Teor de pessimismo, na política e no cotidiano

A fadiga que sentimos não é tanto do trabalho acumulado, mas de um cotidiano feito de rotina e de vazio. O que mais cansa não é trabalhar muito. O que mais cansa é viver pouco, viver sem sonhos.’ Mia Couto, escritor moçambicano.

Fadiga é sentir os sentimentos genuínos colapsarem pela distância sempre mantida entre os avanços que almejamos e o pouco que nos é concedido, através das lutas diárias. O que cansa é perceber a transmutação dos atos de violência contra as mulheres para um movimento de manipulação, invalidação de sentimentos e comportamentos através da crítica destrutiva e chantagem. O ciclo na violência se arrasta de um ano para o seguinte, alterado em sua forma e intensidade. O Laboratório de Estudos de Feminicídios registrou 1.153 feminicídios de janeiro a julho deste ano, uma média diária de 3,81 feminicídios consumados. 

O cotidiano sofreu um processo mudança positivo no caso de violência contra a mulher praticado por jogadores de futebol. No ano de 2013, o jogador Robinho foi acusado de cometer crime sexual contra uma jovem na Itália. Não foi preso lá e fugiu para o Brasil. A justiça Italiana o condenou a 9 anos de prisão em 2020. A justiça brasileira não pode extraditá-lo. Resultado? Nunca cumpriu pena lá tampouco aqui. Já o jogador Daniel Alves está preso desde janeiro na Espanha pelo mesmo crime e diante da inflexibilidade das autoridades, já admite confessar o crime. Se condenado, pode ficar até 15 anos preso.

Eduardo Galeano, escritor uruguaio escreveu um ensaio onde diz que somos o que fazemos, mas somos, principalmente, o que fazemos para mudar o que somos. Diz que vivemos em plena cultura da aparência, onde o contrato de casamento importa mais que o amor, o funeral mais que o morto, as roupas mais do que o corpo e a missa mais do que Deus. 

Por isso cansa tomar conhecimento que o racismo agora é exposto em uma mensagem deixada no aplicativo de entrega. Uma senhora pediu que não mandassem uma pessoa negra fazer a entrega da refeição. Uma desconfortável afirmação que a cor das mãos poderia sujar a comida. A cor, estamos sempre recorrendo as estatísticas para não sermos injustos. Um estudo denominado Pele Alvo: a bala não erra o negro, realizado pela Rede de Observatórios da Segurança, divulgado na última quinta-feira, mostra que a cada 100 mortos pela polícia em oito estados brasileiros, 65 eram negros, ou seja, 87%.

Cansa o frenesi político deslocado da realidade em ano de decisões eleitorais. E no ano de 2024, mais de 70 países, onde vivem mais da metade da população mundial terão eleições. Aqui no Brasil, as eleições municipais ainda ocorrerão em clima de polarização entre o ex-presidente e o presidente, que devem se engajar nas disputas locais com discursos inflamados servem para influenciar eleitores desavisados, com pouca ligação com o que realmente pretendem fazer os candidatos depois de eleitos.

Estamos vivendo sob o signo da singularidade. Um fenômeno onde as pessoas tendem a se importar menos com as atrocidades em massa do que com as tragédias particulares. Estamos diante de uma profusão de imagens trágicas das guerras na África, Europa e Oriente Médio e nenhum dos grandes líderes mundiais, nenhuma organização internacional tem se colocado como um jogador intransigente para colocar um fim nos conflitos, que devem adentrar 2024.

No mundo físico, já sabemos que uma guerra só termina com a completa aniquilação do mais fraco.

Estamos exaustos

Asociedade do século XXI transformou-se na sociedade de cobrança por desempenho e nós, nos tornamos sujeitos forçados a aceitar todas as tarefas e realizá-las a qualquer custo. O filósofo Byung-Chul Han, nascido sul-coreano e radicado na Alemanha escreveu um livro sobre o que ele denominou de “sociedade do cansaço”, o adoecimento de uma sociedade que sofre sob o excesso de positividade, individualismo, competição e consumo excessivo. A consequência de todo esse sistema de cobrança de desempenho foi pior saúde mental – pior sono, menos calma, mais ansiedade.

Uma sociedade que atribui e cobra do ser humano as qualidades do computador (multitarefa, velocidade, desempenho) não seria a causa do fenômeno generalizado dos esgotamentos mentais, dos infartos da alma?

Diz Han, que a técnica temporal de sermos multitarefas (multitasking) não representa nenhum progresso civilizatório. A multitarefa não é uma capacidade para a qual só seria capaz o homem na sociedade trabalhista e de informação pós-moderna. Trata-se de um retrocesso. A multitarefa está amplamente disseminada entre os animais em estado selvagem. Trata-se de uma técnica de atenção, indispensável para sobreviver na vida selvagem. “Um animal ocupado no exercício da mastigação de sua comida tem de ocupar-se ao mesmo tempo também com outras atividades. Deve, no mínimo, cuidar para que, ao comer, ele próprio não acabe comido”.

O sujeito escravo da busca pelo bom desempenho em todas as atividades da vida, encontra-se em guerra constante consigo mesmo. Diante da preocupação em viver bem reagimos com hiperatividade, com a histeria do trabalho acelerado, da visibilidade, da boa performance, não é de admirar que as pessoas estejam se sentindo sobrecarregadas e exaustas.

A sociedade do desempenho e a sociedade a mil por hora geram um cansaço e esgotamento excessivos. Esses estados psíquicos são característicos de um mundo que se tornou pobre em negatividade e que é dominado por um excesso de positividade quanto a cumprir todas as tarefas, no menos espaço de tempo e a qualquer custo.

É possível associar o estudo da ‘sociedade exausta’ à depressão e síndrome de burnout, descrevendo como consequência da nossa incapacidade de dizer não e de, no fundo, não ser capaz de fazer tudo. Uma forma de autodestruição que nos vence com um colapso nervoso ou esgotamento.  A Síndrome de Burnout expressa a consumação da alma e a ilusão de acreditar que quanto mais ativos nos tornamos tanto mais livres e felizes seremos.

O que causa o esgotamento é a pressão pelo desempenho, pela realização pessoal e a ideia turva de que a felicidade somente será atingida se tivermos sucesso individual.  A lamúria do indivíduo exausto de que nada é possível só se torna possível numa sociedade que crê que nada é impossível.

O vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 2019, Peter Handke, também escreveu um Ensaio sobre o cansaço, diferencia os graus de fatiga e fala sobre um estado onde nem todos os sentidos estariam extenuados e levaria o homem para um abandono especial, para um não fazer o que não suporta, para ao final, sugerir uma reavaliação da vida, dedicar a momentos de contemplação e fugir das pressões e artimanhas do ego que nos escraviza.