Respeita as gurías na folia

O respeito é a base de tudo. Entender o não consentimento como uma violência em atos de conotação sexual é um problema e as análises feitas por grupos respeitáveis que pesquisam o tema, confirmam que apesar dos esforços dos governos através de campanhas educativas voltadas para os foliões, os registros de violência contra as mulheres aumentam no período de carnaval.

O título desse artigo tirei de uma ação do Programa Jovens Multiplicadoras de Cidadania, da Themis – Gênero, Justiça e Direitos Humanos, que há quase 30 anos atua na defesa e direitos das mulheres e organiza campanhas de conscientização durante o carnaval em Porto Alegre, com apoio do Fundo Canadá e do Fundo de População das Nações Unidas. “Respeita as gurias na folia” é uma ação idealizada em parceria com a Liga das Escolas de Samba, para tentar desnaturalizar a violência de gênero nas festas de Carnaval em Porto Alegre.

As jovens distribuem materiais educativos nos eventos de rua alertando que: fantasia não é convite para intimidade; bebida não é carta branca para avançar o sinal, tampouco desculpa para quem avança; ofensa não é brincadeira; racismo, homofobia são crimes; roubar beijo, tocar no corpo de alguém sem permissão é crime e reforça o espírito da sororidade, orientando que, ao presenciar uma cena de assédio, intervenha, ofereça ajuda, denuncie.

O estudo, de abrangência nacional apresentado pelo Instituto Locomotiva e Question Pro, divulgado semana passada, dia 06, revela que metade do público feminino já foi alvo de importunação durante o carnaval e 73% das mulheres brasileiras têm medo de sofrer assédio durante o carnaval. Metade das entrevistadas relataram já terem sofrido algum tipo de violência durante o feriado. No levantamento quase 100% das pessoas entrevistadas, que incluem homens e mulheres maiores de 18 anos, consideram que as campanhas de combate a esse tipo de crime e são fundamentais.

A responsabilidade de combater a prática do assédio é de todos e não podemos normalizar o discurso de 15% dos entrevistados de que as mulheres que decidem pular carnaval, não têm o direito de reclamar caso sejam assediadas, que o contato íntimo, o beijo, é do jogo, que o momento é quente, que não se pode controlar a multidão. Segundo o Instituto Locomotiva, estamos avançando e 81% dos brasileiros acham problemático um homem beijar uma mulher embriagada ou com roupas curtas, sem que ela dê consentimento, são os casos de assédio no espaço público, o ‘street harassment’.

O álcool, sem dúvida é um fator de risco, mas não justificativa para os crimes que acontecem no período de carnaval. Os dados do Sinan, que gera informação das notificações gerados pelo Sistema de Vigilância Epidemiológica indica que 52% dos crimes de estupro que ocorreram nos dias de Carnaval, em 2020, foram cometidos por indivíduos alcoolizados. No restante do ano, essa proporção foi de 38%.  A bebida baixa os limites dos valores que já estavam lá, enraizados no indivíduo, o machismo, a desigualdade de gênero, a tendência à violência. 

Em 29 de dezembro de 2023, foi sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a lei que estabelece o protocolo “Não é Não”. O objetivo da lei é evitar o constrangimento e a violência contra a mulher em ambientes nos quais sejam vendidas bebidas alcoólicas, como casas noturnas, boates e shows. É exigência da legislação que se fixe em locais visíveis informações sobre como acionar a Polícia Militar (190) e a Central de Atendimento à Mulher (180).

Nos afogamos em dados mas temos temos sede de significado

2023 foi ano que trouxe o fim da pandemia. Oficialmente declarada em 5 maio, pela Organização Mundial da Saúde.

Ao pesquisar artigos e ensaios sobre as perspectivas para o ano que se inicia, superado o fardo do medo da morte, identifiquei que certo desconforto está crescendo em todos os setores da sociedade. É um descontentamento ainda lento, que tem permeado as forças sociais, econômicas e tecnológicas, que cresce nas sombras do nosso mundo hiper conectado, onde as brilhantes promessas da globalização da tecnologia não conseguiram materializar-se para a maior parte das pessoas. 

O que parece um estardalhaço, à primeira leitura, são as afirmações de que os próximos 10 anos testemunharemos mudanças dramáticas e radicais. Estas são as linhas iniciais de um capítulo da história humana, que dizem estar começando em 2024. Uma década de descontentamento está chegando. 

Uma das causas apontadas é o investimento sem precedentes nos sistemas de inteligência artificial, que podem executar tarefas que antes estavam no domínio dos trabalhadores humanos, com isso, cresce o temor que esta mudança irá retirar empregos em quase todas as áreas de trabalho. E a nova narrativa de descontentamento, não é apenas com políticas ou líderes específicos, mas com os sistemas e estruturas que moldaram o mundo atual, escorado em conexões virtuais e informações sem precedentes, em fluxo e velocidade.

Entendo que transformações, são cruciais num mundo que atingiu em primeiro de janeiro o número espantoso de 8.019.876.189 de pessoas. Atualmente a taxa de crescimento está em declínio e deverá cair ainda mais nos próximos anos, mas a população mundial continuará crescendo, porém num ritmo mais lento.

Como crer que seja possível estabelecer ligações sociais genuínas ou melhorar as interações no mundo real para esse contingente gigantesco de pessoas, quando efetivamente estamos presenciando o desenvolvimento de plataformas sociais baseadas em inteligência artificial para simular a interação humana, proporcionando uma aparência de conexão placebo, sem a profundidade e riqueza das relações humanas genuínas?

Um mundo com 8 bilhões de pessoas oferece infinitas possibilidades. Sim, positivas e negativas em maior escala se nova abordagem não for tentada, no sentido de compreender essa aldeia global, onde se fala mais de 6 mil línguas, mais da metade falam dialetos chineses, inglês, indiano, espanhol, árabe, bengale e português. As crenças se dividem sobretudo entre cristãos, mulçumanos, hindus, budistas e judeus.

No planeta falta água potável, sistemas sanitários adequados, nem todas as famílias têm eletricidade em casa, nem todas as crianças frequentam escolas, nem todas que frequentam aprendem a ler, num sistema educacional ainda machista, onde mais meninos são ensinados a ler do que meninas.

Temos, então, mais de 8 bilhões de razões para prestar mais atenção no planeta, para ter mais cuidado um com o outro, atentarmos sobre os efeitos devastadores causados pelos desmatamentos e, mais importante, cuidar mais da saúde e do bem-estar sobretudo das mulheres e crianças.

Muitos tem razão para estar aflitos e com certo medo. Para quem cultiva a vaidade, não é fácil reconhecer-se em apenas um pontinho entre 8.019.876.189 pessoas. Para outros, é uma inspiração viver numa sociedade de diferentes, onde cada pessoa é um conjunto de substantivos e adjetivos, sem que nenhum destes a defina completamente.

A sociologia, quase sempre desconfia da felicidade humana

Começo escrever destacando o valor da reflexão, o processo de olhar para trás e aprender com o que fizemos, antes de seguir em frente. Dessa forma, podemos aplicar pequenos passos para a melhoria da caminhada. A felicidade é subjetiva, não objetiva, e o que definimos como sendo a felicidade pode ser debatido ‘ad infinitum’. A ansiedade, diante do nosso tempo conturbado, associada à nossa crescente compreensão da brevidade da vida, pode ser a principal razão pela qual aparentemente e incessantemente nos tornamos buscadores da felicidade.

A maioria dos livros de sociologia, sem dúvida, debate os tópicos tradicionais e inevitáveis ​​de “estratificação social”, “socialização”, “papéis”, ‘status’, ‘classe’, ‘racionalização’, só para mencionar alguns. Embora todos esses tópicos consagrados pelo tempo tenham mérito, relevância e potência sociológica, é raro que alguém considere a ‘felicidade’ como uma preocupação fundamental dos sociólogos. Na maioria dos índices de livros de sociologia, a felicidade quase nunca aparece.

Comecemos por considerar se a felicidade ou a busca da felicidade pode encontrar alguma justificação no discurso da sociologia e se a sociologia tem um vocabulário adequado para capturar experiências de felicidade. Considerando-se uma disciplina crítica, a sociologia, quase sempre desconfia da felicidade humana. De forma provocativa, posso sugerir que a sociologia de fato prospera com base no fato de que as pessoas, fatalmente ou no contexto social, devem ser de alguma forma, infelizes e se revezam em algum tipo de estado de infelicidade; ou seja, são reprimidos, alienados, oprimidos, sem liberdade, impotentes, miseráveis.

Nos últimos anos, a chamada ‘sociologia das emoções’ ganhou posição como uma preocupação promissora no campo da sociologia. Em vários autores, entre os quais, Zygmunt Bauman, encontramos referências relativamente frequentes a emoções como solidariedade, compaixão, amor, medo, liberdade e felicidade, dando início, gradualmente, a reflexão sobre a importância social das emoções, estudos que nunca foram proibidos, mas foram largamente ignorados em tempos anteriores.

Perguntado se a sociologia pode ajudar as pessoas e na verdade também os próprios sociólogos a alcançar a felicidade, Bauman respondeu que a felicidade não consiste em estar livre de problemas, mas em enfrentá-los, combatê-los e superá-los.

Sociólogos estão realmente preocupados em identificar as muitas enfermidades e males enfrentados pela sociedade contemporânea. O sociólogo americano, naturalizado canadense, Robert Stebbins sugeriu uma agenda para uma chamada “sociologia positiva” que, em vez de focar sobretudo no que parece estar errado na sociedade, mostra mais preocupação com o estudo sobre como as pessoas podem organizar suas vidas de modo que essas vidas se tornem substancialmente gratificantes, realizadas e felizes.

O sociólogo tem inúmeros trabalhos publicados, destacando que o lazer é o caminho para uma vida feliz.  O lazer pode ser casual, onde exercemos atividade prazerosa no tempo livre, como leitura, caminhar, conversar com amigos; lazer sério, que é a busca por uma atividade interessante, hobbies, atividades voluntárias, que valorizam a construção de um mundo social e o lazer baseado em realização de projeto, que pode ser evento que evidencia a criatividade e a habilidade para gerar a autorrealização, como eventos esportivos, festivais artísticos.

Viver diariamente com o risco da desaprovação

Aaceitação de mim, das partes não curadas da minha alma, da impossibilidade de ser forte por muito tempo é uma perspectiva que abro para viver o próximo ano, com meus pontos defeituosos, minhas opiniões, minha voz. Aprender a tomar tempo, tomar distância, emancipar meu destino para confrontar as fatalidades. O sociólogo Zygmunt Bauman diz que a sociologia é hoje mais necessária do que nunca, que os sociólogos são especialistas em compreender aquilo a que estamos fadados porque conhecem a rede complexa das causas que provocam as fatalidades. E para operar neste mundo, é preciso entender como o mundo opera. 

Percebo que um espectro paira sobre esse tempo da nossa existência: pessoas desgastadas, mortalmente fatigadas, assustadas pela precariedade de seus destinos, abandonadas a seus tormentos mentais e agonias da indecisão, que tem transformado a alegria de viver num medo paralisante do risco e do fracasso. Arthur Schopenhauer, com a crueza habitual, diz que a primeira metade da vida, vive-se uma infatigável aspiração de felicidade, a segunda metade, é dominada pelo sentimento de receio que só o sofrimento e rejeição é real.

É sobre esse incômodo de caber num determinado espaço, de direcionar a vida por onde não olhem de soslaio, esse peso desgastante do medo do desprezo, é sobre a importância que damos ao fato de sermos modernos, de estarmos sempre à frente do tempo, num estado de transgressão, críticas e cobrança constantes. Ao corpo adicionaram padrão, a idade tem padrão, os relacionamentos têm padrão. E a sociologia de Anthony Giddens diz que viver uma vida baseada em impulsos momentâneos, modismos, críticas e cobranças, sem práticas sociais habituais e saudáveis é condenar-se a uma existência sem sentido.

Encaixar é tentar se adaptar a um mundo que não é o seu. Pertencer é habitar o mundo como quem você é de verdade. E você nunca se encaixará onde não pertence. Emagrecer para receber elogios, dizer sim para receber agradecimentos são táticas consistentes de transgressão aos nossos limites. Quando você tenta se encaixar, você deixa padrões aleatórios medirem onde você vai chegar, observando se você é bonita o suficiente, inteligente o suficiente, magra o suficiente ou rica o suficiente. Sair desse ciclo falido de cobranças, não significa que você irá extingui-lo, significa que o medo de fracassar e não caber em espaços almejados não mais controlarão sua vida. Viver no meio de uma multidão de pessoas, com valores e estilos de vida em competição, sem garantia alguma de estarmos seguindo o que é certo, é um preço alto a ser pago com nossa desordem psicológica.

Como socióloga, tenho conseguido diagnosticar e revelar fontes sociais de infelicidade, as causas estruturais dos sofrimentos que se multiplicam nos espaço sociais.  Bauman, porém, alerta que compreensão e diagnósticos sociológicos não é o mesmo que cura, trazer à luz as contradições não significa resolvê-las. Percebe então, que minha preocupação repousa em que suas escolhas sejam verdadeiramente livres do peso das críticas e cobranças?

As mudanças que podem ter efeito poderoso em nós

Acontecimentos pessoais, política, religião, atos de guerra e epidemias podem alterar inesperadamente a nossa relação com o mundo que nos rodeia. Esta é uma das coisas boas da condição humana, a maneira como moldamos nosso mundo diante das mudanças que somos forçados a absorver. Se as mudanças tecnológicas conseguiram proporcionar a emancipação do homem comum, agora é necessário criar um mundo mais relevante, num cenário mais existencialista, o ser humano com seu todo, livre, responsável por sua existência.  

Apesar dos últimos anos terem sido marcados por progressos significativos em vários domínios, como a ciência, a medicina e a tecnologia, ao mesmo tempo, o número de problemas na sociedade atual tem estagnado ou aumentado constantemente, conforme uma lista elaborada pela ONU sobre os 10 maiores problemas do mundo atual e suas possíveis soluções, as quais, se foram tentadas, falharam.

Estudo realizado pela Fundação Getúlio Vargas, Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada e Banco Mundial, em parceria com o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, aponta, talvez, o único dado positivo das pesquisas que li durante a semana. 3 milhões de famílias beneficiárias do programa Bolsa Família saíram da pobreza extrema neste ano. Em Mato Grosso, ainda há 265 mil famílias que recebem o benefício do Governo Federal.

Em julho de 2023 foi publicado o Anuário Brasileiro de Segurança Pública com dados produzidos pelas Polícias e Tribunais de Justiça dos estados brasileiros, que mostraram o crescimento dos feminicídios, das violências sexuais, das agressões em decorrência de violência doméstica, bem como dos acionamentos ao número de emergência, indicando o crescimento de todas as formas de violência contra mulheres.

Os números reforçam a tese de que o Estado brasileiro tem falhado na tarefa de proteger as meninas e mulheres: os feminicídios e homicídios femininos tiveram crescimento de 2,6% este ano, 1.902 mulheres foram assassinadas e os estupros apresentaram crescimento de 16,3%. Percebe-se pelos noticiários, pelas vezes que nos assustamos e que reagimos indignadas que os assassinatos e as demais formas de crimes contra a vida de mulheres tiveram crescimento.

As questões ambientais, outro tema que ocupa a lista de grandes problemas mundiais, de forma direta e transversal, mas aqui no Brasil, podemos tratá-los como tragédias anunciadas, repetidas de tempo em tempo, sem punição e sem reparo de danos causados. No ano de 2015 assistimos perplexos, uma das maiores tragédias ambientais do país, que matou 19 pessoas em Mariana, MG, soterradas na lama tóxica dos rejeitos de minério de ferro. 8 anos depois, nenhum réu foi punido criminalmente e os crimes ambientais, como a lama tóxica que percorreu quase 600km, devem prescrever em até um ano. 

Se a justiça tivesse agido, punido diretores da empresa Samarco, possivelmente teria barrado a ganância e o descaso com vidas humanas pelas grandes corporações e não teria acontecido Brumadinho quatro anos depois, deixando um rastro de 270 pessoas mortas. Quatro anos depois de haver causado a tragédia, a empresa Vale registrou um aumento expressivo (33,6%) nos lucros líquidos.

Presenciamos a tragédia anunciada em Maceió semana passada. Vidas foram poupadas graças a ação rápida e vigilante da prefeitura, porque entre vidas, de pessoas da classe média baixa e pobres, o mundo corporativo sempre fará a opção pela expansão de seus negócios. Enfim, as mudanças que podem ter o efeito poderoso sobre nós e nossa existência neste planeta, estão acontecendo a passos de formiga e sem vontade.

Grandezas e misérias da política

Manuel Azaña Díaz foi um dos políticos e oradores mais importantes na política espanhola do Século XX, doutor em Direito, um jornalista excepcional e escritor premiado. Foi deputado, ministro e presidente da Segunda República Espanhola, em 1936. Um crítico enérgico contra a ditadura, foi vigiado e caluniado por agentes do general Franco. Numa conferência histórica na cidade de Bilbao, proferiu um discurso intitulado ‘Grandezas e Misérias da Política’.

Encontrei informações sobre a preciosidade desse discurso, ao fazer uma busca de leituras interessantes para melhorar a argumentação em temas de política. O discurso, contextualizado em época e condição política, é uma corajosa declaração de apoio à mudança, quase um texto legislativo, argumentando hipóteses sobre como tornar a vida pública menos exposta às incertezas do sistema.

Com a profundidade, que lhe era peculiar, sobretudo por ter tido uma vida intelectual intensa, Azaña cobrou em discurso, a coerência entre o ideal político e os projetos de poder. Um político não deve ser apenas um líder ou um estadista, passando constantemente por processos de votação. São os políticos, verdadeiramente, pessoas que vivem sujeitos a ir da glória da superioridade à inferioridade do defeito. Grandezas e misérias marcam trajetória dos políticos e dos jogos políticos e ele, que prima pelas qualidades morais além do personagem do político, não crê que haja responsabilidade pública sem vocação ou inteligência.

Azaña foi publicamente contra os líderes privilegiados, amparados pela força dos grupos políticos, que estendiam proteção a elite política espanhola, defendeu a democracia, como incentivo à participação da população daquela época, nas decisões políticas. Um sistema político democrático, não pode ser sustentado em benefício de um grupo em detrimento de outro e deve ser estabelecido numa base coerente entre a política e a sociedade. Disse: “Sou um democrata e não sou apenas um republicano, sou um democrata porque acredito que é a única forma de tirar os políticos da posição privilegiada na qual estão deitados há séculos.”

Disse isso, com a propriedade de quem estabeleceu um espaço para ampliar as bases de um projeto republicano, já que criticava as formações de poder incapazes de reconhecer o talento do país e de seus filhos, para ficar, de forma menor, fazendo a vergonhosa política convertida em distribuição de cargos.

Promoveu grandes comícios por acreditar que a mobilização política era a base para a transformação da própria política, um eixo de mudança e modernização. Disse que a sua candidatura nunca foi capricho pessoal, nem honra a um grupo, nem uma transação de princípios abandonados, ele estava determinado a contribuir com a renovação da raiz até a folha da política. E a colaboração não era para o presente, mas para o futuro, para que fosse calmo, fecundo e glorioso para quem governa e para o povo.

Podem me matar em nome do ódio, ainda assim, vou me levantar

No site do Senado Federal já é possível acessar a 10ª edição da pesquisa de opinião nacional, ‘Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher’ realizada pelo Instituto DataSenado em parceria com o Observatório da Mulher a cada dois anos e tem por objetivo ouvir mulheres brasileiras acerca de aspectos relacionados à desigualdade de gênero e agressões contra mulheres no país. O levantamento mostra que 30% das mulheres já sofreram algum tipo de violência doméstica ou familiar provocada por um homem. Enquanto 64% das mulheres que recebem mais de seis salários-mínimos declararam ter sofrido violência física, esse índice chega a 79% entre as vítimas com renda de até dois salários-mínimos.

A pesquisa é restrita à violência no âmbito familiar, porque há uma comissão formada para estudos e apresentação de soluções, vindos de todos os segmentos da sociedade, para garantir segurança e integridades às mulheres e as crianças, que tem presenciado muitos dos assassinatos. Fora do círculo familiar, os índices seguem escandalosos. A violência contra mulheres e meninas sempre permeou escamoteada ou visível em todos os ambientes sociais, inclusive nas escolas e  universidades. Essa semana foi divulgado o caso do professor do tradicional Colégio São Gonçalo, assediando insidiosamente meninos e meninas, manifestando o mal uso do poder e admiração, que certamente os professores têm e exercem sobre os alunos.

Também essa semana, uma estudante do curso de relações internacionais da Universidade Estadual da Paraíba, surpreendeu a reitoria e o público presente na abertura de um fórum internacional, ao usar o microfone para denunciar por assédio moral e sexual um dos mais famosos professores da instituição, professor doutor em ciência política, com estudos publicados e discursos enfocando a diminuição da violência, a construção da paz. Em ambos os casos, os professores foram afastados de suas funções em sala de aula, foi aberto processo de sindicância e tal. Punições iniciais brandas, apenas um sopro diante de tantos abusos.

As quatro mulheres selvagemente assassinadas na cidade de Sorriso mancharam de forma indelével nossa reputação como um estado violento, que tem sido incapaz de fazer o enfrentamento real da violência contra as mulheres. O assassino, foragido da justiça, condenado por vários crimes, inclusive na cidade vizinha, transitava e trabalhava livremente na imponente cidade de Sorriso.

Com força devemos repudiar a libertação prematura, menos de um ano de encarceramento do assassino da ex-namorada e seu atual namorado, cometido pelo filho de um eminente político. Todo e qualquer avanço, depende muito da punição severa aplicada aos casos, sobretudos dos que ganharam destaque na mídia. A notícia da prisão domiciliar do assassino de um duplo homicídio, com narrativas artificiais é um balde de água gelada em toda luta das mulheres pelo direito de continuarem vivas depois de romper relacionamentos abusivos.

De uma forma ou outra, a semana foi marcante em decepções acerca do tema. Maya Angelou, a extraordinária escritora americana, me vem à mente com um risco de esperança no verso:

“Pode me atirar palavras afiadas,

dilacerar-me com seu olhar,

você pode me matar em nome do ódio,

mas ainda assim, como o ar, eu vou me levantar.”

Teor de pessimismo, na política e no cotidiano

A fadiga que sentimos não é tanto do trabalho acumulado, mas de um cotidiano feito de rotina e de vazio. O que mais cansa não é trabalhar muito. O que mais cansa é viver pouco, viver sem sonhos.’ Mia Couto, escritor moçambicano.

Fadiga é sentir os sentimentos genuínos colapsarem pela distância sempre mantida entre os avanços que almejamos e o pouco que nos é concedido, através das lutas diárias. O que cansa é perceber a transmutação dos atos de violência contra as mulheres para um movimento de manipulação, invalidação de sentimentos e comportamentos através da crítica destrutiva e chantagem. O ciclo na violência se arrasta de um ano para o seguinte, alterado em sua forma e intensidade. O Laboratório de Estudos de Feminicídios registrou 1.153 feminicídios de janeiro a julho deste ano, uma média diária de 3,81 feminicídios consumados. 

O cotidiano sofreu um processo mudança positivo no caso de violência contra a mulher praticado por jogadores de futebol. No ano de 2013, o jogador Robinho foi acusado de cometer crime sexual contra uma jovem na Itália. Não foi preso lá e fugiu para o Brasil. A justiça Italiana o condenou a 9 anos de prisão em 2020. A justiça brasileira não pode extraditá-lo. Resultado? Nunca cumpriu pena lá tampouco aqui. Já o jogador Daniel Alves está preso desde janeiro na Espanha pelo mesmo crime e diante da inflexibilidade das autoridades, já admite confessar o crime. Se condenado, pode ficar até 15 anos preso.

Eduardo Galeano, escritor uruguaio escreveu um ensaio onde diz que somos o que fazemos, mas somos, principalmente, o que fazemos para mudar o que somos. Diz que vivemos em plena cultura da aparência, onde o contrato de casamento importa mais que o amor, o funeral mais que o morto, as roupas mais do que o corpo e a missa mais do que Deus. 

Por isso cansa tomar conhecimento que o racismo agora é exposto em uma mensagem deixada no aplicativo de entrega. Uma senhora pediu que não mandassem uma pessoa negra fazer a entrega da refeição. Uma desconfortável afirmação que a cor das mãos poderia sujar a comida. A cor, estamos sempre recorrendo as estatísticas para não sermos injustos. Um estudo denominado Pele Alvo: a bala não erra o negro, realizado pela Rede de Observatórios da Segurança, divulgado na última quinta-feira, mostra que a cada 100 mortos pela polícia em oito estados brasileiros, 65 eram negros, ou seja, 87%.

Cansa o frenesi político deslocado da realidade em ano de decisões eleitorais. E no ano de 2024, mais de 70 países, onde vivem mais da metade da população mundial terão eleições. Aqui no Brasil, as eleições municipais ainda ocorrerão em clima de polarização entre o ex-presidente e o presidente, que devem se engajar nas disputas locais com discursos inflamados servem para influenciar eleitores desavisados, com pouca ligação com o que realmente pretendem fazer os candidatos depois de eleitos.

Estamos vivendo sob o signo da singularidade. Um fenômeno onde as pessoas tendem a se importar menos com as atrocidades em massa do que com as tragédias particulares. Estamos diante de uma profusão de imagens trágicas das guerras na África, Europa e Oriente Médio e nenhum dos grandes líderes mundiais, nenhuma organização internacional tem se colocado como um jogador intransigente para colocar um fim nos conflitos, que devem adentrar 2024.

No mundo físico, já sabemos que uma guerra só termina com a completa aniquilação do mais fraco.

Querer não é poder

O povo sempre cria perspectivas de melhoras quando uma eleição se aproxima, embora saibamos que mudanças não ocorrem com a simples troca de governante.

As Eleições Municipais de 2024 serão realizadas no dia 6 de outubro, em primeiro turno, e no dia 27 do mesmo mês, em segundo turno. As eleições ocorrerão em 5.569 municípios brasileiros, dos quais 142 em Mato Grosso. Neste sábado, 04 de novembro, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) realiza um procedimento técnico de migração de bancos de dados para um novo servidor, visando a segurança das eleições.

Vivenciamos o momento em que os partidos despertam, as visitas aos pretensos candidatos se intensificam, fazem listas, promovem cortes, cortejam, tentam demonstrar certo controle no que serão as eleições de 2024. Mas lembro-lhes de um ensinamento de Napoleão Bonaparte: “O diretório murmurará e decretará o que lhe aprouver; eu, porém, continuarei sendo o que sou e meu exército me obedecerá”. Assim se comportarão os candidatos já testados nas urnas, com boa reputação política e sólida base eleitoral.

Em 1927, a cidadezinha de Palmeiras dos Índios (AL) elegeu seu mais famoso prefeito, Graciliano Ramos de Oliveira, o renomado escritor de Vidas secas e Memórias do Cárcere, entre muitas outras. Ele não participou da campanha eleitoral, não abraçou pessoas nas ruas, não fez promessas, não se envolveu em articulações políticas para a escolha dos vereadores, não negociou favores com os fazendeiros, cujo poder se sobrepunha às leis. Graciliano Ramos foi eleito em 7 de outubro de 1927, como candidato único. Todos renunciaram diante da sua inabalável reputação.

Na Assembleia Legislativa, as conversas, nem tão iniciais apontam que pelo menos três deputados confirmarão suas candidaturas para o pleito de 2024. Dos 24 parlamentares estaduais da atual legislatura apenas cinco, Barranco, Júlio, Max, Moreto, Nininho se elegeram deputados depois de terem passado pelo crivo do executivo de seus municípios. Wilson Santos elegeu-se prefeito após ter cumprido mandatos de deputado estadual e federal.

Saindo do parlamento para a disputa local, os deputados já sabem o que os esperam para construir o caminho da vitória. As campanhas, por mais que mudem iniciam sempre com o questionamento íntimo sobre as reais condições para se pleitear a vaga de prefeito. Aí entram as condições financeiras, a atuação consciente como cidadão, base eleitoral, apoio de grupos políticos diversos e importantes. Ainda assim, querer não é poder!

Na disputa existem atores concorrentes que precisam ser analisados para serem vencidos. A construção de aliança prévia com os apoiadores para amplificar a mensagem, ganhar novos acessos as redes sociais, enfim, contar sua história para um número cada vez maior de pessoas dependem muito da reputação, ou seja, do juízo de valor que as pessoas fazem sobre a sua figura pública. Marcelo Vitorino, um expert em Marketing Político tem cursos excepcionais sobre a construção de reputação política e nãos se trata de criar um personagem e sim, organizar a identidade, evidenciar os pontos marcantes já que o eleitor busca identificação de valores semelhantes aos seus nos representantes políticos.

Nesse momento em que o eleitor está ainda espreitando desconfiado, é melhor ser verdadeiro e preparar-se para enfrentar as dificuldades que serão postas a prova, as ameaças, a propagação das notícias falsas a seu respeito e de familiares, sem perder o foco e a fé.

A justiça pode ser afável

O triste episódio envolvendo a cabelereira Sylvia Mirian Tolentino de Oliveira, que perdeu o filho assassinado com dez tiros e, durante a audiência de instrução, na presença do assassino e seu advogado recebeu voz de prisão do juiz que conduzia o caso é uma matéria que teve grande repercussão na imprensa local e nacional, e merece ser publicada, republicada, analisada e criticada pelas pessoas que nutrem um mínimo de consideração pela dor do outro.

Como pode um homem, supostamente pai, não compreender a indignação de uma mãe que é colocada em frente ao assassino do filho? Um advogado, que em entrevista, sem nenhuma convicção, dizer que se sentiu ameaçado com as palavras de D. Sylvia? Quanto melindre por causa das palavras subjetivas ditas pela mãe da vítima, que teve a vida revirada e grita por justiça!

O reparo do lamentável caso deve vir através da ação imediata do Ministério Público, que atento, pediu afastamento do juiz, por entender que ele agiu claramente parcial, garantindo os direitos apenas do réu durante a audiência. À D. Sylvia coube o tolhimento de seus direitos e a humilhação pública. 

Precisamos falar sobre um meio de furar essas bolhas de arrogância que permeiam o judiciário e não somente o judiciário e apoiar pessoas, que mesmo dentro de sua simplicidade as desafiam, sobretudo num momento em que se propaga a justiça restaurativa, conciliação e empatia para resolver conflitos. A mediação é tida como um procedimento que se vale da empatia, um caminho lúcido e razoável para que as partes minimizem os efeitos da indignação e dor e de forma recíproca cheguem a um ponto comum para resolver o processo.  

Os Juízes não são seres diferentes dos humanos, não são infalíveis e erram, embora esse reconhecimento vá contra o imaginário alimentado pela própria justiça do juiz mítico, implacável, como se ao vestir a toga, a subjetividade dos pensamentos e ação dos magistrados desaparecessem, para que não se igualem aos outros seres humanos.

Mas justiça não combina com desumanidade, com indiferença. Há pouco tempo viralizou o vídeo de um magistrado, humildemente ouvindo atento uma senhora analfabeta lhe contando como conseguiu assinar o documento. Certamente o respeito e afabilidade do magistrado com a senhora não interferiu na decisão do processo.

É evidente e minhas palavras não retiram a grandeza e profundidade do cargo, tenho dois amigos juízes, por quem nutro a mais absoluta admiração, sob o ponto de vista profissional e comportamental. Me perdoem se os comprometo de alguma forma citando-os, mas Dr. Jamilson Haddad e Yale Mendes são dois homens afáveis e corteses, que proferem suas sentenças, que interferem no destino das pessoas, sem, contudo, desqualificá-las ou ignorarem suas indignações e dores.

Não custa ter empatia pela dor da D. Sylvia e esperar que o desfecho do caso seja revestido de humanidade, ainda que seja depois de toda a exposição da audiência de instrução na mídia.