A força da máquina pública é gigante

Uma pesquisa, divulgada recentemente, feita no estado de São Paulo, pela APPC Consultoria e Pesquisa, revela que quase 50% dos eleitores paulistas estão muito interessados nas eleições de 2024, algo que evidentemente gostei de tomar conhecimento. A decisão de efetivamente participar das eleições ou simplesmente votar é um fenômeno complexo, que envolve causas múltiplas e não vou aqui creditar apenas as questões ideológicas porque ainda não nos libertamos das influências de familiares, religiosos, amigos e patrões para votarmos inteiramente sob nossa própria inspiração.

Algumas dificuldades serão enfrentadas pelos partidos, que se agruparam em federações no ano de 2022. (uma variante mais elaborada das antigas coligações). Para a próxima eleição, esses partidos terão que lançar candidaturas conjuntas, para prefeito e vereadores, ou seja, a federação tem que ser mantida por pelo menos quatro anos, em que pese a cultura da baixa duração dos casamentos políticos.

A baixa representatividade feminina na política brasileira ainda é um fato constrangedor. Verificando as estatísticas publicadas pelo Tribunal Superior Eleitoral, sobre os números das últimas eleições municipais de 2020, é difícil explicar como pôde, um contingente feminino de 52% do eleitorado ter elegido 4.750 (87.9%) prefeitos e apenas 651 prefeitas (12%); 48.265 vereadores (84%) e apenas 9.196 (16%) vereadoras.

Esperamos que haja mudança significativa no número de mulheres eleitas em Mato Grosso no próximo ano, porque no ano de 2020 apenas 15 municípios elegeram prefeitas e na Capital, dos 25 vereadores eleitos, há apenas duas mulheres. Ouros 54 prefeitos de MT já foram reeleitos e estão fora da disputa, mas nas próximas eleições, com o poder da máquina pública ainda nas mãos terão chances de interferirem no processo e fazerem seus sucessores, controlando a agenda e a mídia a favor dos candidatos do grupo, o que quebra a paridade, torna o pleito desigual, mas é fato corriqueiro nas eleições brasileiras. 

Há tempos eu li o caso de um prefeito de Itabaiana, cujo filho candidatou-se a deputado estadual no estado de Sergipe. A propaganda eleitoral do candidato a deputado adotou a cor azul em todas as peças publicitárias e ficou conhecida como “a onda azul”. E o que fez o pai prefeito para empurrar a campanha do filho? Pintou todos os prédios públicos, praças e meio-fio da cidade de azul, balões azuis subiam aos céus nas inaugurações públicas e a cor foi adotada também no site e nas mídias sociais do município. O Ministério público, atento, identificou que o então prefeito utilizou a cor para deliberadamente tornar desigual a disputa e promover a campanha do filho e denunciou ambos.

Não adiantou a defesa alegar que o azul era cor do uniforme do time da cidade, do brasão… Azul é uma cor linda, lamentável que a corrente azul que atravessou a cidade tenha sido bancada com recursos públicos. Aplausos para o Tribunal Superior Eleitoral, que cassou o deputado eleito com o protagonismo descarado do pai, houve retotalização dos votos para a Assembleia Legislativa de Sergipe, que teve sua configuração alterada. O prefeito concluiu o mandato e ainda elegeu o sucessor.

Em busca da batida perfeita

Conheci o sociólogo Fábio Gomes num seminário sobre reputação política no mandato, em Brasília, 2019. A palestra veio de encontro a um tema que sempre considerei muito importante e o meio político, muitas vezes, vira-lhe a cara, a construção da reputação de mandato, para que eventos esporádicos, mesmo que arranhem a imagem, não destruam a reputação.

Fabio disse que “a imagem é pontual, todo mundo vê, são notícias quentes, que todo mundo comenta. A reputação é uma construção sólida, é o que estrutura a imagem, o que as vêzes, nem é percebido. A imagem arranhada, restaura. Reputação arranhada é difícil restaurar, quase sempre, é fim de jogo”.

Metáforas e lendas mitológicas foram utilizadas para fazer a distinção entre imagem e reputação (não são sinônimos). Imagem política é reforçada por um fato acertado aqui, um fato errado acolá. Reputação é a soma do tempo, a média que se tira da história de vida, a média dos factuais, onde erros podem ser relevados diante dos acertos e nem sempre determinam baixa na reputação.

Ele diz que estamos em busca da batida perfeita na política. Políticos não devem fazer discurso em cima do que não lê, o contexto da reputação leva em conta a a vida como ela é, o mundo da vida real, a construção do discurso, do conhecimento, das expectativas que são criadas. Não se constroi boa reputação política sendo do tipo “eu faço, eu resolvo, eu falo e você curte e compartilha porque eu tenho a batida política perfeita”.

No ambiente polarizado que engoliu o diálogo, o bom senso, o filtro, a própria razão, os indivíduos aceitam e reproduzem todo conteúdo vindo de seus líderes políticos, como se estivessem ouvindo a batida perfeita, o sociólogo recorreu a lenda mitológica de Zeus, o rei dos deuses, Hera, sua esposa e Eco, uma contadora de histórias. Hera desconfiou que Zeus a traia com Eco. Jogou Eco no Vale das Penitências com a maldição de que ela nunca mais pronunciaria uma palavra espontânea. A partir da maldição, Eco só repetiria o que ouvisse.

Alí, circulando no vale, Eco conheceu Narciso, por quem se apaixonou mas devido a maldição não conseguiu se comunicar com o belo jovem que ao perceber que Eco so repetia o que ouvia, afastou-se. Desiludida, Eco embrenhou-se numa caverna e definhou até a morte, deixando apenas sua voz ecoando pelo vale. A maldição de Eco pode ser percebida em muitos processos de comunicação política entre o lider e os seguidores.

Construir e reforçar a reputação para que esta seja submetida aos filtros ideológicos e sociais dos seguidores é um trunfo do qual, poucos lídere políticos se valerão porque não investiram tempo e discernimento na busca pelo bem comum, pelo diálogo com menos militância e paixão e mais razão,
maior percepção da realidade e menos subjetivismo, mais compromisso com a verdade, tolerância às ideias divergentes.

Não, não estou falando de um mito grego, mas de políticos que existem e que honestamente admitem não ter encontrado a batida perfeita, não estão aprisionados e amaldiçoados com a perda da palavra espontânea e não disparam bala mágica com mensagens que não podem ser questionadas ou contrariadas.

Políticos que não gostam de ser contrariados se comunicam com seus eleitores baseados na “teoria da bala mágica” ou seja, apostam que suas mensagens são tiros certeiros que adentram a mente dos seguidores sem encontrar resistência, da mesma forma que uma bala penetra a pele e se aloja sem dificuldade no corpo da vítima. Segundo essa teoria, a mensagem política deve surtir o efeito de uma bala disparada por uma arma de fogo. Não importa o conteúdo, são precisas e os indivíduos que as recebem, são vulneráveis e facilmente manipuláveis.

Sem receita de bolo

Quem está no comando do país não importa tanto quanto ver em curso a reforma política que o Brasil urgentemente precisa. Na opinião de analistas políticos e economistas, o presidente Temer tem melhores condições para comandá-la, dado ao relacionamento com os deputados e senadores para aprovar esta e outras reformas, porém, os fatos recentes que envolvem o presidente em práticas suspeitas podem fazer declinar tudo isso.

Crises são imponderáveis. O fim é incerto e endossar uma saída ou outra, embora temerário, vai fazendo-se necessário, para dar contorno final à crise.

Não há receita para ser honesto, mas provavelmente a ética política passa longe de malas monitoradas com R$ 500 mil; passa longe de equipamentos para invadir a privacidade dos outros, arrancando-lhes segredos inconvenientes mais do que traições e desonestidades políticas.

Sabemos enfim, que a ética política passa longe de comprar silêncio, de desmoralizar quem critica o governo.

Num estudo sobre o sistema de leis nas sociedades selvagens, o antropólogo polonês Malinowski assevera que, no mundo primitivo, as leis são seguidas e não desafiadas e que a submissão às leis dá-se porque os homens primitivos têm a misteriosa propensão para obedecer às leis, por que estas não são vistas como uma mera máquina de fazer justiça em casos de transgressão e sim, como uma combinação complexa de coerção e crença que leva as pessoas a manterem suas obrigações.

Enfim, se por fatores sobrenaturais ou em nome do sentimento de honra, o fato é que nenhuma sociedade pode funcionar eficientemente, a menos que as leis sejam obedecidas espontaneamente.

No mundo contemporâneo, além de descumprirem as leis, todos os impasses jurídicos são protelados. Tanto na Lava Jato, no caso da escuta clandestina da conversa com o presidente, das escutas igualmente clandestinas em terras mato-grossenses.

Da parte do cidadão, há pressa de se estabelecer a verdade e de ver os culpados dos ilícitos denunciados, mas da parte política e da Justiça pode não haver disposição para concluir os processos. Estes têm a lei e suas manipulações singulares e sensacionais!

O momento é complicado. Tipo um poder vigiando a mediocridade do outro, inventando fatos, quando tudo o que queremos é encerrar logo os impasses insuportáveis da apuração dos grampos aqui e da sobrevida do presidente Temer.

Estamos enfim, entre a cruz e a espada, desviando de tentativas de manipulação de todos os lados, desconfiados, inseguros e cheios de ouvir casos de corrupção, delação, negociação, condenação e absolvição.

Pode ser que tenhamos um novo presidente, comprado, agora não sabemos com dinheiro de quem, descartando Odebrecht, BNDES, OAS, JBS, o que temos? Ou quem sabe a honestidade e a ética serão implantadas em Brasília como o valor referencial de um novo governo?