Os ciclos da vida do homem contemporâneo

A vida do homem pode ser de curta ou longa, dependendo das circunstâncias e do mundo perigoso onde ele vive. Se pressupomos que a idade média do indivíduo é de cerca de 75 anos, o tempo de vida pode ser dividido em vários momentos desde o nascimento até o fim da vida. A cada ciclo da vida, a idade é um fator determinante para a atividade intelectual. Dos 18 aos 25 anos a educação é reforçada e o cérebro é bombardeado com a aprendizagem de várias competências que respondem as curiosidades e que seguramente facilitarão a entrada na próxima fase da vida.

Dos 30 aos 50 anos somos envolvidos na estruturação da vida pessoal e profissional e muitas vezes a uma velocidade vertiginosa e sem muito cuidado com o corpo ou inspiração espiritual. É um momento crucial onde nos tornamos escravos de nossas próprias ambições, com a vida demasiadamente atribulada e os meios utilizados para alcançar os resultados nem sempre levam em consideração o estado da alma, que no processo tende a ser esquecida. Todavia, analisando a máquina humana, estes são os anos que precisaríamos de mais cuidado para apoiarmos os próprios sonhos, precisaríamos dar a nós mesmos permissão para nos estabelecermos como prioridade. Seria a hora de viver o que nos faria verdadeiramente felizes e realizados.

Entretanto estudos apontam que a virada hoje ocorre na maioria das vezes dos 50 aos 60 anos e então é uma viagem alucinada, por razões diversas que incluem tudo, desde a pressa de se viver o que não pode, o trabalho, vida difícil, consumo exagerado de bebidas alcoólicas, o divórcio e problemas econômicos. Esse desafio de enfrentar julgamentos e retomar a vida não se aprende na escola. A falha do corpo e da alma humana gera um processo difícil de juntar os elementos básicos, dar-lhes novamente função, ouvindo os sinais vitais do corpo, num processo de preenchimento do buraco espiritual, deixado pela angústia diante das escolhas que são feitas a cada dia pelo homem.

Nunca é tarde e a qualquer tempo o homem deve iniciar ou reiniciar a construção ou o reequilíbrio de sua existência. Sorte que o homem não nasce com comportamento acabado e por isso pode ser transformado, tanto física quanto mentalmente, desde que o próprio corpo, alma e mente descartem os preconceitos e busquem a interação para uma vida mais proveitosa e gratificante, como um bilhete na mão para assistir a um grande espetáculo sobre novas crenças e hábitos que por anos foram bloqueados pelo ego.
O dinheiro, sem dúvida é a força que move quase tudo o que fazemos no mundo civilizado, mas o nosso crescimento não precisa ser igual em riqueza financeira e riqueza interior.

É preciso retomar o equilíbrio que esvaiu-se, que tornou impossível a missão de conciliar a realização dos sonhos, equilibrar-se em relacionamentos, estabelecer fronteiras, encontrar paz de espírito, saúde e segurança financeira. Mergulhar em si mesmo significa assumir as escolhas feitas e principalmente vive-las de modo intenso de forma que exista libertação de tudo que oprime.
Vê-se agora que a felicidade não é acidental, as ações tem efeitos cumulativos. Todavia “é preciso começar pelo mais escuro, buscar o vazio, e o negro, e o nu, e chegar progressivamente a luz”. Comte-Sponville (1997, p.13).

Os discursos dos homens austeros

O dicionário define austero como severo, duro e uma pessoa austera é alguém dotado de rígido comportamento e modo de vida sem conforto exagerado ou luxo. E se estendêssemos o significado a algo racional, um comportamento que beneficiaria nosso modo de vida, em vez de arruiná-lo, um comportamento que não trouxesse sacrifício, mas o entendimento de viver dentro de padrões de uma moral verdadeira?
A história mostra que os tempos austeros podem ter a capacidade de transformar as pessoas e as nações. Esparta, cidade-estado da Grécia antiga, tornou-se famosa pelo poderio militar de seus cidadãos através do seu modo austero de vida. Do nome desta cidade, a palavra “espartano” evoluiu e ainda hoje é usada para conotar abnegação.

A austeridade é provavelmente uma palavra que poucos pronunciam num contexto positivo; está inexoravelmente associada principalmente com o pessimismo econômico, com a perda do padrão de vida, sem qualquer objetivo de compensação à vista.
Mas há outro tipo de austeridade que hoje aqui exploro. A austeridade nos gestos, nos discursos políticos, a privação do sorriso, do abraço apertado, da esperança nos palanques. Os discursos inflamados, ainda remetem a mágoas passadas, os homens austeros sobem nos palanques inspirados pelo desejo de revanche e não olham nos olhinhos espremidos do que lá embaixo clamam por um afago, por uma palavra que lhes traga alento.

Engraçado como esses homens(e mulheres) conversam entre si nos discursos.
O povo, ah o povo! Esqueceram-se de falar com o povo. É por isso as urnas trazem surpresas, não para o povo, mas para os homens de palavras austeras, prometem cortar gastos, enxugar a máquina, que incontáveis vezes falam de seus projetos, mostram seus amigos, exibem força política. Mas e você que foi ao comício ou reunião política, como preferir, só para ouvir que sua vida vai melhorar, que seus filhos serão transformados em cidadãos dignos pela educação de qualidade que os alimenta e ensina enquanto você trabalha. Não viram você lá?

A alegria, a transmissão da esperança, o diálogo, a troca de carinho podem estar em cima de qualquer palanque e isso não comprometeria o rigor e a seriedade da campanha. Os homens de virtude serena não são fracos, embora isso lhes conceda pouca glória. Mas creia-me é possível adotar o agir político, cujo critério principal não seja apenas a conquista do poder em si. É a outra face da política, é deixar aflorar as virtudes elevadas da gentileza, da prudência, da honestidade, da temperança, da alegria, da tranquilidade e da boa educação. Abaixa-te e escuta o que te dizem.

As medidas de austeridade devem ser deixadas a esfera econômica, onde tem potencial positivo para reduzir o consumo excessivo e levar as pessoas a pensar com mais criatividade sobre o futuro, fazer escolhas de novos estilos de vida, abrindo mão de atividades não-essenciais que permeiam a vida moderna.
Politicamente as virtudes não precisam ser diagnosticadas fracas ou fortes. Nenhuma virtude renega a simplicidade e a tolerância. Há controvérsias, mas eu li e aprecio a teoria de que a base que sustenta uma boa república, mais até do que as boas leis, é a virtude dos seus cidadãos.

A culpa em si é um sentimento inútil

O sentimento de culpa é algo bom. As únicas pessoas que não sofrem com a culpa são os sociopatas e serial killers. A culpa significa que você tem consciência, boa percepção. Amparado por comodidade ou ensinamento religioso, alguns preferem acreditar que toda nossa história de vida se desenrola seguindo o que já fora traçado desde que nascemos.

Do terremoto aos desmandos políticos, tudo se move de acordo com a vontade de Deus. Assim fogem da atribuição de culpa aos outros e a si próprio quando as coisas vão mal. O sentimento de culpa é apropriado para que não sejamos inclinados a esquecer certos abusos. O racismo por exemplo. O que você faz para reforçar sua oposição ao racismo? Tudo? Então ótimo. Não se acuse e nem recuse a realidade do mundo que você vive. Todo mundo tem um um crítico dentro de si, dizendo-lhe como agir, o que fazer e o que não fazer, julgando a aparência, repreendendo o modo de vida.

Essa voz interior detém o poder incrível de nos atribuir culpas, de nos chamar a razão em momentos que absolutamente podemos mudar coisa alguma. Porém, em outras circunstâncias, temos que assumir nossas culpas pelas escolhas feitas às pressas, pelo fracasso de políticos que apoiamos, pela pobreza dos que vivem ao nosso redor.

Tragédias ressoam repetidamente em nossos ouvidos, massacres, guerras e isso é culpa nossa. São ações iniciadas pelos homens de razão, que estão sempre com um pé na possibilidade de erro. Mas não se curve em culpas; a culpa ostentada converte-se em fraqueza. No outro extremo, também não faça a mea culpa, porque pode parecer arrogância querer que a solução de todos os problemas passe por você.

Li que as mulheres são mais propensas a dureza da culpa. Culpam-se pela educação dos filhos, pelo excesso de trabalho, pelo acúmulo de horas fora de casa, pela liberdade que experimentam. Esta voz interior é fonte de estresse negativo, abala a auto-estima, causa infelicidade. Talvez porque as mulheres ainda ouvem as vozes do passado, que estão internalizadas. São talvez os pais, irmãos, marido, a escola conservadora, que colocou-as uma condição onde tudo é preto ou branco.

O desempenho do ser humano não é perfeito de acordo com nenhum padrão, não somos robôs. Isso não é fracasso. Fracasso é pegar uma situação ou característica negativa e multiplica-la. Ver um único evento desagradável como um padrão contínuo de derrota, é excesso de generalização. Erros ou falhas isoladas não indicam que você sempre falhará. Sempre hesitei em creditar culpa aos outros ou a mim mesma, nem mesmo sei quem seria o alvo das minhas acusações. Por certo, nem todo mal pode ser evitado, então não personalizo o fracasso, não assumo a responsabilidade de circunstâncias negativas que estão além de meu controle. Não dou ouvido a voz interna que diz que tudo é culpa minha.

Na contramão da culpa, melhor avançar e aceitar que somos seres imperfeitos, que fazemos o melhor com o que temos no momento e isso tem que ser bom o suficiente. A culpa excessiva corrói a alma, é uma emoção complicada, que mistura elementos da nossa cultura, religião e da família, além do nosso crítico mais severo; nós mesmos.

As duas naturezas do egoísmo

Se a consequência do individualismo carecia de base teórica e empírica, uma nova descoberta de cientistas da Universidade de Sidney, na Austrália, pela primeira vez, isolou o gene do egoísmo em abelhas fêmeas. O conceito que era apenas aceito, agora está confirmado. Isso significa que o gene do egoísmo existe e não apenas em teoria, mas na realidade e pode estar abrigado no núcleo das minhas e das suas células.

Há traços do egoísmo em todo processo da nossa evolução. Interesses pessoais não se extinguem, não desaparecem completamente, não são sequer camuflados. Só que as sociedades evoluíram e os laços que unem as pessoas deixaram de ser apenas pessoais e como membros da mesma sociedade e devemos nutrir sentimentos comuns de convivência e compartilhamento harmonioso. Mas a civilização tem suas imperfeições e seus desvios.

O egoísmo separa o individuo de tudo, confina a pessoa em si própria, fecha todos os horizontes. Observadores das Ciências Sociais confirmam que estamos nos tornando mais egoístas; maus modos e grosseria são evidentes. As pessoas trabalham apenas para si, colocam suas próprias necessidades diante das dos outros, e tentam distorcer os acontecimentos das ordens naturais em seu favor quase todos os dias. Todo indivíduo é um ser único neste mundo. Isso não seria um problema em si, mas somos 7 bilhões de pessoas no planeta, se cada um decidir agir individualmente, o que será?

Num estudo sobre o comportamento egoísta das classes sociais, pesquisadores emitiram um veredicto devastador sobre os altos escalões da sociedade. Descobriram que as pessoas privilegiadas frequentemente se comportam pior que os outros em uma série de situações, com maior tendência a mentir, trapacear, tirar os outros do caminho, não parar para pedestres em cruzamentos. Na ponta dos estudos o psicólogo Paul Piff , do Institute Social of Personality observou secretamente o comportamento das pessoas e constatou que os motoristas dos carros mais caros eram a maioria dos que não aguardavam o sinal ou davam preferência aos outros, inclusive pedestres. Interessante ver como o efeito varia entre as culturas. Em raros momentos da pesquisa, ambas as classes se comportaram iguais.

Visto que o egoísmo tem ligações intrínsecas com a ganância, o indivíduo ao ocupar escalões mais altos começa a ver-se com mais direitos e desenvolve um elevado foco em si mesmo, o ambiente social fica mais favorável as suas ações predadoras e ele perde inclusive, a noção dos riscos de seu comportamento fechado em si mesmo.

Sempre nos disseram para não sermos egoístas porque o egoísmo é uma característica ruim, no entanto, contrapondo o estudo apresentado acima, a Stanford Graduate School of Business (GSB), apresenta o egoísmo como um componente vital da recuperação pessoal e afirma que os indivíduos que agem em seu próprio interesse, são mais propensos a ganhar prestígio e reconhecimento de liderança dentro dos seus grupos sociais do que aqueles que apresentam características altruístas e contribuem para o bom resultado da equipe.

Esses resultados não devem de modo algum desencorajar as pessoas no processo de demonstrar generosidade. Eles simplesmente explicam como opera o comportamento do indivíduo que trabalha em um ambiente estritamente competitivo. Na política é bem fundada a presunção de que o homem público que se deixa corromper, é de espírito egoísta, pois antepõe o interesse individual ao coletivo, o próprio bem ao bem comum.

Vendedores de ilusão

Os políticos são sempre os mesmos em toda parte. Eles prometem fazer pontes até mesmo onde não há rios, teria dito o líder político russo Nikita Kruschev.

Aprender a falar “não” é um dos maiores desafios enfrentados pelos políticos, que acabam super-comprometidos com programas impossíveis de se realizar quando se elegem. Tentar ser a esperança e a redenção para todo mundo não é eficaz tampouco sincero. É preciso saber quando dizer não. É bom manter o foco mais estreito e as metas dentro de um estado de controle que o candidato possa segurar pessoalmente. Deveria ser regra  não fazer promessas ao vento. Li uma pesquisa que analisou o grau de sinceridade dos discursos de candidatos americanos e para surpresa, o resultado foi que os discursos dos candidatos lá são frequentemente  sinceros.

Aqui, faz-se outra leitura. Os candidatos devem dizer não quando houver solicitações que são inconstitucionais ou que sejam de responsabilidade de outro nível de poder. A outra opção é contratar pessoas qualificadas que entendam os processos eleitorais e suas nuances, que estejam afinadas com a realidade da cidade e que tenham uma visão humana da condição de vida dos cidadãos. Além disso, o candidato pode perguntar a si mesmo o que, como cidadão gostaria que fosse feito antes de galantear-se diante de pleitos impossíveis. 

Não ignorar as críticas, tampouco colocar-se acima delas, acreditar em si mesmo, no projeto político que empunha e manter-se firme no jogo são recomendações básicas para manter o equilíbrio nos dias que você sentir vontade de jogar a toalha. Mas, para ser bem sucedido, é preciso também de sorte, manter a fé e sobretudo ter bom discurso, que ataque os problemas de frente e que seja específico e claro. Embora os candidatos prefiram fazer afirmações positivas sobre seus próprios planos, interesses e atividades, alguns ainda perdem tempo criticando os programas do adversário. Estranho não? Com tanta coisa para fazer por que ater-se a ler o programa do outro? Isto sugere que quando os candidatos perdem o tempo de propaganda, já escasso para atacar seus oponentes, esse comportamento enfraquece o valor da campanha.

Ainda sobre a pesquisa, os jornalistas e analistas políticos afirmam que frequentemente os discursos inflamados servem apenas para influenciar eleitores desavisados e vulneráveis e tem pouca ligação com o que realmente pretendem fazer os candidatos depois de eleitos. Até porque, depois de eleito, o candidato não governa sozinho. Depende de aprovação de outros poderes para legislar. E os candidatos (todos) sabem muito bem disso e se insistem em transitar entre a linha das promessas vãs e do desrespeito aos eleitores só revela que o candidato é essencialmente um vendedor de ilusões e que dirá qualquer coisa para conseguir o seu voto.

Será que nós sinceramente esperamos que eles façam tudo o que prometem durante a campanha? Afinal, as circunstâncias estão sempre mudando. Uma vez eleitos os políticos têm de se ajustar a situações diferentes em conformidade com o cargo. Contudo, alguns serão bons, outros ruins e nenhum será perfeito.
Estejamos atentos. Promessa de campanha não é sinal significativo das intenções dos candidatos. Há por aí grandes exemplos de pessoas cujos egos estão fora do equilíbrio. Eu vou procurar candidatos encorajados a pensar também com o coração.

A arte de transformar estranhos em amigos

A linha que separa os bons dos maus não passa pelo estado, nem pela divisão de classes, nem pelos partidos políticos, mas vem de dentro do coração do homem, escreveu o russo Alexander Solzhenitsyn.
Resta-nos o desafio de adotar novos modos de pensar, novas formas de atuação, de nos organizar em sociedade, adotar novas formas de vida, encontrar um novo alento na espiritualidade, porque estar vivo deve ser algo mais do que apenas caminhar e falar.
Uma das perdas que a sociedade moderna se ressente com mais intensidade é a perda de um sentido de comunidade. Algo que já existiu num passado nem tão distante e que foi substituído pelo anonimato cruel, pela busca de contato um com o outro principalmente para fins de obter ganhos financeiro, para avançar socialmente ou para viver relacionamento amoroso.
Como a sociedade pode retomar o espírito de camaradagem na sociedade moderna que é centrada na adoração do sucesso profissional?

Nos competitivos, pseudo -encontros sociais focados no trabalho para a exclusão de quase todo o resto é o preconceito que normalmente nos impede de construir conexão com os outros. O que importa acima de tudo é o que está em nosso cartão de visita. Aqueles que optam por passar a vida a escrever poesias, nutrir a alma com conteúdo espiritual acentuado será deixado de lado por estar navegando em sentido contrário aos costumes dominantes.

Todos os indivíduos são partes e são impactados por vários sistemas: familiar, cultural, econômico, político, filosófico, tecnológico, ambiental, linguístico, educacional, entre outros… Estes sistemas são interdependentes, sobrepondo-se, e cada um é, por sua vez parte de um sistema maior. Se trabalharmos menos febrilmente, podemos acolher ideias que nos permitam remendar alguns aspectos desalentadores do nosso mundo fraturado e moderno, que nos fechou em eixos egocêntricos. Observo que no mundo contemporâneo não falta lugares onde podemos nos divertir, comer bem mas o que é significativo é que quase não há locais que podem nos ajudar a transformar estranhos em amigos.

O grande número de pessoas que frequentam bares e restaurantes, cafés sugerem que esses ambientes são refúgios do anonimato e frieza. Em um restaurante moderno, o foco é a comida e a decoração, não há nenhuma possibilidades de ampliação, interação e aprofundamento de afeto. Esses locais reafirmam a existência de divisões tribais e limitam-se a trazer pessoas para o mesmo espaço físico, mas não têm qualquer meio de incentivá-las a fazer contato um com o outro uma vez que estão lá.
Vislumbro uma transformação global silenciosa, como um fluxo de água abaixo da superfície da nossa cultura, que irá nos despertar e nos desafiar a escolher um caminho com um senso mais profundo de solidariedade.

Uma comunidade só poderá ser integrada e saudável se for construída com base no amor e na preocupação das pessoas umas pelas outras. Falar de solidariedade é falar das coisas do espírito. A dimensão espiritual é o único ingrediente que pode fazer as pessoas se unirem.

A retórica dos convencionais

O poder das idéias deveria se sobrepor ao poder econômico, mas não é e nunca foi bem assim. Não foi por acaso que o filósofo Herbert Marcuse afirmou que “na sociedade, há políticos que também se vendem, como sabonetes”.
O senso comum nos diz que um partido político deve ser capaz de definir por escrito o seu programa, defender seus princípios e selecionar seus candidatos próprios para as eleições. Os partidos políticos mais democráticos começaram a selecionar candidatos nas convenções, uma disputa interna, onde qualquer membro filiado pode declarar-se como candidato. Antigamente ouvia-se por todos os cantos: “queremos escolher um candidato que reúna o consenso dos membros do diretório do partido.”
As coisas mudaram muito e apesar de autorizadas pelo calendário eleitoral do TSE, desde 10 de junho passado, as articulações para escolher os candidatos a prefeitos, vice-prefeitos e vereadores, estão restritas a grupos de interesses e não são discutidas amiúde com os pretensos convencionais, que devem definir, inclusive se haverá coligações com outras legendas. O prazo estende-se até o próximo dia 30.

As convenções partidárias de anos atrás tinham múltiplas funções, mas a principal delas era decidir sobre a plataforma ideal do partido, a posição e afirmações pelas quais o partido se movimentava. Grandes temas eram debatidos nas convenções, que ganhavam atenção da mídia. A convenção revia as credenciais dos candidatos e selecionava aqueles com o melhor registro de trabalhar dentro dos objetivos políticos do partido. A convenção partidária poderia selecionar uma chapa de candidatos para refletir o equilíbrio geográfico da cidade, refletir a diversidade étnica e de gênero.
As pessoas criam os partidos políticos para formular questionamentos sobre temas sociais, se organizam para ganhar apoio para implementarem as ideias e elegem candidatos que irão colocar esses programas em prática. No entanto, o jogo vem mudando num efeito contrário as práticas democráticas de debater ideias. O que aconteceu foi o aumento do poder econômico nas eleições. O sistema político parece estar falhando e a classe política ao invés de corrigir as falhas, tem reforçado-as.
Foi numa convenção nacional que o MDB, presidido por Ulisses Guimarães, com discurso inflamado traçou o plano arrojado de surpreender o regime militar nas eleições de 1974. Do alto da convenção e do fundo do coração, Ulisses Guimarães anunciou que a caravela ia partir. Elegeu dezesseis senadores, o que mudou seriamente a correlação de forças políticas no Congresso Nacional.
É realmente possível ter eleições significativas votando em ideais políticos em vez de votar em candidatos individuais, eliminando totalmente a personalização das eleições.

Grandes temas da história americana foram debatidos em convenções partidárias. A convenção republicana levantou-se contra a escravidão em 1856, os democratas debateram os direitos civis em 1948 e a guerra do Vietnã em 1968.

Na maior cidade do país, a convenção do PSDB aconteceu domingo passado, dia 25, oficializando Jose Serra como candidato a prefeito na sucessão paulistana. O discurso foi pontuado por frases de efeito: “o tempo não desgasta os que lutam e a minha experiência é virtude” para logo em seguida dizer: “não venci todas as batalhas que travei, mas lutei como se fosse a última.”

As ligações complexas entre a democracia e a vida sustentável

A questão hoje é avaliar se os nossos esforços estão sendo suficientes ou pelo menos chegam perto de deter a maré da destruição anunciada nos fóruns ambientais que se realizam pelo mundo, se nossa visão tem sido compatível e ao alcance dos problemas que nos propusemos a resolver. Honestamente, acho que ainda não. Segundo a escritora e ambientalista americana Frances Moore Lappé, precisamos criar uma cultura de responsabilidade mútua, transparência e participação cidadã. Democracia não é apenas votar uma vez por ano, é uma cultura, um modo de vida. A crise ambiental, a disseminação da pobreza são de fato, crises da democracia.

Desde 1987 quando a Comissão Mundial sobre Meio Ambiente redigiu um documento chamado Nosso Futuro Comum. Fez-nos cientes que a incapacidade de promover o interesse comum no desenvolvimento sustentável é na maioria das vezes fruto da negligência entre as nações, no que se refere a justiça social e econômica. Assim o paradigma do desenvolvimento sustentável vai criando ligações complexas entre seres humanos, economia, política e meio ambiente.
O desenvolvimento sustentável requer um sistema político que assegure a participação efetiva dos cidadãos na tomada de decisões e enfatiza a importância da democracia na resolução de problemas sociais e ambientais. Há dependência mútua entre as pessoas, o planeta e as atividades econômicas. A fonte de recursos da terra é finita e nossa cultura de consumo expõe nosso apetite de devorar tudo o que vemos pela frente.

Ao estabelecermos práticas pessoais para vivermos de modo sustentável, vamos percebendo como os problemas ambientais estão intimamente ligados às desigualdades econômicas e sociais e então, ao trazermos a questão do desenvolvimento sustentável para o debate ambiental, temos que destacar as características do eixo pobreza – meio ambiente. Os danos ambientais causados pelo consumo global recai mais fortemente nos países mais pobres ou em desenvolvimento, justamente os menos capazes beneficiarem suas sobras e dejetos. O crescente número de pessoas pobres e sem-terra lutam pela sobrevivência na base da exploração de recursos naturais e o esgotamento desses recursos por causa sobretudo da ganancia dos grandes agricultores reforça a espiral do descaso com as práticas ambientais

A outra vertente que escandaliza é a nossa cultura perdulária com relação a produção e consumo. Há estudos publicados, não sei se comprovados, que contabiliza dezesseis quilos de milho e soja para alimentar o gado para obter um quilo de carne. Esse mesmo quilo de carne também requer aproximadamente 12.000 litros de água. Na produção mundial de alimentos quase metade de todos os alimentos colhidos nunca é consumido. Este desperdício incrível, que não é exceção, não acontece apenas com a produção de alimentos, estende-se a produção de energia também.

Mas não nos enganemos, as coisas estariam muito piores se essas comissões não tivessem escrito relatórios trinta anos atrás, se a transmissão dos dados alarmantes não tivesse vazado pela internet. Talvez possamos agora nos concentrar em criar um sistema de vida que melhora a saúde, a felicidade, a vitalidade ecológica e o poder social em vez de seguimos com o estigma de sermos seres tão destrutivos.

Não tenhamos medo de sermos inadequados

Há momentos na história em que pessoas de todo o mundo precisam levantar-se para dizer que algo está errado e pedir mudança. Em muitos países houve revolta por causa do desemprego, distribuição de renda, falta de liberdade e desigualdade social, gerando um sentimento de que o sistema político é injusto e está descontrolado. A globalização no estágio atual expôs as mazelas das relações também desempenhou um papel importante disseminando  novas ideias além das fronteiras. A juventude ao redor do mundo começou a acordar e acender faíscas de indignação aqui e acolá. 

Eu estou certa de que novos horizontes surgirão com tomada de decisão corajosa, com ousadia para mudar e quebrar elos poderosos. Ninguém, nenhuma autoridade, nenhuma organização ou qualquer coisa que percebemos como poderosa em nossa realidade pode, eventualmente, vencer á disposição de mudar quando os cidadãos percebem que algo está errado, quando são invadidos por um sentimento de que estão sendo ignorados. 

Ao longo do tempo as desigualdades aumentam e no dia-a-dia as mudanças não são percebidas, as chances de melhoria de vida são afetadas pela má distribuição de renda e pelo descaso, que distraidamente vai se transformando em auxílios governamentais. Mas e o amanhã? Ao pensar no amanhã troque o seu voto por um futuro digno, com possibilidade de produzir, de estudar, de ser tratado com humanidade quando cair doente. Esse mundo é possível se você não perder sua bússola moral.

De você depende o futuro e não do sistema político. Porque o sistema não conseguiu impedir que as crises políticas e econômicas se instalassem, não conseguiu resolver as crises, ele não conseguiu amenizar as desigualdades, falhou em proteger aqueles que são mais fracos, e não conseguiu impedir o crescimento abusivo das grandes corporações. Os políticos ouvem você sobretudo através do seu voto, pois ele determina o rumo que você escolhe, ele pode amplificar a sua voz ou simplesmente deixar enriquecer os ricos à custa do resto da sociedade.

Em um trecho do discurso de posse, no ano de 1994, Nelson Mandela dirigiu-se ao povo sul-africano pedindo-os que não tivessem medo de expressar o seu poder. Disse ele: “Nosso medo mais profundo não é o de sermos inadequados. Nosso medo mais profundo é que somos poderosos demais. É a nossa luz, não a escuridão, que nos assusta mais. Nós nos perguntamos: ‘Quem sou eu para ser brilhante, maravilhoso, talentoso e famoso? Na verdade, por que você não seria? Você é um filho de Deus. Representar um papel pequeno não serve ao mundo. Não há nada de iluminado em se encolher, para que as pessoas não se sintam inseguras ao seu redor.”

E por falar em paixão…

Romeu e Julieta – provavelmente é a mais famosa história de amor de todos os tempos. O casal, na verdade é desde sempre, sinônimo do amor. Romeu e Julieta é a história do amor trágico contada pelo poeta e dramaturgo inglês William Shakespeare. Parece que um grande amor demanda grandes sacrifícios, porque na lista dos namorados mais famosos de todos os tempos aparece em segundo lugar a historia intrigante dos poderosos Cleopatra, rainha egípcia e Marco Antônio, imperador romano que se apaixonaram à primeira vista e apesar de todas as ameaças se casaram, tiveram três filhos, conquistaram impérios e inimigos e, por amor, ambos também morreram.

Tristão e Isolda, outra história triste, que envolve traição e morte é listada como uma história de amor comovente. A bela e corajosa história de Helena de Tróia, considerada a mulher mais bonita de todos os romances, que casou-se com o rei de Esparta. Apaixonado por ela, o filho do rei de Tróia, roubou-a e levou-a de volta para Tróia. Menelaus, rei de Esparta, marido de Helena, destruiu Tróia e retornou para Esparta com Helena. Nos dias mais recentes nos encantamos com a historia da paixão tempestuosa entre Scarlett O’Hara e Rhett Butler, no filme épico “E o Vento Levou”, com a Guerra Civil servindo de pano de fundo para os desencontros, traições e seduções do casal protagonista vividos por Clark Gable e Vivien Leigh.

Mas a história de amor que me fala a alma é contada pelo escritor colombiano Gabriel Garcia Marquez no livro “O amor nos tempos do Cólera”. Uma bela história que estendeu-se por cinco décadas de espera. Ainda bem jovem Fermina Ariza, filha de um dos mais importantes homens da cidade encontra Florentino Ariza, um menino simples e puro, sem boa aparência.

Os primeiros contatos foram olhares, depois foram as cartas intermináveis. Pouco tempo depois, aos 20 anos, ela se casa com o jovem médico da cidade, Juvenal Urbino. Ele a ama e lhe dá segurança. Juvenal é um médico dedicado a pôr fim à epidemia do cólera. A Florentino resta a espera e a decisão fora tomada. Ele vai esperar por Fermina o tempo que for necessário e estabelece com ela um sistema de troca de amor através de cartas e telegramas. Gabriel Garcia Marquez discorre sobre todas as formas possíveis de amor e não apenas do amor não correspondido de Florentino por Fermina. A trama fala do amor platônico, do amor ciumento, do amor perigoso, do amor adultero, do triângulo amoroso, do amor como arte, sexo, sociedade, aceitação.

O livro é sobre o amor e os personagens existem como veículos para revelar a mais estranha e mais poderosa de todas as emoções humanas; o amor. Florentino é um homem que dedicou sua vida ao amor, em todos os aspectos, jurou amar Fermina Daza para sempre, mas entregou-se a paixões efêmeras enquanto esperava; contabilizou cerca de seiscentos e vinte e duas aventuras amorosas fugazes, mas alimentou sempre o sonho de que seu destino final seria com Fermina. Dedicou a Fermina sua vida, sua profissão. Tudo o que ele fez, foi com a esperança de um dia recuperar seu amor. Ela sabia que ele a amava mais que tudo no mundo. Eles estavam de certa forma juntos em silêncio além das armadilhas da paixão, além dos fantasmas de desilusão: além do próprio amor. Amor, que em Florentino, ás vezes doía em todo o corpo e o único sentimento concreto era um desejo urgente de morrer. Os sintomas do amor eram os mesmos do cólera.

Quando morre o Doutor Juvenal Urbino, Florentino aproxima-se de Fermina e sussura: “Eu esperei por esta oportunidade há mais de meio século para repetir para você o meu voto de amor e eterna fidelidade.” Tempos depois, Florentino recebe um envelope com um bilhete de uma só linha que dizia: “Está bem, me caso com o senhor se me promete que não me fará comer berinjelas. Depois de mais de 50 anos o coração de Florentino foi finalmente preenchido e ele descobriu com alegria que é a vida e não a morte que não tem limites.