Sobram dúvidas

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Toda instabilidade na política e na economia leva a sociedade a pagar um preço alto, mais alto quanto maior for a incerteza. Ninguém está em condições de fazer prognósticos sobre o possível encaminhamento da crise instalada no país.

Certo é que está instalado um cenário de conflitos e esse tsunami da gravação ilegal e delação do Joesley Batista, pegou o país alinhavando um processo de retomada da economia e da estabilidade política.

Devido à interação que existe entre política e economia, qualquer movimento que balança a posição do presidente, causa estresse profundo e retração em todos os ambientes. Os empresários seguram os investimentos que estavam prontos para fazer, as famílias adiam os projetos que as levariam a gastar mais, porque ninguém está seguro quanto aos riscos que poderão enfrentar logo a frente.

Em meio a zonzeira em que se encontram os analistas políticos e os próprios políticos é aconselhável ler tudo, colocar fé em quase nada e aguardar o desfecho, do que foi, mais um caso de grampo, delação e fuga a emporcalhar a já combalida república.

Sinto-me, às vezes, sem inteligência suficiente para traçar um paralelo dos delitos cometidos pela Odebrecht e JBS. Ver que enquanto um empresário cumpre justa pena de prisão, o outro leva vida milionária em Nova Iorque e teve os crimes praticamente anistiados.

Penso que entra aí o trabalho hercúleo dos advogados de defesa dos irmãos Batista, senão cabe crer, que foi adotado a favor destes, velha prática de dois pesos e duas medidas distintas para uma situação de corrupção quase idêntica: apropriação de recursos públicos, desvios e subornos.

Aqui em Mato Grosso, a JBS entrou firme no mercado do Estado que é o detentor do maior rebanho bovino do país e que operava o abate em várias pequenas e médias plantas frigoríficas espalhadas pelo Estado. Agressivamente, a JBS investiu na compra de várias plantas, para posteriormente fechá-las, causando desemprego e desequilíbrio nas contas de municípios pequenos que contavam com o aporte dos impostos gerados.

Verificou-se claramente que a JBS praticava concentração de mercado. O resultado final dos trabalhos na CPI dos frigoríficos, conduzida pelo deputado Nininho, detectou essa formação de cartel e apontou a preocupação com o fechamento de mais plantas no decorrer deste ano.

Para evitar que isso aconteça, o relatório da CPI indicou oficiar ao Ministério da Agricultura, para que adotasse providências para evitar o encerramento das atividades frigoríficas no estado e interceder para a reabertura em curto prazo de pelo menos 6 plantas. Ao CADE também foi encaminhado solicitação de abertura de procedimento para averiguar e punir a concentração do mercado nas mãos únicas da JBS.

Com retração, indignação ou paralisia não devemos distanciar à atenção da Câmara e do Senado. Hoje, terça (23), está pautado para ser votada a Proposta de Emenda à Constituição, PEC de autoria do deputado Federal Miro Teixeira, que prevê o estabelecimento de eleições diretas em caso específico de vacância do cargo de presidente da república, até 6 meses antes do final do seu mandato, o que pode até parecer casuísmo para favorecer candidaturas já colocadas.

Caso Temer não resista, o texto atual da Constituição prevê eleição indireta para presidente, sendo este votado pelos 513 deputados federais e 81 senadores. Tal situação nos levará a ter um governo biônico. Já articulam uma saída controlada, a ideia é eleição indireta mesmo.

Em meio a bagunça do cenário atual e com a certeza que o jogo é bruto e que dias difíceis virão pela frente, vale considerar cuidadosamente três pontos: o encontro entre o Presidente Temer e o empresário da JBS, fora do local de trabalho e da agenda oficial do presidente; a JBS já havia sido alvo de várias operações, portanto, já existiam provas cabais contra a empresa investigada; relembro que esses senhores não caíram do céu. É o que nosso sistema produz.

Escuta clandestina

working-on-listening-skillsA invasão da privacidade de um indivíduo é delito grave, a escuta clandestina é ilegal, ofensiva e imoral. Mas não nos enganemos, os governos de todas as esferas usam e continuarão a usar a tecnologia para invadir vidas privadas, sobretudo de opositores, ainda que diante da clareza que o grampo viola o direito à privacidade e no caso de indivíduos não investigados por crimes, o caso torna-se de fato, diabólico. Isso é absolutamente inaceitável. Escuta ilegal clandestina não é só um crime como uma vergonha.

A suspeita do uso de escutas telefônicas clandestinas em órgãos do governo de Mato Grosso para “vigiar e possivelmente punir” os adversários políticos é algo gravíssimo que precisa ser investigado profunda e honestamente porque viola o estado democrático de direito, ainda mais quando a arapongagem é paga com o dinheiro do cidadão. Grampos eram muito utilizados no tempo da ditadura militar e não cabe portanto, nos dias atuais.

O fato é que há uma denúncia formal na PGR feita por um membro do MP do Estado e as investigações têm que chegar em quem gravou, porque gravou e quem determinou que a escuta fosse feita numa lista extensa de pretensos desafetos, que vão desde políticos, jornalistas, médicos, advogados e quem se beneficiou com as informações.

Segundo um advogado, mesmo nas ocasiões em que um órgão de investigação precisa gravar as conversas telefônicas de uma pessoa sob suspeita, as conversas são pinçadas, colhidas em pedaços de escutas, muitas vezes por pessoas sem preparo, que manipulam as informações do jeito que querem antes de serem anexadas aos processos. Imagina agora,  informações colhidas com a intenção de expor e desmoralizar adversários!

A implantação de técnicas contraventoras é contraditória à luz das democracias e do direito fundamental à privacidade. Não precisamos recorrer aos fatos de grande repercussão Internacional como Watergate; a invasão da conta de e-mails do ex premier Britânico, Tony Blair e sob a administração de Obama, o caso da NSA, uma agência de vigilância global, cujos programas foram tornados públicos pelo analista de sistemas, Edward Snowden.

Temos aqui as lambanças nacionais. Lembram-se da Abin – Agência Brasileira de Informação? Pois então, envolveu-se em vários casos de grampos com propósito meramente político. trazendo à tona, fofocas, adultérios, filhos ilegítimos mais do que informações relevantes e ainda expôs os membros do Supremo Tribunal Federal, num caso que virou CPI.

A comissão parlamentar de inquérito das Escutas Clandestinas ou CPI do Grampo investigou possíveis escutas clandestinas nos telefones do Palácio do Planalto e de ministros do STF. Os laudos periciais demonstraram que as conversas foram manipuladas e divulgadas completamente fora do contexto em que foram ditas.

No ano de 2011 as Assembleias Legislativas do Paraná e São Paulo localizaram centrais de escutas instaladas e operando. Os policiais acusados foram demitidos e condenados. À época, um desembargador aposentado do estado de São Paulo, desdenhou a eficácia das escutas clandestinas nos dias atuais: “uma coisa, porém, é certa: logo, logo, escutas telefônicas serão inúteis. Somente relaxados marginais, com ou sem gravata, terão a audácia, ou “burrice” de conversar assuntos comprometedores pelo telefone”.

Respeito pela vida

Não precisamos perguntar se esta ou aquela vida merece solidariedade. Toda vida é sagrada e devemos ser vida que quer existir em meio à vida que quer viver. É bom conservar e acalentar a vida; é ruim reprimir e destruir a vida, em qualquer hipótese estudada, segundo o filósofo alemão, Albert Schweitzer.

Entretanto, o suicídio é um fenômeno que se manifesta ao longo de toda a história da humanidade, em todas as culturas.

Numa semana em que a mídia explorou o tema suicídio, diante do fato ocorrido com jovem, de 23 anos que tentou o suicídio atirando-se do Portão do Inferno e foi salva. Sem nenhum julgamento e pretensão, decidi revelar que o suicídio é um tema que intriga-me e ao qual, dedico parte do tempo dos meus estudos como cientista social.

Não é recente meu interesse em entender esse fenômeno social, como Émile Durkheim, sociólogo francês, trata o tema.

Ao escrever “O Suicídio” (1897), Durkheim analisou muitas formas individuais e diferentes tipos de suicídios, procurou determiná-los a partir do exame de casos de desconfiança, infidelidade, falta de integração com a sociedade, além de estabelecer relação do suicídio com estados psicológicos alterados por paixões anormais, por hereditariedade e até por raça.

Durkheim distingue três tipos de suicídio: suicídio egoísta, suicídio altruísta e suicídio anômico, este último, caracterizado pela falta de viabilidade que o individuo vê em seu quadro social, o que o induz a interpretação de que está de mãos atadas e incapaz de promover qualquer mudança na própria vida.

O ato em si pode ser entendido, não como punição, mas como fuga. É a partir dos estudos publicados por Durkheim que se inaugura um novo olhar sobre o suicídio. O trabalho é perfeito no sentido de apresentar inúmeras variações de comportamentos que podem levar ao suicídio.

Pesquisou a tendência ao ato nos diferentes cultos religiosos, nas faixas etárias, reações climáticas, poder econômico, alcoolismo, tudo sem negar que o suicídio é um ato individual, mas que as predisposições individuais sozinhas não são as causas da maioria dos suicídios.

Muitas pessoas tentam o suicídio diante da incapacidade de suportar dores emocionais, como: perda de pessoas queridas, término de relacionamentos, traumas. Outras, aparentemente sem razão, de repente, num arrebatamento passageiro são arrastados para a escuridão, no outro, é um estado constante de melancolia, do qual não consegue se libertar e está ligado ao caráter da pessoa.

Com um psiquiatra amigo aprendi que é possível estabelecer uma relação acentuada entre o suicídio e a depressão endógena, aquela que não depende de uma causa aparente para a tristeza se instalar. Com início brusco e como descolorimento da vida, a morte é uma ideia quase obsessiva, o risco de suicídio é enorme e vemprecedido de delírios e ruptura com a realidade.

A depressão endógena, de forma simples, é explicada como uma dor persistente que existe lá dentro, com o inconveniente de não ser fácil de observar.

A intenção é algo muito íntimo para ser percebida de fora. As causas são tão complexas e vão desde fator genético à falhas biológicas, como desequilíbrio em algum fator químico do cérebro, como a diminuição aceleradada serotonina. Portanto, não é possível ver um louco em todo suicida.

Vincent W. van Gogh (1853-1890), o famoso pintor holandês, era depressivo,  num surto psicótico, cortou a própria orelha  e anos mais tarde, se matou com um tiro e acreditava que, com seu ato, faria com que os amigos e familiares se sentissem seus assassinos.

O que fazer então, para viver uma vida plena?

A economia e a prática Budista

Não me conformei em seguir analisando somente fatos negativos e sai à caça de notícias afirmativas, mas não de fatos efêmeros. Queria explorar uma tese nova, ser apresentada a um projeto que leve as pessoas a viver mais felizes.

Cadastrei-me para assistir uma palestra ao vivo da economista Clair Brown, da Universidade da Califórnia/ Berkeley, onde ela abordaria um tema inusitado; faria um paralelo da transversalidade das práticas budistas na seara fria da economia, algo que ele pesquisara profundamente e narrara no livro intitulado “Economia Budista”.

A teoria foi ancorada em três pilares distintos: a qualidade de vida, a sustentabilidade e o compartilhamento da riqueza. Dra Clair tem pesquisas publicadas abordando o desemprego, a pobreza e padrão de vida dos americanos.

Naturalmente não é fácil para uma economista propor que a economia exerça uma função até certo ponto holística de pregar o equilíbrio entre o trabalho e as funções familiares e definir desempenho econômico a partir da premissa que prosperidade e qualidade de vida não são bens alienáveis ao consumo e que a riqueza interior é igualmente importante para nossa felicidade.

Estamos acostumados com a definição de conforto sob uma ótica materialista e o estudo nos leva a possibilidade de um sistema econômico baseado também na felicidade não material. O ponto de partida da palestra é a explicação de que a riqueza, os bens materiais são adquiridos para produzir conforto e por conforto, entende-se, não apenas ter bens, mas sentir-se bem com o uso dos bens acumulados, é estar ajustado e feliz na posição conquistada. A economista da UC Berkeley, defende que o sistema econômico pode também ser moldado no altruísmo, apostando numa vida cheia de significados, interligada aos acontecimentos e as pessoas e a felicidade vem após certificar que as pessoas ao seu redor também levam uma vida confortável e digna, sem problemas de falta de água, comida e energia.

Não é quantidade de bens materiais que produzem a felicidade. O sistema econômico pode funcionar de outra maneira, encorajando mudanças pessoais que possam trazer à tona o melhor que há nas pessoas. Se colocadas no quadro social correto, o altruísmo e compaixão das pessoas sobressairão. Mas se continuarem mergulhadas nesta economia de mercado, onde todos se agarram a tudo para vencer o outro, é muito difícil pensar em outra coisa senão em si mesmo.

A definição de qualidade de vida vai muito além das medidas econômicas padrão. Boa qualidade de vida significa viver com as necessidades básicas atendidas, dentro de um sistema que funciona igualmente para todos na área da educação, saúde, segurança e infraestrutura.

A teoria não desmerece o consumo, até porque todo mundo precisa adquirir certos bens para ter uma vida confortável. Mas, o enriquecimento deixa de ser um valor intrínseco da eficiência e uma vez que se atinge o padrão básico, o indivíduo pode dedicar-se a dar novo significado à vida e ajudar o outro passa a ser uma forma de desfrutar do conforto que se conseguiu.

Nós estamos aqui

Vulneráveis, tentando a sorte grande de ser feliz. Reparo, todavia, que a felicidade não é um valor bom para a economia em uma sociedade que tem substituído a virtude pela utilidade e que nos empurra para uma área nebulosa entre o mundo das ideias e o mundo possível. Um fosso imensurável!

Porém, não podemos sucumbir a sensação de futilidade e desânimo diante dos filhos que temos para educar, dos jovens com os quais temos o compromisso inabalável de pavimentar o futuro. O desinteresse e apatia com temas sociais e políticos são filhos que desgostam, porém são legítimos de uma sociedade que não tem inclinações que cativam.

Em parte, o que presenciamos é que os demônios estão ou continuam soltos. Como no dia em que o exército sírio carregou bombas com gás sarin e lançou sobre os opositores do regime do ditador Assad. Pessoas cairam em convulsões e paradas respiratórias até a morte.

Um garoto de 13 anos desmaiou, ao recobrar os sentidos, procurou pelo avô. Não o encontrou mais e desnorteado mostrava o lugar onde o avô estava e repetia: “Ele estava aqui”.

Do outro lado, o sentido de estarmos vivos nos remete a responsabilidade de conter os demônios, com ações baseadas na ideia de amor, compaixão, justiça e esperança. A histórias das vidas não podem seguir sendo contadas dando excessivo destaque as estruturas e sistemas.

Estamos aqui, tentando confiar pois sabemos que o declínio da confiança implica ruptura na linha fundamental que moldam as estratégias para viver bem.

Certa vez, o escritor francês Jacques Attali, explicou o sucesso fenomenal do filme Titanic alegando que os espectadores identificam suas agonias pessoais com o choque do navio ao iceberg. Disse ele que o Titanic somos nós, a nossa sociedade cega, hipócrita e impiedosa com os pobres. Todos nós supomos que há não apenas um, mas vários icebergs à nossa espera, escondidos em algum lugar no futuro, contra os quais, plácidos e indiferentes nos chocaremos até um dia afundarmos ao som de uma música qualquer.

É um grande salto de fé permanecer otimista, relevar o papel das emoções afirmativas como peso determinante da maneira de agir, individual e coletivamente. Tem havido pequenos ganhos, mas é desconcertante ver a sociedade prosperar com grande parte de população negligenciada pelos governos.

É minha convicção ensinar que a sociedade pela qual devemos lutar deve ser uma sociedade multireligiosa, multirracial e multicultural.

O mais importante de tudo é não reduzir drasticamente o universo dos sonhos, não espalhar medo. Assim precisa ser. Não podemos escapar de nós mesmos.

Notícias falsas

Não devemos ficar surpresos com as pautas que avançam na mídia, sem comprometimento algum com a verdade. A atmosfera de suspeita e insegurança criada pela disseminação de notícias exageradas ou falsas proporciona o ambiente perfeito para a estupenda atrapalhada de comunicação que envolveu a operação “Carne Fraca”.

Senti-me incomodada com tanta desinformação que prestei-me ao serviço de reproduzir explicações sérias sobre o assunto.

Pois bem, domingo passado fui visitar minha mãe e como sempre faço, levei-lhe o agrado domingueiro: comida pronta. Incrédula, ela não se conteve: “não acredito que depois de tudo o que falaram na televisão, você trouxe-me carne assada.”

Sim, lá estava eu, desajeitada, tentando passar-lhe às mãos o produto que a televisão havia endemoniado dias atrás. Como pude esquecer de esclarecer para minha mãe que a televisão não lhe contou a verdade, que diminuiu aqui, aumentou ali e acabou descaracterizando toda a história no sentido de torná-la possível de ser seguida, compreendida e reparada por uma senhora de 80 anos!

A ideia central dos noticiários é oferecer realmente pouca contribuição para o entendimento amplo de um tema. Sem imaginação, primeiro reproduzem os fatos, depois avaliam o estrago feito na economia, na vida e na mente de quem depende da notícia dita por inteiro para entender os acontecimentos.

A má informação no caso da minha mãe teve limite, ficou restrita a televisão. Em outras mídias, os absurdos sobre a carne pareciam insondáveis, porque a internet está cheia de notícias propositadamente confusas para gerar mal entendido e propagar reticências.

A mídia anda com mania de falsear as coisas até quando o tema é demasiadamente sério e complexo, como a reforma da previdência, que é necessária, tem que ser enfrentada mais dia menos dia, mas daí a propagar que é uma reforma que gera renda, que não suprime direitos trabalhistas, que não é uma crueldade com os trabalhadores rurais, sinceramente!

As perdas foram quase desenhadas pela ministra do Tribunal Superior do Trabalho, Dalaíde Arantes numa entrevista. Mas a imprensa não facilita a leitura. É difícil para a grande massa que recebe informação, processá-la criticamente e utiliza-la em seu favor.

Do ponto de vista de uma forma de civilização que prima pela informação, que deveria ser segura e rápida, não é bom deixar tantos rabos para trás com notícias falsas, mal ajambradas e inconsequentemente espalhadas no universo on-line,viral e volátil.

A preocupação com as notícias falsas mereceu investimento do Google, que criou um recurso que pode verificar a veracidade do que se noticia na internet e já está disponível no Brasil. Mas o paralelo, que seria o desmentido, ou correção da informação não vem com a mesma veemência, nem velocidade.

O famoso apresentador de televisão Willian Bonner, que entrou na casa da minha mãe para dizer que havia papelão misturado à carne do frango, não voltou lá para esclarecer que falavam de embalagens. Ela confiava tanto nele!

Nas mesas do poder

5772eb7b0e216345751b8998king_arthur_and_the_knights_of_the_round_table.jpegDesde a antiguidade clássica, o poder esteve vinculado aos homens que concentram em suas mãos o destino de seus contemporâneos, somando-se a isto, a extrema complexidade do ser humano e o fato de políticos atuarem dentro de instituições com capacidade de impor comportamentos, fazer promessas mirabolantes e impulsionados pela vaidade e ambição tornam-se seres suscetíveis de atos de caráter não genuínos.

Acrescenta-se ainda o fato de a política está associada a ações que implicam relações de poder, dominação e submissão no espaço público e obtém-se como resultado, um coletivo que desperta irrefragável interesse.

Infelizmente, nos últimos anos temos sido exemplos de escândalo e corrupção, mais do que modelo de democracia e de diversidade. O ciclo vicioso de votar com ignorância e falta de objetividade acabou fortalecendo a colocação de seres emblemáticos no poder, cuja derrubada do pedestal não dá-se senão com mais escândalo e tentativa de vitimização dessas figuras proeminentes que chocam o país a cada relato.

Não gosto disso! De viver a expectativa de publicação de listas, de presenciar cenas de arrependimento e delação, num ato que poupa o trabalho de quem é pago para investigar, com mecanismos próprios, sem envolvimento moral e passional nos fatos.

Lembrando que numa lista de acusação cabe tudo: desafetos, amigos traídos, traidores, delatores, detratores, ricos e puxa-sacos. E mais, o Manual de Cerimonial Público recomenda que em caso de haver necessidade de se trabalhar com uma lista e não havendo clareza na função hierárquica dos indivíduos, deve-se optar por colocar os nomes (dos amigos delatados) em ordem alfabética, para facilitar a conferência.

É desconfortável perceber a facilidade colocada no ato de roubar, roubar, depois revelar e ter a possibilidade de viver livre. A pena, cumpre-se falando do mal de si e implicando outros. Falar a verdade, algo que temos ensinado aos nossos filhos desde pequenos, virou prêmio, absolvição; não entrando no mérito da legalidade, claro, mas sim, no âmbito da moralidade.

A vida privada do homem marca a forma de agir no âmbito público, portanto, a forma verdadeira de ser do indivíduo, reflete na sua forma de fazer política. Vigiai a vida pessoal dos homens em quem você pretende votar em 2018.

Lembrando que não deve mais existir seres supremos, que devemos, de uma vez por todas adentrar na perspectiva de deixar de lado o indivíduo como sujeito central da política e concentrar a atenção nas instituições.

Observando as rodadas do jogo em todas as esferas de poder “parece” que há uma tentativa desesperada de se quebrar o ciclo da corrupção, de enfrentar o fantasma que ameaça revelar-se ao aperto de cada condenação. Contudo, deve haver alguma resistência de passar o Brasil à limpo, em confrontar os fatos e perceber a incoerência do enriquecimento ilícito exibido por toda parte. Desde Cícero, 106 a.C., foi dito que “ deve-se ao nosso próprio fracasso moral e não a um capricho da sorte, que apesar de conservar o nome, tenhamos perdido a realidade de uma república”.

Como as pessoas se tornam monstros?

Red-Queen-alice-in-wonderland-2009-7296677-500-323Esta pergunta tem sido feita amiúde e intermitente por filósofos, psicólogos e sociólogos por séculos. É ficção e simplismo pensar que pessoas privilegiadas estão impermeáveis do lado do bem e os outros, do lado do mal.

A linha entre o bem e o mal é, para todos os efeitos, permeável e móvel, no sentido que pessoas boas podem ser seduzidas a exercer o mal e pessoas ruins podem se regenerar.

Teoricamente, não somos nem bons nem maus, mas uma complexa personalidade que age de acordo com a circunstância. É infinita a capacidade da mente humana de se tornar o que quer que seja: gentil ou cruel, compassivo ou indiferente, criativo ou destrutivo.

Isso define o contexto para a compreensão dos seres humanos que são transformados de pessoas comuns e boas em perpetradores do mal. Segundo os estudos e a tese do Dr. Stanley Milgram,1963 e transformada no filme “O Experimento”, de 2015, o mal é encomendado intencionalmente por quem tem poder e praticado pelos que devotam obediência cega à autoridade.

O estudo comprova ainda que o sistema cria as situações que corrompem os indivíduos e o sistema é a estrutura legal, política, econômica e culturalonde o poder fabrica os indivíduos ruins ou torna as pessoas comuns em agentes destrutivos, quando estes não possuem recursos necessários para resistir a sedução da autoridade.

O estudo de campo dividiu pessoas em 16 grupos em diferentes ambientes de trabalho. Um voluntário apresentava-se para participar da experiência, sem saber que seria avaliado na sua capacidade de obedecer irrefletidamente as ordens. Era colocado no comando de uma falsa máquina de dar choques, com fios ligados a um ator contratado, que fingia-se de voluntário.

O voluntário era instruído pela autoridade e dava uma tarefa para o ator e se este acertava, ganhava prêmio em dinheiro, se errava, a autoridade ordenava que apertasse o botão de choque.  O mal começava com o botão de 15 volts, o segundo erro mais 15 volts até o último de 450 volts. Mesmo crendo que os choques eram verdadeiros, os voluntários, que trabalhavam próximos da autoridade que lhe dava as ordens, poucas vezes se recusavam a cumprí-la.

O estudo foi apresentado no viés da mão pesada das autoridades institucionais e privadas, para influenciar o comportamento do indivíduo e o resultado chocou a comunidade dos pesquisadores americanos, pois poucas pessoas se rebelaram a cumprir a ordem de dar o choque e nenhuma diferença foi constatada entre homens e mulheres.

Portanto, Milgram quantificou o mal como a propensão das pessoas a obedecer cegamente à autoridade, a ir até o fim cumprindo ordens, mesmo quando estas podem proporcionar dor.

A obediência cega à autoridade começa com a desumanização do outro, com o conformismo, falta de senso crítico ao cumprimento das regras estabelecidas e pela tolerância passiva ao mal ou indiferença. Transportando a Experiência de Milgram para os males praticados em nome de autoridades brasileiras, que culminaram com a operação Lava Jato, por exemplo, que completa três anos de investigações, prisões e delações, não há negar que o mal está impregnado no sistema e serve-se das autoridades políticas e empresariais vaidosas e gananciosas que exercem o poder com ilimitada ascendência sobre as pessoas comuns.

Visceral

22Vendedora-de-flores22-Diego-Rivera-696x365Não há nuances sutis para quem tem a tendência de ser visceral, ou seja, colocar todos os órgãos internos do corpo a serviço da emoção. Ao ler um artigo, estendo a leitura aos comentários anotados abaixo e aí sim, é possível ver como as pessoas se metem na vida alheia com munição pesada de conservadorismo, repreensão e julgamentos precipitados.

Em muitos casos, a própria mídia, desde o título da matéria, já induz o cidadão ao exagero de direcionar críticas e xingamentos não somente aos que se excedem na exposição da vida íntima.

Dois fatos noticiados esta semana receberam incontáveis comentários ignorantes e desrespeitosos endereçados a desembargadores. Ao expor a vida íntima, mais precisamente o fim de um relacionamento conturbado nas redes sociais, um jovem antes de ter o próprio nome mencionado, teve o do pai, porque este, uma autoridade do Judiciário, renderia manchete. Dito e feito!

Rendeu também um sem número de intervenções viscerais de discurso de ódio contra o relacionamento dos rapazes e palavras grosseiras, no sentido de atingir os familiares. A mídia equivocada, apressou-se em divulgar o nome do pai de um dos rapazes desde o título da matéria, embora seja o jovem maior de idade, como se houvera um pai, desembargador ou não,  ser prejudicado por ter um filho homossexual.

O outro fato noticiado foi sobre o reconhecimento pelo Tribunal de Justiça de Mato Grosso, ao direito de receber metade do valor deixado em pensão por morte a uma senhora que teve relacionamento duradouro e comprovado por mais de 20 anos com um homem casado.

No apontamento são expostas as razões pelas quais o despacho do desembargador enveredou pelo acolhimento da pessoa na condição de parte de uma estrutura familiar paralela, considerando que o Poder Judiciário não deve ignorar a existência dos relacionamentos informais, baseados no afeto.

Esse entendimento que mereceu uma página no conceituado jornal Estadão, desagradou a família tradicional, que vive sob o signo do princípio da monogamia. Cidadãos que sequer foram afetados pela decisão proferiram xingamentos viscerais até a terceira geração da mulher beneficiada e do desembargador.

Estamos viscerais no sentido negativo da palavra. Estamos usando toda a força da alma, dos pulmões e até dos órgãos reprodutores, para odiar, para denegrir os valores dos outros, as crenças, a liberdade, o gênero. A humilhação e o ataque são características dos seres viscerais. O ataque pessoal e crível é suficiente para induzir uma pessoa a vergonha e a humilhação existencial.

Lamentavelmente nossas estratégias de tratar as situações e as pessoas com respeito tem sido estritamente limitadas pela ânsia de nos posicionarmos diante do que não conhecemos e não fomos chamados a opinar. Olhando mais profundamente essa questão de colocar as vísceras para defender pontos de vista, diria que em vez disso, poderíamos nos aventurar em reformar o conhecimento que temos e não trabalhar tão intensamente para deformar a dignidade dos outros.

E não estou falando aqui da utopia de vivermos o mito das relações agradáveis, porém podemos nos livrar do peso do rosto severo, dos músculos esticados e do olhar inabalável de quem vê a vida através das vísceras. Este pode ser um desafio formidável!

P.S. Visceral é um adjetivo referente à aquilo que pertence às vísceras. As vísceras são os órgãos que estão contidos nas cavidades do corpo; como parte do aparelho respiratório ou do aparelho digestivo, como os pulmões, o fígado, o coração ou o pâncreas. A noção de visceral no sentido figurado está associado a uma reação emocional super intensa, que brota do interior da pessoa e escapa à razão e à lógica.

Sambam no Congresso todos os dias

Não é verdade que o Carnaval encobre atos escusos do Congresso Nacional e dos políticos em geral em esferas abaixo. Divertir-se não exclui a possibilidade de continuar exercendo marcação cerrada na tramitação de assuntos relevantes para o bem-estar da nação.

Não há como colocar samba na economia, na falta de segurança, na reforma educacional em andamento. Acontece que o Carnaval se estabeleceu no país assim como os problemas acima citados e uma coisa não deve tirar o foco da outra.

O samba desce a avenida aqui nos trópicos e a vida segue seu ciclo inexorável com os progressivos registros de ataques do Aedes Aegypti, transmitindo dengue, zika e chikungunya e a novidade do surgimento de muitos casos de febre amarela, sobretudo em Minas Gerais, mortes por excesso de velocidade, condução sob influência de álcool e outras substâncias, mas sob a ótica do turismo e não da cultura, é preciso deleitar o mundo com a imagem das mulheres seminuas!

Pode não ser este um momento de ensinar ou aprender, mas nem é tampouco um momento de sentir-se seduzido só porque não resistiu e assim como eu, foi espiar a festa pagã. Ao fazermos uma leitura racional sobre o Carnaval, não podemos simplesmente assimilar a falação sobre a perda de produtividade do país no período porque estamos diante de um evento colocado pelos turistas, no nível de eventos esportivos globais, como as Olimpíadas.

Além disso, o carnaval gera uma imensidão de empregos temporários, no ano passado, algo em torno de 250 mil pessoas, entre costureiras, bordadeiras,cenógrafos foram contratados pelas escolas de samba e blocos para produzir o show.

Na representação do teatro da vida, sigamos lutando com equilíbrio entre informação e ação, trabalhando entre ética e estética, o tolerável e o intolerável. Gostar ou não de Carnaval, não importa a ninguém senão a si mesmo, portanto, não se debulhe em críticas vãs, tampouco se perca a ponto de desconectar-se da realidade.

Nenhum ser perde a noção do meio termo, do equilíbrio e bom senso somente porque é carnaval. Alguns perdem essas noções básicas de civilidade porque bebem.

Depois do carnaval seremos sacudidos pela votação da reforma da previdência e suas pequenas maldades, que deve elevar o valor da contribuição e a idade mínima para o cidadão aposentar, além disso, o tempo de contribuição deve subir para míseros 49 anos. Tranquilo, né?

Também em pauta, o pacote anticorrupção, votado misteriosamente numa manobra no meio da noite e ainda reforma do ensino médio. Diante do sinistro que nos espera, saibamos que a imagem que o carnaval sustenta no exterior principalmente, é fruto das plantações da mídia brasileira, que ora endeusa e veste a fantasia, ora  excomunga os foliões e a desordem.

Na Orla do Porto de Cuiabá, a mágica batida dos tamborins do grupo Olodum não deixou ninguém ficar profetizando ou filosofando se em tempo de carnaval os brasileiros são malandros ou heróis.