Há muita pressão extra e desnecessária

Fui criada em uma cultura que me ensinou que o papel mais importante que eu deveria assumir na vida era ser mãe.  Antes dos vinte anos, casei-me e tive dois filhos. Escrever sobre meus triunfos sem mencionar nenhuma das minhas inúmeras dificuldades com a maternidade seria hipocrisia, porque a maternidade é composta de momentos de profunda alegria e profunda insegurança e cansaço. À medida que o Dia das Mães se aproxima, lembro-me da importância de exercermos a compaixão e empatia com todas as mulheres que tentam desesperadamente conciliar suas próprias deficiências com a mãe que idealizaram e que são cobradas a ser.

Falar de maternidade sincera não é falar de atitudes brilhantes, renúncias recheadas de amor. A beleza da maternidade transcende a estética e se manifesta na força, na resiliência e transformação que a mulher experimenta ao tornar-se mãe. A maternidade é um período de profunda mudança, onde a mulher se reinventa e expande a sua capacidade de amar. Enquanto, a frustração, o estresse, a ansiedade, a dúvida e a sobrecarga são reflexos de uma cultura confusa que ainda não descobriu o quanto a saúde e o bem-estar das mães são essenciais para manter a família toda no eixo.

Assisti um vídeo do pediatra brasileiro Daniel Becker, abordando a complexidade da experiência da maternidade, reconhecendo que nem sempre é um período fácil e prazeroso e que é importante apoiar as mães em seus desafios. Ele compartilha mensagens enfatizando a necessidade de termos um olhar e atitude de empatia quando visitamos uma pessoa que acaba de dar à luz. Ele diz: “Visite a mãe e não bebê. Leve uma refeição gostosa, cuide da criança para a mãe descansar um pouco, lave a louça”.

É preciso muito mais do que esforço esporádico para ensinar os filhos sobre justiça, solidariedade, tolerância e amor, é preciso certa maturidade (não necessariamente, idade) para conseguir conciliar mamadeira, choradeira com a carreira. No Brasil, 2,3 milhões de crianças de até 3 anos de idade não frequentam creches por dificuldade de acesso a vagas num contraditório momento em que uma proporção maior lares são chefiados por mães solo, aqueles em que a pessoa de referência é uma mulher com filho.

A maternidade é difícil, é exaustiva. Mas, é a experiência mais gratificante e incrível que uma mulher viverá. Felizmente, cada vez mais, os pais estão desempenhando um papel ativo na criação dos filhos e nas tarefas domésticas, embora no tempo atual ainda vigore, geralmente, o padrão de maternidade sobrecarregada, esperando que as mães entretenham seus filhos, levando-os de uma atividade para outra, trabalhe fora e cuide da casa, fazendo tudo isso em perfeito equilíbrio.

Porém, não existe uma maneira única de ser mãe, e as narrativas sobre a maternidade perfeita perpetuadas pela sociedade, são profundamente prejudiciais e irreais.

Meu marido era pediatra, havia, portanto, muita pressão para que eu me enquadrasse nos propósitos neonatais que a pediatria ainda hoje espera das mães: a expectativa que as mães amamentem por, pelo menos seis meses.

Minha primeira grande divergência. Não me senti confortável amamentando e interrompi o processo nos primeiros dias, apesar de ouvir e acreditar em todas as alegações do benefício que o ato de amor traria para o bebê, mas eu não superei a tempo o estranhamento à cena e não amamentei nenhum dos dois filhos.

Encerrei o assunto sem culpa e sem julgamentos. Decidimos que nossos filhos jamais, por razão nenhuma seriam castigados. Não foram. Podem aí, considerar-me ter sido uma mãe leniente. Tentei ser uma mãe feliz, não perfeita!

Viver diariamente com o risco da desaprovação

Aaceitação de mim, das partes não curadas da minha alma, da impossibilidade de ser forte por muito tempo é uma perspectiva que abro para viver o próximo ano, com meus pontos defeituosos, minhas opiniões, minha voz. Aprender a tomar tempo, tomar distância, emancipar meu destino para confrontar as fatalidades. O sociólogo Zygmunt Bauman diz que a sociologia é hoje mais necessária do que nunca, que os sociólogos são especialistas em compreender aquilo a que estamos fadados porque conhecem a rede complexa das causas que provocam as fatalidades. E para operar neste mundo, é preciso entender como o mundo opera. 

Percebo que um espectro paira sobre esse tempo da nossa existência: pessoas desgastadas, mortalmente fatigadas, assustadas pela precariedade de seus destinos, abandonadas a seus tormentos mentais e agonias da indecisão, que tem transformado a alegria de viver num medo paralisante do risco e do fracasso. Arthur Schopenhauer, com a crueza habitual, diz que a primeira metade da vida, vive-se uma infatigável aspiração de felicidade, a segunda metade, é dominada pelo sentimento de receio que só o sofrimento e rejeição é real.

É sobre esse incômodo de caber num determinado espaço, de direcionar a vida por onde não olhem de soslaio, esse peso desgastante do medo do desprezo, é sobre a importância que damos ao fato de sermos modernos, de estarmos sempre à frente do tempo, num estado de transgressão, críticas e cobrança constantes. Ao corpo adicionaram padrão, a idade tem padrão, os relacionamentos têm padrão. E a sociologia de Anthony Giddens diz que viver uma vida baseada em impulsos momentâneos, modismos, críticas e cobranças, sem práticas sociais habituais e saudáveis é condenar-se a uma existência sem sentido.

Encaixar é tentar se adaptar a um mundo que não é o seu. Pertencer é habitar o mundo como quem você é de verdade. E você nunca se encaixará onde não pertence. Emagrecer para receber elogios, dizer sim para receber agradecimentos são táticas consistentes de transgressão aos nossos limites. Quando você tenta se encaixar, você deixa padrões aleatórios medirem onde você vai chegar, observando se você é bonita o suficiente, inteligente o suficiente, magra o suficiente ou rica o suficiente. Sair desse ciclo falido de cobranças, não significa que você irá extingui-lo, significa que o medo de fracassar e não caber em espaços almejados não mais controlarão sua vida. Viver no meio de uma multidão de pessoas, com valores e estilos de vida em competição, sem garantia alguma de estarmos seguindo o que é certo, é um preço alto a ser pago com nossa desordem psicológica.

Como socióloga, tenho conseguido diagnosticar e revelar fontes sociais de infelicidade, as causas estruturais dos sofrimentos que se multiplicam nos espaço sociais.  Bauman, porém, alerta que compreensão e diagnósticos sociológicos não é o mesmo que cura, trazer à luz as contradições não significa resolvê-las. Percebe então, que minha preocupação repousa em que suas escolhas sejam verdadeiramente livres do peso das críticas e cobranças?