Max Weber, em A política como vocação (1919) levantou questões sobre a ética da convicção e a ética da responsabilidade. A ética da convicção é baseada em princípios absolutos, na religião, por exemplo. A ética da responsabilidade se baseia no pragmatismo extremo, onde o político, avaliando os efeitos práticos de sua decisão, pode fazer uso de meios moralmente duvidosos para atingir um fim bom. Ou seja, o político pode omitir, dramatizar ou exagerar se isso evitar um mal maior.
O blefe na política é uma tática comum e pode ser analisado como estratégia de poder, risco calculado, um instrumento simbólico de autoridade ou sinal visível de decadência do poder real, é, sem dúvida, uma marca da política contemporânea onde líderes exageram apoios, dissimulam intenções ou prometem feitos irrealizáveis para ganhar vantagem eleitoral ou força nas negociações.
O blefe vira quase regra de jogo nas campanhas eleitorais. São grandes blefes de narrativas, de alianças, de compromissos. A campanha é, por natureza, tempo de narrativa, não de entrega. O blefe nesse período tem a intenção de criar expectativa, ganhar adesão, testar a força política e ganhar tempo até que chegue o momento das decisões. No Brasil, blefar não é considerado desvio moral, se assemelha a um desvio de linguagem, de discurso, porém, quando um político vem a público exaltar que tem a maioria, que ´fulano está fechado comigo´ ou que o povo pediu sua candidatura, revire os olhos e se pergunte: maioria, quem? Fulano, quem? O povo, quem?
A retórica inflada é blefe. O líder político que realmente está forte não precisa repetir que está forte. Políticos internacionais, nacional e local blefam descaradamente. O ex-presidente Fernando Collor, com o grande o blefe de ´caçador de marajás´ na campanha de 1989, construiu um antagonismo simples: o povo contra a elite corrupta, ocultando a realidade, onde ele próprio era parte da elite corrupta. Funcionou eleitoralmente, mas não se sustentou no governo. O ex-governador de São Paulo, Paulo Maluf não blefava pouco, ele se elegia e governava pelo blefe. Paulo Maluf, na época entendeu que o eleitor tolerava o blefe desde que o governo entregasse obras físicas. A engenharia substituiu o debate político, por muito tempo.
A imagem recente caricaturada do blefe é o presidente americano Donald Trump que anunciou o ´tarifaço´ como instrumento de coerção. Rapidamente o tarifaço virou um anúncio performático, sem sustentação, então, o mercado e os países pararam de levar a sério e a medida começou a cair em vários países. A ideia de “comprar” a Groenlândia, foi duramente criticada e ironizada no Fórum Econômico Mundial em Davos esta semana. A bravata de Trump, tentando mostrar que tem poder absoluto e pode comprar até territórios nada mais é do que a confusão que o presidente faz entre poder e espetáculo. Logo, o blefe do tarifaço é hoje tratado como bravata e a invasão da Groenlândia virou piada diplomática.
Quando o blefe vira motivo de riso e deboche, ele deixa de ser estratégia e passa a ser a exposição da fraqueza, o riso debochado é sintoma de esvaziamento do poder. Para Hannah Arendt, quando o poder se dissolve, sobra encenação, ameaça vazia e espetáculo. O deboche público é sinal de que o blefe não intimida mais. Na política contemporânea, o blefe desmontado vira conteúdo viral e o riso circula rápido.