Não somos todos iguais perante a lei

Qual é o limite do absurdo? Pelo texto da PEC da Blindagem ou da Impunidade, deputados e senadores não podem ser processados por desvio de verba, homicídio, propina ou qualquer outro crime. Qualquer ação penal só vai adiante se os ‘brothers’ concordarem, mesmo que sejam presos em flagrante por crimes inafiançáveis. Esse é o texto da PEC da Blindagem, que em curta compreensão exige o aval do Congresso Nacional, em votação secretíssima, para prisão e abertura de processos contra parlamentares. A impunidade que estava na eminência de se tornar plena e irrestrita vai seguramente ser barrada no Senado Federal, a Casa revisora, que graças a Deus, entre tantas atribuições importantes, revisa os projetos de lei que se iniciam na desgovernada Câmara dos Deputados, que num momento de extrema irresponsabilidade aprovou o texto absurdamente imoral, que, na opinião de parlamentares, violenta a Constituição Federal e coloca o Congresso à serviço do crime organizado.

Sem apoio no Senado, a PEC não deve ser aprovada nem na Comissão de Constituição e Justiça quando mais no plenário. O Senador Otto Alencar, médico, do PSD, que preside a CCJ, designou relator o Senador do MDB Alessandro Vieira, advogado, delegado de carreira e membro atuante da CCJ, que vem há dias criticando veementemente a PEC e já anunciou que sua relatoria será pela rejeição da proposta. Além de impopular, a PEC amplia o fosso que separa os políticos do cidadão comum, que não conta com tais regalias e muitas vezes sequer tem proteção quando é injustamente acusado de um delito.

Considerada indefensável, a PEC da Blindagem, provavelmente concebida para afastar o Supremo Tribunal Federal do Parlamento, mas segundo o senador Eduardo Girão, os deputados erraram na dose e criaram um veneno, com nuances de anonimato e negociatas a portas fechadas.

A população brasileira não aceitará esse retrocesso e pesa sobre o Senado e sobre o ombro do Senador Alessandro Vieira livrar o Brasil dessa vergonhosa mancha que fortaleceria a impunidade e reduziria a chance de a justiça agir sobre membros do legislativo, inclusive sobre parlamentares já investigados. Li que o parlamentar até pode ser preso em flagrante, mas o Congresso teria 24 horas para revogar a prisão, ou seja, a prisão seria rapidamente anulada.

Tradicionalmente sempre foi difícil processar e prender políticos no Brasil, especialmente quando ocupam posições de maior visibilidade, sobretudo porque o corporativismo é grande, os processos contra políticos são protelados até prescreverem, o que confirma o que eu escrevi pouco acima sobre a percepção de que os políticos são propositadamente bem menos alcançados pela lei do que o cidadão comum. Resgatamos pouquíssimos casos de políticos conhecidos presos desde 1988: O ex-governador de São Paulo, Paulo Maluf, envolto em denuncias desde 1990, só foi preso 17 anos depois.

No caso do Mensalão, dentre centenas de nomes citados, poucos presos chegaram a cumprir pena, entre eles, José Dirceu, José Genoíno e Delúbio Soares. Nas denuncias da Lava Jato, considerada a maior investigação já ocorrida no Brasil, uma multidão de mais de 500 pessoas foi denunciada, mas poucos, como, Eduardo Cunha, Sérgio Cabral, Aécio Neves, Antônio Palocci, Geddel Vieira e o presidente Lula foram presos.

A tese da blindagem já ocorreu na Assembleia Legislativa de Mato Grosso em 2017, quando o deputado Gilmar Fabris foi preso, acusado de obstrução à justiça e por unanimidade, porém, com algumas abstenções, os deputados votaram pela revogação da prisão preventiva dele e, por conseguinte, restabeleceram o seu mandato.

O investimento na prevenção da violência contra a mulher deve ter alta prioridade

A violência de gênero é um problema de longa data no Brasil e diante dos níveis alarmantes, sobretudo no estado, governo e população estão investindo esforço, pesquisas e políticas públicas para melhorar a aplicação das punições, mas, devem concentrar esforços para investigar e implantar ações que visem coibir a violência. Precisamos desesperadamente, aí incluo todos, fazer mais no que diz respeito à formulação, implementação e monitoramento de políticas eficazes de prevenção e proteção às mulheres, porque apesar do debate público sobre papéis de gênero e violência de gênero, não houve uma redução significativa no número de vítimas, nem, em termos gerais, aumentou o número de pessoas que buscaram ajuda.

No Senado Federal, parte da programação do ‘agosto lilás’ aconteceu uma sessão temática no Plenário, com representantes do parlamento, governo e sociedade civil para debater caminhos para além das leis específicas, como a Lei Maria da Penha e Lei do Feminicídio que consigam coibir a violência dentro dos lares. O debate reforçou que toda possibilidade de prevenção ao feminicídio passa pela elevação da condição social da mulher, com a participação maior de mulheres nos espaços econômicos de decisão, para retirá-las da posição subalterna que são colocadas nos relacionamentos.

Enquanto isso não ocorre, o relatório do Fórum Brasileiro de Segurança Pública divulgado em 2025, mostram com grande preocupação o aumento das taxas de violência e assassinato de mulheres no Brasil, onde uma pesquisa revelou que quase metade das mulheres brasileiras, cerca de 40,7%  com mais de 16 anos sofreram violência por parte de um parceiro ou ex-parceiro, a maioria da violência, 60 desses casos, aconteceram na casa da vítima casa, muitas na frente de familiares, incluindo crianças. A pesquisa mostra que o sentimento das mulheres agredidas é de solidão, abandono e desconfiança no estado para garantir a justiça e o recomeço de uma nova vida.

O Observatório Caliandra, ligado ao Ministério Público Estadual registrou 36 feminicídios em Mato Grosso até o momento. Os últimos dias foram críticos para as mulheres no estado: Larissa Bezerra teve a casa incendiada pelo ex-parceiro; a violência política mostrou o detestável vereador Gilson chamando prefeita Iraci Ferreira de ‘cachorra viciada’ na tribuna da Câmara Municipal; um homem assassinou a ex-namorada  Ana Paula Abreu com 18 facadas e enviou fotos para os familiares dela e para o próprio irmão; a estudante Jacyra Grampola foi morta pelo ex-namorado em Sorriso; a jornalista  Angélica Gomes foi agredida em plena rua, na frente de testemunhas, quando cobria um acidente de trânsito; encerrando a semana, a servidora pública Makiane Brito foi assassinada pelo ex-namorado, dentro de casa, na frente da mãe e da filha.

O Instituto Natura, o Senado Federal e a Associação Gênero e Número criaram uma plataforma e atualizaram dados do Mapa Nacional da Violência de Gênero, que mostram que o desafio continua gigantesco e não há sinal que indique a diminuição da violência contra a mulher. O estudo revela que a maioria dos casos de feminicídio são crimes que poderiam ser evitados se como sociedade, falássemos mais abertamente sobre o assunto. A dor causada pela violência é silenciosa, muitos casos não são denunciados por medo ou vergonha. A plataforma reforça a responsabilidade de todos, no sentido de intervir e questionar falas e atitudes ofensivas e agressivas ou subjetivas dirigidas às mulheres, indicando controle, ciúme excessivo e isolamento. É preciso dar a esses comportamentos, o nome real: violência.

Adianta acirrar a discussão em torno da prisão perpétua e pena de morte para o agressor ou assassino da mulher se não fazemos valer as penas vigentes no código penal? A prisão perpétua é proibida no Brasil pelo art. 5º, inciso XLVII, da Constituição Federal de 1988: “não haverá penas de caráter perpétuo”. Esse artigo faz parte dos núcleos protegidos pelas cláusulas pétreas (que não podem ser alterados) e isso significa que para a prisão perpétua e pena de morte fossem permitidos no Brasil, seria necessário romper a ordem constitucional, convocar uma Assembleia Constituinte e escrever uma nova Constituição. Impossível? Não, improvável. Ainda assim estaremos falando do assassino enquanto a pauta prioritária deve ser a proteção, a prevenção da violência e do crime contra a mulher.   

Se o afobado come cru, o atrasado perde o trem

Há quem diga que está cedo para articulações políticas, pesquisas, tomadas de decisões visando as próximas eleições. Luiz Carlos Mendonça de Barros, engenheiro e economista, foi presidente do BNDES e ministro das Comunicações do governo FHC, escreveu uma belíssima crônica, em 2003, respondendo a uma comunicação do governo recém-eleito de Lula, que pedia calma e dizia que a política econômica havia acabado de assumir e estava sendo cobrada de forma afobada e que ‘o afobado come cru’. Mendonça de Barros não perdoou o uso de uma metáfora popular na fala do presidente. Escreveu que a sociedade e os que entendem a função de presidente da República esperam uma certa liturgia na comunicação do governo e completou, recorrendo também a sabedoria popular; se o ‘afobado come cru’, o ‘atrasado perde o trem’.

Discutiam ali, o orçamento, liquidez monetária, controle de inflação, rentabilidade de investimentos e Mendonça de Barros escreveu que o excesso de confiança de Lula na qualidade de sua gestão era perigoso e ingênuo, e, novamente recorreu a uma metáfora popular, dizendo que ‘é preciso de alma e porrete’ para enfrentar os descompassos da economia. As metáforas utilizadas na crônica encaixam perfeitamente no momento político que vivemos, há pouco mais de um ano das eleições. É preferível comer cru a perder o trem e é igualmente preferível se lançar transparente e corajosamente nas articulações do que alimentar recuo especulativo e frouxidão.

Em momentos de crise de confiança na política, seja por motivação interna ou externa, quando se pensa no Brasil de hoje em dia e nas próximas eleições, poucos se sentem tranquilos. Estamos transitando entre os extremos, com o volume emocional ligado muito alto. Nos dividimos entre; animados ou desanimados; com medo ou com confiança no futuro; triste ou feliz; seguro ou inseguro; com mais medo ou com mais esperança. A violência simbólica da discussão política presencial ou, mas mídias sociais é creditada as campanhas publicitárias e equipes de mídia dos candidatos, segundo o psicólogo brasiliense Gilberto Godoy, para quem as eleições têm sido dominadas por raiva, medo e discursos emocionais, onde um é bom, e o outro é mau. Um presta, e o outro não presta.

Por essa razão não é cedo para explorar e massificar nomes que em lugar do medo, possam transmitir a esperança. Não é cedo para afinar o discurso que, em vez da divisão, do comportamento radical e intolerante pregue a promoção do bem-estar social, da construção de casas, escolas, creches, hospitais. Não é cedo para mostrar aos 2,6 milhões de eleitores que você não é só retórica, que você, candidato, discute ideias e planos e não apenas emoções, impressões e fantasias.

Em Cuiabá, semana passada, o presidente do Supremo Tribunal Federal, Ministro Luís Roberto Barroso, lembrou que a polarização entre grupos políticos rivais sempre tensionou as eleições no Brasil; nos anos 1930 a 1964, o período de Getúlio Vargas trouxe polarização entre o PTB e UDN, com o PSD, tentando, sem sucesso, a conciliação. No período mais recente, houve a polarização entre o PT e PSDB e agora PT e PL (ou bolsonarismo). Observamos que a polarização, contudo, se deu muito mais em torno de figuras políticas fortes, como, Vargas, Lula e Bolsonaro do que em torno de conteúdo e pautas partidárias.

A cura é falar mais e mais sobre política para melhorar a qualidade do voto, para assegurar que as divergências não reproduzam radicalismos, ódios ou paixões violentas, para que, enfim, as relações voltam a ser reconstruídas com equilíbrio e civilizadamente.

Exposição nenhuma é conteúdo fofo

Não existe um ‘influenciador’ que eu siga e da grande maioria nunca ouvi falar. Considero, no verbo presente, uma perda de tempo. Ao conversar com meu neto de 11 anos, ele disse que conhece e assiste vídeos do Felca e nunca havia ouvido falar em Hytalo tampouco em Kamilinha. Alívio! Após o vídeo denúncia vir à tona, me informei demoradamente sobre o ocorrido, sobretudo lendo especialistas e governo dada a seriedade e gravidade do tema exposto. Nas mídias, há tempos, o pediatra brasileiro Daniel Becker, palestrante, consultor do UNICEF e da OMS, docente da Universidade Federal do Rio de Janeiro, tem sido uma voz ativa nas denúncias e na defesa do desenvolvimento infantil saudável e tem denunciado que crianças pobres têm sido manipuladas para monetizar conteúdos perniciosos.

Mas, quem prestou atenção nos gritos e argumentos do Dr. Becker pela aprovação do Projeto de Lei 2628/2022, de autoria do Senador Alessandro Vieira, que dispõe sobre a proteção de crianças e adolescentes em ambientes digitais? O Senado fez o trabalho cuidadoso, com apoio da sociedade civil, das entidades de proteção à criança. A polarização absurda, que se sobrepõe a tudo neste país, fez com que parlamentares de vários partidos conseguissem evitar que o PL 2628/2022 fosse votado, temendo que sua aprovação calasse seus discursos de ódio e desinformação na internet.

O Dr. Becker tem lutado, arrebanhado apoios para a aprovação do Projeto de Lei que regulamenta as redes sociais, visando auxiliar no combate a esse tipo de exposição e exploração. Diz ele que o Projeto de Lei foi amplamente discutido com especialistas, ele próprio participou e orientou alguns trechos, porque teme que os riscos trazidos pela internet, de modo geral, sejam completamente naturalizados e sejam tratados como parte inevitável da vida moderna. A pré-adolescente que foi submetida a realizar uma cirurgia para colocar prótese nas mamas, o rebolado para impressionar homens adultos babões, é apenas uma das formas de adultização, que junto a outras são como uma amputação da infância, a extirpação de um período da vida, que geralmente dura 12 anos.

Agora, a pergunta incômoda: ‘Por que não ouviram o Dr. Daniel? Especialista sério, pediatra, pesquisador, professor, que tem colocado suas falas de forma incisiva, às vezes acusatórias aos parlamentares que não se preocupam em pautar o Projeto de Lei 2628/2022, que regulamenta o mundo digital e seus conteúdos nocivos, aos pais, que tudo consentem, ora por comodismo, outra por vantagens financeiras e quase nunca por ignorância. Porque as mídias não ampliaram a voz do Dr. Daniel Becker, assim como fizeram com esse moço que denunciou?  O ‘influenciador’ Felca, agiu pelo bem, prestou um serviço de utilidade pública, tem mérito, claro, mas percebe-se que ele travou uma guerra direta com nome e sobrenome para atingir outro ‘influenciador’, que já deveria ter sido observado, denunciado e tirado do ar, se o Projeto de Lei tivesse sido aprovado na Câmara dos Deputados.

Falhamos todos. Lamentavelmente a sociedade, as mídias, a classe política e o governo estão optando por dar credibilidade a quem ganha mais ‘likes’ nos seus vídeos, sejam de denúncias ou outra abordagem qualquer. Numa mesma rede social, dr. Daniel tem apenas 1 milhão e oitocentos mil seguidores, o ‘influenciador’ tem mais de 17 milhões.

Agora, muitos pegarão carona no vídeo, que acumula mais de 36 milhões de visualizações, o PL deve ser pautado e votado. Enquanto isso, resta perguntar onde andam os Conselheiros Tutelares, os guardadores do Estatuto da Criança e do Adolescente, que não se levantaram sequer para questionar a hipocrisia das redes sociais, que dizem não permitir contas de crianças abaixo de 13 anos, mas abre-lhes a participação literal em contas alheias, de conteúdo notadamente exploratório sexual e financeiramente. Li o comentário de um pai que administra a conta de conteúdo comportado da filha, embora seja uma criança de 10 anos. Ele diz que todos os dias, atinge o limite de bloqueios de homens adultos pervertidos, enviando mensagens inapropriadas para a criança e ainda assim, mantém a conta ativa.

Ao falarmos da exposição de crianças na internet, não nos limitemos a criticar os pobres. Cantores famosos postam a rotina de suas crianças, dirigindo carros, fazendo dancinhas, em momentos constrangedores ou íntimos de birras e choros atrás de engajamento. Isso é exploração. No esquecido Estatuto da Criança e do Adolescente reza que a criança deve ter protegida sua dignidade, a imagem e o desenvolvimento.

Trocar a velha ignorância por conhecimento

Precisamos trazer novas perspectivas para os relacionamentos abalados pela divisão política, religiosa e outras e para os que se incomodam com a polarização que permeia as tentativas de se manter uma conversa generosa com familiares e amigos. Lembrando que uma das características dos humanos é a capacidade de atualizar suas próprias crenças e promover atualização na mente de outras pessoas. Todos nós temos o poder de renunciar às velhas crenças e trocar a velha ignorância por conhecimentos novos.

Quando as pessoas têm a capacidade de mudar, mas há pouco incentivo para mudanças, elas permanecem praticamente as mesmas de uma geração para outra, mas quando a pressão para se adaptar aumenta, o ritmo da evolução aumenta também. Anos atrás, milhares de pessoas, comungando um pensamento conspiratório e se posicionaram contra a vacinação contra a Covid-19. Nem ao perceberem, inclusive em seus meios familiares, o aumento escandaloso do número de mortes, refizeram seus comentários. A ciência se fez ouvir forte, divulgou os protocolos científicos rigorosos e as etapas de testes antes de as vacinas serem aprovadas, diante disso, muitos reviram seus pontos de vistas polarizados, atravessados por conteúdos políticos ignorantes e aceitaram se vacinar e estimularam a vacinação dos seus

Para ver o mundo de uma maneira, você precisa ter conhecimento de outras maneiras de se viver, para interpretar a cultura, a religião e a política de uma maneira, você precisa ter ou ter tido conexão com várias culturas, religiões e ideais políticos. Para a Sociologia, a maioria das mudanças sociais ocorrem quando grande parte de uma população quebra a resistência e muda completamente o modo de pensar sobre determinado tema depois de décadas e isso se transforma em uma mudança social generalizada. 

“Como as mentes mudam” é um livro fascinante do jovem jornalista e escritor americano David McRaney, que explora o que acontece no cérebro quando ele passa de uma forma de pensar para outra, reforçando o peso da ciência por trás das crenças, valores e atitudes. O autor recorre a vários comportamentos que que passaram por questionamentos polarizados, divididos tensamente como o casamento entre pessoas do mesmo sexo, repudiado com preconceito e violência, é hoje protegido por leis em muitos países e mesmo onde o casamento não é legalizado, há aceitação. Cita também que não somente algumas pessoas, mas várias nações saíram de uma situação de fumar até dentro de aviões para o banimento do cigarro até em bares e restaurantes. Como essas mentes mudaram?

Fatos e evidências não bastam para mudar a opinião de uma pessoa ou de uma comunidade, o autor explora o poder da persuasão e da autoconfiança como fontes poderosas para alterar a realidade formada no cérebro.  A autoconfiança é fruto do conhecimento e persuasão é definida cientificamente é o ato de mudar a mente sem coerção. Não é tampouco, uma tentativa de desmerecer intelectual ou moralmente a pessoa que você tenta convencer. Ou seja, quando a pessoa com quem você discute sente-se livre para rejeitar suas preferências, é onde a persuasão ética opera. 

Sob argumentos carregados de polarização, ódio político e movidos por informações falsas muitos brasileiros defendem que não houve nada senão atos de vandalismo no dia 08 de janeiro de 2023. Como bem disse McRaney, um dos maiores problemas que as pessoas enfrentam para enxergar a realidade e mudarem seus pensamentos é a metralhadora giratória de fake news, teorias conspiratórias e discurso de ódio criados para alimentar o caos. Entretanto, entre os incitadores já há quem diga que era apenas uma manifestação que tomou rumo de uma tragédia, mas que ele não concorda com atos de vandalismo. O que levou essa mente a mudar?  

Dois egos em conflito

A sua peculiar maneira de falar, certa vez, o presidente americano Donald Trump, tentou explicar a guerra entre a Rússia e a Ucrânia: “Às vezes, você vê duas crianças brigando feito loucas, elas se odeiam, brigam em um parque e você tenta separá-las, elas, porém, não querem ser separadas. Às vezes, é melhor deixá-las brigar um pouco.” Hoje, com essas palavras, poderia estar falando de si e de seu ex-amigo bilionário Elon Musk, que se envolvem numa briga, com trocas de insultos públicos.

Embora a mídia americana e observadores políticos venham especulando que Donald Trump e Elon Musk acabariam se desentendendo, poucos previram a velocidade e a ferocidade com que a briga explodiu nas redes sociais. Afinal, trata-se do relacionamento político conveniente de dois homens com egos gigantes, que não suportam ser contrariados.

Elon Musk financiou parte da campanha de Trump e emprestou-lhe a imagem do homem visionário que abriria o caminho da vida em Marte. A poderosa aliança política e empresarial iniciou com a solidariedade e promessa de apoio de Elon Musk a Donald Trump logo após a tentativa de assassinato do presidente americano. De acordo com o site de monitoramento de financiamento de campanha Open Secrets, ao longo do último ano, as doações de Musk a Trump e outros republicanos foram enormes, totalizaram US$ 290 milhões de dólares. Por isso Elon Musk fala de ingratidão.

 A rixa entre o presidente e seu ex-assessor, Elon Musk, veio à tona, após o bilionário da tecnologia criticar o projeto de lei de impostos e gastos públicos, peça central do governo de Trump. Aí, o parquinho literalmente pegou fogo. Trump decepcionado com as críticas anunciou isso que poderia ser o fim de seu ótimo relacionamento com o bilionário. Musk não demorou e acusou o presidente de ingratidão, acrescentando inclusive, que sem ele Trump teria perdido a eleição.

Esses relacionamentos que incluem financiamento político, contratos governamentais, relações pessoais torna complicado o fim da aliança e, independentemente do rumo que a discussão tome, têm o potencial de prejudicar a ambos de várias maneiras. Segundo matérias veiculadas na mídia americana, embora conhecesse o projeto de lei dos gastos desde a sua concepção, Elon Musk estava em pleno lobby no Senado, o que é legal nos Estados Unidos desde 1946, contra o próprio governo, argumentando que o projeto aumentaria irresponsavelmente a dívida dos Estados Unidos e chamou o projeto de abominação repugnante.

Trump defende-se acusando Elon Musk de estar chateado porque seus negócios privados seriam afetados e ameaçou cortar os contratos governamentais de Elon Musk. O parquinho continuará em chamas. Elon Musk deu a entender que poderá investir muito dinheiro na oposição a Trump, inclusive aventando a possibilidade de criar um partido. Trump pode não ter muita vantagem sobre o homem mais rico do mundo no curto prazo. Cancelar ou rescindir contratos governamentais seria um processo legal complicado e demorado, e por algum tempo, o governo dos EUA continuará fazendo negócios significativos com as empresas de Elon Musk.

O que acontece quando a pessoa mais rica do mundo e o político mais poderoso têm uma briga tão acirrada? O mundo está observando e não é um cenário bonito. Donald Trump e Elon Musk voltaram seus megafones um contra o outro em uma guerra de acusações, mentiras, exageros e ameaças. O preço das ações da Tesla despencou 14% dia 04 de junho, porém, Musk insiste no pedido de impeachment de Trump e o desafiou a cortar abruptamente o financiamento de suas empresas.

A arte de comer pelas beiradas

Muitos de nós anunciamos nossos planos antes mesmo de eles estarem finalizados, por isso transmitimos meias verdades, rascunhos e tentativas de acertos. Geralmente as pessoas antecipam seus projetos para avaliar as validações, para obter comentários em retorno e para carimbar a ideia como sua antes que outro o faça. Observe que em se tratando de política, quando os projetos são demasiadamente antecipados, perde-se tempo dando explicações, justificando as escolhas, defendendo posições que não foram avaliadas pelas bases e partidos ainda.  Quando ninguém percebe nossos movimentos, ninguém pode pará-los.

Ao passo que, se os movimentos políticos forem canalizados em viagens, participação em eventos abertos, entrevistas que não comprometam a integridade do processo eleitoral que se avizinha, acaba-se conseguindo uma boa divulgação da imagem, dos projetos e abre-se caminho para a aproximação de novas pessoas, sem que esse comportamento, por ora, fale em candidatura e voto. Percebo também que, uma quase exigência do agir político é a urgente necessidade de forçar a ocupação ou ampliação dos espaços de participação e fala e somente há silêncio num espaço de fala.  

Segundo o Tribunal Superior Eleitoral, atravessamos um momento político proibitivo. Não é hora de mudar de partido, não é hora de definir candidatura ou cargo eletivo, não é hora de descartar companheiro, tampouco, aliar-se a outros. Por isso, todo movimento precipitado agora, expõe e atrai a ira, a cobiça de adversários e próprios correligionários, além de atiçar denúncias ao TRE sobre precipitações ao observar a Lei Eleitoral. Embora o político não precise fazer malabarismo para ter sua imagem destacada, para pedir votos explicitamente, ele tem apenas o curto período de 40 dias.

Na política, manter segredos, chega a ser uma subversão, porém, os cientistas políticos temem que a antecipação de movimentos políticos, impactem na construção do projeto futuro, devido aos desgastes naturais trazidos pelos comentários e julgamentos e pelo afastamento de pessoas que se sentiram preteridas no arranjo geral. Na essência, o momento certo de movimentar-se é quando as construções de candidaturas estão sólidas, a mensagem sobre quem vai atuar onde esteja clara para todos e as estratégias para mobilizar tempo, recurso e discurso estejam disponíveis no cenário, pois é impossível, no jogo político, esconder o conflito, os mascaramentos e as resistências. Então, Para que ocupar-se disso agora?

O melhor é estar correndo por fora, conversando muito com o comando nacional ou regional do partido, com a popularidade em alta, ocupando espaços importantes. Ou como diria o inesquecível Leonel de Moura Brizola: “melhor é comer o mingau pelas beiradas”. Comer pelas beiradas é uma expressão, bastante popular, quer dizer; avançar aos pouquinhos. Aprendemos com nossas avós que mingau quente deve ser comido pelas beiradas, para não queimar. A expressão cai como uma luva quando falamos sobre política. Na política, há partidos e políticos que passaram décadas no poder comendo pelas beiradas, fazendo articulações seguras e sem alarde para preservar as posições conquistadas.  Lição de sabedoria.    

Um vende a cura, a outra vende a sorte grande e outras enganam a si mesmas

O tolo é caracterizado pela falta de discernimento, pela incapacidade de perceber o sofrimento e as causas da sua existência, e pela adesão à crenças e comportamentos que o levam a um ciclo de vida artificial. O tolo geralmente se perde em minúcias, mesquinharias e de todo tipo de banalidades. A autorreflexão, introspecção e contemplação não fazem o menor sentido para um tolo, porque ele não pensa existencial e profundamente sobre vida.

O tolo subestima os dilemas existenciais, pois, não vê nada além de si mesmo, vive completamente embrulhado em seu conteúdo egoísta e raso. Em Espinosa, o tolo é uma figura amoral, é aquele que não consegue compreender a realidade e, portanto, permanece preso em um ciclo de superficialidades. Platão, por exemplo, utilizava a figura do tolo para criticar a sofística e defender a busca pela verdade através da razão. Uma célebre frase atribuída a Platão afirma que “o sábio fala porque tem algo a dizer e o tolo porque precisa dizer algo.” Ao não compreender a verdade, o tolo age de forma impulsiva e egoísta, atraindo sofrimento para si e muitos em seu entorno.   

Escrevo essa introdução sobre o tolo, para falar sobre a influenciadora Vírgina Fonseca, o falso profeta, missionário Miguel Oliveira e sobre pessoas adultas pais e mães de bebês reborn, criaturas que adotam bonecas hiper-realistas, como se filhos fossem.

Tão jovem e já aprendiz de charlatão, o mini missionário Miguel Oliveira não deve ser nenhum instrumento de Deus para a realização de curas e milagres. Deve ser sim, um enganador, explorador da fé, da crença e da vulnerabilidade das pessoas para a obtenção de doações, de forma enganosa e abusiva. No púlpito da igreja disse que quanto mais rápido a doação for feita, na mesma velocidade o milagre chega até o fiel. Rasgou laudos médicos, prometeu cura de doenças graves, como câncer. Acabou denunciado ao Ministério Público pelo Conselho Tutelar, afastado das pregações e das mídias sociais pela justiça, porém profetizou um retorno ‘assustador’.

Já tramita, na Câmara dos Deputados, um Projeto de Lei (PL nº 1341/23), que criminaliza e pune o charlatanismo religioso e quem promover, divulgar ou realizar falsos milagres, curas ou outras manifestações supostamente sobrenaturais com o intuito de obter vantagens financeiras.

Virginia Fonseca, arrolada para ser ouvida na CPI das Bets, com acusação de criar falsas expectativas e negligenciar informações sobre os malefícios do jogo, que banca sua vida de luxo, não é muito diferente do profeta Miguel. Mente, engana, explora a boa-fé de pessoas vulneráveis e se mostrou indiferente e ignorante ao ser ouvida no Senado, alegando que sequer percebe o mal que causa na vida das pessoas, porque considera o jogo um complemento de renda. O profeta vende a cura, a subida aos céus, a influenciadora vende a ‘sorte grande’, o dinheiro fácil à custa do vício e do comprometimento da miserável renda familiar em jogos de azar.

Há uma linha de explicação que os bebês reborns são usados ​​por razões terapêuticas, como perda de filhos, ansiedade, estresse e depressão, transtorno bipolar. Mas há também histórias ridículas, que não me causam outra reação senão o riso debochado, como o relato de uma advogada que foi procurada para regulamentar a “convivência” de uma mãe com a boneca e impedir que a ex-companheira da cliente tivesse acesso à “filha reborn”. São demandas reais”, disse a advogada. Mulheres de condutas ilícitas e antiéticas, simulam a maternidade para obter vantagens indevidas em serviços prioritários. Já há várias leis tramitando mirando o uso indevido desses bonecos em serviços públicos e privados.

Minha perplexidade diante desses seres estranhos que ocuparam a mídia recentemente, na verdade, meu pesadelo, é que essas pessoas votam e influenciam votos.

A campanha tornou-se permanente

Com tanto artifício por toda parte, talvez não se possa confiar em ninguém. Lembre-se, porém, que o encolher de ombros substitui o voto. Todo bom escritor e todo bom político compreende a poder de uma boa história, a anedota que arranca riso, a metáfora reveladora. Uma narrativa forte é, na sua forma mais elementar, um ato de sedução e na maioria das seduções, a emoção e carisma superam a lógica. Os políticos precisam ouvir histórias como forma de acumular conhecimento e refletir sobre as possíveis respostas para as questões que afligem as pessoas. É preciso ouvir e contar histórias para processar o cenário em que as informações são colhidas. E onde e quando se ouve histórias? Todos os dias e por toda parte.

Baseado no livro “A Campanha Permanente e seu futuro”, de Norman Ornstein e Thomas E. Mann, participei de um webinário sobre o tema. Os autores citam o talento do presidente americano Franklin Roosevelt para o uso político contínuo no rádio, e talento de John Kennedy para tirar partido da televisão, em aparições quase diárias, e, a destreza verbal de Bill Clinton, seu intelecto aguçado e a energia para explorar as tecnologias da informação e distribuição de conteúdo a seu favor o tempo todo. Clinton fez campanha como candidato ininterruptamente mais do que a grande maioria das pessoas no país. Ele concorreu com sucesso para advogado geral do estado do Arkansas, disputou seis campanhas para governador e venceu cinco, concorreu e venceu duas vezes à presidência dos Estados Unidos. O que aconteceu em termos de técnicas de campanha e refinamentos durante esse período de Clinton foi a campanha permanente, sem tréguas, sem interrupção do discurso de um para outro mandato.  Mas não é apenas a linha temporal da vida política de Clinton que é relevante para a continuidade das campanhas, é, na verdade, a impossibilidade de se manter homens com o mesmo perfil, agindo de uma forma nas campanhas e de outra, moderados, durante seus mandatos.

O termo “campanha permanente” foi popularizado pelo jornalista Sidney Blumenthal, jornalista, ex conselheiro da Casa Branca, destacando uma mudança na dinâmica do poder político, levando os políticos a envolverem-se em atividades políticas que repercutem no sentimento público ao longo de seus mandatos o tempo todo. Claro que há controvérsia. Os críticos argumentam que há necessidade de uma distinção mais clara entre campanha e mandato, embora não haja como fazer campanha sem vislumbrar o mandato, tampouco estar no mandato e não desejar prosseguir nele. Os candidatos se encaixam em um fluxo contínuo de eventos públicos e os políticos com mandatos os criam e participam desses eventos.

A interpretação mais profunda da realidade e a presença política física são fatores que ajudaram a dar origem a uma ideia defendida de que os políticos devem se envolver continuamente em atividades de campanha para entrar efetivamente dentro dos problemas cotidianos. A teoria sugere que os políticos pós-modernos combinem governança com a necessidade de manter boa movimentação, tratando assim seu tempo no cargo como uma campanha contínua. Isso envolve viagens, participações mais frequentes em eventos de visibilidade nas mídias, além de comunicação contínua com o público.

Qual é o resultado da transformação da política e dos assuntos públicos em um ciclo de campanha de 24 horas por dia? Por um lado, o público é regularmente presenteado com uma imagem de deslocamentos, exposição de conflitos, posições de desacordos, contendas sobre questões políticas e sociais, mais do que se pode ver, pode de fato, quando as câmeras e os microfones estão desligados dentro dos gabinetes.  

Há muita pressão extra e desnecessária

Fui criada em uma cultura que me ensinou que o papel mais importante que eu deveria assumir na vida era ser mãe.  Antes dos vinte anos, casei-me e tive dois filhos. Escrever sobre meus triunfos sem mencionar nenhuma das minhas inúmeras dificuldades com a maternidade seria hipocrisia, porque a maternidade é composta de momentos de profunda alegria e profunda insegurança e cansaço. À medida que o Dia das Mães se aproxima, lembro-me da importância de exercermos a compaixão e empatia com todas as mulheres que tentam desesperadamente conciliar suas próprias deficiências com a mãe que idealizaram e que são cobradas a ser.

Falar de maternidade sincera não é falar de atitudes brilhantes, renúncias recheadas de amor. A beleza da maternidade transcende a estética e se manifesta na força, na resiliência e transformação que a mulher experimenta ao tornar-se mãe. A maternidade é um período de profunda mudança, onde a mulher se reinventa e expande a sua capacidade de amar. Enquanto, a frustração, o estresse, a ansiedade, a dúvida e a sobrecarga são reflexos de uma cultura confusa que ainda não descobriu o quanto a saúde e o bem-estar das mães são essenciais para manter a família toda no eixo.

Assisti um vídeo do pediatra brasileiro Daniel Becker, abordando a complexidade da experiência da maternidade, reconhecendo que nem sempre é um período fácil e prazeroso e que é importante apoiar as mães em seus desafios. Ele compartilha mensagens enfatizando a necessidade de termos um olhar e atitude de empatia quando visitamos uma pessoa que acaba de dar à luz. Ele diz: “Visite a mãe e não bebê. Leve uma refeição gostosa, cuide da criança para a mãe descansar um pouco, lave a louça”.

É preciso muito mais do que esforço esporádico para ensinar os filhos sobre justiça, solidariedade, tolerância e amor, é preciso certa maturidade (não necessariamente, idade) para conseguir conciliar mamadeira, choradeira com a carreira. No Brasil, 2,3 milhões de crianças de até 3 anos de idade não frequentam creches por dificuldade de acesso a vagas num contraditório momento em que uma proporção maior lares são chefiados por mães solo, aqueles em que a pessoa de referência é uma mulher com filho.

A maternidade é difícil, é exaustiva. Mas, é a experiência mais gratificante e incrível que uma mulher viverá. Felizmente, cada vez mais, os pais estão desempenhando um papel ativo na criação dos filhos e nas tarefas domésticas, embora no tempo atual ainda vigore, geralmente, o padrão de maternidade sobrecarregada, esperando que as mães entretenham seus filhos, levando-os de uma atividade para outra, trabalhe fora e cuide da casa, fazendo tudo isso em perfeito equilíbrio.

Porém, não existe uma maneira única de ser mãe, e as narrativas sobre a maternidade perfeita perpetuadas pela sociedade, são profundamente prejudiciais e irreais.

Meu marido era pediatra, havia, portanto, muita pressão para que eu me enquadrasse nos propósitos neonatais que a pediatria ainda hoje espera das mães: a expectativa que as mães amamentem por, pelo menos seis meses.

Minha primeira grande divergência. Não me senti confortável amamentando e interrompi o processo nos primeiros dias, apesar de ouvir e acreditar em todas as alegações do benefício que o ato de amor traria para o bebê, mas eu não superei a tempo o estranhamento à cena e não amamentei nenhum dos dois filhos.

Encerrei o assunto sem culpa e sem julgamentos. Decidimos que nossos filhos jamais, por razão nenhuma seriam castigados. Não foram. Podem aí, considerar-me ter sido uma mãe leniente. Tentei ser uma mãe feliz, não perfeita!