Por que as pessoas mentem?

A mentira é uma verdade que se esqueceu de acontecer, como escreveu Mário Quintana.

Admita: você também já mentiu. Estudo recente mostra que as pessoas contam duas ou três mentiras a cada dez minutos e a mesma estimativa aponta que mentimos pelo menos uma vez por dia. A mentira se alastra sobretudo onde há decepção generalizada com a vida cotidiana e é usada, como uma mal social necessário para lubrificar as engrenagens do discurso social.

O jornal inglês The Telegraph publicou uma pesquisa encomendada sobre o tema e a mentira mais popular da Grã-Bretanha é: “desculpe, eu não tinha sinal de telefone celular”, desculpa essa, admitida por um em cada quatro pessoas entrevistadas. Os pesquisadores descobriram que o britânico diz, em média, quatro mentiras todos os dias ou quase 1500 por ano. Um em cada três britânicos mente sobre o peso, sobre o valor da dívida e sobre a quantidade de exercícios físicos que praticam.

A pesquisa indica que as mulheres mentem melhor do que os homens, embora em número 46% das mulheres foram flagradas mentindo contra 58% dos homens. Em segundo lugar, a mentira mais comum é ”Eu não tenho nenhum dinheiro comigo”, ”Não há nada errado – eu estou bem” ficou em terceiro seguido por ”Você está linda” ‘e ”Prazer em vê-lo”. Ainda entre as dez mentiras mais contadas registra-se: ”Nós somos apenas bons amigos”, ”Nós vamos nos encontrar logo” e ”Eu estou a caminho”.

A tecnologia moderna emergiu como o instigador de muitas mentiras como ”eu não recebi o seu texto”, ”O nosso servidor caiu” e “minha bateria descarregou”. O diretor da empresa OnePoll, que realizou a pesquisa com 4.300 adultos, disse que o resultado apresentado justifica-se pela obsessão das pessoas em serem agradáveis e tentar encobrir o que realmente querem dizer. As mentiras admitidas foram consideradas nem completamente inofensivas nem taticamente necessárias. Muitos especialistas não vêem muita diferença entre uma pequena ou grande mentira, porque todas apresentam um efeito, quanto mais mentira mais degradação e depois você não consegue mais parar. “Meia verdade muitas vezes é uma grande mentira.” Frase atribuída a Benjamin Franklin.

Diz a pesquisa que quando uma pessoa diz uma mentira ousada e descarada normalmente fica tensa e inquieta, a batida cardíaca acelera e a temperatura corporal aumenta.

Desculpas e mais desculpas… mas porque as pessoas mentem? Bob Feldman,  autor do livro “Um mentiroso em sua vida”, revela que a maioria das pessoas ao mentir não carregam nenhum sentimento de culpa e mentem por que não conseguem cumprir a sua carga de responsabilidade. Ao analisar o comportamento de estudantes universitários constatou que os mesmos matam seus avós não apenas duas vezes, mas oito no decorrer do período do curso e que a desonestidade acadêmica vai da aplicação apara conseguir bolsas de estudos até a falsificação de cartas de recomendação.

As pessoas mentem para fugir com desculpas e acabam reforçando a sua inclinação para mentir novamente e muitas vezes para dar o tom de realidade a uma mentira é necessário envolver uma segunda pessoa. As pessoas que mentem ficam vulneráveis ao plantio de falsas memórias e fazem todo tipo de manobra mental para credita-las como identidades verdadeiras, mesmo que o comportamento esteja em conflito direto com a realidade.

Jogamos a culpa em outra pessoa, numa situação fora de controle, mas nunca em nós mesmos quando inventamos uma desculpa ou mentimos. Existem várias razões complexas e interligadas para mentir, enganar, e fabricar desculpas> A verdade é que acabamos criando um falso “eu” e então, o fosso alarga-se entre quem você é e quem você deseja ser. Eventualmente, você perde contato com seu “eu” real e entra no terreno da paranoia.

A mentira é imoral.

Canção dos homens

A música pode ser usada para expressar a emoção, unir as comunidades e fazer juramentos. No livro O Mundo Musical em Seis Canções, Daniel Levitin sugere que todas as músicas podem ser agrupados em seis tipos; amizade, alegria, conforto, religião, conhecimento e amor são os seis fundamentos. Ele vê esses temas básicos como indicadores do estado de ânimo pessoal. Como exemplo, ele vê uma canção de alegria como um indicador confiável da saúde física e mental de uma pessoa.
Ele observa que a música afeta a biologia humana e pode influenciar o pensamento e sentimento, além de aliviar as tensões e agir como um mecanismo de ligação entre os grupos distintos.

A música tem desempenhado um papel vital na história da humanidade e as evidências parecem sugerir que o canto é bom em um nível comum e pessoal. Pesquisas diversas revelam uma relação inequívoca entre ouvir música, cantar e bem-estar. Seus benefícios físicos incluem aumento da oxigenação da corrente sangüínea e trabalha grandes grupos musculares na parte superior do corpo, aumenta a energia, melhora a postura, reduz a pressão arterial.
Psicologicamente a música tem o efeito positivo na redução dos níveis de estresse através da ação de um sistema que está ligado ao sentido de bem-estar emocional, elevação do humor, ativação da memória, aumento da concentração e melhoria no sistema imunológico também.

No sistema social Xinguano, a música é ritual que performatiza a delicada linguagem da relação entre os indígenas do Xingú. A música é sempre a história de um passado recente, fatos cotidianos da vida, sobre encontros com outras tribos e ao mesmo tempo, a música promove uma comunicação entre os que tocam e os que escutam. Assim, na mitologia kalapalo, a música é tratada como manifestação das transformações dos seres perigosos e como um meio de exercer o controle sobre essas forças. Dessa forma, os Kalapalo usam a música ritualmente como meio de comunicação entre categorias desiguais de seres.

A poetisa africana Tolba Phanem conta que quando uma mulher, de certa tribo da África, sabe que está grávida, ela segue para a selva com outras mulheres e juntas rezam e meditam até que surge a canção da criança. Quando nasce a criança, a comunidade se junta e cantam a sua canção. Logo, quando a criança começa sua educação, o povo se junta e canta sua canção. Quando se torna adulto, eles se juntam novamente e cantam. Quando chega o momento do seu casamento os noivos escutam a sua canção. Finalmente, quando sua alma está para ir-se deste mundo, a família e amigos aproximam-se e, como no nascimento, cantam a sua canção para acompanhá-lo na viagem.

Nesta tribo da África há outra ocasião na qual os homens cantam a canção. Se em algum momento da vida a pessoa comete um crime ou um ato social aberrante, levam-no até o centro do povoado e a gente da comunidade forma um círculo ao seu redor. Então todos cantam a sua canção. A tribo reconhece que a correção para as condutas anti-sociais não é o castigo; é o amor e a lembrança de sua verdadeira identidade. Quando reconhecemos nossa própria canção já não temos desejos nem necessidade de prejudicar ninguém. Os amigos conhecem a sua canção e a cantam quando a esqueces. Aqueles que te amam não podem ser enganados pelos seus erros ou pelas imagens escuras que mostras aos demais. Os amigos recordam sua beleza quando te sentes feio; sua totalidade quando estás quebrado; sua inocência quando te sentes culpado e seu propósito quando estás confuso.

A sua música pode ser Tocata e Fuga, de Bach, a belíssima Missa da Coroação, peça de Mozart; de Heitor Villa-Lobos ao repertório de Artur Piazzolla.
Parte da beleza da música dos pássaros deve-se a sua brevidade. O som não deixa evidência para trás.

Geração zangada

Os humanos são adaptáveis. Estamos vivendo um tempo interessante, que pode ser interpretado como uma benção ou maldição, à medida que enfrentamos várias ameaças, que vão desde a evolução tendenciosa dos algoritmos, o extremismo político e religioso e as mudanças climáticas. Mas sobreviver neste planeta é nosso instinto.

A Associação Americana de Sociologia divulgou pesquisa feita com 105 profissionais de áreas diversas, entre os quais sociólogos, antropólogos, neurocientistas, astrônomos, médicos, ambientalistas, advogados, educadores, biólogos… de vários países e duas questões foram colocadas para  debate: “O que mais preocupa no futuro e o que dá esperança no futuro”.

As preocupações passam exatamente por onde imaginamos: Nossos sistemas econômicos, políticos e religiosos não funcionam para todas as pessoas. Acentuam as desigualdades, a fome, preconceito, a divisão crescente ao longo das linhas da etnia, religião e raças. Há uma preocupação centrada nos maus políticos, nos governos autoritários, que promovem corrupta distribuição de recursos ambientais e financeiros além de esvaziar a cidadania e direitos civis dos cidadãos. Preocupam-se também com coisas que aparentemente ocorrem sem controle no mundo todo: proliferação de notícias falsas, comércio das drogas e armas e a retórica do ódio.

Entendo que a essência do ser humano é o amor. A ganância e o ódio são os desvios. Mas não estamos numa situação de sentar, respirar fundo e relaxar, todavia, foram surpreendentes as considerações dos pensadores apontando os caminhos pelos quais sairemos do vale nublado que nos encontramos. É impressionante a força que creditam aos movimentos sociais, com o engajamento de jovens. Dizem que os jovens estão reinventando o ativismo e encontrando maneiras radicais de entender e lidar com as injustiças praticadas ao longo dos tempos e responsabilizar culpados.

Constatam que a geração jovem está zangada e essa raiva justa ativa a criatividade radical deles, que estão caminhando numa combinação entre a ciência, a arte e teoria crítica, com o objetivo de criar conhecimento que não reproduza maior desigualdade e assim, o extraordinário potencial das gerações futuras de assumir desafios imensos, sem serem intimidados por fracassos do passado, deixou os profissionais pesquisados esperançosos de que a informação e educação acabarão chegando a lugares e grupos de pessoas, que historicamente nunca foram alcançados.

Os educadores relatam que orientam teses de jovens comprometidos, engajados nos processos de inclusão, que questionam as plataformas políticas antiquadas, desafiam os estereótipos do que é estabelecido como certo e errado. Que esses jovens utilizam os avanços da tecnologia para resolver problemas da vida real e através das mídias sociais se mobilizam e distribuem conhecimento.

Enfim, as interações saudáveis ​​e a motivação humana para a inovação durante períodos de quase colapso, nos guiam em direção à novos caminhos, novas formas de conexões à medida que nos adaptamos a um mundo em mudança.  Ainda estamos a tempo de perceber que podemos ser a salvação, ao invés de destruidores da vida e assim, eventualmente, encontrar um significado mais profundo para nossas próprias vidas.

Críticas mais ou menos encomendadas

A maioria das pessoas tomam conhecimento dos fatos políticos e das decisões políticas através da mídia. A partir dessa hipótese é uma tendência crer que a mídia “colonizou” a política, como argumentou o cientista político alemão Thomas Meyer ao explicar as relações entre mídia e a política. Em linhas gerais, ele exemplifica que a política flexibilizou sua própria lógica para adaptar à lógica e ao sistema de influência da mídia.

Nem é preciso ilustrar isso de forma mais clara porque percebemos o dia a dia dos governos, políticos e suas assessorias ligadas no “timing” das emissoras de mídias. Isso reforça a tese de Meyer de que a política abriu mão de suas particularidades para ajustar-se aos códigos da mídia. E parece que o sistema político não tem opção e a mídia tem gerenciado as cenas e as relações políticas. Então, por contraditório que isso possa parecer, o fato é que a mídia encontra cumplicidade no próprio campo político.

É inegável a midiatização da política. A imprensa tem exercido o papel de criticar e reproduzir críticas aos governos, políticos e cidadãos que circulam próximos a estes e isto é absolutamente benéfico ao processo democrático, no entanto, muitas matérias chegam a parecer encomendadas e as críticas parecem assinadas por sabidos adversários no meio político. São críticas de opinião, geradas por critérios objetivos, feitas por panelinhas de partidos ou grupo de interesse difuso, para criar embaraços e descompensar adversários.

A ligação da política com a mídia não pode ser vista de forma perigosa ou potencialmente negativa, porém, nada justifica as críticas reproduzidas pelos meios de comunicação, como forma simples e pura de ataques pessoais, faltando com a verdade, na maioria dos casos; defendendo interesses espúrios e revelando promiscuidade na relação.

Tem sido assim: conversa de bar sem a devida verificação tem se tornado nota pública nos meios de comunicação e a quem interessa o que dizem esses fraseadores vulgares?

Quase a totalidade do que se lê hoje sobre política está baseado na superficialidade de “gostei/não gostei”. Na atividade apressada dos que buscam notícias para publicar, não há revisão nem filtro nas publicações e consequentemente dão importância exagerada a pequenos fatos que mal mereciam ser notas de rodapé. Visto que são, em grande parte, matérias inconsistentes, elevadas à impressões pessoais, objetivos pessoais, críticas crônicas e provocações aos adversários.
Política é coisa séria. Imprensa é coisa séria. Pelo menos, deveriam ser.

Quando as pessoas pensam alto

É creditada a Winston Churchill a seguinte frase, sobre política: “o melhor argumento contra a democracia é uma conversa de cinco minutos com o eleitor médio”. Aplica-se a frase aos demais ambientes da vida e pode-se até expandir a escala de inteligência que tem-se a constatação de que as pessoas deliberadamente decidiram falar, opinar sobre tudo, em todas as mídias que conseguem acessar, “falar pelos cotovelos”.

A maioria, baseia suas opiniões em quem são e não no que pensam, considerando o contexto cultural, a participação em grupos diversos na sociedade. Ou seja, o pensamento e comportamento representam apenas a sua tribo e seus interesses.  E assim as questões pessoais ganham relevo incômodo nesse emaranhado de vozes impregnadas de ignorância racional.

Conversei demoradamente com um amigo, que habituado a muito falar e ser aplaudido sem muita contestação, está estranhando esse momento em que as pessoas, expressam discordância, estruturam teses incertas, desnorteadas, manifestam ódio ou apoio, mas não mais hipotecam a ele o silêncio cúmplice à suas teses cultas e bem elaboradas.

Compreendo que nossa mente não pode ser fechada em nós mesmos, em nossas experiências. Devemos ampliar nossa visão com os valores trazidos por pessoas nos diferentes encontros promovidos pela vida como oportunidade para vencer a vaidade que aprisiona no estreito ambiente confortável e familiar.

Precisamos ouvir as histórias uns dos outros. Nós realmente precisamos reconhecer a experiência do outro como eles nos apresentam, em caprichosas elucubrações, ainda que com conhecimento em nível médio.

Penso que a realidade não é condicionada a vitórias e derrotas, equilíbrio e desequilíbrio, manifestação positiva e negativa. Nem sempre precisamos de resultados específicos. Nós precisamos um do outro!.

Não havemos de nos espantar com os exageros, com as misturas tóxicas adicionadas às discussões, com a confluência de circunstâncias; não havemos de nos intrigar porque os indivíduos descobriram que efetivamente podem usar a internet para fazer voar suas opiniões ou crenças. Isso não tem volta.

Lembro meu amigo que as pessoas que comandam os shows são surpreendentemente medianas e conviver com as diferenças, inclui aturar os desníveis intelectuais, por outro lado, muitas pessoas contrapõem nossas ideias não para desafiar nossas opiniões ou banalizar o esforço da pesquisa, mas para nos despir do desesperado desejo de impressionar os outros.

Junto ao calhamaço de informação sobre a vida alheia, sobre a política, ouve-se  o eco desconcertante dos que não aprenderam que dialogar é uma via de mão dupla e que emitir juízo sobre algum tema não implica catapultar-se dentro da história e liderar a trama.

Não existe lado de fora

Respeitar os outros é um valor melhor compreendido por aqueles que respeitam e valorizam a si mesmos, seus estudos, o pensamento, a crença, a visão de mundo e a constituição familiar. Não é retrógrado aquele acolhe com carinho as ideias concebidas em ambientes que não frequenta.

Podemos falar de tudo: do céu, da terra, de coisas remotas e opostas, transmitindo respeito e compreensão, porque a tolerância é a virtude da moderna democracia pluralista. A tolerância, não é um valor decadente, tampouco um valor subversivo.

Hoje, mais do que nunca, interagimos com pessoas de diferentes etnias, religiões e culturas. Os espaços públicos estão cada vez mais diversificados, refletindo as comunidades que fazem parte do nosso patrimônio cultural. As diferenças vêm de pessoas de todo o mundo e enriquecem nossa cultura, trazem novas ideias e revigoram nossas relações.

Internamente somos também uma rica mistura de tradições culturais de todos  os cantos do país. Não há, portanto, ponto de partida para descobrir semelhanças, para se conectar e construir relacionamentos plenamente realizados à luz da distinção e do respeito às opções particulares quanto a fé, cultura, política e tudo o mais que constitui o nosso complexo e desacomodado ser.

Diagnosticar uma doença não é o mesmo que curá-la. Estamos conscientes da confusão que as diferenças ideológicas, culturais e religiosas causam nas nossas mentes, porém, não podemos nos sentir hesitantes ao expressar insatisfação diante de certos posicionamentos carregados de cizânia,  mas não podemos negar ao outro o direito de manifestar-se igualmente livre da tutela intelectual, que tem calado diálogos que poderiam enriquecer as discussões sobre esse mundo e os mais de 7,59 bilhões de seres únicos que aqui vivem.

Tolerar e acolher o fato de que vivemos em uma sociedade ricamente diversa e que este fato é imutável por desejo ou decreto, seria talvez o primeiro passo para enxergar a tolerância como um valor indissociável à vida moderna e importante no mundo interdependente no qual vivemos, onde não há mais lado de fora, tampouco, a opção de isolar-se.

Em tempos de rispidez, da política de ressentimentos, a adaptabilidade à mudanças exige continuada tolerância e compromisso de habilmente manter aberta a porta do diálogo, principalmente para não permitir a legitimização da intolerância.

Que diferença faz o passar do tempo!

Fim de eleições, início de especulações, anúncios precipitados, atitudes impensadas, impactadas pelos resultados. Que diferença faz um dia bem dormido, um livro lido, análises mais frias, agendas sem correrias!

Depois de certo tempo é possível conectar os pontos antes incompreensíveis, abordar tópicos diante das peculiaridades mais destacadas dos sentidos e finalmente os eleitos vão se encontrando e se preparando para assumir as novas posições, resguardando suas ideias políticas, meticulosamente explicadas no período eleitoral.

As perdas e vitórias da eleição são as bases que provavelmente reformularão o cenário político do próximo ano. A eleição confirmou a existência de ondas, que apareciam como tendências de um ciclo novo, a cada leitura de determinada realidade. Governadores que ensaiavam a posse foram derrotados, senadores de vários estados não se reelegeram, entretanto, como em todas as corridas eleitorais, cidadãos sobrecarregados de desgastes se elegeram em situações destacadas.

É possível agora, passado alguns dias, até utilizar as eleições para interpretar o declínio de alguns grandes representantes da política tradicional; a fragilidade temporária e as limitações que se abateram sobre alguns outros candidatos e apoiadores, além da vitória triunfante de líderes que não perdem há anos.  Enfim, vem aí governo novo, acelerando antes mesmo de tomar posse, para iniciar o mandato remodelado, com cortes e vantagens já implementados.

A identidade dos partidos sai turva das eleições. Não conseguiram sequer tornar seus estatutos conhecidos pelos eleitos tamanha a falta de coerência dos textos e excesso de regras.  Tocqueville, em A Democracia na América, assim tratou dos partidos: “Os partidos são um mal inerente aos governos livres.” Assim sendo, mesmo em condições mínimas de existência, continuarão pregando seus proselitismos e certamente, tentarão fusões para fugir da cláusula de barreira.

Após cada eleição, a fase de retraimento dos partidos políticos agrava-se.

A fase política que estamos vivenciando agora, é a transição. Para todos os eleitos, é o momento de definir espaços, unificar as realidades paralelas, ajustar números, pensar em nomes, postular posições. Pois que distante das reviravoltas políticas, das retóricas, é hora de contabilizar o apoio e preocupar-se com as escolhas antes que a transição chegue ao seu ponto terminal.

Daqui a pouco entra-se no momento de afirmação. De manutenção da autonomia para manter o controle das pautas de mudanças e debater temas controvertidos; daqui a pouco é hora de expressar-se na arena política, como uma força capaz de mudar o jogo

Picuinhas partidárias

Em março de 2015 eu escrevi neste mesmo espaço que começava a perceber o vento soprando num movimento significativo empurrando o país para a direita. Tive a impressão que mesmo os jovens estavam convertendo seus perfis numa linha mais conservadora em quase todos os aspectos das discussões que permeiam a vida contemporânea.

Esta perspectiva estava sendo percebida por vários analistas, que acreditavam que os movimentos ocorridos em 2013 ajudaram a eleger parlamentares conservadores, avaliando suas filiações partidárias. Esse contingente significativo de deputados eleitos que hoje estão terminando seus mandatos, são líderes evangélicos, empresários e militares, que se filiaram em partidos pequenos, com viés anti esquerda. Jair Bolsonaro elegeu-se deputado em 2014 pelo PSC, onde já defendia agenda conservadora e somente dia 07 de março deste ano filiou-se ao PSL.

Eleições no Brasil tem sido um processo contínuo. No bojo de uma eleição já se articula a próxima e a conjuntura nacional encarregou-se de fazer um grande bem ao presidente eleito: consolidou a desidratação de partidos grandes e viciados no poder, como o MDB e PSDB, o que vai favorecer o governo eleito, deixando-o sem a menor obrigação política de aliar ou barganhar apoio.

O tom da campanha subiu no WhatsApp, Facebook e Twitter. Jair Bolsonaro é desde 2017 considerado o político brasileiro mais influente nas redes sociais, que demonstraram efetividade na sua campanha, embora candidatos de todos os lados, tenham também denunciado que essas mídias sociais foram veículos propagadores de uma infinidade de notícias falsas.

Todavia, o mundo social é muito mais complexo do que os discursos e propagandas transportados pelos veículos citados acima e até mesmo mais complexo do que sugere o belo artigo escrito ontem por Fernando Gabeira, intitulado “Uma virada à direita”, onde reconhece que a esquerda não se reinventou e tornou-se uma presa fácil para uma campanha movida pelos pensadores de direita que surgiram no cenário político e orientaram o impulsionamento e compartilhamento de notícias pelas redes sociais.

Nas redes sociais os exércitos perfilaram. Na visão de mundo de qualquer cidadão brasileiro é impensável um governo eleito desprezar os eleitores que escolheram outro lado, outro candidato. Agora é hora de desfazer as picuinhas partidárias, fortalecer a democracia e responder com boas ações o clamor por reformas e mudanças na oitava maior economia do mundo. Hora de aprender com os erros e deixa-los para trás e conectar-se com todos os segmentos da sociedade brasileira.

Voltaire, filósofo francês escreveu O Tratado sobre a Tolerância em 1763: “Digo-vos que é preciso olhar todos os homens como nossos irmãos. Como! meu irmão, o turco? meu irmão, o chinês? o Judeu? o siamês? – Sim, sem dúvida. Não somos todos filhos do mesmo pai e criaturas do mesmo Deus? Possam todos os homens lembrar-se que são irmãos”.

Não se prenda a uma vida insignificante

Volto a escrever calmamente na varanda depois de algum tempo de correria, reafirmo que minhas palavras tanto falando sobre política, sociologia ou seja o que for são denunciadas pelas indagações existenciais e pela busca por uma vida justa, autêntica e serena, nunca perfeita. É da minha natureza encantar-me com o passar do tempo, com o plantio e com a colheita honesta, o que é essencialmente diferente das coisas darem certo e não darem.

O tempo passa como uma sucessão de agoras, uma coisa vem sucedendo a outra, inexoravelmente, como conceitua o filosofo alemão Martin Heidegger nos escritos sobre o homem e sua existência. O presente parece ser uma luta que dura a vida toda e portanto, por razão alguma devemos permitir que nos atrofiem os sentimentos ou que anulem a singularidade da nossa existência.

O medo aniquila a felicidade. Precisamos agir sobre nós mesmos. Vigiar nossos pensamentos, vontades e inclinações. Não devemos permitir, em hipótese alguma que outras pessoas se apropriem do nosso livre arbítrio, nem tampouco, devemos confiar a outro as respostas para as dúvidas que consideramos irrespondíveis.

olto a escrever calmamente na varanda depois de algum tempo de correria, reafirmo que minhas palavras tanto falando sobre política, sociologia ou seja o que for são denunciadas pelas indagações existenciais e pela busca por uma vida justa, autêntica e serena, nunca perfeita. É da minha natureza encantar-me com o passar do tempo, com o plantio e com a colheita honesta, o que é essencialmente diferente das coisas darem certo e não darem.

O tempo passa como uma sucessão de agoras, uma coisa vem sucedendo a outra, inexoravelmente, como conceitua o filosofo alemão Martin Heidegger nos escritos sobre o homem e sua existência. O presente parece ser uma luta que dura a vida toda e portanto, por razão alguma devemos permitir que nos atrofiem os sentimentos ou que anulem a singularidade da nossa existência.

O medo aniquila a felicidade. Precisamos agir sobre nós mesmos. Vigiar nossos pensamentos, vontades e inclinações. Não devemos permitir, em hipótese alguma que outras pessoas se apropriem do nosso livre arbítrio, nem tampouco, devemos confiar a outro as respostas para as dúvidas que consideramos irrespondíveis.

Tornemos então a vida uma área fértil para viver experiências novas.

Os ensinamentos tibetanos exaltam tanto a preciosidade quanto a impermanência da vida, tanto que repentinamente  as condições que tornam a vida preciosa, podem desaparecer e esta é uma razão para não perder tempo e direcionar a vida no sentido de estar sempre em movimento, realizando um projeto, sonhando com outro, ajudando o próximo a sair para além dos espaços onde concentram seus fardos de um passado melancólico.

A despeito do apego, do medo, da ilusão, é bom investir numa vida que flui, que se re-inventa a cada ciclo que se fecha, sem agregar os pesos desnecessários da infelicidade e do rancor. Aqui estamos falando da atitude transformadora de aproveitar oportunidades, descomplicar a vida e capacitar-se mentalmente para encaixar-se numa outra perspectiva e até mesmo executar o ato solitário de fechar a porta de um passado, sem  drama.

Há, no íntimo de cada um, a capacidade e a necessidade de sair do estado de alheamento, de deixar de ser uma aparência entre tantas outras, para resignificar-se no processo de construção incessante de uma vida menos caótica.

Dias quentes

O dia seguinte às eleições amanheceu como todos os outros, quente! Na vida ordinária do cidadão as mudanças ocorrerão lentas e gradual. Por mais que a palavra de ordem tenha sido mudança, esperança, não há como incorporar rupturas bruscas num país que namora firme com os valores democráticos. É preciso propor, votar e aprovar as novas leis. As pautas devem ser fechadas com articulação entre governo e parlamentares.

O respeito às críticas, ao contraditório é um campo extraordinário para ampliar conhecimento, para flexibilizar o pensamento e as pautas do novo governo.

Sabemos que é primordial estancar a corrupção no Brasil, canalizar esses recursos para investimentos na educação, segurança e saúde. Coragem é a palavra base para promover o enxugamento da máquina, combater os excessos e desperdícios.