Você pensa assim porque é mulher

OSegundo Sexo escrito pela filósofa francesa Simone de Beauvoir, em 1949, aborda a posição da mulher na sociedade da época e descreve as maneiras pelas quais a mulher é percebida como “outro”, secundária ao homem, que é considerado e tratado como o primeiro ou sexo padrão. Contextualizando o período europeu do pós-guerra, a passagem do tempo, exatamente 74 anos, os avanços comportamentais advindos de lutas e exposição de figuras femininas, é extremamente pertinente que as jovens modernas de hoje façam uma leitura crítica do texto. 

Uma das frases mais famosas do livro é: “Não se nasce mulher, torna-se mulher”. Simone de Beauvoir explica com isso que os papéis que associamos às mulheres não são dados a elas inerentemente, em virtude de sua biologia, mas são construídos socialmente, através de lutas, levantes diante da opressão que sofrem. As mulheres aprendem o que devem ser na vida, que tipo de papéis podem ou não desempenhar em virtude de serem do “segundo sexo”.

Faz sentido, que se alguém é ensinado durante toda a sua vida que para ser uma mulher, para aceitar a relação de hierarquia e normas, ela deve ter uma certa aparência, agir de certa maneira, desempenhar um papel subserviente dentro de sua família e trabalhar apenas em certos tipos de empregos, ter filhos, organizar a casa, isso vai afetar o senso de liberdade e autenticidade do ser feminino. Ser visto e muitas vezes, se sentir como “o segundo sexo” certamente é complicado e isso vai moldar o que você pensa que são suas escolhas de vida e vai mudar a forma como você percebe sua própria liberdade.

Na introdução do livro, a autora cita o filósofo grego Aristóteles, para quem “a fêmea é fêmea em virtude de certa carência de qualidades, devemos considerar o caráter das mulheres como sofrendo de certa deficiência natural”. São Tomás de Aquino, decreta que a mulher é um homem incompleto, um ser não autônomo. Acrescento aqui a fala desconcertante do filósofo alemão Arthur Schopenhauer: “O que distingue o homem do animal é a razão; confinado no presente, lembra-se do passado e pensa no futuro: daí a sua prudência, os seus cuidados, as suas frequentes apreensões. A razão débil da mulher não participa dessas vantagens nem desses inconvenientes; sofre de uma miopia intelectual que lhe permite, por uma espécie de intuição, ver de uma maneira penetrante as coisas próximas; mas o seu horizonte é limitado, escapa-lhe o que é distante”.

   Ainda hoje ouvimos: “você pensa assim porque é mulher”, numa tentativa de reduzir nossa capacidade de elaborar um raciocínio lógico, ao que Simone de Beauvoir respondia prontamente: “penso-o porque é verdadeiro”, eliminando assim a subjetividade se dissesse: “você pensa o contrário porque é homem”. Ainda hoje, não há vestígios e sim evidências de que os avanços ocorridos na trajetória das mulheres desestabilizam milhares de homens.

Nesse sentido, sinto-me compelida a dar visibilidade às violências cometidas contra as mulheres, que foram silenciadas, mortas, impedidas de se colocarem como sujeitos de suas próprias existências porque certos homens impuseram limitações a sua liberdade de escolha, sobretudo quando decidiram pôr fim a um relacionamento. Padrões machistas seguem firmes e encerram precocemente a vida de milhares de mulheres, que ainda pela desinformação sobre seus direitos, pela falta de apoio de familiares, vulnerabilidade e dependência não denunciam os companheiros na primeira observação que estes não superaram sequer a tradição da posse do corpo feminino.

Sobre isso, Simone de Beauvoir disse: “Ninguém é mais arrogante em relação às mulheres, mais agressivo ou desdenhoso do que o homem que duvida de sua virilidade.”

  As questões fundamentais da mulher residem ainda no conflito entre realizar suas aspirações essenciais, viver a situação de independência e liberdade, desbloquear as estradas que estão fechadas, sem pagar com a vida.

Para mudar é preciso mais do que resolver mudar, é preciso agir

Durante muito tempo viveu-se na crença de que a família seria o refúgio seguro de qualquer pessoa, sendo apontada dentro do contexto de proteção, capaz de garantir segurança e fornecer os bens essenciais e os cuidados básicos necessários ao desenvolvimento integral da criança.

Todavia, atualmente, os estudos têm demonstrado que a violência dentro da instituição familiar é uma realidade assustadora, que vitimiza a criança que se encontra exposta à violência entre duas pessoas com as quais compartilha o mesmo espaço e, muitas vezes, o mesmo sentimento de amor.

Cerca de 55,3% dos crimes são cometidos no ambiente doméstico e 33,2% dos homicidas eram parceiros ou ex-parceiros das vítimas e o tema da orfandade deixada pelo feminicídio se apresenta como uma questão de extrema urgência a exigir novas políticas públicas a respeito.

A situação dos órfãos, vítimas indiretas e que até certo ponto eram invisíveis da violência doméstica, começam a aparecer nos artigos, pesquisas, trabalhos nas bases das famílias destruídas após o assassinato da mãe e em muitos casos, a prisão do pai e lançou luzes sobre a situação dessas crianças e adolescentes que representam um grave problema social, que precisa ser enfrentado com políticas públicas que minimizem os efeitos do trauma e impeçam a perpetuação do ciclo da violência doméstica entre as gerações.

Cada criança desenvolve, obviamente, forma diferente para lidar com a vitimização. Dentro da profundeza de seus dramas, muitas crianças que perdem a mãe são criadas pelos avós, que sobrevivem com minguadas aposentadorias. Portanto, as crianças de famílias de baixa renda, órfãs do feminicídio insurgem como uma emergência nacional e a situação só pode melhorar se o governo fizer algo por elas. 

É papel do Estado mitigar os impactos trágicos causados pelo feminicídio por meio de benefícios sociais. Lei que contempla a ajuda financeira aos órfãos de feminicídio já existe no município de Cuiabá há mais de um ano e tem sido referência para outras capitais que também implementaram o auxílio.

Semana passada a Câmara dos Deputados votou e aprovou benefício a ser pago a crianças e adolescentes, de famílias de baixa renda, que tenham ficado órfãos em decorrência de feminicídio, nos termos da Lei Federal nº 13.104, de 09 de março de 2015, a lei que torna o feminicídio um homicídio qualificado e o coloca na lista de crimes hediondos, com penas mais elevadas. Será pago um salário-mínimo, hoje de R$ 1.302 por família até que todos os filhos completem 18 anos. A proposta segue para análise do Senado.

Finalmente, em termo nacional, pensa-se numa reparação financeira, considerando a importância da figura materna como provedora não somente de estímulos afetivos mas também, provisão de recursos materiais nas camadas mais vulneráveis da população brasileira. O projeto é de autoria de várias deputadas e ex-deputadas federais.

Não é necessário ler a justificativa do projeto de lei, basta ler a manchete estampada nos principais meios de comunicação do país: Brasil bate recorde de feminicídios em 2022, com uma mulher morta a cada 6 horas. Este número é o maior registrado no país desde que a lei de feminicídio entrou em vigor, em 2015.

Ser o quinto país que mais mata mulheres, não basta, o Brasil segue firme em direção da liderança mundial em feminicídio. Em um grupo de 83 países avaliados, o Brasil detém a quinta maior taxa de homicídios contra a mulher (4,8 homicídios para cada 100 mil mulheres).

A mensagem transversal que deixa a lei aprovada recentemente é o reconhecimento da nossa incapacidade como sociedade, apesar do endurecimento das leis, de reduzir os casos de feminicídio, restando a opção de amparar minimamente os órfãos produzidos por essa tragédia, para que não abandonem os estudos e seus sonhos.

Não nos iludamos. Ainda há um vasto caminho a percorrer

AConvenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher, adotado pela Assembleia Geral da ONU em 1979 é o primeiro tratado internacional que dispõe amplamente sobre os direitos humanos da mulher. São duas as frentes propostas: promover os direitos da mulher na busca da igualdade de gênero e reprimir a discriminação contra a mulher nos países signatários da Convenção.

“Discriminação contra a mulher” significará toda distinção, exclusão ou restrição baseada no sexo e que tenha por objeto ou resultado prejudicar ou anular o reconhecimento, gozo ou exercício pela mulher, independentemente de seu estado civil, com base na igualdade do homem e da mulher, dos direitos humanos e liberdades fundamentais nos campos político, econômico, social, cultural e civil ou em qualquer outro campo. (Artigo 1º da Convenção adotada pela Assembleia Geral da ONU em1979).

A vida das mulheres no Brasil traz a marca característica da desigualdade em todos os seus aspectos, do sofrimento, da persistência e superação. As conquistas de direitos das mulheres têm coexistido no meio das desigualdades de gênero, de condições econômicas e sociais desfavoráveis. As mulheres continuam sendo as principais responsáveis pelas atividades domésticas e familiares e ainda assim, estão estudando mais. O acesso à educação formal tem possibilitado que um número significativo de mulheres saia das atividades precárias, que ganhem salário melhor e conquistem a sonhada autonomia financeira, exercendo profissões que até um passado recente eram desempenhadas majoritariamente por homens.

É possível para você, mulher, dimensionar o esforço empreendido pela ativista em defesa dos direitos dos povos tradicionais, hoje Ministra de Estado, Sônia Guajajara, para romper todos os níveis de preconceito e discriminação que sofreu ao longo do seu processo de crescimento? Destacando que o racismo, a discriminação, o preconceito e outras formas de violência ampliam de forma significativa as desigualdades para mulheres indígenas e negras.

No mês da mulher 2023 chamou-me à atenção a história de uma mulher que exala atitude ao exibir-se com a pele desenhada com jenipapo ou urucum, retratando a cultura do seu Povo Guajajara. Sônia Guajajara nasceu na terra indígena de Araribóia, no estado do Maranhão. Com ajuda da Fundação Nacional do Índio (Funai) foi levada para estudar em um internato em Minas Gerais.

Voltou ao Maranhão já engajada na luta pela defesa dos direitos dos povos tradicionais. Continuou os estudos. É graduada em Enfermagem e Letras na Universidade Estadual do Maranhão e pós-graduada em Educação Especial. Não se afastou da sua comunidade, onde atuava na saúde e educação.

Nas eleições de outubro de 2022, a líder indígena já com vasta visibilidade nacional e internacional, teve mais de 150 mil votos e foi eleita a primeira deputada federal indígena pelo estado de São Paulo. Em seguida, foi convidada pelo presidente Lula para assumir a pasta do Ministério dos Povos Indígenas. Guajajara é a primeira indígena a ocupar um ministério. Por sua luta pelo reconhecimento dos direitos dos povos indígenas, além de ter voz no Conselho de Direitos Humanos da ONU, foi eleita pela revista Time como uma das 100 pessoas mais influentes do mundo, no ano passado (2022).  

Sônia Guajajara venceu todas as etapas das tentativas de desconstruir a bela história que vem escrevendo e quer ir além, “garantir autonomia e espaço para os povos tradicionais tomarem decisões sobre seus territórios, seus corpos e modos de viver”. Mas não nos iludamos, de modo geral, as desigualdades e a violência continuam marcando a vidas das mulheres de maneira rigorosa e indelével.

Tudo, menos humanos

Causa-me consternação quando tragédias e violência se juntam para impactar assustadoramente nossas vidas. Em dois anos tivemos redução nas taxas de criminalidade no país devido as restrições impostas pela pandemia. Com a população trancada em casa, a violência, nossa companheira inseparável, que era observada nas ruas, aconteceu dentro dos lares.

Explodiram os casos de violência doméstica. No mesmo período, a política de flexibilização para armar a população atingiu seu ápice. De acordo com o Anuário de Segurança Pública, o número de armas registradas alcançou a inacreditável marca de 1 milhão e meio de posses de armas ativos, grande parte nas mãos dos chamados CAC (caçador, atirador e colecionador).

Melina Risso, uma das diretoras do Instituto Igarapé (ONG dedicada à estudos sobre segurança pública e direitos humanos), ouvida pelo Senado Federal disse que a única política pública de Bolsonaro para a área da segurança foi a disseminação das armas para a população civil. Diz ela: “Quando se anuncia que as pessoas têm que se defender com as próprias mãos, o governo está dizendo: ‘Esse não é meu trabalho. Vocês que se virem’. Na verdade, o governo está enganando as pessoas. A segurança pública é uma das primeiras responsabilidades do Estado e não pode ser terceirizada para os cidadãos”.

De arma nas mãos, os cidadãos maus por natureza, saem à caça. Na cidade de Sinop, ao Norte de Mato Grosso, uma chacina à luz do dia foi registrada por câmeras de segurança. Várias mesas de sinuca, um bar da periferia, que promovia jogos com apostas de valores altos. Dez pessoas estavam no ambiente. Após perder várias rodadas, 2 indivíduos foram embora irritados. Premeditaram a vingança e voltaram horas depois para nova rodada de jogos para recuperar o valor que haviam perdido. Perderam novamente e abriam fogo contra os parceiros de jogos e outros. Executaram à queima roupa 7 pessoas, inclusive uma criança de 12 anos. A mãe da menina, que acompanhava o marido no bar, foi deixada viva, a única sobrevivente da chacina.

A repercussão da barbárie foi grande na mídia nacional e internacional. O ministro da Justiça e da Segurança Pública, Flávio Dino, se manifestou sobre a chacina e assim como a pesquisadora do Instituto Igarapé, criticou a “irresponsável política armamentista” executada durante o governo de Jair Bolsonaro. Na mesma linha de raciocínio, estudiosos da segurança pública recordaram que viram e se manifestaram com preocupação a flexibilização exagerada do armamento da população. De acordo com muitos, a literatura científica mostra que mais revólveres circulando na sociedade pioram seguramente as estatísticas de violência letal.

Um dos assassinos, morto em confronto com as forças de segurança, que o identificou como um indivíduo severamente perigoso, com vários processos nas costas, inclusive denúncias de ser traficante de madeira, no entanto,  frequentava bares e andava armado, livremente. O segundo assassino, que se entregou à polícia, exibia-se com armas nas redes sociais e dizia pertencer a um clube de tiro.

Por outro lado, é importante, para o conforto e restauro da saúde mental, entender que esses dois assassinos, em algum ponto de suas vidas sofreram um processo de desumanização, que é o que abre a porta para a crueldade e chacinas e permitiu que esses seres superassem todas as inibições naturais contra a prática de infligir atrocidades a outras pessoas e saíssem à caça, como predadores perigosos.

A grande mentira da sociedade contemporânea

Aempatia é geralmente definida, no senso comum, como a capacidade de compreender e compartilhar os sentimentos do outro. Portanto, se você está com dor e eu sinto sua dor, se você está ansioso, eu vivo sua ansiedade, se você está triste e eu me entristeço e será exaustivo o peso que carregarei, estou sendo empática. E isso é diferente de compaixão. Compaixão significa que eu dou importância à sua preocupação, eu a valorizo, eu me preocupo com você, mas não necessariamente entro em seus sentimentos e na busca de solução para eles.

Muita gente pensa que isso é apenas uma distinção verbal, que não tem tanta importância, mas na verdade, os dois sentimentos têm consequências diferentes e nem todos os seres humanos são capazes de demonstra-los. A falta de compaixão e empatia foram expostas essa semana no episódio envolvendo duas médicas do estado do Amazonas, que gravaram um vídeo zombando das crianças que chegaram aos gritos numa unidade de saúde após serem atingidas por um raio. Mesmo diante do quadro das crianças, resolveram gravar um vídeo para as redes sociais. Elas riam debochadamente e uma delas disse que as crianças gritavam e se contorciam como se estivessem sendo exorcizadas.

A empatia é sobre colocar-se no lugar das crianças que aguardavam atendimento, ajudar cobrar providências, independentemente de você ter filhos pequenos porque o sentimento de empatia não é sobre você e seu entorno. Em suma, a empatia é ver o mundo de outra pessoa através dos olhos dela naquele momento e sentir na pele a dor que ela sente. Pode soar um pouco demais imaginar que existem pessoas que podem captar tão profundamente as vibrações de outras pessoas, debruçar sobre suas dores, mesmo diante da nossa predileção por relações ligeiras, onde há sempre algo que nos atrai para que não permaneçamos muito tempo parados na mesma notícia.

 Não importa como você defina empatia. Mas ela decorre do interesse de entender e conhecer o problema que aflige o outro. Tem a ver com conhecimento, com valores éticos e ação. Não precisamos de poderes intuitivos e mágicos para elevar outras pessoas, para nos colocar à disposição para ajudar e tentar reparar erros e injustiças. O que podemos fazer para ajudar pode importar muito mais do que como nos sentimos diante do drama dos outros. Ser emocionalmente sensível pode garantir a satisfação a você mesma, mas não garante que você tomará medidas necessárias para efetivamente ajudar alguém.

O terrível terremoto que abalou cidades da Turquia e da Síria produziu imagens que por si expressam a dor imensurável dos que agonizavam debaixo dos escombros e o desespero de familiares diante das buscas, a imagem da criança sendo alimentada com água numa tampa de garrafa, único objeto que cabe no exíguo espaço onde ela está presa. Esse tipo de imagem abala todos os seres humanos, acende a chama da compaixão, a empatia, no entanto, faz a pessoa ir além, a interessar-se pelas ações de resgate e pelo menos buscar no mapa a localização da tragédia, ler sobre as dificuldades encontradas pelas equipes de resgate para chegar ao local. Não se vira a página rapidamente diante de uma tragédia.

 A empatia, em tempo de vigilância on-line, pode ser apenas uma ilusão sedutora. Até porque, no fundo, tendemos a ser empáticos por aqueles que nos são semelhantes. Se temos filhos, nos sensibilizamos por fatos que ocorrem com crianças, se somos mulheres, tendemos a demonstrar mais empatia por situações vividas por mulheres. Na verdade, sentimos muito menos empatia por pessoas que não fazem parte da nossa cultura, que não compartilham nossa rede de conhecimento e relacionamento. Este é um fato terrível da natureza humana e talvez opere em um nível subconsciente, mas sentimos que isso acontece.

Escolas cívico-militares, contrárias à ideia de uma escola democrática

Uma das principais bandeiras do governo Bolsonaro na educação foi o emblemático programa de escolas cívico-militares. No decreto justifica-se que a gestão de escolas públicas convencionais seria compartilhada com os militares das Forças Armadas, Policiais e Bombeiros militares, os quais não atuariam em sala de aula, dariam apoio no acolhimento e preparo dos alunos na entrada dos turnos, no intervalo de aulas e nos períodos de encerramento dos turnos, colaborariam nos projetos educativos extraclasses baseados em princípios militares. Então, onde justifica que militares abandonem seus postos para ficar à disposição das escolas para exercerem funções desqualificadas no contexto do próprio texto do decreto?

Criado em setembro de 2019 por meio de um decreto, o programa apresentou-se com o objetivo de diminuir a evasão escolar e inibir casos de violência na escola e na comunidade a partir da disciplina militar. É possível regatar o discurso de lançamento do programa, onde, tanto o ex-presidente quanto o ex-ministro da educação à época, se exultavam da possibilidade de que a presença dos militares nas escolas públicas pudesse resgatar os valores da ‘sagrada’ família brasileira e instaurar a ordem, a moral e o patriotismo.

O educador Anísio Teixeira, no livro A autonomia para a Educação ensina que “embora todos os regimes dependam da educação, a democracia depende da mais difícil das educações e da maior quantidade de educação e há educação e educação. Há educação que é treino, que é domesticação. E há educação que é formação do homem livre e sadio”.

Considerando a sociedade diversa que vivemos, há artigos e estudos consensuais de que as escolas cívico-militares sugiram na contramão da democracia. E a pluralidade, as políticas de inclusão são, quase sempre, recebidas com desconfiança pela população mais conservadora, que segue martelando o discurso de que os princípios democráticos da liberdade desmantelaram os valores da família e corromperam a ordem moral que havia no passado.

Ademais, os bons índices alcançados por muitas dessas escolas deve-se ao fato que as matrículas são triadas, portanto são escolas que abrigam alunos que apresentariam desempenho destacado em qualquer escola. O outro ponto que usam para justificar a presença de militares nas escolas é que melhora a segurança na escola e na comunidade, ninguém duvida disso, mas esse objetivo pode ser alcançado por meio de parceria, sem a militarização do ensino e os jovens que queiram este tipo de formação e carreira têm a opção de procurar escolas militares bem-conceituadas existentes.

O fato é que os colégios militares não atendem à pluralidade que está presente na sociedade brasileira. É um projeto que foi concebido valendo-se de um equivocado plano de impor disciplina aos jovens, subtrair a autonomia de profissionais com formação continuada na área educacional, que estão na condução da gestão escolar. O professor de Ciência Política da Unicamp, Wagner Romão disse que o Programa Nacional de Escolas Cívico-Militares foi uma infeliz ideia, iniciada num contexto permeado de programas de caráter autoritário e de retrocesso e não vê nenhuma fundamentação que sustente a militarização dentro das escolas públicas, o que afronta, inclusive a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. 

Mais de 350 municípios declararam que pretendem insistir na implantação do modelo, entretanto, em ato comemorado por educadores, de fato, o presidente Lula extinguiu o programa.

Não seguirás a multidão para fazeres o mal

Quando você adota os padrões e os valores de outra pessoa você abre mão de sua própria integridade e se torna, na medida de sua rendição, menos ser humano, escreveu Eleanor Roosevelt em um texto sobre conformidade. No entanto, a conformidade não é apenas uma estratégia de sobrevivência, mas também algo institucionalmente doutrinado em nossa cultura.

O escritor e pensador dinamarquês Soren Kierkegaard (1813 – 1855), celebrado como o primeiro verdadeiro filósofo existencialista contemplava a continuada tensão entre o indivíduo e a multidão. Sua obra, que a rigor é sobre a religião cristã e lida com temas como a fé, o desespero e a angústia, não soou diferente quando escreveu The diary of Soren Kierkegaard, um curto ensaio, onde ele considera o quanto nossa incapacidade de contemplação silenciosa das coisas e dos fatos nos separa de nosso verdadeiro eu e, em vez disso, nos leva a adotar passivamente, sem contrapontos, os ideais dos outros.

Se outras pessoas fazem isso, significa que isso está certo e eu devo fazer também. Certo? Não. Isso se chama o princípio da prova social, quando, para determinar o que é correto precisamos olhar para o que outras pessoas estão fazendo e o que necessitamos mesmo é despertar o espírito humano individual do transe da multidão.

O ponto central do ser humano é sua unidade exclusiva, cada ser humano tem uma realidade infinita, e é orgulho e arrogância de uma pessoa não respeitar a individualidade de seu semelhante. O papel vital das minorias é ser um antídoto para o pensamento arrasador e grupal da maioria, teoriza Kierkegaard levantando a questão do indivíduo e da multidão.  “A verdade está sempre com a minoria, e a minoria é sempre mais forte que a maioria, porque a minoria é geralmente formada por quem realmente tem opinião, enquanto a força da maioria é ilusória, formada pelas gangues que não têm opinião”.  

A evolução do mundo tende a mostrar a importância absoluta da categoria do indivíduo à parte da multidão, cada um é um indivíduo, que, embora viva num mundo conectado e compartilhado deve conduzir-se lado a lado da liberdade, da vontade. Entretanto impressiona perceber pessoas que se deixam guiar inertes, que reverberam discurso de ódio, sem reflexão, percepção e sentimento enquanto nem mesmo a fé está livre da dúvida.

“Não seguirás a multidão para fazeres o mal”. Êxodo 23:2

O pior analfabeto

Imagine você pegar um livro, ler e não conseguir compreender o enredo, tomar um medicamento e não entender a posologia e contra-indicações, visitar uma cidade e não ter conhecimento algum desde a sua fundação.

Dentro da premissa que uma população plenamente alfabetizada seja a base central para promover o bem-estar e uma democracia que funcione bem, o Brasil está mal colocado. No Brasil, três em cada dez brasileiros são analfabetos funcionais, pessoas incapazes de organizar suas próprias ideias para expressá-las.

Segundo a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura – UNESCO –, é considerada alfabetizada a pessoa capaz de ler e escrever pelo menos um bilhete simples no seu idioma. Dentro desse conceito, a UNESCO define analfabetos funcionais como sendo as pessoas com menos de quatro anos de estudo. Mesmo que essas pessoas saibam ler e escrever frases simples, elas não possuem discernimento necessário para absorverem informações plenas, para tomarem decisões baseadas em leituras e estudos.

No passado a alfabetização era como uma ferramenta utilizada pela burocracia dos estados, comércio e pela igreja, que através da leitura, expandiam seus poderes e exerciam controle sobre o povo. Mas a partir do século 19 a instrução, sobretudo através da leitura tornou-se habilidade obrigatória para os indivíduos serem capazes de ter controle sobre as suas vidas.

Aprender a ler e escrever é o passo inicial do saber. Mas ler, ouvir e escrever são processos mais profundos, não apenas sons, repetições e vocabulário. Serve enfim, como instrumento para proteger as pessoas da exposição e exploração.

Estudando técnicas de persuasão eleitoral constata-se que a grande mídia e profissionais de marketing político optam por adotar um formato que concilia mensagens repetidas, ingênuas e de fácil memorização visando encantar exatamente os indivíduos que não assimilam além do que ouvem e que não leem nem discutem política ao longo do ano. O analfabetismo político, uma insuficiência que atinge a sociedade brasileira em todas as classes, germina onde falta leitura, abstração, onde a manipulação lenta e gradual deforma os valores.

Sobre o analfabeto político, há um texto atribuído a Berthold Brecht, poeta e dramaturgo alemão: “O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo da vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio depende das decisões políticas.

O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia política. Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, o corrupto e lacaio dos exploradores do povo.”

Amazônia – o ‘lugar errado’ do mundo

Oque nos comove? A floresta devastada? Os povos originários? A ausência do Estado? A morte de Bruno e de Dom? pergunta a historiadora e filósofa Janice Theodoro, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP em artigo publicado essa semana.

São quatro questionamentos imbricados sobre a violência que hoje representa o Brasil muito mais do que o samba e futebol. Embora a proteção aos defensores de direitos humanos no Brasil esteja amparada pelo Decreto nº 9.937/2019, que instituiu o Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos, Comunicadores e Ambientalistas, o Brasil foi nomeado em quarto lugar como o país que mais mata ativistas ambientais no mundo. Mary Lawlor, relatora Especial das Nações Unidas, em fala sobre a situação dos defensores dos Direitos Humanos enfatizou que, no Brasil, há violência sistemática contra lideranças indígenas e defensores de direitos humanos devido ao que considera um ambiente favorável para a ação de mineiros, madeireiros, grileiros e pecuaristas.

Os relatórios também apontam que persistem os assassinatos de ativistas porque as investigações dos casos ficam travadas na esfera estadual e que a  impunidade e a ausência de responsabilização na maioria dos casos permanece como uma característica do problema da violência na Amazônia.

O cruel assassinato de Dom Phillips e Bruno Pereira remete sobretudo à história de Chico Mendes e Dorothy Stang, também assassinados na Amazônia. Chico Mendes, seringueiro no Acre, sindicalista e ativista respeitado, liderou manifestações nos anos 1970 para conter o desmatamento na Amazônia. Suas ações pela preservação, o levou a ser premiado pela ONU e assassinado no Brasil, em 1988 em frente à sua casa, em Xapuri, no Acre.

Os autores do crime, pai e filho fazendeiros planejavam transformar uma área defendida por Chico Mendes em uma grande propriedade da família. Sua morte foi uma reação a sua luta como sindicalista pelos direitos dos seringueiros e povos indígenas da Amazônia.

O poderoso Diretor Geral da Polícia Federal à época, Romeu Tuma, foi para o Acre acompanhar pessoalmente a apuração do assassinato, José Sarney, presidente, fez discurso inflamado das Nações Unidas, criou o Ibama, os assassinos, pai e filho se entregaram à polícia e foram condenados a 19 anos de prisão.

A missionária americana, naturalizada brasileira, dedicou-se por décadas a luta pela proteção ambiental e pelos direitos de pequenos trabalhadores rurais. Ameaçada de morte inúmeras vezes, a missionária dizia: “Não vou fugir nem abandonar a luta desses agricultores que estão desprotegidos no meio da floresta. Eles têm o sagrado direito a uma vida melhor numa terra onde possam viver e produzir com dignidade, sem devastar”. Relatou as ameaças ao Secretário Nacional de Direitos Humanos. Não adiantou. Dorothy foi assassinada com sete tiros. Presidente à época, Lula disse que não descansaria enquanto não prendessem os responsáveis pelo assassinato.

A ministra do Meio Ambiente, Marina Silva instalou seu gabinete no Pará, para acompanhar o desfecho do caso. Mais de cinco outros defensores dos povos originários e da floresta foram assassinados recentemente, conforme citação nos noticiários recentes.

E até aqui, qual tem sido a reação do governo brasileiro diante do brutal assassinato de Dom e Bruno? Frases desconexas como: “o inglês é mal visto na Amazônia”, “eles embarcaram numa aventura, num lugar errado e deveriam tomar cuidado”, contrastam com a mensagem enviada por Bruno a uma ONG:  “Estou indo ao Javari de novo. Tem muita coisa acontecendo lá. O garimpo está violento novamente no entorno da terra indígena, muito próximo dos isolados.  Perseguição e tentativa de intimidar não sou só eu que estou recebendo, tem muita gente junto, mas tudo isso vai passar, eu espero, tudo isso vai passar”.

Coisas inatingíveis

O Brasil é um dos países mais desiguais do mundo e por ser este um problema secular, sistêmico, sustentado pela má distribuição de renda, dorme esquecido num canto, enquanto discute-se amenidades. No senso de 2020, o IBGE apontou o Brasil na sétima posição entre os países mais desiguais do planeta.

Um país onde os 10% mais ricos detém 43% da renda nacional e tem a segunda maior concentração de renda entre os mais de 180 países. O problema, embora urgente, parece ter solução inatingível. Como escreveu Mário Quintana, “se as coisas são inatingíveis… ora! não é motivo para não quere-las…Que tristes os caminhos, se não fora a presença distante das estrelas”.

A cada campanha eleitoral que se inicia renasce a esperança de ver temas considerados direitos básicos assegurados pela Constituição serem pautas prioritárias dos candidatos, como investimento em saúde, cultura, lazer, educação, todavia continuamos andando em círculos, envoltos no mar de desigualdade, pobreza extrema, racismo, violência, desemprego, precariedade da saúde, falta de habitação, etc.

Um jornal local publicou essa semana que o alarmante número de 361 mil mato-grossenses não tem acesso à moradia digna. São cidadãos que não possuem acesso ao crédito formal, que não conseguem assumir compromisso mensal de pagamento de parcelas, porque sua condição como trabalhador é instável. Estes são os mesmos que sobrevivem com o auxílio do cartão Ser Família, da distribuição de cestas básicas, de cobertores, enfim, de soluções emergenciais, porém, paliativas.

Mesmo ratificado na Declaração Universal dos Direitos Humanos e na Constituição Federal, considerada a Constituição Cidadã, o acesso à moradia, no Brasil, em Mato Grosso, é um direito assegurado só no papel, não um programa de governo, infelizmente! Em Mato Grosso mais de 140 mil famílias vivem com renda mensal abaixo de R$ 150, o que contrasta sensivelmente com o PIB elevado do estado.

Nos boletins diários da Câmara Federal, onde dão destaques aos projetos aprovados, há pequenos e significativos avanços aqui e acolá, como a distribuição de absorventes higiênicos sobretudo para meninas de baixa renda e realização do centésimo seminário para abordar a importância da participação da mulher na política. Assuntos que perdem a relevância diante da violência praticada pelo aparato do estado na morte do jovem Genivaldo de Jesus, no estado de Sergipe, ocorrida essa semana. Ele morreu asfixiado pelo uso excessivo de spray de pimenta e gás lacrimogêneo aplicado já dentro da viatura, quando ele já estava imobilizado. Genivaldo era negro.

Assim, com episódios recorrentes do aumento da pobreza, falta de moradia digna, precariedade por falta de investimento na saúde pública, falta de oportunidades de emprego, a pandemia escancarou o péssimo quadro de desigualdade social e econômica vigente no Brasil. O cenário dos sonhos seria o governo continuar assistindo quem precisa, com uma renda mínima decente e gerar trabalho e renda para a grande maioria que quer ter sua própria capacidade de trabalho e viver exclusivamente dela e não depender de favores do Estado, que quase sempre, falha na proteção aos seus.