Dois processos migratórios recentes

AVenezuela é o segundo país com maior número de deslocados e refugiados no mundo, depois da Síria. Segundo a Organização das Nações Unidas, espera-se que uma média diária de 138 refugiados e migrantes venezuelanos entrem no Brasil ao longo de 2023 e 67, em 2024, atingindo um total estimado de quase 476 mil pessoas até o final de 2024. A migração venezuelana está consolidada como o maior deslocamento humano em direção ao Brasil. Foram mais de 144 mil pessoas registradas no ano de 2022.

Quinta-feira, dia 12 de outubro, a Arena Pantanal representou os dois processos migratórios recentes que Cuiabá vivencia: o haitiano e venezuelano. A bela Arena construída em grande parte com a mão de obra de imigrantes haitianos, trazidos principalmente pela empresa Mendes Júnior 10 anos atrás. Grande parte dos haitianos seguiram suas diásporas rumo aos Estados Unidos após a conclusão da obra, os que permaneceram, enfrentam dificuldades para prosperarem, mas estão melhor do que estavam no Haiti, devastado pelo terremoto quando iniciaram suas travessias.

A Venezuela, cuja seleção enfrentava o Brasil, é o país que acumula o maior número de imigrantes em nossas esquinas, famílias inteiras, visivelmente vulneráveis e cerca de outros quatro mil venezuelanos vieram encaminhados pela Operação Acolhida, um programa oficial de triagem e acolhida humanitária do governo federal. A migração venezuelana foi precedida de um processo de empobrecimento abrupto do país e seu povo, que correu para as fronteiras da Colômbia e do Brasil.

Em Cuiabá, o Centro de Pastoral para Migrantes Scalabrini, no bairro Carumbé, está operando com capacidade máxima. Mais de noventa pessoas estão acolhidas na casa, com raras exceções de alguns poucos cubanos e africanos, a quase totalidade é de famílias venezuelanas. Prioritariamente o abrigo é familiar. Improvisadamente há um serviço de creche sendo estabelecido no local, o que altera a rotina do espaço de convivência coletiva, há cerca de vinte crianças pequenas, bebês.

Dois venezuelanos se aventuraram para assistir à partida de quinta-feira viajaram de ônibus da Bolívia até Cuiabá. Entraram em contato com um jogador e ganharam os ingressos para o jogo. Ao sair da Arena Pantanal, um deles caiu e fraturou o pé. Sem dinheiro, foram encaminhados para o Centro de Pastoral para receberem ajuda e mediação junto a Prefeitura para que após, o atendimento médico, conseguissem passagens para retornar.

Inúmeros venezuelanos que se encontram em Cuiabá vieram de processos migratórios frustrantes na Colômbia, Equador e Perú. Outros tantos entraram por Roraima e pelas conversas percebe-se que Cuiabá não deve ser o destino final do deslocamento para a maioria deles. A situação das diásporas se repete e é baseada nas dificuldades de esperar pelo fim da crise social e colapso econômico, no qual o país está mergulhado desde 2014. A imagem externa é de um país abalado pela pobreza e inflação estratosférica.

“Nunca quis sair do meu país, estou aqui por necessidade” é uma frase que se ouve continuamente no Centro de Pastoral para Migrantes. As histórias de vida também se repetem: família de classe média, bom emprego e bom padrão de vida, filhos matriculados em escolas privadas, plano de saúde. A medida que a crise se agravou, os pais perderam o emprego, os filhos deixaram a escola privada e foram matriculados em escolas públicas em bairros distantes, o transporte escolar foi cortado, o alimento foi racionado. A vida foi complicando com a falência do estado e cortes nos auxílios concedidos ao povo. Mesmo que economizassem algum recurso para comprar alguns itens, a escassez já havia atingido nas gandolas dos supermercados, não havia mais alimentos para todos.

É urgente ouvir o que Krenak tem a dizer

Há dois anos eu escrevi neste espaço sobre Ailton Krenak. Hoje o líder indígena mineiro da etnia crenaque, ativista do movimento socioambiental e da defesa dos direitos indígenas. Jornalista, escritor, que desde a década de 1980, dedica-se a articulação do movimento dos povos indígenas, também professor Honoris Causa pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e pela Universidade de Brasília (UnB), é o mais novo membro da Academia Brasileira de Letras. Foi eleito, na última quinta-feira, 5 de outubro, numa disputa onde superou o educador e escritor indígena Daniel Munduruku. A Academia Brasileira de Letras acerta em cheio na escolha de um indígena, visto que a UNESCO proclamou o decênio 2022-2032, como a década Internacional das Línguas indígenas.

Escrevi sobre Krenak quando eu havia acabado de ler o impressionante discurso dele “Ideias para adiar o fim do mundo”, que encantou o Instituto de Ciências Sociais em Lisboa, mais tarde tornou-se um livro, onde ele usa a alegoria poética dos paraquedas coloridos, para propor que sejam construídos com nossa capacidade crítica e criativa, para aproveitar a queda, que é inevitável. Krenak potente e inspirador diz que os paraquedas são projetados de lugares onde são possíveis as visões e os sonhos, lugares que devemos aprender a habitar.

Krenak fala da urgência de agir para transformar o mundo que agoniza e diante da certeza de que estamos em queda como civilização, ele diz que devemos aproveitar e ressignificar a queda e recomeçar a partir dela. Diante da certeza de que a Terra não suporta nossas demandas, ele propõe uma virada de perspectiva para salvarmos não apenas as populações originárias que agonizam, mas todos nós que estamos debaixo do abraço generoso da Terra. O líder indígena encarece que devemos lutar para adiar o fim do mundo porque não aprendemos sequer a lutar por uma sobrevivência digna, com respeito à luta dos outros, precisamos de tempo para aprender estabelecer uma relação amorosa com os que nos são iguais, com todos e com a natureza.

Entre uma metáfora e outra em Lisboa ele falou das pequenas constelações de pessoas felizes, que experimentam prazeres simples, cantam, dançam, fazem chover e sem querer, viram alvo da intolerância daqueles que não toleram a fluidez e leveza. Krenak compartilha poeticamente a ideia de um outro mundo possível, onde nos tornemos uma constelação gigante de pessoas felizes!

O mais novo imortal não saiu de uma cidadezinha no estado de Minas Gerais direto para a Academia Brasileira de Letras. Sua vida seguiu um traçado de importância inestimável para a construção do currículo que apresentou à Academia. Jornalista, desde o início da década 1980, passou a dedicar-se exclusivamente ao movimento indígena. Fundou o Núcleo de Cultura Indígena, teve papel fundamental e intransigente à época da Assembleia Nacional Constituinte, na defesa dos direitos dos povos indígenas, até conseguir incluir suas demandas na Constituição Federal.

Ativo, participou das grandes movimentações dos Povos Indígenas, publicou livros, narrou documentários. Foi assessor do Governo de Minas Gerais para assuntos indígenas, durante as gestões de Aécio Neves e Antônio Anastasia. Palestrante em seminários nacionais e internacionais, acabou sendo a grande estrela da Festa Literária Internacional de Paraty – FLIP de 2019. Leciona na Universidade Federal de Juiz de Fora, as disciplinas “Cultura e História dos Povos Indígenas” e “Artes e Ofícios dos Saberes Tradicionais”, em cursos de especialização.

Articulado e versátil, foi um dos protagonistas da série Guerras do Brasil, na Netflix, que relata com detalhes a formação do Brasil ao longo de séculos de conflito armado, começando com os primeiros conquistadores até a violência na atualidade. Com vários livros publicados, traduzidos para mais de treze países, conquistou o Prêmio de Intelectual do Ano concedido pela União Brasileira dos Escritores, em 2020.

Atualmente vive na Reserva Indígena Krenak, no município de Resplendor, no estado de Minas Gerais.

Quando casais se distanciam, nunca é repentino

Fomos socializados para acreditar e buscar um futuro feliz para sempre em todo relacionamento significativo. Mas o que acontece quando o amor, qualquer que seja a sua categoria e classificação, se dissolve sob as forças indomáveis ​​do tempo e da mudança? No meio do que parece ser uma perda impossível de sobreviver, como podemos nos amarrar ao fato de que mesmo as coisas mais belas e mais singularmente gratificantes da vida são meramente emprestadas do universo, concedidas por um tempo, depois se vão, inexoravelmente? 

Causa estranheza tantas manifestações ocorridas acerca do fim de alguns relacionamentos de famosos ocorridos durante a semana. Nada é fixo. Nada é permanente, para ninguém. Apreciar e compreender a vida em cada instante é uma arte a ser praticada. Cada vez que sofremos uma desilusão estamos mais perto da verdade porque se fomos iludidos é porque não estávamos plenamente atentos. Quando os casais se distanciam, nunca é repentino.

No mundo moderno e líquido, uma relação pode ser vista como uma transação, uma coligação de interesses confluentes, e nesse mundo fluido as coligações tendem ser flexíveis e frágeis. Se acharmos que precisamos fazer com que cada momento seja profundo, significativo e eterno, arruinaremos o relacionamento. Há uma afirmação budista(Koan) sobre o esforço demasiado para fazer um relacionamento dar certo: “o fim pode vir a qualquer hora, relaxe.”

Relações estagnadas não valem a pena, tampouco relações de conflitos e nem sempre é possível dar nova vida ao relacionamento, seja curto ou longevo. Separar-se dói, confunde, mexe com sonhos e estruturas básicas dos envolvidos. Recorro a minha descrença com relacionamentos que dispendem de grande energia e pirotecnia verbal, como a tradicional hipérbole “eu quero ficar com você pelo resto da minha vida”, para lembrar que os seres humanos, imperfeitos, impermanentes e confusos, com raras exceções, inevitavelmente vão te decepcionar. 

Sobre amor e relacionamento, a história que me fala a alma é contada também por um famoso, pelo escritor colombiano Gabriel Garcia Marquez no livro “O amor nos tempos do Cólera”. Uma irretocável história que se estendeu por mais de cinco décadas de amor e espera entre Fermina Daza, filha de um dos mais importantes homens da cidade e Florentino Ariza, um menino simples e puro.

Proibidos de se encontrarem, aos 20 anos, ela se casou com o médico da cidade, Juvenal Urbino, dedicado a pôr fim à epidemia do Cólera. Florentino tomou a decisão de esperar por Fermina o tempo que fosse necessário e estabeleceu com ela um sistema de trocas e juras de amor através de cartas e telegramas.

Florentino dedicou sua vida ao seu amor, mas enquanto esperava contabilizou cerca de seiscentos e vinte e duas (622) aventuras amorosas fugazes. Ela sabia que ele a amava mais que tudo no mundo. Eles estavam de certa forma juntos em silêncio além das armadilhas da paixão, além do próprio amor. Amor, que em Florentino, doía o corpo, como os sintomas do Cólera.  

53 anos, quatro meses e 11 dias depois morreu o Doutor Juvenal Urbino. Florentino aproximou-se de Fermina e sussurrou: “Eu esperei por esta oportunidade há mais de meio século para repetir para você o meu voto de amor e eterna fidelidade.” Tempos depois, Florentino recebeu um envelope com um bilhete de uma só linha que dizia: “Está bem, me caso com o senhor”.

Saúde e alegria promovem-se uma à outra

Saúde não é tudo, mas sem saúde a vida é nada, teria previsto Arthur Schopenhauer. Portanto, a saúde é, na verdade, o bem mais importante de uma pessoa e a base do nosso bem-estar.  Saúde não é apenas ausência de doença ou enfermidade, é antes, a presença de bem-estar físico, mental e social. Devo estar mais atenta ou medrosa. O fato é que nunca percebi tantas pessoas doentes e com doenças graves, no ambiente de trabalho, entre amigos, familiares, indivíduos simples e figuras proeminentes.

Sabemos que nem todos os sistemas imunológicos são iguais. Algumas pessoas parecem ficar doentes com muito mais frequência do que outras. Poderíamos facilmente concluir que estes indivíduos podem estar expostos com mais frequência a suscetibilidade das doenças. Cada pessoa adoece também por razões diferentes, além da carga genética, há sobrecarga de trabalho, responsabilidade além do suportável, associação aos problemas da modernidade, doenças causadas pela tensão mental, pelo estilo de vida e todos os tipos de pensamentos negativos, ciúme, medo, tristeza, vergonha, arrependimento, culpa, ganância, ódio, egoísmo.

Há certos parâmetros que explicam o que realmente faz as pessoas saudáveis e o que as predispõem às doenças, assim como porque alguns experimentam curas de doenças em estágio considerados avançados e outros permanecem doentes mesmo quando recebem os melhores cuidados médicos. Estamos tão confortavelmente acostumados a entregar a solução dos problemas aos médicos, que fazem o coração voltar a bater, fazem cicatrizar as feridas, extirpam os tumores, mas não conseguem preencher o vazio da alma que não encontra fonte inspiradora para viver contente. A saúde e a alegria promovem-se uma à outra.

Devemos incorporar a alma no processo de prevenção e cura senão não suportamos o fardo do stress, das cobranças financeiras, das respostas certas, decisões irretocáveis e tudo isso talvez regado a estimulantes, calmantes, bebidas, cigarros, em jantares e discussões intermináveis. Estamos procurando cura para o que nos pesa os ombros? Estamos lidando com o desconforto  promovendo mudanças em nossas vidas?

O processo de cura deve ser algo que vai além da externalidade da doença. É preciso curar o que provoca a doença, senão ela, sorrateira, espreita e se instala repetidamente. Com a alma curada, o corpo segue a frequência, afugenta os desequilíbrios. Para aumentar a força do sistema imunológico e reduzir a susceptibilidade as doenças, podemos adotar uma dieta saudável e equilibrada, escolher não fumar, manter o peso, estabelecer um modo de vida positivo e inspirador. 

Entre as doenças mais comuns no Brasil, estão: diabetes, depressão, Alzheimer, câncer e hipertensão. Essas e outras doenças crônicas constituem um dos grandes problemas de saúde no Brasil, onde 50% das pessoas com mais de 18 anos possuem um diagnóstico de, pelo menos, uma doença crônica.

O câncer é o principal problema de saúde pública no mundo, figurando como uma das principais causas de morte e, como consequência, uma das principais barreiras para o aumento da expectativa de vida. No Brasil, a estimativa do IBGE para o triênio de 2023 a 2025 aponta que ocorrerão 704 mil casos novos de câncer e até 2030, 12 milhões de pessoas no mundo, terão morrido em decorrência dos vários tipos da doença.

O mundo pode ser um lugar assustador às vezes

Arthur Schopenhauer, filósofo alemão, que cito com frequência, mostrou-me que o sofrimento inevitável da vida humana está alicerçado na nossa essência, que a dor e o sofrimento não são acidentais e evitáveis, mas sim essenciais e inevitáveis. Diz ele que não é a dor e o sofrimento, mas sim felicidade, que é apenas uma parte acidental da nossa existência. O argumento mais forte de Schopenhauer reside no argumento que a vida humana é um sofrimento multifacetado entre a dor e o tédio, que são os ingredientes dos quais a vida é composta. Concluo então, que a felicidade verdadeira e duradoura não é possível e não deve, portanto, ser o objetivo, o ponto essencial a ser perseguido em nossa existência.

Embora estejamos sempre argumentando que a vida é melhor hoje do que foi no passado, se você prestar atenção às manchetes dos jornais, provavelmente concluirá que a vida não parece tão boa. Estamos convivendo com várias situações de violências, sobre as quais as autoridades não têm sequer noção do que fazer para conter; são tiroteios nas escolas, como ocorreu essa semana em Barra do Bugres, a brutalidade policial ocorrida também recentemente no estado, na cidade de Cotriguaçu. Mulheres, de todos os estratos sociais seguem sendo vítimas de violência de seus parceiros, que ignoram solenemente as leis.

O sociológo polonês Zygmunt Bauman usa uma metáfora poética e angustiante, chamada de modernidade líquida e amor líquido para explicar os rompimentos afetivos e morais que surgem com bastante frequência em nossas vidas, causados pela fragilidade dos sentimentos e dos relacionamentos que construímos com laços frouxos, que favorecem os rompimentos, a violência, a quebra dos códigos de convivência.

Bauman cita Schopenhauer no livro ‘Modernidade Líquida’ e diz que não é de todo surpreendente que as relações tenham se tornado mais fugazes, descuidadas e violentas dada a tendência social da busca pela satisfação das necessidades momentâneas. A maioria dos nossos relacionamentos hoje são mais meras conexões do que relacionamentos, uma modernidade líquida onde muitas coisas, como o compromisso com o outro, a verdade, os bons sentimentos parecem escapar-nos pelos dedos.

Ele então argumenta, seguindo Schopenhauer, que o primeiro fato de nossa existência é que nos encontramos em um mundo que nos dá a oportunidade de fazermos a escolha moral entre o bem e o mal e que a necessidade de estarmos sempre fazendo escolhas não é uma garantia infalível de que faremos boas escolhas, em um mundo onde as utopias contemporâneas querem que celebremos o desmantelamento, o abandono dos ideais duradouros como um ato de nossa emancipação.

Assim, entre a desilusão completa de Schopenhauer e a percepção de Bauman de que é a estética e não a ética o elemento que nos integra, mantenho minha responsabilidade de agir sem ferir o outro, mas creio ser prudente descer o nível da expectativa quanto o outro e aceitar que o que era sólido, aos poucos se derrete e cabe-nos continuar o percurso.

A responsabilização da mulher pela violência contra ela mesma

Apesar dos esforços significativos feitos pelos governos, os assassinatos de mulheres relacionados a gênero permanecem em níveis inaceitáveis na sociedade brasileira. Muitas vezes, esses assassinatos são o culminar de episódios repetidos de violência de gênero, o que significa que poderiam ser evitados por meio de denúncias e intervenções de familiares, vizinhos e amigos. Outras questões, como a dominação masculina explícita, quando a mulher se recusa a beber mais, recusa sexo, decreta o fim do relacionamento estão nas cenas dos crimes excessivamente violentos, indicando sadismo e misoginia.  

Desde 1827 um pequeno livro chamado “As confissões de um feminicídio não executado”, de autoria de William MacNish, que narrou sobre como seduziu, engravidou, abandonou e assassinou uma jovem, que a palavra feminicídio tem sido usada. A palavra, a princípio era entendida como todos os assassinatos de mulheres, independentemente do motivo ou do status do assassino.

Diante do aumento dos casos, ganhou amplitude e a definição foi adaptada para o assassinato de mulheres por homens pelo fato de serem mulheres. Hoje, destaca-se o feminicídio no contexto das relações desiguais de gênero e da noção de poder e domínio masculino sobre as mulheres, “o assassinato de mulheres por homens motivados por ódio, desprezo, prazer ou um sentimento de propriedade das mulheres”, ou seja, sexismo.

No livro citado, escrito em 1827 fala pela primeira vez em feminicídio e culpa recai sobre a mulher. O recente caso de violência estarrecedora contra uma mulher ocorrido em Cuiabá essa semana, mostrou que pouco mudou a prática de culpar a vítima por sua própria morte. A desequilibrada interpretação social do comportamento livre, das roupas femininas como provocativos surge da objetificação dos corpos femininos e esse argumento, além de reforçar uma concepção objetificada das mulheres, aumenta a vulnerabilidade delas à agressão e as colocam responsáveis diretamente por seus próprios ataques e mortes.

Quando o comportamento de uma mulher é descrito como livre, ela é igualmente reduzida a um objeto sexual despersonalizado, um corpo onde só existe as partes sexuais.  Além disso, um desejo específico é atribuído a ela, o desejo de atenção sexual dos homens. Essa atribuição não é uma forma de respeito à autonomia da mulher.

Ao contrário, nega sua autonomia ao ignorar a credibilidade pessoal, profissional, atributos pessoais interiores. A responsabilização da mulher pela violência contra ela mesma é como uma desculpa moral, que sugere que um homem excitado não consegue se controlar, que um homem abandonado não consegue reconstruir a vida.

Para desafiar essas crenças e os danos que elas causam, devemos rejeitar a linguagem que transfere a responsabilidade pela violência masculina para as mulheres, não importam as circunstâncias. Sorte tem os homens que não são obrigados a monitorar seu comportamento e roupas para evitar “provocar” as mulheres porque o desejo sexual feminino não é um elemento potencialmente perigoso com o qual os homens devem negociar para se protegerem de ataques violentos e assédios sexuais.

No Senado Federal tramita um projeto de lei apresentado pelo senador Fabiano Contarato para tentar estancar a prática machista de culpar a mulher vítima pela violência sofrida, que, além propor alteração na legislação penal estabelece regras adicionais nos casos de inquirição de vítimas e testemunhas de crimes contra a dignidade sexual, a fim de obrigar os agentes públicos a não atuarem ou permitirem a revitimização da ofendida, normalmente exposta com desprezo nas peças processuais ao terem fotos e fatos íntimos citados pelos advogados dos acusados, sem repreensão de juízes e promotores. (Agência Senado)  

Nossa maior fonte de preocupação

Os brasileiros se preocupam mais com pobreza e desigualdade social, crime e violência e corrupção do que com inflação, mudanças climáticas, conflito militar entre nações. Essa é a conclusão de uma pesquisa global realizada em 29 países entre fevereiro e março deste ano pela Ipsos, empresa de pesquisa e inteligência de mercado fundada na França há quase 50 anos. A pobreza e a desigualdade social formam o tema apontado como mais problemático para 41 % dos brasileiros entrevistados. Além do Brasil, Bélgica, Holanda e Japão consideram a pobreza e desigualdade como sua maior fonte de preocupação.

A percepção do problema da pobreza e suas inaceitáveis nuances faz sentido, sobretudo numa semana em que o Ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), provocado por partidos políticos, expôs uma das preocupações e dificuldades mais urgentes; como lidar com a população em situação de rua, vítima frequente de violação maciça de direitos humanos. O Ministro determinou que em 120 dias o governo federal deve apresentar um diagnóstico atual da população, com identificação do perfil, procedência e suas necessidades, além de um plano de monitoramento e ação, com medidas que respeite as especificidades dos diferentes grupos familiares.

A população em situação de rua é vítima visível do combo desigualdade social, pobreza, desemprego, abandono e violência. O Ministro também determinou que estados e municípios proíbam remoção compulsória das pessoas em situação de rua e os mantenham, juntamente com seus pertences e animais de estimação nos abrigos institucionais.

Ao todo, nos 29 países pesquisados a preocupação relativa à pobreza e desigualdade social chega a 34%. Os analistas da pesquisa destacam uma diferença entre as preocupações dos países de renda baixa, média e alta. Entre os países mais pobres, a corrupção, o desemprego, a pobreza extrema estão entre os mais discutidos internamente. Essas preocupações aparecem nos países de renda média, em menor grau, porque já articulam outras discussões. Já nos países ricos, a maior preocupação é com o estado da economia mundial, o aquecimento global e a guerras.

No Brasil, enquanto permanecermos andando em círculos, acumulando indignidades e equívocos para erradicar a pobreza em todas as suas dimensões não teremos tempo, ânimo ou argumentos para adentrarmos outros discussões, como por exemplo, mudanças climáticas. Irônico, mas desde a Constituição de 1934, a noção de dignidade humana já estava incorporada no ordenamento jurídico brasileiro. Continua no papel, bem cortado no Art.6º da Constituição Federal: “São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o transporte, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição. (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 90, de 2015).

Na Declaração Universal dos Direitos Humanos das Nações Unidas, lê-se no artigo 25: “Todo ser humano tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar a si e à sua família saúde, bem-estar, inclusive alimentação, vestuário, habitação, cuidados médicos e os serviços sociais indispensáveis e direito à segurança em caso de desemprego, doença invalidez, viuvez, velhice ou outros casos de perda dos meios de subsistência em circunstâncias fora de seu controle”. 

Tudo seco, apenas no papel.

A violência contra a mulher não é um processo inevitável

Os números e estudos sobre a violência contra a mulher desmentem a ideia de que o perigo está em cruzar com um estranho em uma rua escura. “Em 84% dos casos de estupro, o estuprador é uma pessoa próxima e em 65%, o estupro foi cometido dentro de casa”, dados do Instituto Patrícia Galvão.

A violência contra a mulher segue adicionando requintes de sadismo e crueldade ao ato de subjugar e humilhar a mulher. Essa semana, em Primavera do Leste, na frente de outra criança, um homem agrediu um bebê de apenas três meses de idade. A cena aterrorizante foi gravada pela mãe, que também foi agredida pelo marido. Quanto mais chorava, mais apanhava o bebê, que apresentou lesões na cabeça. Segundo relatos da mulher, o casal já havia se separado devido as agressões que sofria, sem, no entanto, haver denunciado antes.

No estado vizinho de Goiás, um médico, ginecologista, de 73 anos, com cara de avô confiável foi preso em Goiânia após denúncias de uma série de crimes sexuais contra pacientes, depois que o marido de uma das mulheres, que o denunciou por crime sexual entrou abruptamente no consultório do médico e deferiu-lhe alguns socos.  A partir do episódio, que foi amplamente noticiado, muitas outras mulheres se encorajaram a denunciar as violações que sofreram em consultas com o ginecologista ao longo dos anos. Alguns casos, datam de 1994, já devem estar criminalmente prescritos.

O fato em Goiás aconteceu no mesmo momento em que um outro médico ginecologista recebia a sentença de ter que cumprir 35 anos e 11 meses de prisão por crimes sexuais contra 45 vítimas, que eram pacientes.

Fora do Brasil, a situação envolvendo médicos se repete. Dois meses atrás, um famoso oncologista americano estava proferindo uma palestra, num centro médico lotado, quando foi interrompido e agredido, ao vivo, pelo marido de uma paciente, de quem ele teria abusado sexualmente durante uma consulta médica.

Citei casos ocorridos recentemente em casa e no consultório médico porque envolvem relacionamentos que deveriam ser de confiança mútua, porém, percebe-se nos que os médicos sentiam o consultório como um campo seguro para praticar os crimes, ficavam a sós com as vítimas, com portas trancadas e confiavam no silêncio das mulheres, visto que há estudos que comprovam que 8 em cada 10 vítimas não denunciam, o que mostra como o trauma, a vergonha e o medo da exposição são barreiras para que as mulheres vítimas de violência denunciem, o mesmo sentimento de controle acontece dentro de milhares de casas.

A Comissão de Constituição e Justiça do Senado aprovou um Projeto de Lei que determina o afastamento imediato do lar de homens que usam violência sexual, moral e patrimonial contra as mulheres, o que já está previsto na Lei Maria da Penha, contudo a proposta da senadora Danielle Ribeiro, inclui outras formas de agressão, que foram se incorporando as práticas de violência, como, a vingança pornográfica virtual, difusão de informações falsas, vulgarização da vida privada, entre outras…

Medidas propostas transformadas em leis há centenas, a efetividade destas não está em questionamento, porque um artigo aqui, outro ali vai fechando o cerco contra os agressores, vai derrubando por terra a tese de que isso ‘vai dar em nada’. Um dia dá, como o caso do médico de Goiás, que desde 1994 assediava e violava pacientes, 29 anos depois, está preso.

Não e não penso que as mulheres tenham que ter jogo de cintura para sair das situações de violência, pelo simples fato de que as situações de violência não deveriam mais acontecer. A violência contra a mulher não é um processo inevitável e pode ser prevenida com mais educação e punição cada vez mais rigorosa.

A sustentável paixão por Milan Kundera

Milan Kundera, excepcional romancista, ensaísta, poeta e crítico político tcheco, morreu essa semana, em Paris aos 94 anos. Ele é terrivelmente direto, muito contundente, por isso recusa as consolações do sentimentalismo ou da moralidade, viu e escreveu o que os escritores anteriores não puderam ver ou dizer. O foco dos romances de Kundera é sua luta com questões de conhecimento, a complexidade do ser e uma incerteza inquietante. “Parece-me que em todo o mundo as pessoas hoje em dia preferem julgar a entender, responder a perguntar, de modo que a voz do romance dificilmente pode ser ouvida sobre a ruidosa tolice das certezas humanas”.

Peso e leveza, riso e esquecimento, repetição e mudança, política e sexo, para Kundera, o que a ficção faz é dizer ao leitor que as coisas não são tão simples quanto se pensa, embora nunca tenha se visto como um homem político, um moralista, um liberal, conservador ou um escritor famoso. Ele se considerava simplesmente, um novelista.

É senso comum imaginar que um escritor de tal densidade, seriedade e brilhantismo deveria ter ganhado o Prêmio Nobel de Literatura em algum momento de sua longa vida. Afinal, ganhou muitos prêmios importantes. Talvez tenha sido seu estilo de escrita que fez com que a Academia o visse indicado em várias ocasiões, mas nunca lhe concedeu o prêmio. Segundo alguns críticos literários, Milan Kundera se tornou um contador de verdades inconvenientes para a era moderna talvez haja algo nisso que tenha perturbado o Comitê do Nobel de Literatura.

á li queixas de mulheres, que seu tom e narração de cenas de sexo, a representação das mulheres pode ser apresentada como masculinidade ultrapassada. Não me abalou o encanto com seus romances e ensaios, a maioria de inspirações autobiográficas.

Kundera nasceu e cresceu na Tchecoslováquia, hoje República Tcheca, ocupada pelos nazistas, depois viu a antiga União Soviética invadir seu país, sob o regime comunista. Foi membro ativo do Partido Comunista. Kundera sabia sobre opressão e desumanidade. Escreveu que o totalitarismo não é apenas o inferno, mas também o sonho do paraíso, a promessa de um mundo onde todos viveriam em harmonia.

Desencantou-se com o comunismo, foi uma das principais vozes do movimento Primavera de Praga em 1968, pedindo liberdade de expressão e direitos iguais para o povo tcheco. Foi expulso do Partido Comunista sob alegação de pregar o anticomunismo e trair os ideais dos governantes de seu país. Exilou-se na França e quatro anos depois o governo tirou-lhe a cidadania tcheca. Em 2019, 40 anos depois, o governo tcheco restabeleceu sua cidadania e de sua esposa.

A partir da França, continuou escrevendo e atacando o regime comunista, como no Livro do Riso e do Esquecimento, onde narra que um grupo de comunistas fiéis ao regime dançam em um círculo, se eleva no ar e paira sobre a cidade sorrindo. ‘Eles riem o riso dos anjos enquanto abaixo deles, os carrascos estão matando presos políticos’.

No seu romance mais conhecido, A Insustentável Leveza do Ser, escrito em 1984 adaptado para o cinema anos depois, Milan Kundera destila sua indignação contra a política totalitária, tornando o cenário da Primavera de Praga e a brutalidade do regime soviético sobre a Tchecoslováquia um dos temas centrais da história. Adiciona com genialidade uma narrativa erótica que sugere que o sexo despreocupado e livre pode nos permitir viver plenamente o momento, que isso pode nos levar a trocar o peso do eterno pela leveza de estar vivo, aqui e agora, o conflito que pode existir em cada um de nós entre o desejo de autenticidade e o dever de lucidez.

Milan Kundera é um escritor de frases poderosas. No ensaio ‘Inimizade e Amizade’, Milan Kundera fala sobre a amizade e desavenças políticas. “Em nosso tempo, as pessoas aprenderam a subordinar a amizade ao que se chama de convicções. É preciso muita maturidade para entender que a opinião que defendemos é apenas a hipótese que defendemos, necessariamente imperfeita, provavelmente transitória, que apenas mentes muito limitadas podem declarar ser uma certeza ou uma verdade. Ao contrário da lealdade a uma convicção, a lealdade a uma amizade é uma virtude, talvez a única virtude, a última que resta. Na hora do balanço final, a ferida mais dolorosa é das amizades feridas e nada é mais tolo que sacrificar uma amizade pela política”.

Problema feminino não é mero complemento

ACâmara dos Deputados comemorou com a devida honra os 10 anos de criação da Secretaria da Mulher na Casa, que hoje tem uma bancada de 92 deputadas (já incluída Gisela Simona) num universo de 513 parlamentares. A sub-representação ainda é gritante, já que a União Interparlamentar indica que a participação de mulheres nos parlamentos global é de 26%. Por aqui, patinamos em míseros 17%.

Embora o percentual de mulheres eleitas seja menor do que o de homens, os indicadores da Câmara Federal, publicados pela Agência Câmara de Notícias, registram que as deputadas apresentam mais projetos, proporcionalmente que os homens. Desde a criação da Secretaria da Mulher, em 2013, até o final de 2022, as leis aprovadas a partir de proposições e articulação da bancada feminina, que já foi chamada de “Bancada do Batom”, tem pautas ligadas a saúde, combate às diversas formas de violência, educação, mercado de trabalho, assistência e garantias de direitos.

Pois bem, é inegável que o cenário da participação da mulher na política está longe de ser o ideal e volto a um passado recente para lembrar da pré-campanha do Senador americano Bernie Sanders, principal rival de Joe Biden no Partido Democrata às eleições de 2020, onde também concorria, uma mulher, a senadora Elizabeth Warren. Com um discurso alinhado às pautas femininas foi Bernie Sanders o escolhido pelas mulheres famosas em seus trabalhos e discursos pela igualdade de tratamento, pagamento e prestígio a homens e mulheres nas mesmas condições de classe e de trabalho.

 A filósofa Nancy Fraser, professora de Filosofia e Política, sempre apontou as mulheres como as principais responsáveis ​​pela segurança e sobrevivência das famílias e das comunidades. De acordo com Fraser, as mulheres são as responsáveis ​​globalmente pela criação da próxima geração, tentando proteger as crianças quando fogem da violência em casa e enfrentam as fronteiras militarizadas que prendem até crianças.

Ela liderou um movimento intenso demonstrando às mulheres que embora a Senadora Warren fosse um nome respeitável, o discurso e as pautas que ela defendia não representavam os ideais femininos e feministas, da grande maioria dos trabalhadores com salários baixos. E as mulheres representavam essa maioria e aumento do salário-mínimo, aumentaria a liberdade feminina, tanto em casa quanto no trabalho. E dar as mulheres mais direitos nas negociações, daria a elas uma arma mais poderosa na luta contra o assédio e agressão sexual, sobretudo nos locais de trabalho. Puxou coro para que o apoio das mulheres fosse para o candidato que havia pautado o aumento do salário-mínimo, questões de gêneros, uma colocação da mulher por inteira dentro da sociedade como mote principal da campanha.

Criticada por apoiar um candidato homem, Nancy Fraser justificou: “Não nos interpretem mal. Gostaríamos de ver uma mulher presidente tanto quanto qualquer outra pessoa. Mas isso não pode nos custar a chance de construir um movimento que possa realmente melhorar a vida da grande maioria das mulheres”.

O respeito às pautas femininas não é prioritário em país nenhum, mas ganham relevância, cobranças e impulsionam positivamente a agenda dos grandes líderes. Ainda, um complemento. Ao final, Bernie Sanders recuou à candidatura e para apoiar Joe Biden, o fez assumir publicamente os compromissos assumidos com as lideranças femininas e feministas, apresentadas a ele pela filósofa Nancy Fraser.

Daqui há pouco começa a campanha para 2024 e não basta escolher uma candidata ou candidato que tenha alguma proposta feminina no seu programa. Precisamos apoiar uma campanha comprometida com a mudança estrutural que as mulheres precisam.