Não é calar-se – é aprender a falar sem ferir

A Quaresma é um tempo de conversão espiritual de 40 dias. É uma prática muito antiga e esse tempo de penitência deve vir acompanhado de jejum, oração e caridade. Na Quarta-Feira de Cinzas, o Papa Leão XIV abriu o período da quaresma com a fala intitulada “Escutar e Jejuar. Quaresma como tempo de conversão”, propondo aos fiéis que ampliem o significado tradicional do jejum, geralmente um período em que os cristãos, em ato voluntário de renúncia, normalmente ligado à abstinência de carne ou outro alimento e estendam o jejum também para a língua, ou seja, jejuar também daquilo que sai da boca para ferir e destruir, que renunciem as atitudes que machucam, que os fiéis evitem as palavras agressivas, julgamentos precipitados, fofocas e calúnias, ironias que humilham, discursos de ódio ou desumanização do outro. O jejum também, como um exercício de autocontrole e civilidade.

A violência contemporânea, muitas vezes, começa na linguagem. Antes da exclusão social ou da violência física, existe a desqualificação verbal. Em termos sociológicos, o pedido do Santo Padre dialoga sobretudo com o mundo digital, onde as redes sociais amplificam ataques verbais; a polarização política transforma adversários em inimigos irreconciliáveis e a linguagem vira arma. Em tradições e contextos diferentes há uma convergência de que a violência começa antes do gesto, começa no discurso. O Budismo propaga a filosofia da “Fala Correta”, que é a prática de evitar palavras que causam sofrimento e perpetuam a ignorância. O Cristianismo, através do Papa Leão XIV prega que jejuar de palavras que ferem rompe ciclos de violência. A Filosofia socrática ensina sobre a responsabilidade racional antes de falar e filtra a fala pela verdade, bondade e utilidade.

Não é censura, é responsabilidade. É a difícil arte de abster-se de palavras ofensivas para desarmar a linguagem, um pedido para trocarmos a acusação pela escuta. É atribuído a filosofia socrática e é da tradição budista também, o uso do triplo filtro. Conta-se que alguém procurou Sócrates para contar algo sobre outra pessoa. Antes de ouvir, o filósofo utilizou três filtros: Filtro da Verdade: Você tem certeza de que isso é verdadeiro? Filtro da Bondade: O que você vai dizer é algo bom? Filtro da Utilidade: Isso é útil, é necessário que eu saiba? Mesmo uma verdade, dita sem caridade vira agressão, tecer comentários afoitos, sem empatia vira violência simbólica. O Papa não pede que os cristãos se calem, pede que se conscientizem que as palavras têm poder de levantar ou destruir. Cuidar das palavras é uma prática espiritual diária. Disse o Pontífice: “Comecemos por desarmar a linguagem, renunciando às palavras mordazes, ao juízo temerário, ao falar mal de quem está ausente e não pode se defender, às calúnias.”

A Fala Correta, que integra os ensinamentos atribuídos a Sidarta Gautama (o Buda), orienta como reduzir o sofrimento humano. A tradição sugere que em muitos casos, o silêncio pode ser mais sábio, mas ao optarmos por falar, não devemos distorcer a verdade, usar palavras divisivas para afastar as pessoas, não devemos insultar, humilhar ou simplesmente falar sem consciência do impacto que o comentário pode causar. Nem tudo precisa ser dito apenas por que é verdadeiro.  

Não é cedo para falar das eleições de 2026

O momento presente não é tão cedo assim, porque sinais visíveis indicam que a campanha está tomando forma e os indícios são as reorganizações das forças políticas, as tensões diante dos anúncios de apoios de uns a outros, organização de chapas prováveis, o assédio aos prefeitos, os políticos circulando com mais assiduidade pelo interior do estado para inauguração de obras, visitas a feiras e para falar com a imprensa. O tom das conversas, discursos e publicações na mídia está ficando mais propositivo, fala-se de futuro, projeta um novo tempo, destacando os projetos e feitos que o candidato realizou no mandato. Quem não tem mandato ainda, está em atividade intensa nas redes sociais, se comparando com políticos de mandato, criticando-os, ao mesmo tempo que tenta participar do grupo político destes.

Em conversa com analista político dias atrás, compartilhamos o pensamento que não há de onde possa surgir um novo player na eleição em todo estado, portanto as análises devem recair sobre os nomes dos políticos conhecidos, cujos cargos a disputar podem ainda ser embaralhados. Ouvi que não está fácil antecipar fatos, prever resultados que se confirmem em 04 de outubro e que ironicamente está fácil perceber quem serão os derrotados no pleito de 2026.

As pesquisas de intenção de votos, estimuladas ou não que estão registradas são boas para consumo interno dos partidos, dos grupos políticos, porque sobre o resultado da eleição em si, ainda não dizem muito. As conversas formais entre os caciques estão acontecendo. As coligações e federações que foram definidas; como entre o União Brasil e Progressistas, que apresenta números estratosféricos com 109 deputados federais e 15 senadores, o que pode representar a maior força política do Congresso, domínio do horário eleitoral e volume surreal de investimento em campanhas, já que somados, terão 1 bilhão de reais de fundo eleitoral. Agora, como conciliarão os interesses nos estados, já é motivo de burburinho e ameaça de debandada. A União Progressista ainda aguarda homologação do Tribunal Superior Eleitoral, o que pode acontecer até seis meses antes das eleições.

A realidade política dos estados geralmente é ignorada nas articulações e formalização de alianças, sempre concebidas de cima para baixo, por isso noticia-se insatisfações, traições e debandadas e outras propostas de federações retrocederam por falta de consenso e afinidade ideológica entre os partidos.

Na prática, se quer ser ouvido e respeitado o político precisa convergir suas estratégias para que sejam percebidos sua estatura política e o alcance de sua liderança. Isso não é arrogância ou vaidade, é estar pragmaticamente em conexão com a sociedade que representa, inspirando com responsabilidade. Portanto, chiadeira, mudanças de partido, antecipações de candidaturas, construção de alianças, são movimentações naturais que agitam o cenário político em véspera de eleições.

Com ameaças de políticos tradicionais mudar o domicílio eleitoral para garantir a continuidade do poder em outro estado, fato, que embora legal, lança luz de desprezo nas lideranças locais, as eleições de 2026 exigem atenção redobrada. Atentos devem estar o povo e a justiça eleitoral de Mato Grosso, que foi muito elogiada esta semana, durante a celebração dos 93 anos do TRE MT e muito se falou dos desafios que o órgão tem que superar para cobrir a gigantesca proporção territorial do estado, para que os cidadãos possam exercer o direito de escolher seus candidatos. A expectativa, pelo visto tem-se cumprido quanto a rigidez na observação das leis e imputação de penas, porque estamos recebendo informações sobre vários vereadores eleitos em 2024, cujos mandatos estão sendo cassados pela Justiça Eleitoral, 1 ano depois.

Trocar a velha ignorância por conhecimento

Precisamos trazer novas perspectivas para os relacionamentos abalados pela divisão política, religiosa e outras e para os que se incomodam com a polarização que permeia as tentativas de se manter uma conversa generosa com familiares e amigos. Lembrando que uma das características dos humanos é a capacidade de atualizar suas próprias crenças e promover atualização na mente de outras pessoas. Todos nós temos o poder de renunciar às velhas crenças e trocar a velha ignorância por conhecimentos novos.

Quando as pessoas têm a capacidade de mudar, mas há pouco incentivo para mudanças, elas permanecem praticamente as mesmas de uma geração para outra, mas quando a pressão para se adaptar aumenta, o ritmo da evolução aumenta também. Anos atrás, milhares de pessoas, comungando um pensamento conspiratório e se posicionaram contra a vacinação contra a Covid-19. Nem ao perceberem, inclusive em seus meios familiares, o aumento escandaloso do número de mortes, refizeram seus comentários. A ciência se fez ouvir forte, divulgou os protocolos científicos rigorosos e as etapas de testes antes de as vacinas serem aprovadas, diante disso, muitos reviram seus pontos de vistas polarizados, atravessados por conteúdos políticos ignorantes e aceitaram se vacinar e estimularam a vacinação dos seus

Para ver o mundo de uma maneira, você precisa ter conhecimento de outras maneiras de se viver, para interpretar a cultura, a religião e a política de uma maneira, você precisa ter ou ter tido conexão com várias culturas, religiões e ideais políticos. Para a Sociologia, a maioria das mudanças sociais ocorrem quando grande parte de uma população quebra a resistência e muda completamente o modo de pensar sobre determinado tema depois de décadas e isso se transforma em uma mudança social generalizada. 

“Como as mentes mudam” é um livro fascinante do jovem jornalista e escritor americano David McRaney, que explora o que acontece no cérebro quando ele passa de uma forma de pensar para outra, reforçando o peso da ciência por trás das crenças, valores e atitudes. O autor recorre a vários comportamentos que que passaram por questionamentos polarizados, divididos tensamente como o casamento entre pessoas do mesmo sexo, repudiado com preconceito e violência, é hoje protegido por leis em muitos países e mesmo onde o casamento não é legalizado, há aceitação. Cita também que não somente algumas pessoas, mas várias nações saíram de uma situação de fumar até dentro de aviões para o banimento do cigarro até em bares e restaurantes. Como essas mentes mudaram?

Fatos e evidências não bastam para mudar a opinião de uma pessoa ou de uma comunidade, o autor explora o poder da persuasão e da autoconfiança como fontes poderosas para alterar a realidade formada no cérebro.  A autoconfiança é fruto do conhecimento e persuasão é definida cientificamente é o ato de mudar a mente sem coerção. Não é tampouco, uma tentativa de desmerecer intelectual ou moralmente a pessoa que você tenta convencer. Ou seja, quando a pessoa com quem você discute sente-se livre para rejeitar suas preferências, é onde a persuasão ética opera. 

Sob argumentos carregados de polarização, ódio político e movidos por informações falsas muitos brasileiros defendem que não houve nada senão atos de vandalismo no dia 08 de janeiro de 2023. Como bem disse McRaney, um dos maiores problemas que as pessoas enfrentam para enxergar a realidade e mudarem seus pensamentos é a metralhadora giratória de fake news, teorias conspiratórias e discurso de ódio criados para alimentar o caos. Entretanto, entre os incitadores já há quem diga que era apenas uma manifestação que tomou rumo de uma tragédia, mas que ele não concorda com atos de vandalismo. O que levou essa mente a mudar?  

Até aqui nada foi concedido, tudo foi fruto de lutas

As mulheres são, pela primeira vez em cinco décadas, maioria em todas as grandes regiões do Brasil. As mulheres são mais escolarizadas que os homens, apesar de terem conquistado representatividade como gestoras, apenas 38% exercem cargos de liderança. Das 142 prefeituras de Mato Grosso, apenas 13 são administradas por mulheres. O estado tem a maior participação feminina nas Câmaras Municipais de sua história, das 1.404 vagas para vereador, 277 mulheres foram eleitas, cerca de 20% do total. Cuiabá elegeu 8 vereadoras. Há avanços aqui, retrocessos ou estagnação ali. Essa maioria da população brasileira, ainda sofre com agressões, ameaças, preconceitos, feminicídio e desigualdade salarial.

A história das mulheres foi, durante muito tempo, contada a partir do relato dos homens uma vez que a palavra era concedida somente a eles. Contam que no século XVII, havia uma crença sobre a mulher na sociedade francesa: “um animal imperfeito, sem fé, sem lei, sem medo, sem consistência”.

A incompletude citada e falta de autonomia da mulher seguiu sendo explorada pejorativamente, mesmo resguardando contexto histórico, por filósofos e sociólogos, como o francês Auguste Comte, que inicialmente descreveu as mulheres como seres biologicamente inferiores aos homens cuja missão natural era educar os filhos e zelar pelo lar para mais tarde, propor a transformação da humanidade a partir da educação das mulheres. Em Jean-Jacques Rousseau, a mulher tem mais espírito, o homem mais gênio, a mulher observa, o homem raciocina. Rousseau aconselhava que: “um deve ser ativo e forte, o outro passivo e fraco; para que um queira e possa, basta que o outro resista pouco.”

Na introdução do livro O Segundo Sexo, a filósofa francesa, Simone de Beauvoir, cita o filósofo grego Aristóteles, para quem “a mulher é fêmea em virtude de certa carência de qualidades, devemos considerar o caráter das mulheres como sofrendo de certa deficiência natural”. O filósofo alemão Arthur Schopenhauer, arremata afirmando que “a mulher sofre de uma miopia intelectual que lhe permite, por uma espécie de intuição, ver de uma maneira penetrante as coisas próximas; mas o seu horizonte é limitado, escapa-lhe o que é distante”.

O tempo passou, a participação feminina começou a ganhar destaque em algumas esferas da vida em sociedade. Porém, Simone de Beauvoir, em 1949, abordou a posição secundária da mulher em relação ao homem na sociedade da época. Uma das frases mais marcantes do livro é: “Não se nasce mulher, torna-se mulher”, que serviu para a filósofa ilustrar que os papéis que associamos às mulheres não são dados a elas inerentemente, em virtude de sua biologia, mas são construídos socialmente, através de lutas e levantes diante da opressão que sofreram. As mulheres aprenderam o que devem ser na vida, que tipo de papéis podem ou não desempenhar.

Betty Friedan, jornalista e psicóloga americana escreveu “A Mística Feminina”, lançado em 1963, denunciando o vazio existencial da vida das mulheres, com a limitação de seus papéis sociais, o que deu início a uma fase radical do movimento de luta por direitos iguais entre homens e mulheres e o lançamento do livro reforçou o movimento de libertação das mulheres das amarras machistas. O livro causou forte impacto na discussão apaixonada sobre o papel das mulheres na sociedade moderna. Simone de Beauvoir e Betty Friedan são leituras imprescindíveis para se entender o contexto em que as lutas por oportunidades e reconhecimento aconteceram e para que as mulheres sigam vigilantes àquilo que tem direito, porque até aqui, quase nada foi oferecido e sim, fruto de conquistas.

A liberdade gozada pelas mulheres é o que é hoje porque o movimento feminista foi o que foi no passado. O que passou a médica e mulher admirável, ex-presidente do Chile, Michelle Bachelet, para do alto de sua experiência dizer que uma mulher na política, muda a mulher. Muitas mulheres na política, mudam a política.

O caminho está sendo pavimentado, com muitas mulheres interessantes ocupando espaços políticos. Uma deputada americana certa vez foi perguntada, com ironia por um colega parlamentar sobre a “incoerência” de ser mãe e deputada ao mesmo tempo, ao que ela respondeu: “Tenho um cérebro e um útero e sei usar os dois”. Quando uma mulher aspira um cargo político, a direção de uma empresa, a presidência de um país, ela o faz pelas mesmas razões que qualquer homem, porque ela entende e firmemente acredita que é capaz de executar bom trabalho.

Na política eno futebol, raramente perde quem deu o seu melhor

Temos que nos sentar com algum desconforto se quisermos ter uma coexistência pacífica e civilizada uns com os outros. Ser continuamente consumido em ver o outro como errado e fracassado nos impede de experimentar uma gama mais ampla de relacionamentos, de fazer novas descobertas e talvez também de nos maravilhar com a diversidade da vida e aprender com as derrotas.

Desarmar o espírito não é fácil, mas que arrogância desmedida é essa que nos faz crer que nascemos fadados à vitória, sempre? Milhares de pessoas não conseguiram absorver e superar a derrota na política e agora, no futebol. Há pessoas que não sabem o que é uma derrota, porque se recusam a reconhecê-la e vivem em estado de negação. Na verdade, aquele que nunca foi derrotado talvez nunca tenha, de fato, lutado.

Há uma tradicional frase que diz que política, futebol e religião não se misturam. Na prática, não é assim. Política e futebol se misturam há muito tempo e isso voltou latente durante a ditadura militar brasileira, quando o presidente Castelo Branco determinou intervenção dos militares na Confederação de Futebol. Em 1970, o Presidente Médici, que era apaixonado por futebol, tentou interferir na escalação da seleção brasileira, porque não gostou da convocação de Dadá Maravilha, o que levou o técnico João Saldanha a rebater corajosamente: “ele escala o ministério dele, que a seleção escalo eu”. João Saldanha mais tarde foi demitido, dizem, como ato de retaliação de Médici

Um sopro de esperança contra a ditadura militar nasceu dentro do grandioso clube do Corinthians. Atento ao cenário da época, quando a Ditadura Militar começava a perder força, o sociólogo Adilson Monteiro Alves decidiu que um movimento a favor do voto popular e da democracia deveria começar dentro do Parque São Jorge. E ao lado dos craques, Sócrates, Casagrande e Wladimir, iniciaram o movimento chamado Democracia Corinthiana. O nome foi criado pela lenda da publicidade brasileira, Washington Olivetto, que estampou frases de efeito nas camisas do time, com mensagens pedindo o restabelecimento das eleições e a volta da democracia no país. A democracia Corinthiana apoiou e vestiu a camisa da campanha das ‘Diretas Já’, idealizada por Dante de Oliveira. 

Também em plena ditadura, o ex-presidente do Flamengo Márcio Braga, ao candidatar-se anunciou na imprensa que a democracia brasileira começaria com eleições livres, sem interferência da diretoria do Flamengo. Novamente o presidente Médici tenta interferir, mas Márcio Braga venceu o candidato apoiado pelo presidente.

Pelo mundo afora, políticos populistas como o italiano Silvio Berlusconi, acreditaram na conexão entre política e futebol, como uma forma de legitimar a entrada dele na política e adotou como estratégia de campanha o lema de fazer com que os italianos falassem de política tanto quanto eles falavam sobre futebol.

Recentemente, no conflituoso momento pós-eleições, quando os manifestantes conservadores trancaram a Rodovia Presidente Dutra, no Rio de Janeiro, pedindo intervenção militar no país, foi a destemida torcida organizada do Corinthians que desobstruiu a estrada. Em São Paulo, a torcida liberou a marginal Tietê e levantou faixas com frases em favor da democracia brasileira.

Na prática da política e do futebol se leva em conta a preparação. Anos talhando, o político, o discurso e o jogador, o preparo físico e ambos, trabalhando suas habilidades. A política é coletiva, o futebol também. O time tem que estar coeso e em ambos os casos, há adversários, igualmente constituídos, treinados, almejando a mesma posição. Alguém vai perder e muito raramente perde quem deu o seu melhor!