A dificuldade de criar consensos e a estabilidade de pequenos acordos

O tempo não precisa ser perdido alimentando ressentimentos. O segredo é manter os pés em movimento até que a paisagem mude, porque nenhum sentimento ou posicionamento é definitivo. Li um poema do poeta austríaco Rainer Maria Rilke que diz que nenhum sentimento que temos é permanente. Nem o pavor paralisante de uma derrota nem a euforia de uma vitória. Tudo passa. A alegria e a tristeza e tudo o que há entre elas. Cada sofrimento, cada luta logo se transforma, por isso nenhuma experiência isolada, nenhum posicionamento deve definir a sua vida inteira. “Deixe tudo acontecer com você: a beleza, o terror, a dor, a surpresa. Apenas continue.”

A  vida implica convivência, envolve sentimentos e sofrimentos. A vida pede sentido. A vida é finita.

Embora não exista uma sociedade plenamente consensual, o esforço para criar consenso não significa eliminar o antagonismo, tão necessário para nosso crescimento pessoal, basta ter compromisso com a escuta de contextos adversos. Porém, temos vivenciado que o diálogo contemporâneo tem sido tensionado por conversas que não buscam o reconhecimento das diferenças, a convivência pacífica com o desacordo, busca sim, mobilizar ressentimentos, medos e desconfianças.

Veremos que os desafios do ano novo não são novos; estamos há quase 10 anos mergulhados em dissenso, promovendo o esvaziamento do convívio público com muitas pessoas, envoltos em diálogos assimétricos, onde a maioria fala a partir de seus próprios conceitos e privilégios, enquanto deveríamos reconhecer a legitimidade do outro como interlocutor, mesmo que seja de ideais que nos desafiam.

Muito de nossos pensamentos e emoções não são baseados e nem sequer reflexos de fatos que estão acontecendo, são mais, ruídos de crenças e histerias.

Falamos em apostar mais no diálogo, porque o consenso sempre causou desconfiança e desconforto aos estudiosos, como a belga Chantal Mouffe, uma crítica, que acredita que busca cega pelo consenso pode calar a diversidade, alongar a conformidade e para ela a pluralidade de ideias deve estar acima da perseguição de um estilo de vida consensual. Sem consenso, porém abraçando cada movimento, cada tempo com harmonia, valorizando o diálogo, com respeito a expressão da vontade do outro. Se não alcançamos o consenso, que saibamos viver com a estabilidade de pequenos acordos.

Enquanto o consenso tem caráter exigente e distante, quase uma ficção, o diálogo possível não precisa levar a concordância, mas a possibilidade de coexistência com o conflito, com o desacordo e com as diferenças.

Em 2026, ano de eleições gerais vozes dissonantes vão ecoar por toda parte do país para falar sobre política. Lembremos que a política é mantida pela ação e palavra de pessoas que pensam diferentes, comungam crenças diferentes, o que torna o diálogo mais importante do que os acordos. O dialogo sem ruído, pressa e julgamento ganha força por promover consensos temporários, revisáveis, indispensáveis numa campanha política e na vida social, onde temos falado muito e escutado pouco e nos fechado em certezas próprias, para evitar desilusão. Novamente, o poeta: “Deixe tudo acontecer com você: a beleza, o terror.  Apenas continue.” E as desilusões vão ficando para trás.

Ainda que não nos reconheçamos como partes de um projeto de vida comum, que tenhamos disposição para conviver com as diferenças de gênero, raça, cultura, religião e modo de vida, porque as diferenças se não são absorvidas podem ser retratadas, não como parte da pluralidade e sim, como ameaças, que abrem caminhos para discursos de ódio, posições autoritárias e idolatria.

O desafio é grande, os espaços digitais, que são ferramentas essenciais para construir e reconstruir vínculos se tornaram, muitas vezes, arenas de debates irresponsáveis e normalização do divisionismo.  Se não há como evitar as mídias sociais, passemos a utiliza-las em convivência respeitosa.

Quando o debate vira entretenimento, o essencial desaparece

No livro 1984, o fabuloso George Orwell, ensina que “enquanto as pessoas discutem detalhes insignificantes sobre um tema, deixam de perceber que o essencial está sendo decidido sem elas.” É uma forma eficiente de controle político desviar para a superficialidade as discussões e campanhas públicas e políticas. Tem-se falado muito para evitar falar sobre o essencial, que são as denúncias de corrupção, do índice absurdo  de feminicídio, da falta creches, das obras inacabadas. Em meio a tantas prioridades, no estado, na capital do estado e no país é inaceitável que se cobre alinhamento político a um par de chinelos mais do que se cobre políticas públicas de proteção às mulheres.

Hannah Arendt, ao analisar os regimes totalitários mostra enfaticamente como a política perde a importância quando o debate público é substituido por ruídos e banalidades.’ Quando os fatos deixam de importar, qualquer tema irrelevante é jogado no centro de um debate só para ocupar espaço na mídia. Tem-se falado muito de coisas que não ameaçam o poder e tampouco lhe acrescenta coisa alguma. Desvia-se o debate sobre problemas sérios para criar conflito e para tranformar a política em espetáculo.

Resistir a divisão e a espetacularização da política é um exercício de maturidade democrática. Sabemos todos que os chinelos nunca foram alvos da discussão, seu entorno, sim; os bilionários Moreira Salles que detém a marca e as ligações e preferências saudáveis por certos artistas. Isso não tira da empresa o símbolo do estilo de vida brasileiro, alegre, colorido, despojado e as propagandas, além de focar em vender chinelos, quase sempre têm mostrado a pluralidade cultural, social e simbólica do país, o que via de regra, provoca identificação com aquela ideia de que todo mundo usa.

Nem tudo na vida resvala na politica, nem tudo reflete o pensamento raso de quem se divide, no clássico: eu estou de um lado, eles estão do outro. As pessoas adultas seguirão caminhando com o pé direito e esquerdo, ou dando ‘seus pulos’ com os dois pés para sobreviver.

A política não precisa ocupar todos os vazios da experiência humana; temos família, amigos, celebrações, estudos, conversas triviais que não precisam estar impregnadas de manifestação política. Em tempo de incompreensão, é preciso abrandar a radicalização; discordar sem hostilizar, debater sem desumanizar e reconhecer que a identidade de marcas e de pessoas  não se esgota em suas posições políticas e que a linguagem do pensamento crítico não é o ódio. As pessoas precisam de espaço para existir sem ter que tomar partido e se posicionar ou dar explicações o tempo todo.

No sentido figurado,  o excesso de enquadramentos divisionistas e polarizados está causando um profundo cansaço, a convivência cotidiana está se tornando tensa e o ano eleitoral que se aproxima promete deixar de ser apenas um tempo de debate mas um contexto de redução de diálogo e apostas no conflito.

Em tempo de preparação para as eleições de 2026, a ideologia política não deve assumir esse caráter doentio, essa devoção, porque mais do que falar bem ou mal de uma marca, o que percebemos foi o culto nada saudável aos políticos que alimentam a divisão, a polarização e acabam levando os seguidores a se afastarem dos princípios básicos de  respeito e empatia. Sem discussões e paranoias, há outras marcas de chinelo no mercado. Ninguém se importa se você não se sente confortável usando havaianas. Simplesmente mude, sem paixão, porque isso não é sobre política. É um conteúdo aleatório trazido à tona propositalmente para cooptar e alienar a sua mente. 

Observar o tempo político para não perder o momento

O conflito é inerente à democracia. Muitos teóricos políticos, a exemplo da filósofa alemã Hannah Arendt argumentam que a democracia envolve inerentemente desacordo e o choque de interesses conflitantes. Suprimir o conflito pode mascarar desequilíbrios de poder e silenciar a necessária luta política, potencialmente servindo aos interesses daqueles que já estão no poder. Quando o silêncio se torna conveniente demais, significa que a pluralidade não está sendo expressa e a cientista política belga Chantal Mouffe, considera que não há necessidade da busca excessiva por consenso e que a democracia não elimina o confronto, ela o civiliza.

O contexto importa: em nosso estado, o momento apropriado para o confronto está sendo empurrado para frente o máximo possível. A ideia é que “ainda não é hora para o confronto.” Ainda não estamos no momento: “ou você está conosco ou está contra nós.” O tempo de maturação, de arranjos políticos, análises dos riscos e convencimento está no ar. E esse tempo possibilita vivenciar incríveis revelações, sobretudo de políticos mais experientes. Um prefeito com quem conversei essa semana, demonstrou a flexibilidade e contradição que está havendo na construção das candidaturas: aliado de um tradicional político do estado, é filiado a um partido que não é o do padrinho político e apoiará firmemente e publicamente o processo de reeleição de um deputado de linhagem política e partido que não tem nada a ver com as duas situações citadas.

Há planos A, B e outros que avançam sem confirmações para não serem pegos de surpresa e para não gerar desconforto se não se consumarem. É uma posição de estratégica que reconhece tanto os riscos quanto as potenciais necessidades do confronto político mais na frente. Nos Discursos sobre a Primeira Década de Tito Lívio, Maquiavel nos ensina que postergar confrontos políticos costuma ser um erro estratégico, que o conflito e o confronto são valiosos instrumentos políticos e o político deve estar vigilante para não perder o tempo certo de enfrentar o adversário, de fortalecer sua posição e não frustrar a própria base, embora seja muito comum a crença que não brigar preserva o capital político. Sobre esse pensamento, tem-se dito que na política, quem tenta agradar a todos, perde o respeito de todos.

No tempo certo, é essencial escolher quais confrontos comprar e quais evitar para consolidar a imagem de comando. Essa foi a estratégia da política alemã Angela Merkel, que diante das várias eleições que disputou raramente entrou em confrontos e adiava ao máximo entrar em campanha porque se colocava como uma líder acima de qualquer disputa, fazia campanhas curtas, econômicas porque considerava sua autoridade já consolidada. Isso é para poucos, no Brasil, comportamento semelhante teve Fernando Henrique Cardoso, convencido que sua personalidade já bastava para torná-lo um estadista.

A discordância e a dissidência construtivas são vitais para o bom funcionamento de grupos e sociedades, elas podem servir como um mecanismo de autonomia e equilíbrio dentro dos picos historicamente altos de polarização que estamos vivenciando. A consistência ideológica partidária está fluída pela diversidade de opiniões dentro dos partidos em diferentes questões políticas e rigidez nenhuma com membros que exibem comportamentos desviantes. O discurso ainda está claramente dúbio entre um e outro lado e a expectativa de afirmações de candidaturas majoritárias entra para 2026, num silêncio, diria, estratégico, sem grande cobrança de alinhamento.

Conversa de homem para homem

Dia 06 dec dezembro, é o Dia Nacional de Mobilização dos Homens pelo Fim da Violência Contra as Mulheres e lamento que finalizamos o ano envoltas na mesma dor do ano passado, do ano retrasado…as mulheres continuam sendo espancadas, estupradas e assassinadas brutalmente todos os dias. Não há descanso, não se pode tirar o olho de quem está ao lado, porque geralmente é o agressor. É insano conviver com a estatística que insiste em anunciar Mato Grosso como o estado mais perigoso para mulheres e que apesar de algum esforço institucional, o estado cisma em manter-se firme no alto do ranking, os valentões estão em todas as classes sociais e evidencia falhas estruturais na educação familiar e escolar. 

É preocupante ler os estudos publicados, as entrevistas com relatos. A maioria das agressões ocorre na frente de outras pessoas, muitas vezes, de crianças. Estamos em plena campanha dos 21 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres, reforçando campanhas e dando visibilidade aos casos, para que as mulheres machucadas na alma e no corpo sejam vistas, ouvidas e acolhidas e quem sabe, um dia distante, serão também protegidas. Os alertas disparados pelos botões de pânico, precedem a sinfonia fúnebre que se ouve no desfecho da maioria dos casos. O levante das mulheres que sobrevivem tem sido marcante, intenso e sem trégua. É preciso deixar as mulheres em paz, deixá-las vivas para viverem seus sonhos, criarem seus filhos, ocuparem espaços de poder. 

É preciso falar sobre o machismo, sobre as atitudes possessivas que marcam as relações e tem sido reproduzida ao longo do tempo. No Brasil a cada seis horas há um feminicídio. Não há casos isolados, muito pelo contrário, os episódios são distintos, porém seguem a mesma lógica: relações marcadas por controle excessivo, pelo desprezo à autonomia feminina, pelo deboche e críticas ácidas. 

Percebo com esperança branda um levante de homens tentando fortalecer a luta pelo fim da violência contra a mulher; o presidente Lula, o presidente da Assembleia Legislativa, Max Russi, artistas, homens famosos engrossando o coro das mulheres, que estão quase perdendo o fôlego com continuados gritos de socorro. Nas manifestações, as mulheres têm falado entre si, sofrendo abraçadas, porém distantes de tocar os seres que agridem e matam; os homens. É hora de os homens se unirem numa roda de conversa, de homem verdadeiro falando para homens e decidirem juntos que é hora de deixarem de ser predadores, de se comportarem como meninos birrentos, incapazes de lidar com frustrações ao ouvir um “não”. Não, o mundo não foi feito para satisfazer os desejos, para aceitar o comportamento egocêntrico e manipulador dos homens que agridem, estupram e matam. Homens adultos podem desenvolver habilidade de autorregulação emocional, podem aprender a considerar as necessidades e sentimentos das mulheres. Se aprenderam a ser maus, podem também aprender a amar para ensinar seus filhos, sobrinhos, netos a serem gentis, a aceitarem o ‘não’, a deixarem a mulher partir inteira, em busca de uma nova vida. 

As mulheres estão exaustas e precisam de ajuda masculina para que suas vozes atinjam o núcleo duro, que geralmente proteja o agressor, que ataca, é penalizado fracamente, desrespeita medida protetiva, não teme o aumento da pena e segue ameaçando com tortura emocional e destruição moral e física de mulheres. Não devemos esconder imagens e falas sobre a violência. Expô-las, publicizar é uma arma potente, quando não a única que a mulher tem. Em Mato Grosso, foi tornado público as agressões sofridas e a fala expressando a descrença na justiça e nas redes de apoio de uma jovem, que denunciou, sofreu represálias, denunciou, nada aconteceu com o agressor, até que ela usou as redes sociais para falar abertamente sobre o corpo e a alma machucados até o limite de suas forças.

Com as manifestações organizadas para o dia de hoje, a esperança brota lenta, desconfiada, mas pode ser o começo. Porque enquanto os homens se mantiveram calados, não foi possível avançar de forma ideal, desconstruir atitudes machistas e educar novas gerações de homens gentis.  

O paradoxo da escolha

Quando temos muitas opções, podemos nos sentir sobrecarregados pelas informações, tensos pela responsabilidade da decisão e podemos, no final, ver diminuída nossa satisfação com as escolhas que fazemos. Esse fenômeno é conhecido como o paradoxo da escolha. O brasileiro, agindo como se tivesse um sistema político bipartidário, decidiu livrar-se do paradoxo e embarcar na escassez e limitação das escolhas, radicalmente polarizadas, que classificam as pessoas: ou você é isso ou aquilo, ignorando os contextos, as abstrações, a tolerância com as diferenças, as mudanças, o amadurecimento e o respeito pelas escolhas individuais.

Essas condições podem colocar as pessoas em um ciclo vicioso de estratégias de polarização, aprofundando nossas amargas divisões e a retórica agressiva que tem caracterizado nossos debates sobre as eleições. A polarização, embora não seja novidade, ganhou intensidade. É um processo que simplifica a política, consolidando o campo político em apenas dois blocos opostos e cada vez mais imutáveis, divide o eleitorado em dois grupos que desconfiam um do outro. Perdeu-se o equilíbrio, as disputas eleitorais se tornaram implacáveis e a política está parecendo um jogo, onde o ganho de um lado tem que refletir a desmoralização e o esmagamento do adversário, que passa a ser o imoral, antidemocrático, o inimigo da nação.  

Ao ler um estudo sobre a polarização entre nações no livro escrito por Thomas Carothers e Andrew O’Donohue, Democracias Divididas: O Desafio Global da Polarização Política, é destacado que a ascensão de partidos populistas polarizou os sistemas democráticos, as mídias partidárias intensificaram as antigas ‘leves’ divergências, fazendo com que nossas diferenças pareçam maiores do que são efetivamente e Brasil, Estados Unidos e inúmeros países da Europa enfrentam fissuras políticas cada vez mais profundas e irremediáveis a curto prazo.

Tem sido acrescentado em alguns estudos um forte alinhamento de ideologia e religião com as divisões políticas, O Brasil é obviamente citado no estudo, por enfrentar crises sucessivas (econômica, moral, política) e atravessar um momento de debate político deteriorado, pulverizado por ataques pessoais, teorias conspiratórias e narrativas emocionais.

Eleições no Brasil sempre foram competitivas, os indivíduos são livres para expressar suas opiniões pessoais sobre temas políticos ou outros assuntos sensíveis sem medo de vigilância institucional, no entanto, os períodos eleitorais recentes foram afetados pelo medo da violência política, julgamentos e xingamentos. A retórica agressiva e divisionista tem contribuído para a sensação de medo entre muitos acostumados a discutir abertamente os seus direitos e preferências partidárias. Acontece que a polarização dá voz ao discurso de ódio, aumenta a violência política e não sabemos exatamente o que fazer para curar essas fraturas, que travam nossos diálogos sobre o cenário político.

Não desviemos o olhar das eleições de 2022 que foi marcada por uma competição acirrada entre partidos rivais e as campanhas, sobretudo majoritárias foram marcadas por desinformação, retórica agressiva nas redes sociais e serviços de mensagens online. A eleição de 2026 deve repetir o ambiente emocional de 2022 e enrijecer ainda mais a distância entre o campo progressista e conservador, o que reduz ou zera a possibilidade de surgir uma candidatura moderada, por ora. 

Nem todos os escândalos levam a perda de mandato

Na última eleição geral 2022 políticos conhecidos como Sônia Guajajara, Tarcísio de Freitas e o astronauta Marcos Pontes tiveram apontamentos de irregularidades no uso do recurso do fundo eleitoral e a prestação de contas foram aprovadas com determinação de devolução de recursos. Estamos falando das irregularidades com a aplicação de recursos públicos. Dois casos de candidatos conhecidos a Câmara Federal resultaram em perdas de mandatos; Deltan Dallagnol, eleito deputado federal pelo Paraná e Marcelo Crivella, eleito deputado federal pelo Rio de Janeiro. A maioria dos deputados que enfrentaram problemas com a justiça eleitoral, estão ainda confortavelmente exercendo seus mandatos, embora a fiscalização e a cultura democrática tenham se fortalecido e o eleitor bem-informado passa a acompanhar o comportamento público dos políticos, cujas reputações podem ser destruídas em horas.

O eleitor brasileiro, durante muito tempo, passou a mão na cabeça de políticos controversos e violentos, envoltos em uma imagem de dualidade entre mistério e realidade. Vindo de Alagoas, Tenório Cavalcante foi deputado estadual e federal pelo Rio de Janeiro. Figura emblemática, trajava sempre uma capa preta, indispensável para cobrir a metralhadora que sempre portava e carinhosamente a chamava de ´Lurdinha’. Sob o pretexto de proteger os pobres e a rede de distribuição de comida e remédios, criou grupos de justiceiros e teve o nome ligado a execuções sumárias de adversários políticos e extorsão. Continuou se elegendo deputado estadual por três mandatos consecutivos, do final da década de 1940 até final de 1950. Depois elegeu-se deputado federal. Perdeu a eleição ao governo do estado do Rio de Janeiro. Após doze anos sendo denunciado por chefiar grupos ligados a execuções, o coronel urbano Tenório Cavalcante foi retirado da cena política e entrou em declínio.

Outro caso escandaloso de personalidade violenta e controversa dentro do sistema político brasileiro surgiu nas eleições de 1994, com Hildebrando Pascoal, um Coronel da Polícia Militar do Acre, que foi eleito deputado federal, mesmo com conexão conhecida com organização criminosa e um grupo de extermínio. As denúncias de tortura, tráfico de drogas, execução de rivais, que aconteceram exatamente no exercício do mandato de deputado federal, como o caso de um homem que testemunhou contra ele e teve partes do corpo amputadas pelo próprio deputado, empunhando uma motosserra, chegaram a Brasília e a Câmara dos Deputados abriu uma CPI para apurar os casos e ainda assim, no auge das denúncias se elegeu deputado estadual pelo Acre. A Assembleia Legislativa do Acre cassou seu mandato e o deputado da motosserra foi preso condenado a mais de 100 anos de prisão.

No cenário atual, as transgressões continuam, transmutadas em transgressões simbólicas de comportamento, de elogio à vaidade e resvala na falta de decoro, como aconteceu com o candidato a prefeito de Brasnorte, que teve um vídeo íntimo vazado no período da campanha, o que lhe rendeu prejuízo pessoal e político. Para celebrar o que ele chamou de ´nova cara da política`, o prefeito de Canhoba (SE) publicou nas suas redes sociais um ensaio fotográfico onde aparece apenas de cueca preta. E cueca na política brasileira remete ao caso do Senador Chico Rodrigues, flagrado com dinheiro na cueca.

A prefeita de Marituba (PA) dançou forró de calcinha e sutiã e postou, justificando que a mulher pode ser trabalhadora, mãe, política e bonitinha. Roupa íntima para o convívio com os íntimos. A prefeita ameaçou processar quem repostou seu vídeo sexy, o STJ, no entanto entendeu que se o próprio político posta a imagem, está renunciando à expectativa de privacidade e tem que suportar os ataques e uso amplificado da imagem.

Ao findar este artigo, li sobre a prisão do ex-presidente Bolsonaro. Não comento decisões judiciais por absoluta falta de competência. Sou socióloga. E assim, sem recorrer a achismo, entendo que manifestações de defesa do ex-presidente em mídias sociais não ajuda muito. O que de fato, estão fazendo o partido e correligionários junto ao Judiciário sobre o julgamento e cumprimento da pena é o que conta. Prisão é problema da Justiça. Não há o que comemorar e causa desconforto enorme lembrar que, no atual período democrático brasileiro dos seis presidentes apenas Fernando Henrique Cardoso, Itamat Franco e Dilma não foram presos.

Não é cedo para falar das eleições de 2026

O momento presente não é tão cedo assim, porque sinais visíveis indicam que a campanha está tomando forma e os indícios são as reorganizações das forças políticas, as tensões diante dos anúncios de apoios de uns a outros, organização de chapas prováveis, o assédio aos prefeitos, os políticos circulando com mais assiduidade pelo interior do estado para inauguração de obras, visitas a feiras e para falar com a imprensa. O tom das conversas, discursos e publicações na mídia está ficando mais propositivo, fala-se de futuro, projeta um novo tempo, destacando os projetos e feitos que o candidato realizou no mandato. Quem não tem mandato ainda, está em atividade intensa nas redes sociais, se comparando com políticos de mandato, criticando-os, ao mesmo tempo que tenta participar do grupo político destes.

Em conversa com analista político dias atrás, compartilhamos o pensamento que não há de onde possa surgir um novo player na eleição em todo estado, portanto as análises devem recair sobre os nomes dos políticos conhecidos, cujos cargos a disputar podem ainda ser embaralhados. Ouvi que não está fácil antecipar fatos, prever resultados que se confirmem em 04 de outubro e que ironicamente está fácil perceber quem serão os derrotados no pleito de 2026.

As pesquisas de intenção de votos, estimuladas ou não que estão registradas são boas para consumo interno dos partidos, dos grupos políticos, porque sobre o resultado da eleição em si, ainda não dizem muito. As conversas formais entre os caciques estão acontecendo. As coligações e federações que foram definidas; como entre o União Brasil e Progressistas, que apresenta números estratosféricos com 109 deputados federais e 15 senadores, o que pode representar a maior força política do Congresso, domínio do horário eleitoral e volume surreal de investimento em campanhas, já que somados, terão 1 bilhão de reais de fundo eleitoral. Agora, como conciliarão os interesses nos estados, já é motivo de burburinho e ameaça de debandada. A União Progressista ainda aguarda homologação do Tribunal Superior Eleitoral, o que pode acontecer até seis meses antes das eleições.

A realidade política dos estados geralmente é ignorada nas articulações e formalização de alianças, sempre concebidas de cima para baixo, por isso noticia-se insatisfações, traições e debandadas e outras propostas de federações retrocederam por falta de consenso e afinidade ideológica entre os partidos.

Na prática, se quer ser ouvido e respeitado o político precisa convergir suas estratégias para que sejam percebidos sua estatura política e o alcance de sua liderança. Isso não é arrogância ou vaidade, é estar pragmaticamente em conexão com a sociedade que representa, inspirando com responsabilidade. Portanto, chiadeira, mudanças de partido, antecipações de candidaturas, construção de alianças, são movimentações naturais que agitam o cenário político em véspera de eleições.

Com ameaças de políticos tradicionais mudar o domicílio eleitoral para garantir a continuidade do poder em outro estado, fato, que embora legal, lança luz de desprezo nas lideranças locais, as eleições de 2026 exigem atenção redobrada. Atentos devem estar o povo e a justiça eleitoral de Mato Grosso, que foi muito elogiada esta semana, durante a celebração dos 93 anos do TRE MT e muito se falou dos desafios que o órgão tem que superar para cobrir a gigantesca proporção territorial do estado, para que os cidadãos possam exercer o direito de escolher seus candidatos. A expectativa, pelo visto tem-se cumprido quanto a rigidez na observação das leis e imputação de penas, porque estamos recebendo informações sobre vários vereadores eleitos em 2024, cujos mandatos estão sendo cassados pela Justiça Eleitoral, 1 ano depois.

Quando beijares os teus, estás beijando um mortal

Como um bem supremo, tenho aprendido a distinguir o que depende de mim e o que não depende de meu esforço físico, espiritual ou mental. Tenho vivido tão ‘colada’ nesse processo de aceitação, que somente a pouco, aproximando o dia dos finados contabilizei minhas perdas mais profundas; nos últimos sete anos perdi pai, mãe e os dois irmãos mais jovens. Foram perdas que me despiram das certezas, de alguns planos, de afetos e em silêncio percebi que meu mundo encolheu. Escolhi, sem dramas, ajudar a minha alma a se recompor e viver em harmonia com o que é inevitável.

No Manual 3, Epicteto, filósofo grego diz: “Quando beijares os teus, lembra-te que estás beijando um ser mortal: assim, se um dia eles morrerem, não te perturbarás.” Não, não é sobre frieza, é a consciência da impermanência. O que depender de mim, responderei sempre com coragem e determinação, se não depender, procurarei aceitar com serenidade.

Que seja o que deve ser e que eu saiba estar em paz com isso. Se há uma ordem natural do universo ou uma razão divina para que as minhas perdas tenham ocorrido tão amiúde, creio talvez nas duas possibilidades seguindo os ensinamentos de Epicteto, para quem aceitar o destino e superar as perdas são atitudes essenciais para a libertação interior. A razão é o entendimento que meu sofrimento e minhas perdas não são maiores nem menores do que a dos outros e que a finitude a tudo atinge e o que importa não deve ser o que acontece comigo, mas a forma como reajo e supero o que surpreende.

Não somos donos do que nos é dado, apenas guardiões por um tempo imprevisto. Os que partiram antes de nós, não nos foram arrancados, a vida seguiu seu curso, essas pessoas cumpriram seus ciclos conforme uma ordem que não conhecemos. O filósofo dinamarquês Soren Kierkegaard refletiu em todos os seus escritos sobre a dor das perdas e a superação interior diante do sofrimento. Ele não glorifica o sofrimento, mas o entende como um momento em que ficamos diante de nós mesmos e conhecemos a verdade da existência. “A dor não é para nos destruir, mas para nos tornar mais profundos. É a beira do abismo que nossa alma desperta.”

Temos muito a aprender com a dor da perda e com o luto. Se sentires triste ao lembrar teus mortos, lembre-se que os sentimentos que estás vivendo passarão e ainda que vão e voltem, não podem durar para sempre. O texto sagrado do Budismo Tibetano, O Livro dos Mortos do Budismo é um guia espiritual que prepara para a morte, que é lido para orientar o espírito (a consciência) a alcançar a pacificação no instante da morte e escapar dos ciclos de sofrimento ao atravessar as transformações para renascer. ‘Quando o corpo adormece na morte, não há tempo, não há nomes, não há paredes, apenas a luz clara e pura até que a voz sussurra: Não temas. O que vês é o reflexo da tua mente. As imagens surgem, suaves ou terríveis, o reflexo do que você alimentou e carregou em vida: teus medos, teus amores, tuas boas ou más intenções.’

Eleva uma oração para seus mortos porque, ao final, se permanecer a luz, eles se libertarão. Se forem levados pelas sombras, terão que renascer para recomeçar o caminho.

Para quem não leu, não tem afinidade com a doutrina Budista soa estranho ler o livro do morrer para alguém que está morrendo ou que já morreu. A explicação Budista é simples, a consciência da pessoa que está morrendo ou que morreu quando é invocada pelo poder da oração, pode ler a nossa mente e sentir exatamente o que estamos sentindo e receber as práticas feitas em sua intenção.

Candidatos com forte marca pessoal

Nos dicionários de política, pragmatismo político é a estratégia em que candidatos tomam suas decisões baseados na conveniência e no que funciona politicamente para vencer a própria eleição em vez de seguirem os princípios ideológicos ou programáticos de seus partidos. A teoria, criticada como falta de coerência e de compromisso por uns, é justificada por outros, como a arte do possível, necessidade de se formar coalizões para vencer e governar.  Por isso nas eleições de 2024 vimos centenas de casos de políticos ideologicamente contrários, se unirem para eleger o mesmo candidato a prefeito, refletindo uma dinâmica considerada bizarra, se analisada de fora, mas necessária para dinâmica da política regional ou local.

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso perguntado certa vez se sua reeleição, considerada tranquila em 1998 iria favorecer politicamente seus aliados disse não acreditar que voto se transfere. Ele pontuou que no Brasil o personalismo é muito forte e que cada candidato entra para a disputa com sua biografia e esta não se transfere, tampouco pode ser fundida com a história dos partidos ao qual pertencem. Portanto, políticos fortes, que não dependem tanto de recurso partidário, tampouco do tempo de horário político do partido, correrão desatrelados, no sentido de sofrer menor controle das legendas e vão acabar, fazendo campanha centrada na robustez da própria imagem e na base construída, independente da máquina partidária ou da imagem de uma liderança maior no estado ou nacional.

Alguns meses nos separam das eleições de 2026 e o que temos colocado claramente é que as eleições acontecerão em um cenário que tem a esquerda unificada em torno do presidente Lula; a extrema-direita, ameaçando rachar, mas ainda sob a liderança do ex-presidente Bolsonaro e os conservadores divididos entre Lula e Bolsonaro. Lembremos que desde 2018 a polarização política entre democracia e autoritarismo vem pautando a política brasileira e deve ainda permear as eleições de 2026.

Esse cenário para 2026 é detalhado pelo Observatório Político e Eleitoral (OPEL)  uma iniciativa conjunta do Núcleo de Estudos sobre a Democracia Brasileira (NUDEB), do Laboratório de Partidos e Política Comparada (LAPPCOM) e do Grupo de Pesquisa Democracia e Teoria para realizar pesquisas sobre política e eleições, numa tentativa de compreender as dinâmicas do sistema político brasileiro e o comportamento das forças políticas durante os períodos eleitorais. O monitoramento cobre todos os estados nas eleições nacionais e as capitais nas municipais. O levantamento mostra acentuada melhora na avaliação do governo federal e que o presidente Lula pontua na frente de todos os eventuais candidatos lembrados, inclusive aumentando a vantagem em relação a alguns deles, considerados candidatos fortes, como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas.

A Quaest também divulgou pesquisa na primeira semana de outubro a aponta praticamente resultado semelhante, fazendo uma ressalva interessante, através do seu diretor: “Lula não consegue captar toda sua aprovação, assim como a oposição não consegue captar toda a rejeição ao governo. É uma clara demonstração de que há uma parcela insatisfeita com todos os nomes, mas que acabará votando em um lado ou outro”.

O pragmatismo político na modernidade líquida, na análise do sociólogo Zygmunt Bauman se manifesta na fluidez e na falta de compromissos de longo prazo. Em vez de ideologias fixas, a política se torna um jogo de adaptação constante a interesses individuais e de curto prazo, marcada pela instabilidade, individualismo e pelas relações frágeis entre os políticos e os partidos ou lideranças nacionais.

Viver com alegria e distantes das coisas que nos aprisionam

O nosso conhecimento não vem necessariamente de fora, mas ele já se encontra de certo modo em nós, na nossa alma, ali reminiscente, já nasceu conosco. É uma questão, portanto, de redescobri-lo, reencontrá-lo em nós mesmos. E aí nós vamos achando no interior da nossa alma aquilo que é a verdade das coisas. O filósofo Clóvis de Barros, que é formado em Jornalismo e Direito, mestre em Ciência política e doutor em Ciências da Comunicação, exemplifica essa crença citando o diálogo de Platão, em que Sócrates conversa com um escravo de Menon, um jovem, que consegue responder com inteligência todos os questionamentos do filósofo. O iletrado escravo de Menon, demonstra inclusive por conta própria, o teorema de Pitágoras. Então, nesse sentido, a teoria da reminiscência mostra que tenho inteligência para entender o que se espera de mim e tenho liberdade para viver ou não em direção a esse propósito, porque o que preciso para aprender está dentro de mim.

O filósofo Clóvis de Barros, esteve em Cuiabá há uma semana e num encontro rápido, devido as recomendações de seus médicos para evitar contato próximo com pessoas, devido a sua condição de saúde, (há dois anos foi diagnosticado com ‘Doença de Behçet’, rara e incurável) pude dizer-lhe que sou assinante dos seus canais e recebo diariamente, as 6 horas manhã, suas reflexões matinais e que muitas vezes, a mensagem vem como uma ‘pedrada’ e destrói minha habitual arrogância de pensar que muito sei. Sorrindo, ele me disse: esse é meu objetivo: ‘criar nas pessoas condições psicológicas para enfrentar suas realidades entristecedoras’.

Algo deve ser o ponto de sustentação da vida que queremos eternizar. Não devemos viver somente na superfície, buscando crescimento profissional e dinheiro; sofrer, cair é parte inevitável da existência; aí, a filosofia de Clóvis de Barros vira conselho: “atribua valor a sua existência porque a vida não tem valor em si, quem dá valor é você; arrisque mais, tenha encontros tristes, sofra queda de potência; deixa que a sabedoria respingue em todos os momentos da vida; alinha a sua vida ao que você é; não se torne escravo das circunstâncias, mesmo que o que você é não pague todas as contas”. Enfático finalizou. ‘Eu escolhi ser professor, muitos escolheram ser poderosos senadores. Sou hoje, o professor dos senadores’. Ligeiramente arrogante, potente, sábio e profundo, com o estilo direto que o caracteriza.

Na palestra ele centrou na nossa pequenez, na insignificância que representamos diante do universo todo e ao mesmo tempo na graça que recebemos por fazermos parte do todo, que se deteriora e depois se reorganiza e o pouco que éramos minutos atrás, se reconstitui em outro lugar, em outro corpo, em outro todo. De repente, Clóvis ergueu a voz e se perguntou:

“Eu sou do tamanho de um grão de areia?  Não, menos, respondeu.

Por que tenho valor se sou tão pequeno? Porque você é uma parte do todo”.

Alertou sobre a imprevisibilidade da vida, a finitude, razão pela qual, não devemos fugir da realidade, não devemos ficar aterrorizados pela perda da nossa potência, da nossa significância; devemos entender as adversidades, passar de um estágio de vida para outro com mais alegria e distantes das coisas que nos aprisionam e apequenam. Falou da vocação humana para a alegria, que é nosso estágio mais potente. A alegria deve ser repetida, buscada em todas as coisas porque passar da alegria para o medo e tristeza é a pior equação possível. A tristeza das pessoas tem como causa a alegria que o triste vê no outro e entristecedores de plantão, estão em toda parte tentando nos derrubar.

Ao falar sutilmente sobre sua condição de saúde, ao contrário do senso comum, que fala de resiliência como um sentimento de aceitação diante do fracasso, Clóvis de Barros exibiu a sua resiliência como sinal de resistência e dignidade diante do ato de apanhar e ter forças para seguir em frente, se comprometendo com o que faz sentido e com a mania de colocar a esperança na frente do temor e do medo.