Migração – uma longa e incerta travessia

Os Estados Unidos têm a maior população de brasileiros em todo o mundo, são mais de 2 milhões e 100 mil imigrantes, entre regulares e irregulares, conforme dados do Ministério das Relações Exteriores. Somente no ano passado1.648 brasileiros foram deportados a partir da entrada ilegal pela fronteira com o México. Não encontrei dados sobre o número de pessoas que entram no país de avião, com visto de turista e tentam permanecer. Desde a campanha, o presidente Donald Trump prometeu leis duras contra os imigrantes, espalhou notícias falsas sobre imigrantes haitianos, dizendo que “em Springfield, eles estão comendo cachorros. As pessoas que chegaram estão comendo gatos. Elas estão comendo os pets das pessoas que vivem aqui”.

Elegeu-se presidente e iniciou o processo de deportação dois dias após a posse. Além disso, as primeiras ordens executivas de Trump incluíram a medida para acabar com a cidadania por direito de nascença e outra medida declarando a paralisação do programa de admissão de refugiados. Basicamente, isso significa que migrantes sem documentos presos nos portos de entrada não poderão solicitar asilo e enfrentarão um processo de remoção imediata.

Mas vejamos a condição de pessoas que estão no entorno mais próximo do presidente Trump. A esposa, Melania Trump nasceu na antiga Iugoslávia, hoje, Eslovênia, trabalhou um tempo ilegalmente nos Estados Unidos, de acordo com a investigação da agência Associated Press. Portanto, Barron, o filho querido de Trump é filho de uma imigrante. O vice-presidente americano, J.D. Vance, é casado com Usha, filha de imigrantes indianos. Marco Rubio, o Secretário mais importante do governo Trump é filho de imigrantes cubanos, que chegaram nos Estados Unidos ilegalmente, sem dinheiro e sem falar uma palavra em inglês. O maior influenciador e financiador da campanha, Elon Musk é sul-africano, nasceu em Pretória, na África do Sul, migrou para o Canadá e só depois veio para os Estados Unidos. Ou seja, considerados imigrantes indesejáveis nos Estados Unidos sob Trump, são os negros e pobres de origem hispânica e brasileira.

Arnold Schwarzenegger nasceu na Áustria, é ator, ex-governador da Califórnia, republicano, rompeu com Trump por não apoiar sobretudo a política de perseguição aos imigrantes, reconhecendo-se como um deles, condição que a turma mais próxima de Donald Trump preferiu ignorar.

O indivíduo que migra, regular ou não, coloca no contexto da migração a sua autonomia e a liberdade de buscar novos lugares para construir a vida, para produzir sua própria história. Desfaz-se do drama para buscar a liberdade. Sou uma estudiosa das migrações modernas, do movimento de pessoas pelo mundo, onde cerca de 3,6% da população do mundo vive em países diferentes de onde nasceram, movidos principalmente por razões econômicas e conflitos. O tema é extremamente complexo e envolto em películas de discriminação e preconceito étnico racial.

A imigração legal, de acordo com as leis migratórias de cada país, é, em geral, um processo lento, caro, mas possível e preferível. A exigência mais elementar é que se fale o idioma, que tenha todos os documentos e certificados traduzidos oficialmente para o inglês, apresentar um fiador, ‘sponser’, de preferência que seja o empregador, endereço de moradia, comprovar com extratos bancários, renda compatível a uma vida dolarizada. Feito tudo isso, muita paciência e reza para ter o visto concedido, o que não garante uma vida sem estranhamentos e acusações de roubar empregos e onerar os serviços públicos implantados para os locais.

A imigração ilegal não é uma condição boa para o imigrante, que não consegue acesso aos serviços públicos, sobretudo, educação e saúde, vive sob a tensão de ser abordado pelas autoridades e essas condições por si, já marginaliza o imigrante, cuja maioria, se muda com o intuito de trabalhar e ajudar às famílias que permaneceram em seus países. Muitos têm curso superior, mas não têm o registro de suas profissões para trabalhar nos Estados Unidos, por isso executam trabalhos que mesmo o americano pobre se sujeita, como cuidar de crianças, lavar pratos, limpar o chão e fazer turnos na madrugada nos bares e hospitais. Não são criminosos, não comem os animaizinhos de estimação, enfrentaram dilemas e perdas ao partir, pagam aos coiotes um valor bem maior do que pagariam numa passagem aérea e se sujeitam a uma longa e incerta travessia.

Não calar nada

Escrevo livremente neste espaço do RDNews há 12 anos. Aqui, torno público e dou ênfase às minhas pesquisas, estudos sobre questões de gênero, desigualdade social, processos migratórios e política.  A sociologia me encoraja a de me expor, me aproxima de muitos, me distancia de alguns poucos, me traz reconhecimento e críticas, que aceito e utilizo no meu processo de crescimento pessoal. Neste espaço, aprendi a liberar meus textos de padrões rígidos dos artigos acadêmicos ou científicos e ganhei visibilidade como cientista social.

Após a apresentação de trabalho publicado e processo seletivo, percebo a indescritível honra de adentrar no Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso, uma Casa centenária, fundada pelo então presidente do Estado de Mato Grosso e Arcebispo Dom Francisco de Aquino Corrêa e entre seus membros estão destacados sobrenomes da sociedade e da política mato-grossense, comprometidos com a prestação de um trabalho contributivo para ajudar a preservar, acompanhar e narrar a história que Mato Grosso vai construindo.

A vida, o passado, a sensação profunda de pertencimento a região do Araguaia, onde nasci, em Ponte Branca, Barra do Garças, onde morei, levou-me naturalmente a escolher como patrono um homem que viveu mais de 50 anos às margens do Rio Araguaia, o bispo emérito da Prelazia de São Félix do Araguaia, Dom Pedro Casaldáliga, um migrante, evangelizador, defensor dos direitos humanos, sobretudo dos indígenas, que foi enviado ao Brasil em plena ditadura militar. Foi ordenado bispo e marcou a data com a divulgação de uma Carta Pastoral chamada Uma Igreja da Amazônia em Conflito com o Latifúndio e a Marginalização Social, onde denunciava que indígenas e trabalhadores viviam em regime de escravidão. Pela dureza de sua escrita, dizia: “Todos temos momentos de comunicação emocionada, intensa”.

Dom Pedro sofreu perseguições políticas, ameaças de morte, que ele respondia com a linha de uma poesia sua: “Eu morrerei de pé, como as árvores. Me matarão de pé”. Os governos militares abriram vários processos de expulsão do Brasil contra Dom Pedro, porque desconfiavam do envolvimento da Prelazia e do bispo com os movimentos da Guerrilha do Araguaia. Teve, porém, em todos os momentos, a defesa vigorosa do Arcebispo de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns. Permaneceu e fortaleceu a Prelazia, que respondia por 15 municípios e fazia divisa com Pará e Tocantins. Sua voz tornou-se nacional e internacionalmente respeitada. Escreveu vários livros. Contribuiu com a criação do Conselho Indigenista Missionário, CIMI e Comissão Pastoral da Terra. Teve sua vida retratada no filme “Descalço sobre a terra vermelha” e biografia escrita pela jornalista Ana Helena Tavares, “Um bispo contra todas as cercas: a vida e as causas de Pedro Casaldáliga”.

Ao completar 75 anos apresentou, conforme a tradição, pedido de renúncia à Prelazia. Eu o conheci em 2006, morando na casa pastoral, ativo nos trabalhos religiosos e comunitários, sendo visitado, entrevistado por pessoas de várias partes do mundo. Recebeu título de Doutor Honoris Causa da Unicamp, deu nome ao Campus da Unemat em Luciara. Mais tarde foi acometido pelo Mal de Parkinson. Continuou com o trabalho pastoral.

Aos 92 anos, em tratamento em Batatais-SP, nos deixou, não sem antes tratar de seu próprio sepultamento. Pediu para ser enterrado em um pequeno cemitério, onde eram sepultados os indigentes, debaixo do pé de pequi. Assim foi feito!

Viveu e morreu com o lema que perseguiu:

Não ter nada.

Não levar nada.

Não poder nada.

Não pedir nada.

E, de passagem, não matar nada, não calar nada.

Somente o Evangelho como uma faca afiada.

Onde muitos veem a obsessão pelo pessimismo, vejo a dureza da vida

Li um artigo interessante essa semana, onde um psicólogo afirma que está havendo uma obsessão coletiva pelo pessimismo, que o mundo conectado está se tornando um lugar cada vez melhor e que essa obsessão é algo deslocado da realidade.

“Eu me permito ser um pouco alegre, porque me disseram que é bom para a saúde” Voltaire, filósofo iluminista frencês. Porém, eu substituiria a palavra pessimismo por otimismo, porque observo grande parcela da população e sem exceção, todas as mídias, cobrarem e exibirem um mundo de otimismo implacável, sem verificação da realidade e até mesmo negando a existência de problemas sociais crônicos, onde estão navegando coaches, líderes espirituais e mentores, hipoteticamente habilitados, induzindo as pessoas a acreditarem que viverão o paraíso na terra e num passe de mágica terão a vida transformada em uma sucessão de vitórias fáceis. O otimismo obsessivo diante da promessa de prosperar da noite para o dia, pode cegar para as duras realidades da vida, negligenciar riscos ou até mesmo negar a existência das nossas limitações.

Não fico listando as causas do fim do mundo, falo das coisas como elas são, falo das ameaças reais, da violência crônica que persegue as mulheres todos os dias e em todos os lugares, da dificuldade de se ocupar igualmente homens e mulheres os mesmos espaços públicos, do descaso diante de problemas sociais, velhos conhecidos de todos os políticos que poderiam inverter as estatísticas, falo da cara da miséria, da pobreza de oscila entre pobreza extrema e pobreza, que para a grande maioria da população esse é o limite da ascensão social. Narro sem ânimo as cenas de racismo e preconceito, porque eles se repetem à miudamente.

O pessimismo não é irrealista. Em sua essência, o pessimismo é a expectativa de que os piores resultados são mais prováveis ​​do que os melhores. Muitos   sociólogos argumentam que os humanos têm uma predisposição evolutiva para se concentrar em perigos e ameaças, pois essa sensibilidade foi historicamente vital para a nossa sobrevivência.  

No mundo digitalmente conectado, as mídias se encarregam de pesar a mão, e as formas como o pessimismo se manifesta é amplificada por algoritmos que priorizam más notícias, reforçando a percepção de que tudo está desmoronando e o otimismo exagerado pode desviar o foco das perspectivas reais de derrota, pode levar a ignorar riscos e envolver-se numa teia de ilusões. A verdade é que o mundo é cheio de desafios e perigos perpétuos, os problemas são tão vastos e complexos e não há um engajamento coletivo para resolvê-los, a perpetuação da desigualdade social, da violência, da reação significativa da natureza à sua destruição, tem consequências profundas na vida do otimista e do pessimista.  

Sejamos a razão. Tomando os últimos dias como exemplo, a narrativa é tensa e carregada, mas vamos relembrar o mínimo: O rateio aleatório de dinheiro público para servidores no Natal, época em que a maioria dos brasileiros não tem dinheiro para o pão e presente para os filhos; criança sendo vítima de abuso de homem predador em local público, mulher amarrada, jogada ao Rio para morrer em agonia. Longe daqui, mas no mesmo planeta que habitamos, o fogo impiedoso arde e destrói uma cidade inteira. O que tem de novo nestas manchetes? Pessimismo? Não. As cenas são brutalmente reais, ainda assim, o sonho e a esperança operam diante de casos que cortam como uma navalha.  

Como suas escolhas definem seu futuro

Viver, como disse o filósofo e escritor francês Jean Paul Sartre, é isto: ficar se equilibrando o tempo todo entre escolhas e consequências. Temos que parar de colocar a culpa do que não conseguimos realizar no destino, na pouca fé e lembrar que tudo acontece como consequência das nossas escolhas, algumas equivocadas, de outras nos arrependeremos, outras nos orgulharemos e ainda algumas nos assombrarão para sempre.

O psiquiatra e psicanalista suíço Carl Jung disse uma vez: “Eu não sou o que aconteceu comigo, eu sou o que eu escolho me tornar”. Esta citação poderosa captura a essência da resiliência humana e o poder da escolha pessoal, enfatiza que nossas identidades não são gravadas em pedra por nossas experiências passadas, mas sim, são continuamente moldadas pelas decisões tomamos todos os dias. Esta citação serve como um lembrete que o passado, embora significativo é apenas um capítulo da vida, que embora possa nos moldar não nos definem na totalidade.

Dezembro e janeiro são meses que nos inspiram a exteriorizar as resoluções, promessas significativas de crescimento emocional, econômico, físico ou mental. Parece impossível chegar à passagem do ano sem idealizar como queremos que seja o novo ano. Como indivíduos, nos esforçamos para melhorar, mudar, ou de alguma forma alcançar aquilo que percebemos que nos falta. Nossa sociedade impiedosa, grita sobre as evidências do que nos falta: não somos bonitos o suficiente, ricos o suficiente, magros o suficiente, ambiciosos o suficiente, felizes o suficiente. No próximo momento já estamos traçando metas, corrigindo a rota para alcançarmos sucesso nessa sociedade que é rápida em rotular e categorizar o indivíduo com base em seu passado. 

Pois bem, em Sartre e Carl Jung, nossas escolhas são o acúmulo de decisões que tomamos, das ações, atitudes e crenças diárias. Todos os dias, fazemos escolhas e na grande tapeçaria da vida, cada fio conta para o crescimento e evolução pessoal ou não. Somos criaturas dinâmicas, em constante evolução e ao traçar metas assumimos a total responsabilidade pela realização delas, diante da maneira como enfrentamos os desafios, abraçamos as oportunidades e aprendemos com experiências decorrentes de nossas decisões. A filosofia pela qual nossas decisões definem nossas vidas se apresenta como uma perspectiva fortalecedora. Ela incentiva uma abordagem proativa à vida, nos incentiva ir além dos limites das forças externas e participar ativamente da criação ou reformulação do nosso destino.  

Na vida, tomamos decisões diariamente. Decisões relativamente fáceis, baseadas na tradição, no costume, na religião, mas as vezes, uma situação inesperada surge e exige que tomemos uma decisão diante de um cenário novo. Como você decide então?  Como você segue em frente? Como você decide o que fazer para atender aos seus melhores interesses? A filosofia e os estudos ensinam só nós podemos agir por nós mesmos, mas não existimos sozinhos. Haverá muitas pessoas ao seu redor lhe dando os “melhores” conselhos com as mais sinceras intenções. Alguns realmente parecem se importar com você.

É muita pressão! Há pessoas que nos influenciam e há pessoas que querem controlar nosso destino. Quem você escuta?

A maneira como você termina o ano é como o ano novo começa

Uma pluralidade de especialistas solicitados a conceituar como será a vida em 2025 acredita que mudanças sociais radicais tornarão a vida pior para a maioria das pessoas, à medida que maior desigualdade, crescente autoritarismo e desinformação desenfreada se instalam no horizonte do novo ano. A visão quase geral é que o relacionamento das pessoas com a tecnologia se aprofundará à medida que segmentos maiores da população dependerão mais de conexões digitais para trabalho, educação, assistência médica, transações comerciais e interações sociais essenciais. Isso foi descrito como um mundo “tele-tudo”. Eles escreveram sobre mudanças que podem reconfigurar realidades fundamentais, como a presença física das pessoas com outras e as concepções das pessoas sobre confiança, verdade e doenças.

O homem, que desde o princípio está condenado a existir fisicamente com outros homens e compartilhar com eles o mundo natural, não assimilou o rompimento dessa relação física e a saúde mental das pessoas já está sendo desafiada com esses processos de distanciamento promovido pela vida digital, que era muito estressante durante o isolamento social causado pela pandemia. Controlada a pandemia, o hábito do distanciamento e da vivência online foram incorporados ao nosso sistema de vida social, o tele-tudo porém, diminuirá mais ainda o contato pessoal e as conexões sociais.

A sobrecarga à saúde mental vem da disseminação de informações falsas, a manipulação aparentemente imparável da percepção, emoção e ação pública por meio de desinformação online, das mentiras e discurso de ódio deliberadamente engatilhados para propagar preconceitos e medos destrutivos, causarão danos significativos na formulação de raciocínio baseados em evidências. A desinformação será desenfreada: A propaganda digital é imparável, causa danos e é de rápida propagação e não há como reparar a reputação ou a mente atingida.

Enfim, o melhor e o pior da natureza humana tendem a ser amplificado em 2025. Todos os vivos hoje estão sob vigilância persistente de uma série de tecnologias, e as empresas de tecnologia não precisam mais de câmeras, de sinais de Wi-Fi a fios de cabelo, é possível reconhecer o indivíduo, sem passar por escaneamentos faciais. Dá medo!

A mesma conexão digital que gera empatia, traz conscientização sobre os males que a humanidade enfrenta e reação pública positiva às denúncias, acaba também sendo espaço impiedoso para declarações xenofóbicas, intolerantes e isso fará crescer as comunidades fechadas e polarizadas, que gravitam em torno de si mesmas, alimentando falsas crenças e sem liberdade para pensar e divergir. Aqui, o que critico é a rede de dependência do indivíduo à uma multidão, como uma necessidade social de pertencer a determinado grupo, em vez de viver imperturbável sua libertação.

Marcel Fafchamps, professor de economia e membro sênior do Centro de Democracia, Desenvolvimento e Estado de Direito da Universidade de Stanford, comentou sobre a ampliação da desigualdade e injustiça caracterizadas pela mudança da privacidade e inserção de ferramentas de tecnologias para controlar sem ética alguma a vida das pessoas, incluindo aplicativos de telefone que identificam ​​interações sociais e localizam as pessoas. Essas ferramentas, já são usadas por regimes totalitários para controlar melhor a população e como resultado, a democracia entrará na defensiva e sua disseminação poderá ser revertida em muitas partes do mundo e as próprias democracias infringirão mais as liberdades civis entrando em uma era pós-democrática.

Enfim, seja livre para ler, abstrair, crer ou divergir sobre a sensação que estudiosos tem do que nos consigna o ano que se aproxima.

Nossa realidade é ideológica

Slavoj Zizek é um filósofo e intelectual, nascido em uma cidade na antiga Iugoslávia, hoje parte da Eslovênia, com publicações interessantes sobre política, psicanálise e ideologia, sendo quase um conceito central em seus escritos. Zizek critica as teorias que definem ideologia como um sistema de crença que nos cega perseguindo o poder e a dominação, diz que não é possível viver sem ideologia.  

Assim, também em Zizek, a ideologia não é um sonho, uma ilusão que nós construímos para fugir de uma realidade insuportável. A função da ideologia não é nos oferecer um plano de fuga da realidade, mas ser um suporte para enfrentarmos e mudarmos a realidade. O que chamamos de realidade é extremamente ideológico e como Zizek coloca, a fantasia também está do lado da realidade.  

Para Zizek, a ideologia é a nossa realidade e não temos como escapar dela. A ideologia não é um fenômeno marginal utilizado para controlar as massas descontentes; não é apenas uma mera estratégia de poder, não é simplesmente uma falsa consciência, uma representação ilusória da realidade, mas sim, a realidade que não é imposta a nós. As ideologias nos oferecem maneiras de dar sentido ao que vivenciamos na sociedade e ajudam a ordenar nossos valores porque são forças poderosas que moldam as sociedades e tem o poder de motivar as pessoas a agir.

A ideologia, no caminho percorrido filosoficamente por Zizek, que inclui análises de Marx, Lacan, Hegel e outros, para exemplificar que no passado as relações entre as pessoas eram mediadas por uma teia de crenças ideológicas e superstições, as relações se davam entre o master e seus servos. Marx, inclusive entendia a ideologia como uma falsa consciência da relação de domínio entre as classes e vários autores pregaram o fim ou declínio da ideologia, mas estamos nós aqui, falando sobre o mal nenhum que ela traz.

Lembro que haver lido um discurso marcante do ex-primeiro-ministro britânico, Tony Blair, dizendo que as análises do mundo deveriam ser moldadas apenas pela realidade e não pela ideologia, pelas falsas crenças baseadas em como nós queremos que o mundo seja. Tony Blair, afasta a ideologia da realidade, como se a ideologia fosse algo tóxico.

Há muitas outras versões de crítica à ideologia, mas não se trata apenas de ver a realidade social como ela realmente é, de jogar fora os espetáculos distorcidos de ideologia; o ponto principal é ver como a própria realidade não pode reproduzir-se sem a mistificação ideológica. Entre estudos filosóficos profundos e discurso político, desconfio do político que critica a ideologia do adversário e cultiva a sua como se fosse a única a produzir análises sérias dos problemas do mundo.

O livro trouxe a negatividade da ideologia à discussão, alertando que o cinismo é um sintoma da própria ideologia e que o sujeito cínico é ciente da distância entre a máscara ideológica e a realidade social, mas ele ainda insiste em usar a máscara. Ele conhece muito bem a falsidade, tem plena consciência de um interesse particular oculto por trás de uma causa ideológica, mas ainda assim não renuncia a ela.

O valor da vida reside naquilo que a torna digna de ser vivida

A filósofa francesa Simone de Beauvoir, em sua obra sobre o envelhecimento, disse que “nossa vida conserva um valor na medida que atribuímos valor à vida do outro, por meio do amor, da amizade, da indignação, da compaixão”. Vivendo numa sociedade competitiva, impiedosa e virtual. Mal temos tempo para nos indignar pelas injustiças que sofremos, é visível nossa indiferença com relação a vida e fatos da vida das pessoas que temos perto, na família, no trabalho, na vizinhança. Clóvis de Barros, filósofo brasileiro diz que viramos a cara e o coração imediatamente após sabermos de algum fato triste ou violência sofrida por pessoas próximas e que a compaixão é estreita porque já sofremos muito em nosso próprio nome e, por isso, nossa vida tem valido muito pouco.

Filósofos e teólogos buscaram fundamentar, de diferentes formas, o sentido e o valor da vida. A questão central aqui é a palavra valor, que no tempo contemporâneo está muito associada aos valores estabelecidos pela sociedade, pelo consumismo encorajado pela mídia, pela atenção obcecada pela aparência. Valor é com o que nos importamos. O problema é que as coisas com as quais nos importamos mudam quase todos os dias. Quando o significado distorcido de uma palavra se torna parte do uso habitual da sociedade, é muito difícil desfazer o mal-entendido.

Schopenhauer e Nietzsche numa mesma linha de pensamento nos apontam que a vida segue como vontade e desejo, e que estes são completamente cegos e insaciáveis. Mas, ao observar o outro como sendo uma manifestação igual a nós mesmos, vindos de uma mesma origem e em constante e infinito estado de interdependência, fica mais difícil de ignorá-lo.

Porque dizer que a vida humana tem um valor inestimável e que precisa ser cuidada e valorizada a qualquer custo, é repetir o senso comum. A grande questão é entender por que a vida de uma pessoa deve ser importante para o outro. Desde 2010, a ONU desenvolveu um índice para medir os valores humanos, as expectativas, sonhos e ambições da população. O Índice de Valores Humanos pesquisa a vivência das pessoas e pode orientar políticas públicas que tenham como meta o bem-estar e a qualidade de vida da população.

Somos, cada um de nós, criadores do valor que damos a nossa própria vida. O caminho que eu escolho percorrer é apenas meu, porém, cada passo que dou afeta de alguma maneira pessoas que estão ao meu redor. Posso escolher realizar mudanças positivas, vivendo com independência, cuidado, com consciência e compaixão. Como escolho adicionar valor a vida de outras pessoas depende dos valores que preservo em mim e isso deve ser trabalhado com habilidade para que eu possa valorizar a vida do outro sem resguardar a lealdade dos valores tribais nem tampouco me enebriar com a gratificação egoísta e puramente pessoal da contemporaneidade.

O amor empurra para ter, em relação ao valor da vida do outro, o mesmo respeito que você tem pelo valor da sua própria vida. O mais, seguindo o poeta Fernando Pessoa “Segue o teu destino, rega as tuas plantas, ama as tuas rosas. O resto é a sombra de árvores alheias”. 

Apetite pelo domínio e desumanização do outro

Uma semana de leitura tensa tentando compreender por que os seres humanos são tão terríveis uns para com os outros.  Em uma longa entrevista o psicólogo canadense Paul Bloom, Ph.D em psicologia cognitiva pelo MIT e destacado professor de Psicologia e Ciência Cognitiva na Universidade de Yale fala sobre as raízes da crueldade humana e de início provoca susto, ao dizer que as pessoas cometem atrocidades contra outros, porque acreditam que quem eles estão matando ou violentando não são seres humanos, isso é chamado de violência instrumental, onde há algum fim que querem alcançar, e as pessoas estão no caminho, por isso não pensam nelas como pessoas, mas como empecilhos.

O caso estarrecedor de violência policial praticado em São Paulo semana passada, reforça a tese que muitas vezes um ser humano não enxerga o outro como humano. Um policial arremessa de uma ponte um jovem que havia sido abordado por um grupo de policiais. O caso não parou nos depoimentos mentirosos dos policiais porque uma pessoa assistiu e gravou a cena. O jovem foi deliberadamente jogado no córrego, sem que nenhum policial do grupo houvesse tentado evitar a violência. O policial está preso e outros 12 foram afastados por terem sido coniventes com a brutalidade. Engraçado, se não fosse trágico, mas em depoimento, o policial afirmou que a intenção era jogar o jovem no chão. Como queria jogá-lo no chão se o jogou para o alto?

A explicação do professor Paul Bloom é que as pessoas só são capazes de fazer coisas terríveis a outras pessoas depois de as terem desumanizado. Quando você deixa de apreciar a humanidade de outras pessoas fazemos muitas coisas horríveis. E nas situações degradantes e humilhantes, trata-se de torturar pessoas porque achamos que elas merecem. É também sobre o prazer de ser dominante sobre outra pessoa. Portanto, a desumanização e a soberba são reais e terríveis.

Alto grau de crueldade nasce da desumanização, alguma crueldade nasce da perda de controle, de um desejo instrumental de conseguir algo que se deseja: sexo, dinheiro, poder. O desejo de ter um bom desempenho social tem um peso desagradável e enorme. Se você consegue ganhar respeito ajudando as pessoas, isso é ótimo.  Outros, porém, conseguem ganhar respeito dominando fisicamente as pessoas com agressão e violência, isso é destrutivo, mas acontece muito e é o que estamos narrando neste artigo.  

De 20 de novembro a 10 de dezembro ocorre uma movimentação chamada de “21 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres”, campanha que busca conscientizar a população sobre os diferentes tipos de agressão contra meninas e mulheres em todo o mundo. Apesar dos avanços na legislação, os números relacionados à violência contra as mulheres no Brasil, são alarmantes. Nos movimentos mobilizados para a campanha o que vê são mulheres falando para mulheres, com alcance zero para os companheiros que as agridem e matam.

Temos essa tendência de superestimar até que ponto somos os destaques morais, os justos, os corajosos, os heróis. A questão é que não nos comportamos em situações estressantes da maneira que pensamos ou gostaríamos e Paul Bloom arremata mostrando um estudo de laboratório comprovando que nas condições certas, mesmo diante da insanidade do ato, a maioria de nós é capaz de fazer as coisas terríveis que a princípio condenamos.

Não está sendo fácil pertencer a uma sociedade obcecada pelo poder e pela honra, pelo apetite pelo domínio e punição em vez de preocupada com a atenção e dignidade da pessoa humana.

O estado é o sistema

A busca incessante pela reforma dos sistemas políticos é parte indissociável do progresso do mundo civilizado. Há concretamente descontentamento com a qualidade de muitos serviços públicos, há descrença com a velha forma de fazer política. Há como reformar a máquina pública. Entretanto, não se deve propagar a confusa ideia entre promover reformas e ser antissistema.   Na ciência política e das relações internacionais, o sistema é concebido como um conjunto de princípios, normas, instituições, conceitos, crenças e valores que definem os limites do que é convencional e legitimam as ações dos cidadãos dentro desses limites. Do sistema fazem parte: a ordem política, social, econômica e cultural sob a qual vivemos, a ordem racial e hierarquias de gênero, todas trabalhando juntas como um mecanismo complexo, porém, único.

Para fazer as mudanças que o Brasil precisa, é preciso negociar com esse sistema que aqui está. Não é possível descontruir as instituições por questões de preferências ou bravatas em ciclos eleitorais.

O sistema ordena e controla as funções e relações entre a sociedade humana, a economia, a população e o mundo natural. Este é o ponto de partida para compreender o sistema, isto é, o Estado, cuja característica central é a estrutura jurídica, administrativa e tomada de decisões. O Estado moderno é interligado entre governos, instituições, organizações e grupos informais, como os grupos da sociedade civil, partidos políticos, famílias.  empresas, instituições financeiras. São antissistema os movimentos e pessoas que tratam as instituições com desdém e se opõem radicalmente ao sistema dominante, ao estado, como um todo e ainda, se intitulam como os messias capazes de descontruir a ordem estabelecida.

Todos os dias, frases desconexas, como: “venho para combater o sistema”, “sou um homem da iniciativa privada, sou contra o sistema que aí está”, surgem nos discursos dos homens que se lançam candidatos e não querem assumir que, de fato, pretendem abraçar e serem abraçados pelo sistema. Ora, o sistema, em certo momento já beneficiou a todos os homens públicos e privados. E quem já está na política, seja investindo em candidaturas ou em cargos eletivos ou não, estão promovendo seus crescimentos dentro do sistema. E diante da luz das câmeras, dizem ser contra o establishment, palavra em inglês que melhor define todo o arcabouço que constitui o estado. Isso não vai colar.

Lembro-me de Fernando Collor, candidato à presidência da República em 1989, com discurso antissistema, pregando a destituição do sistema vigente, caçando marajás pelo país. Bradava contra um sistema, que já havia lhe possibilitado ser prefeito de Alagoas e deputado federal. Enquanto presidente, não promoveu ruptura alguma, não reformou parte do sistema que criticou e arrasta consigo ainda hoje, o estigma de haver confiscado as economias poupadas de milhares de brasileiros, além de haver permitido que montassem atrás de si, uma rede gigantesca de tráfico de influência no governo. O resultado, foi a votação a favor da abertura do processo de impeachment dois anos depois da posse.

Pablo Marçal declarou ser antissistema. Criticou tudo, não apresentou proposta alguma para reformar o estado brasileiro, não foi para o segundo turno nas eleições municipais em São Paulo.

Quem não quer verdadeiramente fazer parte do sistema, deve ficar fora da política. Não é possível promover desenvolvimento sem utilizar emendas parlamentares, sem assinar convênios com órgãos do governo federal; não é possível entrar na política e virar as costas para as relações institucionais com o estado e empresas privadas.

Os homens estão sonoros e exaltados

Atualmente vivemos num mundo envolto em volatilidade, incerteza, complexidade e ambiguidade, em inglês há uma siga para isso, VUCA (volatility, uncertainty, complexity, and ambiguity). São velhos assuntos que testam a humanidade, como a emergência climática, a violência, os conflitos internacionais e a eterna Aliança Global de Combate à Fome, que, repaginada, foi lançada recentemente e teve a adesão de 82 países e diversos organismos internacionais.

Os humanos são seres que fazem sentido e procuram compreender e interpretar o que está acontecendo, porém, nem sempre conseguem conviver bem com o extrato da sociedade e abordagem dos fatos como está acontecendo nesse dado momento. Os homens estão muito sonoros e exaltados, se rompem os laços interpessoais de fraternidade, que são necessários para que tenhamos uma sociedade sem violência, como disse o Ministro do STF, Flávio Dino, dias atrás, em Cuiabá.

E, contrariando um provérbio oriental, tempos difíceis não tem gerado homens fortes. Os ânimos estão à flor da pele, não há mais o adversário, o oponente, há o inimigo. Não há aceitação da derrota. Há tentativa de golpe, planos de assassinatos. Não há mais comparsas leais. Há a delação.

A crítica tem sido punida sob a positividade das convicções de quem as ouve, mas devemos aceitar a punição do que é errado sem favoritismo, fanatismo ou polarização, a violência praticada ou comprovadamente planejada deve entrar na conta do delito e seguir com o processo judicial.

O cientista político da Universidade Federal de Minas Gerais, Felipe Nunes diz que: “a sociedade brasileira se tornou polarizada e socialmente calcificada”. Ele explicou que o índice da polarização afetiva está associado à tolerância com o diferente. Já a calcificação pode ser relacionada ao fato de que a sociedade se tornou mais rígida quanto à identidade, ou seja, as pessoas estão mais intolerantes quanto a ouvir quem pensa diferente, não debatem mais o Estado, debatem os valores. Diz que o povo virou torcedor que têm visões de mundo radicalmente diferentes e não estão dispostos ao diálogo. O cientista político diz ainda que a única maneira de superar a calcificação é por meio da pluralidade de ideias e do convívio saudável com o diferente e do debate.

Apesar de estamos emocional e fisiologicamente sintonizados com o mundo que nos rodeia, estamos também, bombardeados com informações já recheadas de ideologia e não podemos perder a noção de onde vêm nossas influências, não podemos permitir a quebra dos valores civilizados da cultura da paz. Precisamos desafiar nossas suposições para nos abrirmos para a possibilidade de vermos uma situação sob variadas formas de interpretação.

Porque, em John Donne, poeta inglês aprendemos que: “Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra…” e como uma partícula do universo, condensada à sua importância, nenhum homem pode fazer grandes coisas, apenas pequenas coisas com grande amor. (Mahatma Gandhi).