Não vamos esperar 150 anos

É senso comum entre a classe política a afirmação que os partidos encontram dificuldade para encontrar mulheres com perfis de candidatas. O fato é que a atividade política é, desde sempre, uma atividade predominantemente masculina e no estado de Mato Grosso a baixa representatividade é evidente. Em toda a história do parlamento estadual, apenas 13 mulheres se elegeram deputadas.

A Secretaria da Mulher da Câmara Federal, segundo a Agência Câmara de Notícias, fez levantamento após as últimas eleições gerais em 2018 e confirma que houve evolução de 52,6% no número de mulheres eleitas com relação a 2014. Um avanço inegável, mas, que ao ser traduzido em números, continua preocupante. Ao todo, em todo país, apenas 290 candidatas foram eleitas.

 percentual de mulheres eleitas foi infinitamente inferior aos 30% das candidaturas femininas registradas. De acordo com o demógrafo José Eustáquio do IBGE, se o avanço da participação feminina continuar no ritmo atual, a paridade entre os sexos nos espaços municipais demorará ainda 150 anos para ser alcançada.

A efetiva participação da mulher no processo eleitoral pode ser expressa nos números abaixo:

No ano de 2018, as mulheres eram 52,50% do eleitorado e apenas 16,11% de candidatas foram eleitas. Na última eleição, em 2020 as mulheres representavam 52,50% do eleitorado e 15,80% foram eleitas, 77 deputadas federais, 161 deputadas estaduais e 7 mulheres foram eleitas senadoras.

A Agência Patrícia Galvão, que produz dados e divulga conteúdos sobre os direitos das mulheres brasileiras, revela que para as eleições de 2022 a presença das mulheres no eleitorado chega a 53%, contra 47% dos homens, uma diferença de 8,5 milhões de eleitores.

Com dados mais otimistas do que o IBGE, diz também que, se o país não tivesse adotado o sistema de cotas e se não houver ampla insistência na construção de candidaturas femininas, apenas no ano de 2118, as mulheres alcançarão a igualdade na representação política com os homens.

Embora haja muitas mulheres engajadas em projetos sociais, em atividades de organização de equipes de campanhas, eleitas não há o suficiente, porque são preteridas no processo de escolha e muitas quando são escolhidas não são acolhidas no processo de construção de suas campanhas, até mesmo devido a problemas inerentes a sua condição feminina e com isso o Brasil fica patinando entre os países com o mais baixo percentual de cadeiras ocupadas por mulheres nos parlamentos mundo afora e vemos aqui ao lado, a Bolívia como o país que tem a maior representação das américas, de mulheres no parlamento, porque os partidos, por iniciativa própria, destinam 50% de suas vagas para as mulheres.

No ano de 2020, uma campanha veiculada pelo TSE trazia a seguinte mensagem: “Quando uma mulher tem voz ativa, ela incentiva outras a falarem também. Quando uma mulher lidera, ela incentiva outras a liderarem também. Quando uma mulher ocupa um cargo público, ela incentiva outras a ocuparem também. Quando uma mulher defende seus direitos, incentiva outras a defenderem também”.

Comporte-se como em um banquete

 Em meio aos infinitos pensamentos que percorrem nossas mentes a todo momento perdemos de vista o que mais importa. Ou seja, estar verdadeiramente em sintonia com o presente, desconectar a tagarelice e cobranças incessantes que desarmonizam nossas mentes, sem considere primeiro, o que nossa própria natureza é capaz de suportar.

Quando nos deparamos com turbulências em nossas vidas, desejamos ter um manual para nos guiar, palavra por palavra. Isso é exatamente o que é o Encheirídion ou Manual de Epicteto, um manual para a vida, escrito com apaixonada sensibilidade no século II, por Epicteto. Há 1800 anos, as palavras filosóficas de um escravo pobre e com deficiência física chamado Epicteto foram escritas pela primeira vez. Epicteto nasceu como escravo em 55 EC na atual Turquia. Continuou escravizado na casa de um secretário do imperador romano Nero.

“Das coisas existentes, algumas coisas estão sob nosso encargo e outras não. As coisas sob nosso controle são opinião, busca, desejo, repulsa e, em uma palavra, quaisquer que sejam nossas próprias ações. As coisas que não estão sob nosso controle são o corpo, as posses, a reputação, os cargos públicos e, em uma palavra, tudo o quanto não seja ação nossa”. A citação resume o que é a dicotomia de controle,  a compreensão do que está e do que não está sob nosso controle, um ensinamento filosófico para nortear a vida.

O Manual de Epicteto ensina que não são as coisas em si que perturbam as pessoas, mas os julgamentos que pesam sobre elas. O Manual exalta a liberdade que há no exercício daquilo que está sob nosso controle. Intenções e julgamentos são lindamente livres e irrestritos, por isso devemos colocar nossos esforços nos espaços abertos sobre o quais temos controle e muitas vezes não conseguimos, por falta de tempo e habilidade resolver assuntos que são encargos nossos e ainda, tendemos a nos meter sobre a maioria das coisas que não são da nossa conta. Bastaria que cada um cumprisse bem a sua função.

Uma vida de realização e felicidade é estabelecer domínio sobre as coisas que podemos controlar. “Se você depositar suas esperanças em coisas fora de seu controle, tomando para si coisas que pertencem legitimamente a outros, você estará sujeito a tropeçar, cair, sofrer e culpar deuses e homens. Mas se você focalizar sua atenção apenas no que é verdadeiramente seu interesse, e deixar para os outros o que lhes diz respeito, então você estará no comando de sua vida interior. Ninguém poderá prejudicá-lo ou impedi-lo.” — Epicteto.

O Encheirídion é um manual  cujo ponto central é a lição que embora não possamos controlar tudo o tempo todo, sempre podemos ter um controle firme sobre nossas emoções, não apenas inclui esta lição, mas aplica esse conceito de controle a assuntos mais banais, como aprender a lidar com insultos e com a opinião das pessoas sobre nós. Um ensinamento é que na vida devemos nos comportar como em um banquete; Se um prato que está sendo servido chega até você, estenda a mão, toma a sua parte disciplinadamente. A bandeija não passou por você, não a persiga. Ainda não chegou? Não se desespere de desejo, mas espera que o prato venha até você.

Lido apressadamente e fora do contexto, trechos do livro Enchiridion pode parecer uma referência vaga a nos isolarmos dentro das nossas bolhas, nos entregarmos as limitações da nossa zona de conforto. Não estão na sua bolha e na zona de conforto, suas palavras ofensivas e suas decisões mais destrutivas? Não carregas por onde andas o apego, a aspereza e o vazio desconcertante?

Epicteto completa: “Se você deseja ter paz e contentamento, libere seu apego a todas as coisas fora de seu controle. Este é o caminho da liberdade e da felicidade.”

Podemos tentar melhorar as habilidades sociais e podemos tentar despertar julgamentos e desejos que nos torne mais queridos e respeitados, mas, isso não está sob nosso controle direto. Partes do meu caráter dependem de mim, eu sou a causa das partes indesejáveis contidas nele. Este é um ponto sutil, eu sou responsável pelo meu caráter, não posso colocar a responsabilidade por quem sou nos outros ou em circunstâncias passadas. Portanto, sempre que somos impedidos, perturbados ou angustiados, nunca devemos culpar ninguém, mas apenas a nós mesmos.

É ato de uma pessoa mal educada jogar a culpa nos outros quando as coisas vão mal; aquele que deu o primeiro passo para se educar lança a culpa em si mesmo; enquanto aquele que é totalmente educado não lança culpa nem a outro nem a si mesmo.

A luta feminina por justiça, igualdade e respeito

O Presidente Jair Bolsonaro diz que as mulheres hoje estão ´praticamente´ integradas à sociedade, em evento comemorativo ao Dia Internacional das Mulheres. Bolsonaro tem uma filha, concebida numa ´fraquejada`.

Para o Presidente Bolsonaro a resposta vem de um trecho do discurso da deputada constitutinte em 1934, Carlota Pereira de Queirós: “Sou a única representante feminina nesta Assembleia e sou, como todos que aqui se encontram, uma brasileira,´ integrada´ nos destinos do seu país e identificada para sempre com seus problemas.”

O procurador-geral da República, Augusto Aras homenageou as mulheres limitando-as a seres cujos prazeres são escolher sapatos e esmaltes. Aras tem uma filha. Ao Aras não respondo porque não encontrei estudos ou textos que tratem concomitantemente de sapatos e esmaltes.

Em Mato Grosso, dois presidentes de Câmaras Municipais deram show de arrogância e violência política contra mulheres. O presidente da Câmara de Indiavaí impediu a realização de uma Sessão Solene para homenagear mulheres, requerida pela vereadora Rhillary Milleide, uma jovem de apenas 21 anos.

A vereadora não se calou, expôs o ocorrido e recebeu apoio do estado inteiro. Bem próximo dalí, na mesma região do estado de MT, no município de Araputanga, a vereadora mais votada do município, Sandra Ferreira, passou por constrangimento igual. O presidente da Câmara negou-lhe a instalação da Sessão para homenagear mulheres da cidade. Mulheres que tiveram suas prerrogativas cerceadas pela truculência masculina dos colegas.

Não são falas e atitudes ao acaso. Convenhamos, a forma como nos  expressamos, revela nossas crenças, verdades que contruímos ao largo da nossa jornada, verdades íntimas, por isso preocupa os fatos e falas que permearam as comemorações do Dia Internacional das Mulheres, logo após a indesculpável fala sexista e agressiva do tosco deputado Arthur do Val sobre as mulheres ucranianas.

Se você pessoalmente não sente nenhuma discriminação, se todos os homens ao seu redor lhe tratam como igual, dando-lhe oportunidade de boa posição, salário igual dos homens, se não a interrompem quando está falando, se não reparam enviezados o vestido justo, o decote, parabéns!  Mas o Dia Internacional da Mulher  não é sobre você individualmente, é sobre mulheres de todos os lugares, que sofrem violências em suas formas múltiplas.

É uma data que desde a sua concepção, em 1910 carrega em si o ideal pelo protagonismo feminino, quando a feminista alemã Clara Zetkin propôs a ideia do Dia Internacional das Mulheres para mais de 100 mulheres trabalhadoras representantes de 17 países, em uma Assembleia realizada na Dinamarca, ela propôs um dia para as mulheres pressionarem o poder público, privado, a sociedade, em geral por suas demandas. A conferência aprovou por unanimidade a proposta mas a ONU institucionalizou a data somente em 1975.

Vês? a luta é antiga e desde o início foi forjada para ser de cobranças de demandas, de alerta e prontidão para denunciar e avançar. E sem desconsiderar qualquer avanço, que claro, são imensuráveis e bem vindos, é preciso manter a militância sim, é preciso cotas para as candidatas mulheres ingressarem na política. O aumento da presença de mulheres eleitas se deve principalmente à adoção de cotas eleitorais de gênero.

Os ataques contra as mulheres políticas geralmente se intensificam e tornam-se mais visíveis à medida que o período eleitoral se aproxima. Então, o momento é de vigilância e solidariedade, é momento de apontar as injustiças, cobrar reparações e admitir que ainda serão necessárias muitas intervenções para que genuinamente se torne possível criar um ambiente de diálogo e respeito entre homens e mulheres.

Não há notícia boa?

Por um bom tempo o colapso econômico, o desastre ambiental e a agitação social estão praticamente garantidos. Bem vindos ao persistente mundo pandêmico!

Quase dois anos depois, parece que os indivíduos responsáveis estão vivendo março de 2020, com planos adiados, alegria e riso contidos, medo da nova face do mesmo mal que os tem desafiado desde então. Acabo de ler uma entrevista preocupante que o bilionário americano e fundador da Microsoft Bill Gates, concedeu ao jornal americano Financial Times dias atrás, onde ele, muito provavelmente baseado nas pesquisas que financia através da Bill & Melinda Gates Foundation, alerta para a possibilidade de enfrentarmos nova pandemia, com vírus tão contagioso quanto o Ômicron, porém com taxa maior de mortalidade.

Bill Gates cita médicos e cientistas e faz um chamamento aos governos e donos de grandes corporações para que doem recursos para que Organização Mundial de Saúde e outras organizações possam investir em inovação e desenvolver insumos para vacinas para oferecerem respostas mais rápidas na próxima pandemia global.  Ao Financial Times ele assegura que somente com esforços enormes e grande doação financeira será possível evitar danos e perdas maiores do que as que o mundo vem enfrentando há dois anos.

A entrevista polêmica, não causou surpresa porque no ano de 2015, Bill Gates fez uma bombástica palestra, onde alertou que o mundo enfrentaria uma grande pandemia num futuro próximo. É um exagero dizer que Bill Gates profetizou a chegada da pandemia da Covid-19.  Pela recente entrevista, ele foi duramente questionado por estar falando de um tema sobre o qual ele não tem formação mas  sabemos que a Fundação Bill & Melinda Gates faz doações de valores surpreendentemente altos para financiar pesquisas e desenvolver vacinas contra várias doenças nas populações pobres, principalmente da África. Portanto, ele deve ter informação de pesquisadores e para nosso azar, ele pode saber do que está falando.

Bill Gates tem credibilidade pela visão macro que compartilha do mundo porém,  para muitos médicos que comentaram a entrevista, o que ele disse nem chega a ser uma previsão mas a constatação de fatos simples  incontestáveis pela ciência. Surgem vírus potencialmente perigosos a cada década e uma vez a cada 50 anos, pelo menos, esse vírus se espalha e afeta vários países. Tem sido assim, porém, esse tempo entre uma pandemia e outra tem-se reduzido. A fala de Bill Gates é reforçada então, no sentido que é apenas uma questão de tempo até que um patógeno (vírus, bactérias, fungos…) capaz de causar muito mais danos do que a Covid-19 nos atinja e estabeleça um precedente muito perigoso com a raça humana.

Nos comentários há elogios, agradecimentos e muita desconfiança de que Bill Gates esteja agindo desinteressadamente. Chamado de alarmista, uns creem que ele esteja se transformando num vendedor de vacinas, outros creem que sua fortuna aumente em decorrencia do caos econômico global trazido pela pandemia. Vale também crer que seja possível um indivíduo ser bilionário, ambicioso e ainda assim, seja benevolente, pensa em fazer o bem aos outros e investir bilhões de doláres da fortuna pessoal para oferecer o mínimo acesso à saude para áreas miseráveis do mundo, é um prenúncio disso.

Parecem precauções razoáveis os preparativos pelos governos e organizações para futuras pandemias ou para a longa duração desta, porque milhares de indivíduos brasileiros, mesmo cientes de que suas ações podem levá-los a própria morte, decidiram desde dezembro retornar suas vidas às festas, férias, praias, bares, shows, onde aglomerações são inevitáveis, mesmo sob  os reiterados alertas da fácil propagação da variante Ômicron. É uma aposta compreensivelmente ruim substituir a capacidade de viver com alegria, de jantar fora, divertir-se por ficar dentro de casa, recebendo comida por aplicativo. Mas neste momento, devemos nos sacrificar pelo bem de todos, nos prepararmos cuidadosamente para o futuro porque dependendo da escolha de cada um, a vida segue ou não…

Entendo que o isolamento e as limitações estão asfixiando. É onde estamos agora. Mas onde quer que você olhe, não há vida sem pandemia. Na melhor das hipóteses, as vidas estão sendo mantidas no modo sobrevivência até que o sistema (governos, organizações, grandes corporações, bilionários, cientistas) se sobreponha ao colapso e restabeleça uma nova ordem onde possamos voltar a viver segundo nossas vontades e interesses.  

Ninguém está seguro até que todos estejam seguros

A pandemia não chegou ao fim. Não estamos liberados do uso de máscara em local fechado, temos que ser vacinados e as normas sanitárias estabelecidas continuam vigentes, embora percebamos um relaxamento desproporcional das norma de biosegurança, considerando o “inferno” que estamos vivendo há quase 2 anos. O que vou relatar agora está nas capas dos maiores jornais do mundo e no site da Organização Mundial da Saúde este final de semana; os países estão lutando para impedir a entrada de uma nova variante da covid, batizada de Ômicron, com casos confirmados na África do Sul, Bélgica, Egito e líderes globais reconhecendo o quanto estamos vulneráveis. O alerta ao mundo foi feito por cientistas sul-africanos.

A descoberta é muito recente e o rastreamento do novo vírus está sendo feito especialmente na África, em Botsuana, onde pesquisadores indicam que pode ter ocorrido uma mutação genética, com suposta capacidade do vírus se disseminar mais rapidamente do que a variante Delta, amplamente conhecida. Outra grande preocupação é saber se as vacinas até aqui produzidas e aplicadas serão eficazes para conter a propagação dessa variante, considerada altamente infecciosa e evitar mortes.

Cientistas alertam que a nova variante não precisa de muita ajuda para encontrar as dezenas de milhões de pessoas que estão desprotegidas, sem vacinação completa. E enquanto houver partes do globo com baixas taxas de vacinação, continuaremos a ter criadouros ideais para novas variantes.

Todos os lugares do mundo, das metrópoles aos vilarejos foram alcançados pela pandemia do coronavírus, porém, nem todos foram alcançados pela vacinação. Agora, a realidade de um mundo globalizado não apenas pelas relações comerciais, mas ligado também pelas misérias volta a nos assombrar. Sob muitos aspectos essa nova situação muda definitivamente nossa ideia de lugar, de segurança. Para onde tentarmos ir, não encontraremos terra segura, esta epidemia está a nos acompanhar por onde andarmos. Se os cientistas a debelam de uma forma, o vírus se transmuta e ressurge numa terra que muito provavelmente tenha sido negligenciada ou esquecida.

Para quem decidiu sair e viver a vida, virando a página da tragédia das 614 mil mortes e mais de 22 milhões de casos no país, apresentando a narrativa de que a pandemia essencialmente chegou ao fim, seria bom um recuo mental e reavivar as imagens das unidades de terapia intensiva colapsadas, os anúncios dos números assustadores de mortes diárias incluindo aí, familiares de muitos de nós.

Pode parecer uma ideia atraente acreditar que atingimos o equilíbrio, porque ansiamos voltar à vida normal, mas isso vai de encontro à realidade da existência de uma pandemia que continua latente. Existe uma realidade ruim eclodindo hoje na Africa que pode ser irradiada para muitas outras populações, inclusive a nossa.

Além disso, vale relembrar as entrevistas de cientistas, infectologistas e virologistas afirmando que  novas variantes continuariam a evoluir, mas com os cortes das verbas do fundo para a ciência, a comunidade científica brasileira não tem recurso (equipamento e reagentes) para fazer pesquisas para entender se as variantes são mais ou menos virulentas. Entretanto, virologistas mundo afora estão voando em alta velocidade para entender se as propriedades e o potencial da nova variante pode evitar a imunidade das vacinas e das pessoas que já foram infectadas.

A narrativa cruel de que “todos vamos morrer um dia e não adianta fugir dessa realidade e que temos que deixar de ser um país de maricas”, não pode se repetir, caso o monitoramento da nova variante mostre que ela tem potencial para causar surto em países com alta taxa de cobertura da vacina.

Deixo o Haiti morar em mim

Quase 6 mil quilômetros separam o Brasil do Haiti, mas é possível reconhecer em Cuiabá inúmeros “pequenos haitis”, bairros inteiros (os haitianos vivem principalmente nos bairros da região leste de Cuiabá; Bela Vista, Carumbé, Planalto, Jardim Eldorado, Novo Horizonte, Pedregal) marcados pela cultura caribenha, pela língua crioulo e prática de uma religião apoiada por ritos pagãos, com elementos africanos, o voodou. A migração haitiana para Cuiabá, que começou tímida no ano de 2011, ganhou força com o fluxo frequente de grupos cada vez maiores. Entre os anos de 2012 a 2015, passaram pelo Centro de Pastoral do Migrante mais de 3.500 haitianos. Grupos imensos já deixaram Cuiabá, devido a escassez de trabalho, mesmo assim, há um contingente considerável de haitianos vivendo na capital e no interior do estado.

Construí uma trajetória de estudos e observação espontânea sobre o Haiti e seu povo, desde o ano de 2012; faço entrevistas e registros de reuniões e conversas com e sobre os haitianos que migraram para Cuiabá e nesta semana, ao ouvir relatos de três amigos haitianos, percebí que grande parte deles vivem seus dramas entre si, invisíveis ao poder público de onde quer que estejam.

Antes conhecido como a Pérola Negra do Caribe, este país que fez história ao renascer livre, em 1804, de um levante de escravos contra a dominação francesa, tornou-se o primeiro país da América Latina a abolir a escravidão, tem vivido uma crise após a outra e resulta disso, que o ciclo da pobreza e o ciclo migratório não cessam.

Ao longo de décadas, os haitianos atravessam a fronteira para cortar cana, e fazer trabalhos pesados na República Dominicana, em uma convivência carregada de ressentimentos e tensão. Esse ambiente hostil remete-nos ao massacre de haitianos, ordenado pelo ditador dominicano Rafael Trujillo, em 1937, narrado no livro “A festa do bode”, do escritor peruano Mário Vargas Llosa, onde há uma passagem em que o ditador dominicano assiste o lançamento de haitianos vivos num determinado local do mar, povoado por tubarões.

O Haiti está no caminho de furações, terremotos e tempestades tropicais. Com população estimada em aproximadamente 11 milhões de habitantes, composta por 95% de negros, predominantemente católicos, porém o voodou é praticado por mais de 50% dos habitantes. 80% dos haitianos são de famílias pobres.

No dia 12 de janeiro de 2010, um terremoto de grau 7,3 na escala Richter, arrasou o Haiti. O tremor teve seu epicentro na capital Porto Príncipe. Esse fenômeno da natureza deixou o Haiti, o país mais pobre das Américas, com 1,5 milhão de pessoas desabrigadas, além de matar mais de 200 mil pessoas, sendo 21 delas brasileiras, entre as quais a médica Zilda Arns.

O cenário em Porto Príncipe era desesperador. Corpos em decomposição debaixo dos escombros espalhados pelas ruas, alarmante risco de contrair doenças, paralisia total por parte do governo e pouca comoção na comunidade internacional. A tempestade trouxe tudo para o centro da cidade, todo mundo estava vivendo do lado de fora de suas casas, que ameaçavam desabar; o banho era coletivo, as refeições, a dor, o luto, tudo.

Anda se recuperando do terremoto de 2010, em outubro de 2016, os haitianos foram jogados para fora de suas casas, com o rugido do Furacão Matthew, que provocou inundações e deslizamentos de terra sobre as casas, matando 877 pessoas.

Há 58 anos não se via um presidente em exercício ser assassinado nas Américas. Mas em 07 de julho de 2021, o Haiti foi surpreendido pelo assassinato do seu presidente, morto a tiros em sua própria residência, numa tramacujo mentor foi o primeiro-ministro do país.

Um mês depois, 14 de Agosto, um terremoto de magnitude 7,2 atingiu novamente o Haiti, em outra região  e deixou ao menos 304 mortos, cerca de 2 mil feridos e centenas de desaparecidos segundo as autoridades da Defesa Civil do país. Em vídeo pude ver casas destruídas, entulhos retorcidos nas ruas, corpos sendo recolhidos, agora com mais pressa, para limpar o cenário para a próxima tragédia.

O que revelou a fila dos ossos

A fila dos ossos, que falsamente escandalizou a sociedade e a mídia de Cuiabá e de todas as partes do Brasil, tem causa social, e não é natural, mas não evidenciou nenhuma situação nova, apenas escancarou uma realidade sabida e tratada com indiferença por quase todos. (Para os amigos que me leem e não moram em Cuiabá: semana passada vazou um vídeo, que viralizou, onde havia muitas pessoas numa fila, nos fundos de um açougue, esperando para ganhar ossos, para colocar na sopa).

Confirmou que o Brasil, o gigante Latino-Americano, é o 9º país mais desigual do planeta. O Ministério da Cidadania admite que 39,9 milhões de pessoas vivem na extrema pobreza no Brasil, dos quais mais de 14 milhões de família cadastradas, com renda de até R$ 89. 140 mil famílias em estado de extrema pobreza em Mato Grosso, 18 mil famílias na mesma situação em Cuiabá.

Um em cada quatro brasileiros é pobre, de acordo com a pesquisa Sínteses dos Indicadores Sociais, do IBGE e entram na conta somente os moradores de residências permanentes, ou seja, estão excluídas da pesquisa as pessoas em situação de rua, o que aumenta ainda mais o rastro da fome espalhado pelo país.

No mundo, ano de 2020, mais de 588 milhões de pessoas viviam em pobreza extrema, o que significa que aproximadamente 7,7% da população global vive nessa situação inadmissível. A maioria dessas pessoas estão envoltas numa forma de ciclo de pobreza que, sem severa intervenção externa, sobretudo dos governos, é improvável que seja quebrado.

E o Brasil está a décadas de distância de atingir um nível razoável de igualdade social. Veja você, que um trabalhador que ganha salário-mínimo levaria 19 anos para acumular a mesma quantia que um dos brasileiros mais ricos ganharia em apenas um mês. É disso que estamos falando, da disparidade cruel e secular entre as classes sociais.

E sobre classes sociais existentes, o cientista, advogado e geógrafo Milton Santos tem uma frase profunda para identificá-las. “Existem apenas duas classes sociais, a dos que não comem e a dos que não dormem com medo da revolução dos que não comem”.

A pobreza é mais do que falta de recursos. Ela se caracteriza pelo descaso dos governantes, pela corrupção que embolsa recursos que poderiam ser aplicados em políticas públicas, em ampliação dos valores pagos pelos programas de transferências de renda. Tem sido, mas não precisa ser sempre assim: desemprego, pobreza extrema e desigualdade crescente são males estruturais que assolam a complexa sociedade brasileira. São famílias vivendo à margem da sociedade, vendo o crescimento e a prosperidade passarem por eles, mas em suas vidas há apenas escassez. Não tem comida suficiente, não tem água limpa ou saneamento, não tem acesso à educação e saúde.

Entretanto, o fardo que a pobreza representa para a sociedade e os indivíduos não é apenas econômico ou físico. Medir a pobreza desta forma ignora os outros tipos de pobreza que oprimem os marginalizados. As pessoas pobres sentem agudamente sua impotência e insegurança, a vulnerabilidade e falta de dignidade. A pobreza extrema faz com que os pobres sofram emocional e espiritualmente também.

Os pobres, mais do que qualquer outro grupo, dependem de serviços públicos básicos. Melhorar o acesso à educação de qualidade e a saúde são vias imprescindíveis para se sair da pobreza, cuja extensão, pode ser percebida de outras formas além da fila dos ossos.

Medo da fome e da morte

Essa loucura que o mundo está passando é fato inusitado para todos, em todos os continentes. Não existe vacina tampouco medicamento certo para o tratamento, ninguém conhece a receita para lidar com esta gigantesca crise epidêmica e  ainda não há um modelo matemático para evitar o caos econômico. Devemos então, dentro desta realidade mundial exposta e complexa, renovar a  confiança na ciência e evitar causar mal coletivo com discursos imprudentes.

O século XXI demoniza nossas vidas, irremediavelmente! Há uma imensidão de  pessoas no mundo que vão viver essa epidemia, estão sendo contagiadas, desenvolvendo a doença e não tem prognostico de quando retomarão suas vidas. Mas todos indistintamente atravessaremos a tensão de nos saber cercados do vírus por todos os lados, com medo da transmissão em família, medo dos vizinhos, com pavor de supermercados e shoppings.

Fico indignada ao extremo ao saber de pessoas ficando sem tratamento adequado, pelo colapso inevitável do nosso sistema de saúde. Mas também é muita coisa junta num momento em que o interesse público tem que prevalecer: o país em pandemia, um presidente tresloucado.

Pode-se pensar tudo durante a longa duração do isolamento social, entretanto vale mesmo lançar o olhar para observar e compreender as relações entre a estrutura da sociedade. Recomenda-se “ninguém” ao lado, uns porém, estão largados, experimentando, em toda sua crueza, a pressão dos dias que se arrastam opacos.

A pandemia veio com envergadura global e aos poucos foi juntando os povos do mundo para compartilhar a mesma epidemia, os mesmos medos: de perder o emprego, de perder-se em dívidas, de perder a vida. A sociedade global, em parte colaborativa, em parte fechada na ignorância, espera que os testes de medicamentos sejam apresentados num tempo menor que a auto imunização propagada.

Bem meus caros, o sofrimento nos catapulta além da nossa zona de conforto, lança nossas vidas ordenadas no caos. Resta consolo lembrar que experiências de profunda tristeza podem se tornar oportunidades de transformação. Quando nossos alicerces e segurança são significativamente abalados por algo a princípio desconhecido, depois intratável, um espaço inesperado pode se abrir em nossos corações, dando-nos uma capacidade de amor e compaixão que nunca experimentamos antes.

 

 

Enxergamos aquilo que reforça nossas convicções

Cidadãos querem ser candidatos para reforçarem suas convicções políticas, o
pregador aborda o fiel baseado em suas convicções religiosas, a família educa de
acordo com suas convicções morais. A vida porém, é mais saudável num espaço de
múltiplas visões e conflitos.
Temos testemunhado a ascensão do radicalismo por todos os lados e a raiva e
polarização são as forças vitais de qualquer movimento radical. Estou sentindo as
possibilidades de diálogo cada vez mais reduzidas, a capacidade de entendimento cada
vez menos praticada, já nem mesmo tentada. Nos diálogos já não se tenta convencer,
apenas marcar divergência.
O tom em que esses ideais são proferidos me irrita infinitamente. Onde quer que
estejamos estamos construindo muros de ideais, ideologias, intolerância e não
estamos bem intencionados quando propomos diálogo. Diálogo, em tese seria
submeter minhas próprias ideias à sua experiência, sem leva-la em consideração.
Sempre queremos ser vistos como certos, sempre certos. Mas como viver a certeza
diante do pluralismo, que mais remete a tolerância e ao encorajamento de lançar-se à
perspectivas conflitantes? Será necessário aflorar muito mais do que um ajuste
ideológico para cultivarmos a coragem necessária para não erguermos cercas entre o
que pensamos e o que pensa o outro. Precisamos educar nossos corações para o
convício e tolerância.
A sociedade está marcada pela ansiedade, reina uma inabilidade de experimentar
profundamente o que nos chega, o que importa é poder descrever aos demais o que
se está fazendo, reforçar as convicções exibicionistas. Entre nossas exibições e dos
outros, há um contexto a ser explorado, diferenças econômicas e sociais gritantes,
cenários e expressões que são reflexos das realidades individuais.
É fundamental notar que nem toda realidade compartilhada é objetiva. A subjetividade
eleva os níveis da realidade que revelamos. As convicções são geradas e reforçadas
nem sempre com base em valores do conhecimento, mas permeadas pela vaidade e
pelo desmerecimento do que é o outro. Uma das razões, pelas quais se atribui
relevância e valores a objetos, como casas, roupas e carros. Estes, passam a ter
importância porque reforçam e refletem parte do que somos; a superficialidade.
Objetos reforçam convicções. Objetos dão significados a realidade. E assim, o que
temos e a forma como percebemos as coisas em nossas mentes, se tornam nossas
verdades. Sem dar ouvidos, sem perceber o outro, sem adentrar no mundo do outro,
sem sorver conhecimento numa fonte diferente. Não ser capaz de conviver com
realidade, ideais e ideologias diferentes é o que tem nos tornado arredios, arrogantes
ou ignorantes.
Baseada em suas convicções esdrúxulas, ignorando a relevância da cultura e da
leitura, a Secretária de Educação do Estado de Rondônia listou nada menos que 43
obras clássicas da literatura brasileira e as baniu das escolas públicas, por considerar,
segundo o estreitamento de sua visão sobre a educação, que os livros contém
conteúdos inadequados. Entre os autores estão Mário de Andrade, Rubem Fonseca e
Machado de Assis. Partiu ela da premissa egoísta; se eu não gosto, ninguém aqui vai
ler.

Classifico como absurda essa ideia de que só existe uma verdade, e esta é a minha.
Sobre isso o filósofo francês, Foucault disse que as verdades nunca são livres, são
sempre manipuladas e vão gerar formas de comportamentos diversos e
constrangimentos.
Todos os assuntos estão polarizados. Ou somos contra ou a favor, ou somos aliados
ou adversários ferrenhos. Assim é quando discutimos as questões climáticas, religião,
futebol, corrupção, os rumos da economia, indicações ao Oscar e a política segue esta
vertente perigosa.
Por mais que sejamos ideológicos, os opostos não precisam se odiar, tampouco
menosprezar quem tenta fazer a paz reinar entre eles. Considero conviver um
exercício de observação e aprendizado fabuloso. A troca, sem intervenção, me
completa. Valores e princípios diferentes agregam sabor a existência. Acho que nasci
com a intuição para buscar a sabedoria que está no meio.

A mão que afaga é a mesma que apedreja

Vale tudo é um tipo de esporte, considerado agressivo e violento, uma luta com poucas regras e limites em que os mais diversos golpes são aceitos, tem a duração de 15 minutos, divididos em 3 blocos chamados de round. Isso quer dizer que um sujeito tem 15 minutos para espancar o outro, tentar nocauteá-lo. Só que normalmente as lutas se dão em igualdade de peso e potencial de bater e defender-se.

O vale tudo do qual vou falar é o que tem estampado as primeiras páginas de todos os jornais locais e nacionais e tem acontecido no ringue em espaço familiar, na sala, quarto e qualquer lugar público. Sim, tem tido audiência! A luta desigual em força física, tem acontecido inclusive, na frente das crianças e muitas vezes tem a duração de uma noite toda.

O que está acontecendo com os homens? A mão que afaga tem sido a mesma mão que espanca impiedosamente.

Temos lido sobre sessões de tortura, mordidas que arrancaram pedaços da face e dos lábios, casas incendiadas, animais de estimação sendo envenenados. Como pode o amor transformar-se em ódio brutal, como pode compartilhar uma gestação e depois matar o bebê apunhalado com chave de fendas por retaliação ao fim do relacionamento?

O que tem cegado os homens, que explodem em fúria, espancam, atiram, queimam, arrancam coração? Como crer que tenham sido humanos um dia?

O fim, não apenas de um relacionamento mas de tudo na vida é coisa certa, não perceberam ainda?

A ignorância de depositar no outro a responsabilidade sobre a própria felicidade e a confiança de que as coisas vão se ajeitar, de que a violência não vai se repetir tem resultado em mortes absurdas.

Os indomáveis estão à solta, os alvos estão ao alcance e vulneráveis e imagino o medo que tem permeado algumas relações, sobretudo quando baixa a noite.

Não estamos conseguindo superar a violência praticada por homens contra mulheres, na qual o agressor e vítima estão intimamente ligados à explicação dessa violência, quase sempre perpetrada pelos homens para manter o controle e o domínio sobre “sua” mulher. O fato é que, geralmente, as mulheres estão emocionalmente e economicamente envolvidas com seus agressores.

Torna-se cada vez mais evidente que os abusos cometidos contra crianças e adolescentes é tanto mais comum quanto mais severo nos segundo casamentos, com a figura dos padrastos. Mas a agressão contra as mulheres está acontecendo em toda esfera de relacionamentos.

Temos percebido a justiça mais ágil, os assassinos logo presos, mas nas manchetes do dia seguinte um novo rosto com marcas roxas estampará as capas dos jornais. Mais um assassino será preso e assim tem sido cumprido o círculo de sonhos, casamentos filhos, espancamentos e mortes.

Boas práticas e tentativas de diminuir a violência têm acontecido nos Conselho, nos Governos, com adoção de políticas públicas para prevenção e combate à violência, porém todas tem sido ineficientes no sentido literal de seus propósitos, inclusive a ativista Maria da Penha, que cede seu nome à Lei de proteção à mulher, criticou a Lei num evento recente, justamente porque não tem, com efeito, conseguido proteger as mulheres.