Como suas escolhas definem seu futuro

Viver, como disse o filósofo e escritor francês Jean Paul Sartre, é isto: ficar se equilibrando o tempo todo entre escolhas e consequências. Temos que parar de colocar a culpa do que não conseguimos realizar no destino, na pouca fé e lembrar que tudo acontece como consequência das nossas escolhas, algumas equivocadas, de outras nos arrependeremos, outras nos orgulharemos e ainda algumas nos assombrarão para sempre.

O psiquiatra e psicanalista suíço Carl Jung disse uma vez: “Eu não sou o que aconteceu comigo, eu sou o que eu escolho me tornar”. Esta citação poderosa captura a essência da resiliência humana e o poder da escolha pessoal, enfatiza que nossas identidades não são gravadas em pedra por nossas experiências passadas, mas sim, são continuamente moldadas pelas decisões tomamos todos os dias. Esta citação serve como um lembrete que o passado, embora significativo é apenas um capítulo da vida, que embora possa nos moldar não nos definem na totalidade.

Dezembro e janeiro são meses que nos inspiram a exteriorizar as resoluções, promessas significativas de crescimento emocional, econômico, físico ou mental. Parece impossível chegar à passagem do ano sem idealizar como queremos que seja o novo ano. Como indivíduos, nos esforçamos para melhorar, mudar, ou de alguma forma alcançar aquilo que percebemos que nos falta. Nossa sociedade impiedosa, grita sobre as evidências do que nos falta: não somos bonitos o suficiente, ricos o suficiente, magros o suficiente, ambiciosos o suficiente, felizes o suficiente. No próximo momento já estamos traçando metas, corrigindo a rota para alcançarmos sucesso nessa sociedade que é rápida em rotular e categorizar o indivíduo com base em seu passado. 

Pois bem, em Sartre e Carl Jung, nossas escolhas são o acúmulo de decisões que tomamos, das ações, atitudes e crenças diárias. Todos os dias, fazemos escolhas e na grande tapeçaria da vida, cada fio conta para o crescimento e evolução pessoal ou não. Somos criaturas dinâmicas, em constante evolução e ao traçar metas assumimos a total responsabilidade pela realização delas, diante da maneira como enfrentamos os desafios, abraçamos as oportunidades e aprendemos com experiências decorrentes de nossas decisões. A filosofia pela qual nossas decisões definem nossas vidas se apresenta como uma perspectiva fortalecedora. Ela incentiva uma abordagem proativa à vida, nos incentiva ir além dos limites das forças externas e participar ativamente da criação ou reformulação do nosso destino.  

Na vida, tomamos decisões diariamente. Decisões relativamente fáceis, baseadas na tradição, no costume, na religião, mas as vezes, uma situação inesperada surge e exige que tomemos uma decisão diante de um cenário novo. Como você decide então?  Como você segue em frente? Como você decide o que fazer para atender aos seus melhores interesses? A filosofia e os estudos ensinam só nós podemos agir por nós mesmos, mas não existimos sozinhos. Haverá muitas pessoas ao seu redor lhe dando os “melhores” conselhos com as mais sinceras intenções. Alguns realmente parecem se importar com você.

É muita pressão! Há pessoas que nos influenciam e há pessoas que querem controlar nosso destino. Quem você escuta?

Não tem mais volta

Apesar de estarmos vivenciando catástrofes climáticas, a maioria das pessoas dá de ombros quando se discute o futuro do nosso planeta. Há uma explicação psicológica para isso; não fomos projetados para permanecer em um estado de aflição e medo por muito tempo.

O físico Paulo Artaxo, pesquisador da USP, membro do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, vinculado a ONU disse em entrevista recente que o relatório do Painel Brasileiro, que fizeram há oito anos mostrou que haveria o risco de chuvas extremas no Sul do país e nada foi feito pelos governos para prevenir a ameaça anunciada. Um dos mais brilhantes cientistas brasileiro, o climatologista Carlos Nobre, que fez carreira no INPE – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da USP, diz que nesse cenário de aquecimento global, as previsões para a região Sul do Brasil são aumento de 10% a 20% da chuva anual e em todo o resto do Brasil, a previsão é de diminuição da chuva e seca.

O cientista Carlos Nobre diz que a capacidade de previsão meteorológica avançou muito e que fenômenos extremos estão sendo previstos com vários dias de antecedência mas, alerta que os governos precisam melhorar muito seus sistemas de respostas, senão, as tragédias serão cada vez maiores. Nobres diz que eventos extremos como o que ocorreu no Rio Grande do Sul, não tem mais volta e vão acontecer com frequência, causando deslizamentos, enxurradas e muitas mortes, as secas trarão problemas de abastecimento de água, queda de produtividade da agricultura.

Depois da tragédia ocorrida no Rio Grande do Sul, na véspera do Dia Mundial do Meio Ambiente, a Assembleia Legislativa realizou um seminário em Cuiabá para discutir a questão das mudanças climáticas, falar sobre os objetivos traçados pela ONU para reduzir as catástrofes. As discussões de forma transversal relacionavam o recrudescimento das mudanças climáticas às práticas permanentes de corrupção dos governos, através dos subornos recebidos para fechar os olhos diante de destruição causada em grandes áreas, pela falta de política pública para retirar famílias inteiras que vivem em áreas de risco.

Se o governo não se preocupa, o público responde com a mesma indiferença. Mesmo com bons palestrantes da Unemat e outras instituições, com exposição de práticas sustentáveis desenvolvidas em escolas públicas pela Unemat poucas pessoas compareceram. Enfim, o palco estava repleto de bons técnicos mas as cadeiras da plateia estavam vazias, porque o cidadão, ainda não está disposto a levantar sua voz para cobrar do governo, em todas as esferas e das grandes empresas, a adoção de práticas de desenvolvimento sustentável.

Mato Grosso deveria ter despertado depois de divulgadas as ações predadoras do fazendeiro, que sozinho causou um dano hipoteticamente impossível de ter ocorrido sem ter sido percebido por algum órgão de controle. O cidadão gastou a fortuna de 25 milhões para promover desmate químico em 81 mil hectares no meio do Pantanal Mato-grossense e ao ler a história do pedido de prisão do pecuarista pelo Ministério Público, as autoridades fizeram cara de espanto, diante de um caso que não ocorreu em um dia.

A ação predadora aconteceu paulatinamente, durante anos, num tempo em que temos equipamentos precisos de monitoramento e controle, ação fiscalizadora presencial e tudo mais…A reação pública sobre o gigantesco desmate foi um silêncio constrangedor, sobretudo diante de informações sobre aplicação de multas aplicadas e contestadas num passado recente. Enfim, nenhuma ação de chega, basta!

Todos enfrentamos diariamente escolhas que acarretam um custo climático de baixo ou elevado impacto. Fala-se muito hoje em dia sobre a necessidade de levarmos estilos de vida o mais sustentável possível. Isso não significa viver sem carros, não precisamos ser vegetarianos. A ação individual é importante e a questão central é concentrar-se nas escolhas. Precisamos de mudanças sistêmicas que reduzam a pegada de carbono de todos, de quem se preocupa com as mudanças climáticas e de quem as nega.  

Momentos de desconexão com a dureza da labuta

Assisti a aula magna do sociólogo italiano Domenico de Masi essa semana, ofertada pelo Instituto Conhecimento Liberta, onde ele reafirma a beleza da tese que o tornou famoso há duas décadas, conhecida como O Ócio Criativo, defendendo que precisamos incorporar em nossas rotinas a meditação e a reflexão, que precisamos de momentos de tranquilidade para refletir sobre nós mesmos, sobre nosso destino. “Temos a necessidade de amizade, de amor, de brincadeira e de beleza. Temos a necessidade da convivência. Essas necessidades não exigem dinheiro ou riqueza. Não é uma questão econômica, é uma questão de doação. Ao doar meu amor, não reduzo meu poder amoroso, pelo contrário, saio fortalecido”.

No livro há uma passagem em que De Masi fala que um executivo acerta nove em dez tentativas e segue gerenciando satisfatoriamente seu negócio. O indivíduo criativo faz o oposto: erra nove em dez tentativas, mas, quando acerta muda o mundo, abrindo novas possibilidades inovadoras. O ócio criativo consiste na possibilidade de realizar trabalhos nos quais o trabalhador desenvolve uma atividade que, ao mesmo tempo, é um trabalho com o qual ele cria riqueza, é estudo com o qual ele cria conhecimento, e é jogo com o qual ele cria bem-estar e brincadeira. Pode ser o trabalho da dona de casa, do sacerdote, do artista, do profissional, do padre, de quem desenvolve um trabalho com TI, com diversão, alegria e ensinamentos.

De Masi perpassa pelas mudanças experimentadas pelo mundo, fala das condições de vida consideradas ideais pelo filósofo Platão, em O banquete: “Conviver com um grupo de amigos criativos, paixão pela beleza e pela verdade, liberdade carismática e tempo à disposição sem a angústia de prazos e vencimentos improrrogáveis”. O ócio é, em certos casos, a liberdade de ter controle sobre o tempo. Aristóteles acreditava que a vida com tempo suficiente para ponderar o que é essencial, era mais suscetível de conduzir a felicidade do que a vida do comerciante ou do político muito ocupado.

Faz o contraponto, ao falar da cada vez mais rápida escalada das novas tecnologias, que alcançará uma população mais longeva, “em média, o ser humano viverá de 780 mil a 790 mil horas (atualmente, a média é de 730 mil horas); marcada pela inteligência artificial, que se sobreporá a grande parte do trabalho intelectual realizado hoje”. No entanto, De Masi não reclama e diz que o avanço das tecnologias melhorou nossa qualidade de vida e propiciou, inclusive, a palestra dele, baseado em sua residência em Roma, para o público brasileiro. 

Assisti a aula e dias depois, um episódio reforçou minha crença que precisamos transportar a alegria que transborda nos momentos de ócio para nossas atividades diárias. Precisamos espreitar a vida que acontece num ambiente, ainda que não seja o nosso, dançar ao ritmo da música eletrônica de Alok ainda que tenhamos sido contratados para limpar o chão da área do show. A diarista Luzimar, trabalhadora de limpeza da festa onde o DJ tocava, foi filmada dançando alegremente com a vassoura e a pá na mão, em frente ao palco. A alegria da moça não durou. Luzimar não estava “fazendo nada”. Apenas emprestou alegria ao trabalho e não foi entendida.    

Ela perdeu a diária que receberia pelo dia de trabalho e a empresa postou justificando: “O pessoal da limpeza tem que ter postura, não é pago para ficar dançando”.  

Alok fez apelo nas mídias sociais para localizar Luzimar e reparar a punição sofrida pela diarista, além de ofertar-lhe uma ajuda bem mais significativa do que uma diária. Percebe, que por aqui não se pode sequer dançar com a vassoura enquanto se varre o chão?

Quais opções os pais que trabalham tem?

As creches, além de garantir formação educacional para as crianças fazem parte da busca das mulheres por igualdade de direitos no mercado de trabalho. Dados do IBGE mostram que o nível de ocupação profissional das mulheres tem relação direta com a frequência de seus filhos nas creches. A luta por creches no Brasil foi protagonizada por uma organização de mulheres feministas e teve início no Brasil, nos anos 1970, no Congresso das Metalúrgicas em 1978 e depois o tema protagonizou o Congresso Mulher Paulista, no ano seguinte. Há, inclusive um dia instituído como Dia Nacional de Luta por Creches, 12 de outubro, quando celebramos o Dia das Crianças.  

 Por mais que o Poder Público tenha ampliado a quantidade de creches e pré-escolas, a demanda não é suprida de forma satisfatória. É comum ouvir notícias sobre as filas para conseguir vaga nas creches públicas em que pese a forma categórica em que a Constituição Federal Brasileira, de 1988 determina que é dever do Estado para com a educação da criança de 0 a 6 anos, o atendimento em creche e pré-escola, o que é reafirmado no Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA e na A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDB, que ordena que as instituições de educação infantil criadas e mantidas pela iniciativa privada, pertencem ao sistema municipal de ensino, responsabilidade da Prefeitura.

Para atuar na área da educação de modo geral, é preciso de uma autorização de funcionamento e supervisão da Secretaria Municipal de Educação. Deve-se montar um processo que cumpra algumas exigências, tais como: ter propostas pedagógicas, plano de educação, além de prova de habilitação profissional dos colaboradores. Cuidados, muitas vezes negligenciados pelas vistorias apressadas do poder público.

Verificando notícias recentes sobre maus-tratos nas creches públicas e privadas no estado de Mato Grosso, há uma variedade de denúncias nas cidades de Canarana, Lucas do Rio Verde, Cuiabá, Sorriso e outros. Em Sorriso, uma creche foi fechada após ser denunciada em 2022 e há duas semanas, surgiu um novo e inaceitável caso de maus-tratos contra crianças. Um casal proprietário de um berçário e hotel infantil privado no município foi preso e indiciado pela Polícia Civil pelos crimes de tortura e castigo, ameaça, maus-tratos e omissão. Ex-funcionárias do estabelecimento procurados pela polícia confirmaram as denúncias feitas pelos pais das vítimas e entregaram imagens gravadas de cenas de violência contra as crianças e relataram as ameaças feitas pelos donos da creche caso denunciassem. 

Porém, mesmo considerando que a vida de várias crianças poderia estar sob risco, escolheram se omitir, lamentavelmente! A violência física, sexual e emocional bem como a negligência contra crianças são crimes, e é dever de todos denunciá-las. É por meio do silêncio que a violência prospera e funciona.  

Lendo a entrevista com a delegada, relatando os episódios de tortura que constam no inquérito, dá um mal-estar sufocante, porque não há como um casal, conciliar jornada de trabalho e cuidados com filhos pequenos sem contar com os serviços de creches privadas ou públicas. A maioria das famílias atualmente tem poucas opções para garantir os cuidados com filhos pequenos. Podem pagar uma babá ou podem ficar em casa e cuidar de seus filhos, mas isso é cada vez mais difícil, já que a maioria das famílias depende da renda de pelo menos duas pessoas para sobreviver. Portanto, a opção não é temer ou evitar o serviço prestado pelas creches públicas ou privadas e sim, cobrar do poder público municipal a fiscalização responsável dos serviços delegados que estão sob a sua responsabilidade e denunciar práticas de maus-tratos imediatamente ao percebê-las ou tomar conhecimento.