naquele ano e eu precisava aprender a receber autoridades estrangeiras em visita ao estado de Mato Grosso e os códigos de comportamento em caso de viagem oficial ao exterior. Exatamente dez anos depois, no ano de 2014, voltei ao Palácio Itamaraty para me preparar para receber as autoridades estrangeiras que viriam para assistir a Copa do Mundo em Cuiabá, além de vários embaixadores, o vice primeiro-ministro da Rússia, Arkaduy Dvorkovitvh e a Presidente do Chile, Michelle Bachelet. Graças a colaboração de um diplomata enviado para Cuiabá, conduzimos as agendas governamentais sem nenhum embaraço.

Henry Kissinger, ex-secretário de estado norte americano escreveu o livro ‘Diplomacia’, onde descreve o método estabelecido para influenciar as decisões e o comportamento de governos e povos estrangeiros por meio do diálogo, negociação e outras medidas que não envolvam violência. A arte da diplomacia, visa proteger os interesses nacionais, promover a paz e estabilidade internacional, além de fortalecer relações bilaterais e multilaterais entre os Países. O presidente americano Donald Trump, certamente não leu Kissinger, pois, deixa claro, por suas atitudes, que pouco sabe sobre diplomacia.

Em menos de 2 meses na presidência dos Estados Unidos, Donald Trump tentou constranger várias nações estrangeiras. Aleatoriamente começou a se referir ao Golfo do México, como Golfo americano; em um telefonema desrespeitoso para a primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen propôs comprar a Groenlândia, a maior ilha do mundo, um território autônomo da Dinamarca, muito rica em recursos naturais, incluindo metais de terras raras, que não está à venda. Trump apresentou ao primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, uma solução, que passa longe da diplomacia, para resolver o conflito entre israelenses e palestinos. Os Estados Unidos assumiriam o controle da Faixa de Gaza, realojaria os palestinos em alguns países e transformaria a área num resort de luxo, a “Riviera do Oriente Médio”.

Em encontro tenso, na última sexta-feira, o presidente americano, com dedo em riste, desferiu ataques grosseiros, para constranger e humilhar o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, que viajou a Washington para tratar de tema sensível, a guerra. Assunto reservado, que deveria ter sido tratado entre os chefes de estado, sem plateia e sem imprensa. Zelensky pergunta a Trump: que tipo de diplomacia se trata aqui? Trump faltou respeito do começo ao fim do encontro. Prevaleceu a arrogância e vaidade em tempo real.

A Casa Branca convidou um chefe de estado para reunião e tentou submetê-lo a pressão e chantagem. Donald Trump pressionou Zelensky a fechar um acordo sobre o acesso dos Estados Unidos aos minerais estratégicos da Ucrânia. Um acordo, segundo Trump, para compensar a grande ajuda que os EUA forneceram à Ucrânia desde a invasão da Rússia em 2022, Zelensky rejeitou e deixou a Casa Branca sem assinar o documento. Em manifestação pública, líderes de vários países se solidarizam com Zelensky após o bate-boca e reforçam a base de apoio à Ucrânia.

Plantaram até um jornalista aliado para constranger o presidente ucraniano perguntando-lhe a razão de não estar usando terno no Salão Oval da Casa Branca, quando Elon Musk frequenta o local diariamente de camiseta e com uma criança pendurada no pescoço. Que “dress code” é esse?

O processo incivilizado da violência contra a mulher

O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) assinou semana passada, um acordo de cooperação com a plataforma de entregas iFood para combater a violência contra a mulher. A plataforma vai capacitar profissionais que realizam entregas para que eles reconheçam pedidos silenciosos de socorro de mulheres que enfrentam situações de violência doméstica. Durante a assinatura do acordo, o presidente do CNJ e do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Luís Roberto Barroso, disse que a violência doméstica no Brasil é uma “epidemia”, e a sociedade precisa ser mobilizada em prol do tema.

Chamou à atenção do mundo inteiro a atitude de uma famosa cantora mexicana chamada Alicia Villarreal, que ao final de um show, esta semana, ao agradecer o público, ergueu a mão, dobrou o polegar sobre a palma e fechou os dedos sobre ele, num sinal amplamente divulgado para pedir ajuda em casos de violência doméstica. O gesto feito em público, numa feira agropecuária, falou por si, se espalhou e ganhou manchete nos principais jornais, que logo noticiaram que havia uma semana a artista tinha registrado uma denúncia contra o marido e foi vista dando entrada em um hospital, com ferimentos aparentes, a cantora entrou com pedido de divórcio.

Em áudio divulgado após seu assassinato, é possível ouvir a jornalista Vanessa Ricarte, de Campo Grande, MS, reportar a um amigo, também jornalista, o seu desapontamento e esgotamento emocional com o atendimento que recebera quando foi registrar a ocorrência de violência doméstica e pedir medida protetiva contra o noivo na Delegacia Especializada em Atendimento à Mulher. A jornalista relatou falta de acolhimento e de orientação e atendimento frio. Mesmo assim, requereu medida protetiva e acompanhada pelo amigo para quem ligara, foi para casa retirar suas coisas. O noivo estava na casa e atacou Vanessa e o amigo, que conseguiu escapar. Vanessa tinha apenas 42 anos.

Se uma jornalista teve essa percepção do atendimento desleixado, sem empatia alguma, imagine o tratamento que é dado a mulheres humildes, sem esclarecimento para fazer essa leitura das entrelinhas do que ela viveu enquanto denunciava. Percebe então, por que muitas são desencorajadas a finalizar a queixa e o pedido de medida protetiva?

Ao final do áudio, ouve-se Vanessa angustiada: “Eu que tenho instrução fui tratada dessa maneira, imagina uma mulher vulnerável lá no meu lugar. Essas que vão para as estatísticas do feminicídio”. Lamentavelmente, Vanessa também virou estatística.

Mato Grosso registrou um aumento significativo nas denúncias de violência contra a mulher em 2024, mesmo assim, mais de 80 crianças ficaram sem mães no período. Muitas mulheres não dimensionam a potencialidade do agressor, vão levando o relacionamento à diante. Porém, em todos os papéis que tratam do tema, há uma tese compartilhada: “Todo agressor de violência doméstica é um potencial feminicida”.

A violência contra a mulher é uma ameaça ao bem-estar de seus filhos. No primeiro mês do ano, em Mato Grosso 2 crianças de três e oito anos de idade perderam a mãe, assassinada pelo marido, na frente das crianças. O assassino foi morto pela polícia e ao perderem pai e mãe, as crianças foram encaminhadas para o Conselho Tutelar, até que algum parente se ofereça para cria-las.

Esta semana saiu a sentença de um assassino, dois anos após o feminicídio cometido contra a esposa na cidade de Cotriguaçu, onde o indivíduo cumpre pena. Ao receber a sentença, a defesa alegou incidente de insanidade mental do réu a ponto de não compreender a gravidade do ato que praticou. A realização do exame, obviamente foi negada.

Cada indivíduo pode ter um modelo de comportamento e pensamento em termos de gênero, mas precisamos questionar e refletir sobre nosso comportamento, pode revelar em que altura da vida, adotamos subconscientemente ou não, uma maneira sexista de pensar.

O estado é o sistema

A busca incessante pela reforma dos sistemas políticos é parte indissociável do progresso do mundo civilizado. Há concretamente descontentamento com a qualidade de muitos serviços públicos, há descrença com a velha forma de fazer política. Há como reformar a máquina pública. Entretanto, não se deve propagar a confusa ideia entre promover reformas e ser antissistema.   Na ciência política e das relações internacionais, o sistema é concebido como um conjunto de princípios, normas, instituições, conceitos, crenças e valores que definem os limites do que é convencional e legitimam as ações dos cidadãos dentro desses limites. Do sistema fazem parte: a ordem política, social, econômica e cultural sob a qual vivemos, a ordem racial e hierarquias de gênero, todas trabalhando juntas como um mecanismo complexo, porém, único.

Para fazer as mudanças que o Brasil precisa, é preciso negociar com esse sistema que aqui está. Não é possível descontruir as instituições por questões de preferências ou bravatas em ciclos eleitorais.

O sistema ordena e controla as funções e relações entre a sociedade humana, a economia, a população e o mundo natural. Este é o ponto de partida para compreender o sistema, isto é, o Estado, cuja característica central é a estrutura jurídica, administrativa e tomada de decisões. O Estado moderno é interligado entre governos, instituições, organizações e grupos informais, como os grupos da sociedade civil, partidos políticos, famílias.  empresas, instituições financeiras. São antissistema os movimentos e pessoas que tratam as instituições com desdém e se opõem radicalmente ao sistema dominante, ao estado, como um todo e ainda, se intitulam como os messias capazes de descontruir a ordem estabelecida.

Todos os dias, frases desconexas, como: “venho para combater o sistema”, “sou um homem da iniciativa privada, sou contra o sistema que aí está”, surgem nos discursos dos homens que se lançam candidatos e não querem assumir que, de fato, pretendem abraçar e serem abraçados pelo sistema. Ora, o sistema, em certo momento já beneficiou a todos os homens públicos e privados. E quem já está na política, seja investindo em candidaturas ou em cargos eletivos ou não, estão promovendo seus crescimentos dentro do sistema. E diante da luz das câmeras, dizem ser contra o establishment, palavra em inglês que melhor define todo o arcabouço que constitui o estado. Isso não vai colar.

Lembro-me de Fernando Collor, candidato à presidência da República em 1989, com discurso antissistema, pregando a destituição do sistema vigente, caçando marajás pelo país. Bradava contra um sistema, que já havia lhe possibilitado ser prefeito de Alagoas e deputado federal. Enquanto presidente, não promoveu ruptura alguma, não reformou parte do sistema que criticou e arrasta consigo ainda hoje, o estigma de haver confiscado as economias poupadas de milhares de brasileiros, além de haver permitido que montassem atrás de si, uma rede gigantesca de tráfico de influência no governo. O resultado, foi a votação a favor da abertura do processo de impeachment dois anos depois da posse.

Pablo Marçal declarou ser antissistema. Criticou tudo, não apresentou proposta alguma para reformar o estado brasileiro, não foi para o segundo turno nas eleições municipais em São Paulo.

Quem não quer verdadeiramente fazer parte do sistema, deve ficar fora da política. Não é possível promover desenvolvimento sem utilizar emendas parlamentares, sem assinar convênios com órgãos do governo federal; não é possível entrar na política e virar as costas para as relações institucionais com o estado e empresas privadas.

Os homens estão sonoros e exaltados

Atualmente vivemos num mundo envolto em volatilidade, incerteza, complexidade e ambiguidade, em inglês há uma siga para isso, VUCA (volatility, uncertainty, complexity, and ambiguity). São velhos assuntos que testam a humanidade, como a emergência climática, a violência, os conflitos internacionais e a eterna Aliança Global de Combate à Fome, que, repaginada, foi lançada recentemente e teve a adesão de 82 países e diversos organismos internacionais.

Os humanos são seres que fazem sentido e procuram compreender e interpretar o que está acontecendo, porém, nem sempre conseguem conviver bem com o extrato da sociedade e abordagem dos fatos como está acontecendo nesse dado momento. Os homens estão muito sonoros e exaltados, se rompem os laços interpessoais de fraternidade, que são necessários para que tenhamos uma sociedade sem violência, como disse o Ministro do STF, Flávio Dino, dias atrás, em Cuiabá.

E, contrariando um provérbio oriental, tempos difíceis não tem gerado homens fortes. Os ânimos estão à flor da pele, não há mais o adversário, o oponente, há o inimigo. Não há aceitação da derrota. Há tentativa de golpe, planos de assassinatos. Não há mais comparsas leais. Há a delação.

A crítica tem sido punida sob a positividade das convicções de quem as ouve, mas devemos aceitar a punição do que é errado sem favoritismo, fanatismo ou polarização, a violência praticada ou comprovadamente planejada deve entrar na conta do delito e seguir com o processo judicial.

O cientista político da Universidade Federal de Minas Gerais, Felipe Nunes diz que: “a sociedade brasileira se tornou polarizada e socialmente calcificada”. Ele explicou que o índice da polarização afetiva está associado à tolerância com o diferente. Já a calcificação pode ser relacionada ao fato de que a sociedade se tornou mais rígida quanto à identidade, ou seja, as pessoas estão mais intolerantes quanto a ouvir quem pensa diferente, não debatem mais o Estado, debatem os valores. Diz que o povo virou torcedor que têm visões de mundo radicalmente diferentes e não estão dispostos ao diálogo. O cientista político diz ainda que a única maneira de superar a calcificação é por meio da pluralidade de ideias e do convívio saudável com o diferente e do debate.

Apesar de estamos emocional e fisiologicamente sintonizados com o mundo que nos rodeia, estamos também, bombardeados com informações já recheadas de ideologia e não podemos perder a noção de onde vêm nossas influências, não podemos permitir a quebra dos valores civilizados da cultura da paz. Precisamos desafiar nossas suposições para nos abrirmos para a possibilidade de vermos uma situação sob variadas formas de interpretação.

Porque, em John Donne, poeta inglês aprendemos que: “Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra…” e como uma partícula do universo, condensada à sua importância, nenhum homem pode fazer grandes coisas, apenas pequenas coisas com grande amor. (Mahatma Gandhi).

Estamos perdendo nossa alma afetuosa para o ódio

Diante do atroz atentado nas proximidades da Praça dos Três Poderes, em Brasília, onde um homem morreu, vítima do artefato que ele mesmo construiu para ceifar vidas alheias, o ministro Luís Roberto Barroso, presidente do Supremo Tribunal Federal – STF, perguntou: “Onde foi que nós perdemos a luz da nossa alma afetuosa, alegre e fraterna para a escuridão do ódio, da agressividade e da violência?”. O ministro decano do STF, Gilmar Mendes acredita que o atentado foi provocado pelo fanatismo político e pela indústria de desinformação, estimulada por líderes políticos. O ministro Alexandre de Moraes disse lamentar a mediocridade de várias pessoas que continuam querendo banalizar o gravíssimo ato terrorista, disse ainda, que no mundo todo alguém que coloca na cintura artefatos para explodir pessoas é considerado um terrorista.

Não devemos banalizar ataque às instituições. As ideologias extremistas vêm acompanhadas de intolerância, recusa ao diálogo respeitoso e como último recurso, a violência e líderes extremistas chegam almejam a política para desestabilizar a democracia e pressionar a favor de um lamentável retrocesso.

O que está acontecendo com os brasileiros é que os ressentimentos estão sendo explorados, facilmente. Desde 2018, a política, sobretudo em período de disputa eleitoral assumiu contornos extremistas. O fanático político está em toda parte, sendo alimentado pelas notícias falsas, virando um alvo incapaz de interagir civilizadamente com quem pensa diferente, porque é facilmente manipulado, tem suas emoções controladas e empatia limitada com os outros cidadãos, a quem chama de inimigos do povo. Essa narrativa propagadora ódio e violência cansou todo mundo. O ex-presidente Jair Bolsonaro, quanto ao atentado citado, disse que o caso exige reflexão, que já está na hora de o Brasil voltar a cultivar o ambiente favorável para abrigar pessoas que possam pacificamente confrontar suas ideias.

As ideologias extremistas seduziram muitos seguidores, que acreditam profundamente nas ideias defendidas pelos líderes aos quais estão vinculados e ignoram todas as outras fontes de informação.  O extremismo é uma ameaça para o avanço do debate e as ações que saem fora da agressividade verbal, devem ser tratadas apressadamente, de maneira enérgica. Um caso de violência motivado por extremismo político não pode ter tempo de inspirar outro, mesmo que, por conveniência, o ato violento seja tratado com o contorno de isolado. O desfecho do caso recente do atentado em Brasília puniu um agressor que até recentemente era filiado a um partido político, tentava se eleger vereador numa pequena cidade do interior de Santa Catarina, embora tivesse uma folha corrida de atitudes extremadas e violentas.

Sabemos que o debate político está sujeito a sofrer tensões, sempre as opiniões divergentes entram em cena, mas as pessoas extremistas debatem em nível civilizado apenas com as pessoas que compartilham a mesma visão de mundo, e, esse acúmulo de mais da mesma informação acarreta a visão mais extrema da política e muitas vezes, leva ao desenvolvimento das teorias conspiratórias, como o caso das urnas eletrônicas, que sabidamente promove a eleição de políticos da extrema direita e da extrema esquerda.

Observa que os líderes manipuladores, têm um discurso inflamado para as redes sociais, porém, se mantém próximo do círculo do poder, se equilibrando para sobreviver no que eles, em público chamam com desprezo, de sistema.

O envelhecimento no mundo contemporâneo

O Brasil tem envelhecimento recorde da população de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A população idosa com 60 anos ou mais, corresponde a 15,6% da população. No Censo de 2022, o índice de envelhecimento do Brasil foi de 80,0, o que significa que havia 80 pessoas idosas para cada 100 crianças de 0 a 14 anos. A Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica como idosos as pessoas com mais de 65 anos de idade. No Brasil há um Projeto de Lei para elevar de 60 para 65 anos a idade da pessoa considerada idosa, com a justificativa de que houve avanços significativos na qualidade de vida da pessoa idosa no país.

A Itália, considerou um laudo da Sociedade Italiana de Gerontologia e Geriatria para mudar oficialmente o conceito de idoso para 75 anos. Segundo dados da ONU, o Brasil é a sexta nação com o maior número de pessoas idosas, atrás apenas de China, Índia, Estados Unidos, Japão e Rússia.

Quando o Estatuto da Pessoa Idosa foi aprovado o Brasil, há vinte e um anos, o Brasil tinha 15 milhões de idosos, e em 2022 superou 32 milhões. O crescimento da população idosa é um desafio que exige dos governos a ampliação de programas direcionados a esse grupo. Em Mato Grosso, o desembargador Orlando Perri, coordena a criação da Rede Estadual de Proteção e Defesa da Pessoa Idosa, um colegiado de vários órgãos, para trabalhar políticas públicas que restaurem a dignidade da pessoa idosa que precisa de serviços públicos. Disse ele, que no estado de Mato Grosso tem-se política, mas não tem sequer abrigos públicos e a carência não é apenas estrutural para atender quase 480 mil pessoas.  

Eu começo a ter consciência que pertenço irremediavelmente ao grupo de pessoas que está envelhecendo no mundo contemporâneo, com acesso amplo a informação, conhecimento razoável de tecnologias que favorecem mudança de comportamento para caber dentro do propósito de uma vida mais longa e saudável, para permitir o prosseguimento no mercado de trabalho por mais tempo, promover meu auto sustento, considerando que vivo tranquila com a decisão de não escamotear as marcas do passar do tempo, mesmo sabendo que será difícil não levar em conta a aparência e considerar mais os conteúdos e as mensagens que as pessoas e coisas nos proporcionam.

Histórias de pessoas idosas narram guerras, processos migratórios, amores fatídicos e risíveis, fala de lutos, mas, não é em si, um desenvolvimento humano negativo. Corpo e mente bem cuidados pode dar bom resultado e mesmo que não dê, não faria eu, o pacto que fez Dorian Gray, no fabuloso romance escrito por Oscar Wilde, em 1890.

O livro trata sobre a vida de um homem, para quem, a beleza é a virtude mais importante, é contestado por um amigo que ressalta que a beleza e a juventude são sinais passageiros, Dorian Gray, a este ponto, declara que daria sua alma se um retrato pintado pelo amigo envelhecesse e enrugasse em seu lugar, enquanto ele continuasse jovem e bonito para sempre. Simultaneamente aos fatos da vida de Dorian, o retrato assume as faces das tragédias, indignidades e dissabores vividos pelo belo jovem, que mantém a aparência de irretocável beleza e juventude.

Decide então, tornar-se um jovem virtuoso para ver se o retrato se recomporia. O retrato, no entanto, continua mostrando um homem envelhecido, de aparência horrível. Enfurecido, Dorian Grey esfaqueia o retrato, ouve-se gritos e gemidos. Os empregados encontram no chão o homem velho de aparência má do retrato, com a faca cravada no peito e na parede, contemplam a figura do jovem bonito que Dorian Gray havia sido.