A cegueira do conhecimento

Se existe profundidade é preciso que ela suba à superfície. Porque hoje a superficialidade se impõe à profundidade”, diz o filósofo alemão Peter Sloterdijk, para quem a vida atual não convida a pensar. Precisamos nos renovar sem nos fechar nos modismos.

A humanidade é una e diversa porém, estamos nos mostrando adaptados para agradar, para receber elogios, estamos lendo o que se comenta nos grupos porque pesquisar tem sido até certo ponto, um exercício doloroso de resgate de uma vida, que tornou-se esvaziada pela pressa e pela superficialidade a que estamos submetidos nas práticas diárias. Dos baques sofridos não temos aprendido quase nada. Tomados pela vaidade, deixamos para trás o frescor dos fins de tarde e nos trancamos vencidos pelo cansaço de um dia vivido em colisões frontais por espaço político, para manter uma posição, para manter o relacionamento corroído pela aspereza. Enfim, temos sido aprisionados pela rotina, condicionados à incerteza, a falta de contextualização, de ponderação. Não estamos aproveitando a passagem do tempo a nosso favor.

O sociólogo francês Edgar Morin, numa entrevista disse: “Não ensinamos a compreensão do outro, que é fundamental aos nossos dias, não ensinamos a incerteza, o que é o ser humano, como se nossa identidade humana não fosse de nenhum interesse. As coisas mais importantes a saber não se ensinam”.

Morin, que não se cansa de debater a relação entre a razão e a emoção no pensamento complexo, estamos perdidos, irremediavelmente perdidos. Estamos perdidos e falhamos porque nem todos tem uma casa, um lar, falhamos na proteção do nosso planeta, falhamos porque não fomos capazes de viver integrados o homem e a natureza. A natureza humana está perdida.

Segundo Morin, estamos perdidos e essa pode ser a nossa salvação, se explorarmos as brechas, as frestas por onde entram o ar fresco das metamorfoses que proporcionam as mudanças.

Como disse o poeta T.S.Elliot: “no meu fim, está o meu começo”. Quando um sistema se desintegra dá lugar a um outro. Devemos reformar nossas vidas, abandonar o ciclo artificial onde os valores são reduzidos na ostentação de roupas, cargos, comida, jóias e carros. Para restaurar a natureza do humano é preciso bem mais. É preciso crer na autonomia, conservar a unidade, respeitando a diversidade humana, acreditar que pensar é iluminar caminhos, é validar projetos humanizados, é escolher o melhor, é conhecer os riscos seguir seguro rumo aos desafios.

As necessidades e potencialidades deveriam nos levar a um placar de empate, no entanto, temos negligenciado nossos valores interiores. Não lemos porque tememos não compreender, não estendemos a mão, porque tememos ser tocados, não ouvimos o outro, porque colocamos nossas verdades acima de tudo. Sinceramente?

Se um dia nos fizeram simples, nos afastamos dessa natureza e resgatá-la é o serviço de emergência que vai nos devolver os movimentos vitais. O bem-estar não é apenas material. Devemos mergulhar em nossa profundidade e dedicar tempo às amizades, leituras, pensamento crítico, tolerância e respeito; coisas e sentimentos que habitam o lado profundo da vida e, tão somente, apenas esporadicamente tem emergido à superfície para serem pinçados aqui e ali para nos mostrar que há um mal-estar quando se vive acomodado na superfície, seguindo a moda, o grupo, sem acrescentar contribuição alguma porque você se fez sombra.

Edgar Morin estudou a superficialidade da sociedade contemporânea, o mal-estar de vivermos desapegados da boa educação e da cultura transformadora. Críticas que chamou à atenção da Unesco, que convidou o sociólogo para sistematizar um conjunto de reflexões sobre a cegueira do conhecimento.

Comporte-se como em um banquete

 Em meio aos infinitos pensamentos que percorrem nossas mentes a todo momento perdemos de vista o que mais importa. Ou seja, estar verdadeiramente em sintonia com o presente, desconectar a tagarelice e cobranças incessantes que desarmonizam nossas mentes, sem considere primeiro, o que nossa própria natureza é capaz de suportar.

Quando nos deparamos com turbulências em nossas vidas, desejamos ter um manual para nos guiar, palavra por palavra. Isso é exatamente o que é o Encheirídion ou Manual de Epicteto, um manual para a vida, escrito com apaixonada sensibilidade no século II, por Epicteto. Há 1800 anos, as palavras filosóficas de um escravo pobre e com deficiência física chamado Epicteto foram escritas pela primeira vez. Epicteto nasceu como escravo em 55 EC na atual Turquia. Continuou escravizado na casa de um secretário do imperador romano Nero.

“Das coisas existentes, algumas coisas estão sob nosso encargo e outras não. As coisas sob nosso controle são opinião, busca, desejo, repulsa e, em uma palavra, quaisquer que sejam nossas próprias ações. As coisas que não estão sob nosso controle são o corpo, as posses, a reputação, os cargos públicos e, em uma palavra, tudo o quanto não seja ação nossa”. A citação resume o que é a dicotomia de controle,  a compreensão do que está e do que não está sob nosso controle, um ensinamento filosófico para nortear a vida.

O Manual de Epicteto ensina que não são as coisas em si que perturbam as pessoas, mas os julgamentos que pesam sobre elas. O Manual exalta a liberdade que há no exercício daquilo que está sob nosso controle. Intenções e julgamentos são lindamente livres e irrestritos, por isso devemos colocar nossos esforços nos espaços abertos sobre o quais temos controle e muitas vezes não conseguimos, por falta de tempo e habilidade resolver assuntos que são encargos nossos e ainda, tendemos a nos meter sobre a maioria das coisas que não são da nossa conta. Bastaria que cada um cumprisse bem a sua função.

Uma vida de realização e felicidade é estabelecer domínio sobre as coisas que podemos controlar. “Se você depositar suas esperanças em coisas fora de seu controle, tomando para si coisas que pertencem legitimamente a outros, você estará sujeito a tropeçar, cair, sofrer e culpar deuses e homens. Mas se você focalizar sua atenção apenas no que é verdadeiramente seu interesse, e deixar para os outros o que lhes diz respeito, então você estará no comando de sua vida interior. Ninguém poderá prejudicá-lo ou impedi-lo.” — Epicteto.

O Encheirídion é um manual  cujo ponto central é a lição que embora não possamos controlar tudo o tempo todo, sempre podemos ter um controle firme sobre nossas emoções, não apenas inclui esta lição, mas aplica esse conceito de controle a assuntos mais banais, como aprender a lidar com insultos e com a opinião das pessoas sobre nós. Um ensinamento é que na vida devemos nos comportar como em um banquete; Se um prato que está sendo servido chega até você, estenda a mão, toma a sua parte disciplinadamente. A bandeija não passou por você, não a persiga. Ainda não chegou? Não se desespere de desejo, mas espera que o prato venha até você.

Lido apressadamente e fora do contexto, trechos do livro Enchiridion pode parecer uma referência vaga a nos isolarmos dentro das nossas bolhas, nos entregarmos as limitações da nossa zona de conforto. Não estão na sua bolha e na zona de conforto, suas palavras ofensivas e suas decisões mais destrutivas? Não carregas por onde andas o apego, a aspereza e o vazio desconcertante?

Epicteto completa: “Se você deseja ter paz e contentamento, libere seu apego a todas as coisas fora de seu controle. Este é o caminho da liberdade e da felicidade.”

Podemos tentar melhorar as habilidades sociais e podemos tentar despertar julgamentos e desejos que nos torne mais queridos e respeitados, mas, isso não está sob nosso controle direto. Partes do meu caráter dependem de mim, eu sou a causa das partes indesejáveis contidas nele. Este é um ponto sutil, eu sou responsável pelo meu caráter, não posso colocar a responsabilidade por quem sou nos outros ou em circunstâncias passadas. Portanto, sempre que somos impedidos, perturbados ou angustiados, nunca devemos culpar ninguém, mas apenas a nós mesmos.

É ato de uma pessoa mal educada jogar a culpa nos outros quando as coisas vão mal; aquele que deu o primeiro passo para se educar lança a culpa em si mesmo; enquanto aquele que é totalmente educado não lança culpa nem a outro nem a si mesmo.

Uma fração das histórias de guerras

A enviada especial da Agência das Nações Unidas para Refugiados, Angelina Jolie, visitou dias atrás o Iêmen em uma tentativa de chamar a atenção para as consequências catastróficas do conflito que dura sete anos. Em conversas com famílias iemenitas, incluindo famílias deslocadas e refugiados, Jolie ouviu sobre suas perdas e como o conflito destruiu suas vidas. São pessoas que estão vivendo em abrigos, o conflito fez com que perdessem suas casas, entes queridos, os meios de subsistência e arruinou o futuro de seus filhos.

Jolie é a enviada especial para refugiados desde 2011. O trabalho da atriz tem sido dar voz aos refugiados e em audiência com autoridades locais, pediu que todas as partes envolvidas na guerra evitem atingir civis e garantam acesso humanitário desimpedido a todas as pessoas necessitadas e passagem segura para civis para fugir de áreas de conflito. Com autoridade de quem fala pela ONU, o apelo da atriz pode resultar em demonstração de compaixão e solidariedade internacional.

Viver em um campo de refugiados impacta a vida das pessoas, dificulta muito a vida das mulheres e crianças, que são a maioria da população deslocada. Jolie passou o dia internacional da Mulher entre os refugiados e desabafou ao deixar o país, três dias depois dizendo: “o nível de sofrimento humano aqui é inimaginável. A cada dia que o conflito brutal do Iêmen continua, mais e mais vidas inocentes são perdidas e mais pessoas continuarão a sofrer. Vivemos em um mundo onde o sofrimento e o horror dominam as manchetes, que precisa urgentemente de uma solução rápida e pacífica para este conflito e para outras pessoas deslocadas, quem e onde quer que estejam no mundo.”

Em todo o mundo, o número de pessoas deslocadas, a maioria devido à guerra, atingiu um recorde. Em outras palavras, as mortes em batalha podem ter diminuído, mas o sofrimento devido ao conflito não. São mais de 80 milhões de pessoas deslocadas em todo o mundo, A guerra da Síria causou mais de 11 milhões de casos de migração forçada, dos quais 5,6 milhões de sírios são hoje considerados refugiados. A República Democrática do Congo tem o maior número de pessoas deslocadas no continente africano, com quase 6 milhões de pessoas forçadas a deixar suas casas por causa dos vários conflitos  e cerca de 4 milhões de pessoas podem fugir da Ucrânia.

As mortes em combate é uma fração da história das guerras. Não se dimensiona o horror de uma guerra pelo número de mortes que ela causa. Há conflitos que matam principalmente mulheres e crianças pequenas, devido à fome e doenças evitáveis​, há combates que não acarretam milhares de mortes, mas afastam milhões de pessoas de suas casas e o êxodo de refugiados causa devastação humanitária, com crianças desnutridas morrendo de fome e sede.

Uma entidade que monitora conflitos em todo o mundo elaborou no começo deste ano uma lista de dez conflitos internacionais que precisam receber atenção internacional. Entre os listados, estão Iêmen, Etiópia, Sudão e Mianmar, Ucrânia, etc… A `Crisis Group` colocou a Ucrânia no topo da lista, por entender que há riscos específicos na Ucrânia que fazem desse conflito uma ameaça à segurança global, mesmo que os números de mortos e pessoas em grave situação humanitária sejam menores do que em outras partes do mundo, que é a possibilidade (não assumida pelas autoridades) de ataques nucleares.

Com quase vinte anos de progresso nos campos econômicos e sociais, a Ucrânia pode ter um terço da população vivendo abaixo da linha da pobreza e 62% poderão cair na pobreza, segundo dados do PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento). A população fragilizada pela guerra poderá viver traumatizada pela queda alarmante do padrão de vida pós guerra. 

A luta feminina por justiça, igualdade e respeito

O Presidente Jair Bolsonaro diz que as mulheres hoje estão ´praticamente´ integradas à sociedade, em evento comemorativo ao Dia Internacional das Mulheres. Bolsonaro tem uma filha, concebida numa ´fraquejada`.

Para o Presidente Bolsonaro a resposta vem de um trecho do discurso da deputada constitutinte em 1934, Carlota Pereira de Queirós: “Sou a única representante feminina nesta Assembleia e sou, como todos que aqui se encontram, uma brasileira,´ integrada´ nos destinos do seu país e identificada para sempre com seus problemas.”

O procurador-geral da República, Augusto Aras homenageou as mulheres limitando-as a seres cujos prazeres são escolher sapatos e esmaltes. Aras tem uma filha. Ao Aras não respondo porque não encontrei estudos ou textos que tratem concomitantemente de sapatos e esmaltes.

Em Mato Grosso, dois presidentes de Câmaras Municipais deram show de arrogância e violência política contra mulheres. O presidente da Câmara de Indiavaí impediu a realização de uma Sessão Solene para homenagear mulheres, requerida pela vereadora Rhillary Milleide, uma jovem de apenas 21 anos.

A vereadora não se calou, expôs o ocorrido e recebeu apoio do estado inteiro. Bem próximo dalí, na mesma região do estado de MT, no município de Araputanga, a vereadora mais votada do município, Sandra Ferreira, passou por constrangimento igual. O presidente da Câmara negou-lhe a instalação da Sessão para homenagear mulheres da cidade. Mulheres que tiveram suas prerrogativas cerceadas pela truculência masculina dos colegas.

Não são falas e atitudes ao acaso. Convenhamos, a forma como nos  expressamos, revela nossas crenças, verdades que contruímos ao largo da nossa jornada, verdades íntimas, por isso preocupa os fatos e falas que permearam as comemorações do Dia Internacional das Mulheres, logo após a indesculpável fala sexista e agressiva do tosco deputado Arthur do Val sobre as mulheres ucranianas.

Se você pessoalmente não sente nenhuma discriminação, se todos os homens ao seu redor lhe tratam como igual, dando-lhe oportunidade de boa posição, salário igual dos homens, se não a interrompem quando está falando, se não reparam enviezados o vestido justo, o decote, parabéns!  Mas o Dia Internacional da Mulher  não é sobre você individualmente, é sobre mulheres de todos os lugares, que sofrem violências em suas formas múltiplas.

É uma data que desde a sua concepção, em 1910 carrega em si o ideal pelo protagonismo feminino, quando a feminista alemã Clara Zetkin propôs a ideia do Dia Internacional das Mulheres para mais de 100 mulheres trabalhadoras representantes de 17 países, em uma Assembleia realizada na Dinamarca, ela propôs um dia para as mulheres pressionarem o poder público, privado, a sociedade, em geral por suas demandas. A conferência aprovou por unanimidade a proposta mas a ONU institucionalizou a data somente em 1975.

Vês? a luta é antiga e desde o início foi forjada para ser de cobranças de demandas, de alerta e prontidão para denunciar e avançar. E sem desconsiderar qualquer avanço, que claro, são imensuráveis e bem vindos, é preciso manter a militância sim, é preciso cotas para as candidatas mulheres ingressarem na política. O aumento da presença de mulheres eleitas se deve principalmente à adoção de cotas eleitorais de gênero.

Os ataques contra as mulheres políticas geralmente se intensificam e tornam-se mais visíveis à medida que o período eleitoral se aproxima. Então, o momento é de vigilância e solidariedade, é momento de apontar as injustiças, cobrar reparações e admitir que ainda serão necessárias muitas intervenções para que genuinamente se torne possível criar um ambiente de diálogo e respeito entre homens e mulheres.

Isso não é literatura, é bruxaria

  • Eu antes era uma mulher que sabia distinguir as coisas quando as via. Mas agora cometi o erro grave de pensar.

A literatura é uma das mais importantes fontes de estudo que nos leva a compreensão de um determinado momento histórico, a literatura nos auxilia a resgatar a história da mulher e esclarecer a condição feminina na sociedade numa determinada época e seus reflexos nos anos futuros.

Neste mês de março, às vésperas do Dia Internacional da Mulher, considero um momento propício para homenagear uma muher ucraniana, naturalizada brasileira, “uma feiticeira glamourosa, um nervoso fantasma que assombra a literatura brasileira.” Clarice Lispector nasceu em 1920 numa família judia na pequena cidade de Podolia, oeste da Ucrânia. Durante a guerra civil que se seguiu à Revolução Bolchevique, seu avô foi assassinado, a casa de sua família destruída e, pouco depois, sua mãe, já com dois filhos pequenos, foi violentada por soldados russos e infectada com sífilis. A família Lispector juntou-se aos refugiados que cruzavam a fronteira tentando fuga para outro continente.

Vieram para o Brasil. Desembarcaram no estado de Alagoas em 1922. O pai, um professor de matemática foi reduzido a vendedor ambulante de roupas usadas. Aos nove anos, Clarice perdeu a mãe e o pai proclamou que estava determinado a mostrar ao mundo o tipo de filhas que ele tinha. Estudou, formou-se em Direito e antes dos 20 anos, perdeu o pai. Aos 23 anos publicou seu primeiro romance, registrou-se como jornalista e começou a escrever para jornais.

Tudo em Clarice Lispector parecia magnético: sua beleza, a fama precoce, o status de ícone na literatura brasileira, suas paixões e máscaras, as explosões inevitáveis e sua trágica história familiar. Em 2016 ganhei o livro “Todos os Contos”, um grosso volume de 654 páginas, onde pude perceber uma mulher de contradições assustadoras, o retrato complexo da escritora e a dor de cabeça de estar muito à frente de seu tempo. A escritora é livre das amarras sociais, mas mergulha no desassossego da falta de sentido de quase tudo e parece concluir que a vida incomoda e que a sua alma não cabe no seu corpo.

 A leitura é viciante, como alertou certa vez um amigo da escritora: “Cuidado com Clarice, ela é uma experiência emocional muito forte. Isso não é literatura. É bruxaria”.

Certa época, surgiu comentário que Clarice era por muitos, tida como uma mulher alienada das questões sociais brasileiras. No entanto, em sua biografia lê-se que ela foi fichada no governo Dutra e depois novamente, durante a ditadura militar de 1964 por como jornalista, continuar dando espaço e entrevistando personagens marcadas como “comunistas” pelo regime. Quando escreveu “A hora das estrelas”, imprimiu um tom de denuncia à miséria e a falta de tudo no Nordete da época.

A personagem Macabéa, nordestina, tão sem nada, que nem corpo tinha para vender.  “Sei que há moças que vendem o corpo, única posse real, em troca de um bom jantar em vez de um sanduíche de mortadela. Mas a pessoa de quem falarei mal tem corpo para vender, ninguém a quer, ela é virgem e inócua, não faz falta a ninguém. Aliás – descubro eu agora – eu também não faço a menor falta, e até o que escrevo um outro escreveria. Um outro escritor, sim, mas teria que ser homem porque escritora mulher pode lacrimejar piegas”.

Clarice vai emprestando aos personagens suas aflições e desabafos: “Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar para mim na terra dos homens.” “E como nasci? Por um quase. Podia ser outra. Podia ser um homem. Felizmente nasci mulher. E vaidosa. Prefiro que saia um bom retrato meu no jornal do que os elogios. Tenho várias caras. Uma é quase bonita, outra é quase feia. Sou um o quê? Um quase tudo!. Hão de me perguntar por que tomo conta do mundo: é que nasci assim, incumbida”.

“Experimentei quase tudo, inclusive a paixão e o seu desespero. E agora só quereria ter o que eu tivesse sido e não fui.”  Morreu em 1977, aos 56 anos.

*Clarice Lispector

Não sejamos guiados como ovelhas

2022 – ano de eleição e não há hora melhor para exercitarmos nossa liberdade debatendo temas políticos e outros temas que interferem nas boas práticas políticas. Estamos diante de um círculo eleitoral, que é um dos mais divididos que vimos na história recente do país, com um presidente altamente polarizado concorrendo à reeleição, uma pandemia viral que vem há mais de dois anos causando estragos em todo o país. Em tempo tão polarizado é tentador recuar, silenciar.  Mas ensina-nos o ex-presidente americano George Washington que: “Se a liberdade de expressão nos é retirada, então mudos e silenciosos, podemos ser guiados, como ovelhas para o matadouro.”

É preciso ter personalidade para dizer o que se pensa. E personalidade não é um dom, não tem nenhum caráter romântico ou naturalista. É sim, a soma do sentido da vida, dos valores desenvolvidos durante a trajetória, construídos com profunda e sincera humanidade. Pensar igual ou diferente, alinhar-se do mesmo lado ou em campo oposto, em qualquer área da vida diz muito sobre respeito à compreensão do homem que quer ganhar clareza sobre si, sobre seu tempo e seus contemporâneos.

O objetivo das discussões não é mudar a mente das pessoas e sim, fazer com que as pessoas aceitem os pontos de vista umas das outras de maneira civilizada. Se quero ser vista e ouvida, também tenho que ver e ouvir os outros. É assim que o verdadeiro diálogo começa. Se eu falar civilizadamente, provavelmente serei ouvida e receberei respostas civilizadas. Ouvir o que pensa o outro diz muito sobre ir modelando a vida, como se fosse uma obra de arte e não apenas defender nossas próprias crenças, sobre isso ensina-nos o ex-primeiro ministro Winston Churchill: “o conceito de liberdade de expressão de algumas pessoas é que elas são livres para dizer o que quiserem, mas se alguém disser algo em resposta, isso é uma ofensa.”

Há uma pesquisa produzida pelo Instituto Avon, em parceria com o Coletivo Papo de Homem, intitulada “Derrubando muros e construindo pontes: como conversar com quem pensa muito diferente de nós”, Em temas considerados delicados, como: gênero, a grande maioria afirma que o principal obstáculo é o tom agressivo e as frases prontas que permeiam essas conversas, as pessoas, em grau menor sentem-se com a sensação de contribuição para o debate, embora também reconheçam que o nem sempre é possível estabelecer um ambiente acolhedor para essas conversas.

Para qualquer lado que viremos a chave da discussão, esbarramos na polarização, nas fakes news e muitos seguem acreditando naquilo que lhes agradam e desacreditam por completo verdades ditas por pessoas com as quais não compartilham a ideologia política. Outras pessoas, quando percebem que a conversa está encaminhando-se para um ambiente de vigorosa discórdia, passam a concordar com a argumentação emocional do outro, para evitar a discussão.

O diálogo com quem pensa diferente deve ser fundamentalmente baseado no respeito, isso deveria bastar para que duas pessoas que jamais sentariam numa mesma mesa, tivessem um diálogo interessante. Mas, lamentavelmente, uma das conclusões da pesquisa é que 8 em cada 10 pessoas sequer tentam conversar com quem pensa diferente.

É certo que não estamos o tempo todo construindo pontes ou fechados entre muros, grande parte do tempo, estamos em trânsito, ouvindo, falando com as pessoas, inclusive com as que estão fechados entre muros, ampliando e moldando as bases das nossas crenças. É preciso ler muito, fortalecer os argumentos com fatos e filosofia, é preciso reconhecer e manter como elemento saudável, a contradição e as dúvidas. Estamos em constante fluxo, aprendemos e evoluímos todos os dias.

O número de Dunbar

Estudando a amplitude dos relacionamentos que conseguimos manter com os mais diversos tipos de pessoas, fiquei precupada em saber quantas dessas pessoas sou capaz de efetivamente amar, de nutrir algum tipo de sentimento como amizade, gratidão, lealdade, com quantas construo e compartilho uma história pessoal, com vínculos que valem a pena serem preservados. Penso que precisamos encontrar um equilíbrio entre a quantidade dos relacionamentos e o nível de intimidade que desenvolvemos com as pessoas envolvidas. É extremamente difícil chorar em um ombro virtual.

Por meio de estudos com primatas não humanos, o antropólogo britânico Robin Dunbar concluiu que o tamanho do neocórtex, parte do cérebro associada à cognição e à linguagem está vinculado ao tamanho de um grupo social coeso com o qual conseguimos nos relacionar. Em um estudo de 1993, Dunbar aplicou esse princípio aos seres humanos, examinando dados históricos, antropológicos e psicológicos contemporâneos e teorizou que os humanos não poderiam ter mais do que cerca de 150 relacionamentos significativos simultâneos, uma medida que ficou conhecida como número de Dunbar.

O número de Dunbar se aplica a relacionamentos de qualidade, amizades significativas não a conhecidos que representam as camadas externas mais casuais de nossas redes sociais. 150 é o número de pessoas com as quais mantemos uma relação com pouca ou nenhuma reserva, com uma história de vivências passadas em comum e algum nível de intimidade. Essas são as pessoas com as quais procuramos manter contato, em cujas trajetórias de vida temos um interesse maior. São pessoas com as quais recíprocamente trocaríamos ajuda.

Os indivíduos não dão peso igual a cada relacionamento e as evidências da hipótese do cérebro social sugerem que nosso círculo social mais fechado é formado por apenas cinco pessoas, que são os entes realmente queridos. Devemos acumular apenas 15 bons amigos, 50 amigos, 150 contatos significativos, 500 conhecidos e 1500 pessoas que você pode reconhecer de um evento ou outro. Dunbar diz que o que determina a camada de afeição na vida real é a frequência com que vemos as pessoas.

A maioria das relações são temporais e quando um novo amigo é feito, normalmente um antigo provavelmente será abandonado para equilibrar as relações. Quando as pessoas têm mais de 150 amigos, as relações excedentes geralmente são fugazes, pois o estudo considera que não é possível ter intimidade com número grande de pessoas. E, de acordo com ele, se um grupo exceder 150 pessoas, é improvável que o agrupamento dure muito tempo ou seja harmônico.

Há uma verdade implícita nos números de Dunbar que considero fazer muito sentido. Se nos dedicamos a construir relações sólidas, buscando informações sobre as pessoas, destinando-lhes tempo para mensagens e visitas, estes relacionamentos tornam-se melhores, mais significativos, por outro lado, isso provavelmente também limita o número de relacionamentos saudáveis e verdadeiros que conseguimos ter. Até mesmo na internet, é mais fácil ter relacionamentos mais sólidos quando temos menos contatos para dar atenção. E alguns relacionamentos deixamos morrer porque nos custa muita energia para mantê-los. No final, faz sentido que haja um número finito de amigos com os quais possamos compartilhar amorosamente nossa caminhada.

Evidentemente os números representam uma média e contextualidos o tempo, o alcançe incrível das mídias sociais, as contestações de alguns pesquisadores sem contra provas contundentes. A teoria de Dunbar tem quase 30 anos e  os jovens que nunca conheceram a vida sem internet, podem entender que as relações digitais são tão significativas quanto as presenciais.

*Robin Ian MacDonald Dunbar é um antropólogo e psicólogo evolucionista britânico, especialista em comportamento de primatas, é chefe do Grupo de Pesquisa em Neurociência Social e Evolutiva do Departamento de Psicologia Experimental da Universidade de Oxford.

Sofrendo tanto, poucas chegam tão longe

Na edição de 2021 do Women Map of Women in Politics, os dados mostram recordes históricos para o número de países com mulheres Chefes de Estado, bem como para a parcela de mulheres escolhidas como ministras. As mulheres ministras, no entanto, continuam a dominar pastas que cobrem assuntos sociais, assuntos da mulher e igualdade de gênero, educação. Dada a evidência de que as mulheres políticas são geralmente mais propensas do que os homens a apoiar pautas sociais e não apenas isso.

Um longo caminho a percorrer.

Lei que garanta a representação das mulheres na política existe, mas a necessidade das mulheres na política não é reconhecida e nem sempre apoiada pelos homens que dominam o cenário. Segundo o pesquisador, doutor em demografia, José Eustáquio Alves, a dificuldade para se alcançar a paridade de gênero na política não é culpa do eleitor, que elegeu e reelegeu Dilma Rousseff presidente, mas sim, dos partidos políticos, que criam barreiras para viabilizar candidaturas femininas.

É essencial que a mulher que ocupa um espaço de poder, abra caminho para outras entrarem.

Apesar de representarem mais de 51,8% da população e mais de 52% do eleitorado brasileiro, mulheres ainda são minoria na política. No Brasil, cumprindo o mandato de governadora há apenas uma mulher, Wilma de Faria, no estado do Rio Grande do Norte. Nos 89 anos em que as mulheres conquistaram o direito de serem eleitas sómente 6 Estados brasileiros já elegeram mulheres governadoras. A primeira eleita foi Roseana Sarney há 28 anos. Das 5.570 prefeituras apenas 658 cidades brasileiras são comandadas por mulheres desde janeiro de 2021. Dos 141 municípios de Mato Grosso, apenas 15 são comandados por mullheres.

A violência política contra as mulheres ser crime previsto em lei que tramitou demoradamente na Câmara e foi aprovada por unanimidade no Senado, sancionada pelo Presidente Bolsonaro desde o ano passado, proibindo a discriminação e a desigualdade de tratamento por gênero, raça em todos os espaços de representação política. Segundo a Agência Senado, a lei proibe obstaculizar ou restringir os direitos políticos das mulheres, não apenas durante as eleições, mas no exercício de qualquer função política ou pública. Também serão punidas práticas que depreciem a condição da mulher ou estimulem sua discriminação em razão do sexo feminino ou em relação a cor, raça ou etnia. 

Não basta serem chamadas de guerreiras, determinadas, com mais sensibilidade do que os homens. Na prática, na busca ou no exercício de seus direitos políticos, as mulheres continuam enfrentando humilhações, piadas sexualizadas, insultos, rumores sobre sua vida privada, aparência, sofrem exclusão, constantes interrupções nos debates legislativos e não são igualmente acudidas pelo financiamento com o fundo partidário para suas campanhas eleitorais.

Ao ler sobre a luta das mulheres para ocupar espaço político, sobretudo quando são ativistas nas causas incômodas aos poderes autoritários, levou-me a conhecer a história recente da jovem mexicana Elisa Zepeda Lagunas, 37 anos, defensora dos direitos e da participação das mulheres nas decisões do governo local. Foi a primeira prefeita do município de Eloxochitlán de Flores Magón, no distrito de Oaxaca e deputada para o Congresso Estadual de Oaxaca.

Na caminhada sofreu todo tipo de violência política. Ao destacar-se na organização de manifestações, em 2014 foi alertada pela administração municipal que as mulheres não deveriam participar da vida pública, nem ocupar-se de fazer denúncias. Ao participar de uma assembleia política, a casa onde estava sofreu uma emboscada por alguns homens da administração municipal.

No ataque, assassinaram seu irmão, feriram sua mãe, Elisa teve o carro e casa queimados.  Foi levada pelos agressores, torturada, deixada para morrer. Não morreu. Fotografou-se banhada em sangue e enviou a foto com pedido de socorro para ativistas dos direitos humanos, procuradoria do estado, autoridades nacionais. Uma comissão de inevestigação foi instaurada e os autores do crime foram condenados à prisão. Recebeu proteção do estado e isso permitiu que ela continuasse com seu ativismo.

Quando chegou a eleição municipal, pela primeira vez a população local escolheu uma mulher. Elisa foi eleita o correspondente ao cargo de prefeita, em 2016. Em 2018 candidatou-se ao Congresso Estadual de Oaxaca e elegeu-se deputada. Em campanha pela reeleição este ano, desistiu! Carros estranhos foram flagrados fazendo campana nas proximidades do comitê e os agressores que foram presos em 2014, foram colocados em liberdade.

Aqui muito se tentou, pouco se fez

Aqui muito se tentou, pouco se fez… a inteligência é minguada*

Os políticos afinam seus discursos, os dirigentes partidários saem a campo a procura de outsiders, de preferência com discurso de exaltação da ética e da honestidade para disputar as eleições de outubro próximo. Essa estratégia, contudo, é centenária e foi assim na busca de um nome fora das oligarquias que dominavam a política no interior de Alagoas, que um dos maiores escritores brasileiros elegeu-se prefeito.

Em 1927, a cidadezinha de Palmeiras dos Índios elegeu seu mais famoso prefeito, Graciliano Ramos de Oliveira, o escritor de renome mundial autor de obras como,  Vidas secas e Memórias do Cárcere, entre muitas outras.

Administrativamente, o município de Palmeiras dos Índios, no agreste alagoano, não ia bem, precisava de mudança. Graciliano Ramos, relutou e por fim aceitou concorrer convencido por amigos de diferentes grupos políticos que apostaram na sua honradez. Aceitou o desafio não sem antes disparar contra os que duvidaram dele: “Apareça o filho da puta que disse que eu não sabia montar em burro bravo!”

Não participou da campanha eleitoral, não fez promessas, não se envolveu em articulações políticas para a escolha dos vereadores mesmo ciente que Palmeira dos Índios não fugia do padrão das cidades pequenas e pobres do agreste, onde o poder dos fazendeiros se sobrepunha ao interesse coletivo e os figurões afrontavam as leis vigentes. Graciliano Ramos foi eleito no pleito de 7 de outubro de 1927. Não teve adversário.

Sem se amedrontar com os poderosos, começou a cobrar o cumprimento das leis, negando favores aos políticos tradicionais da região. Cobrava resultados dos auxiliares e impaciente substituia ocupantes de cargos de confiança que não cumprissem horário e as ordens do prefeito, sem considerar o parentesco com seus apoiadores.

Proibiu a movimentação de gado, cavalos, porcos pelas ruas, muitos propretários insistiam na prática. O prefeito ordenou que todos os bichos encontrados nas ruas fossem recolhidos e o propretário, multado. Ao saber que seu pai, Sebastião Ramos, não acatara a ordem, mandou o fiscal multá-lo. Magoado, o pai veio reclamar com o filho prefeito. Alarmado ouviu de Graciliano que “prefeito não tem pai” e que mandaria apreender os animais toda vez que fossem deixados soltos na rua.

Em outro episódio, Graciliano demitiu seu secretário de Finanças ao desconfiar de sua lisura no cuidado com os cofres do município. O secretário era o irmão do vice-prefeito, que imediatamente foi até o prefeito reclamar da exoneração e dizer que, se o irmão saísse, ele sairia também. O escritor não se abalou e continuou a governar sem vice-prefeito.

Se de um lado a sua postura desassombrada contrariava interesses das oligarquias, por outro ganhava a simpatia da gente comum, pelas obras realizadas, construção de escolas, estradas, nas quais utilizava a mão de obra dos presos.

Ao fim do primeiro ano de mandato Graciliano escreveu no relatório de prestação de contas: “Dos funcionários que encontrei restam poucos: saíram os que faziam política no trabalho e os que não faziam coisa nenhuma”. Os relatórios sobre as contas de Palmeiras dos Índios chamavam a atenção do governador, pela austeridade nos gastos relatados e pela escrita inusitada, que narrava a situação do município e dos moradores com bom humor e ironia.

A administração de Palmeira dos Índios começou a figurar como um exemplo de trabalho e honestidade, o que colocou o município em uma situação de destaque e  levou o governador a convidar Graciliano Ramos para assumir a chefia da Imprensa Oficial do Estado.

Dois anos após tomar posse, Graciliano Ramos aceitou o convite do governador, renunciou à Prefeitura de Palmeira dos Índios em 30 de abril de 1930, para assumir a Imprensa Oficial do Estado, em Maceió. As pessoas que tiveram seus interesses contrariados comemoraram a sua saída da prefeitura. Tempo depois, Gracialiano Ramos foi nomeado o equivalente a Secretário de Educação do Estado de Alagoas.

Palmeiras dos Índios é hoje o quarto maior município de Alagoas.

*frase de Graciliano Ramos num dos relatórios de prestação de contas enviados ao governador de Alagoas.

Uruguai – caso de sucesso na educação

Entrando no segundo mês do ano de 2022, o mundo da educação está em um momento crucial. A pandemia continua a atrapalhar o aprendizado diário das crianças em todo o país, trazendo ansiedade e incerteza para o início de mais um ano letivo.  

Parece que é impossível recuperar tudo o que foi perdido em termos educacionais nos  últimos dois anos  e a pergunta de um aluno do Centro de Educação Unificado Casa Blanca, em São Paulo, para a sua professora ecoou como um grito de socorro para que a escola fique aberta. “Professora, demora muito a hora da janta? Na minha casa não tem gás, então de manhã eu só comi bolacha”. A pergunta do aluno é a constatação de que a merenda distribuída pelos governos, sobretudo municipais, é grande aliada no combate à fome e no desenvolvimento da criança, que também têm acesso ao lazer e serviços de saúde por meio da escola. 

Profissionais da educação do Banco Mundial e UNICEF fizeram um estudo sobre as reais possibilidades de se reverter as perdas educacionais ocasionadas pela pandemia, conforme o esperado, mostram que o impacto da pandemia no aprendizado dos alunos do ensino fundamental e médio é muito significativo, deixando os alunos em média cinco meses atrasados ​​em matemática e quatro meses atrasados ​​em leitura, por ano letivo. A pandemia inegavelmente acabou atingindo mais duramente os alunos historicamente desfavorecidos, que não conseguiram acessar a internet o tempo necessário, ou tempo algum.

O Uruguai é a história de sucesso na análise do Banco Mundial. O país se adaptou rapidamente ao ensino digital e em plena pandemia as crianças uruguaias continuaram a aprender, sem interrupção. Eis a razão: Nos últimos dez anos, o governo uruguaio investiu maciçamente em infraestrutura escolar, conteúdo digital e capacitação de professores, montou centros de suporte digital de última geração para as escolas, deixando o país bem preparado para migrar para o ensino online quando as salas de aula fechassem. Implementou a política de “um laptop por criança” e criou até uma agência estatal para atender as demandas da educação digital.

Quando as escolas fecharam, o governo conseguiu responder rapidamente distribuindo material digitalmente e personalizando o ensino remoto para o nível de aprendizado de cada aluno. Resultado do investimento? 98% dos alunos usam a educação remota regularmente, inclusive nas áreas rurais.

De modo geral o que os pesquisadores constataram foi a realidade de professores que desconheciam atividades digitais básicas, governos que não investiram em  infraestrutura digital para apoiar o aprendizado online, o que ocasionou as perdas educacionais e negou às crianças a possibilidade de se manterem em contato com colegas de classe e professores. Embora a aprendizagem digital não produza os mesmos resultados que a educação presencial, o investimento governamental em tecnologia usada de forma eficaz e includente pode preencher as lacunas educacionais e evitar a perda de aprendizado, como ocorreu no Uruguai.

Na maioria dos lugares, os sistemas educacionais tiveram que lidar com fechamentos de escolas, com acesso desigual às ferramentas de tecnologia, fundamentais para o ensino à distância. Ao mesmo tempo, houve muita discussão e observação sobre os danos sofridos pela educação de crianças e adolescentes, consequencia do distanciamento duradouro dos alunos com o ambiente escolar, acumulado desde o ano de 2020.

A questão central agora é investir na recuperação do aprendizado, olhar para o país vizinho e usar a experiência da pandemia como um catalisador para melhorar a educação de modo geral.