O aumento das desigualdades não é uma fatalidade

O aumento das desigualdades não é uma fatalidade. As desigualdades são escolhas ideológicas e políticas públicas podem ser implementadas para combater a desigualdade também. Não existe uma fórmula mágica ou matemática para definir o nível “bom” das desigualdades, mas se os partidos de esquerda retomarem programas de combate das desigualdades e questionarem a acumulação ilimitada da riqueza, o processo poder ser minimizado em níveis toleráveis, é o que diz o economista francês Thomas Piketty, reconhecido mundialmente por suas pesquisas sobre a economia da desigualdade e redistribuição de renda.

O último relatório da Oxfam, Desigualdade S.A, lançado em janeiro último, revela que os cinco homens mais ricos do mundo dobraram suas fortunas desde 2020, ou seja, em apenas 3 anos, passaram de US$ 405 bilhões para US$ 869 bilhões, enquanto quase cinco bilhões de pessoas tiveram suas condições de vida reduzidas no mesmo período. O relatório, que discute a relação das desigualdades e o poder corporativo global, mostra ainda que se a tendência atual continuar, o mundo terá seu primeiro trilionário em dez anos, mas a pobreza não será erradicada nos próximos 229 anos.

Prefaciado pelo senador americano Bernie Sanders, que inicia o texto afirmando que: “Nunca, na história da humanidade, tão poucos tiveram tanto. Nunca, houve tanta desigualdade de renda e patrimônio. Nunca houve concentrações tão grandes de propriedades. Nunca se viu uma classe bilionária com tanto poder político. E nunca se viu tanta ganância, arrogância e irresponsabilidade por parte da classe dominante.” Se cada um dos cinco homens mais ricos do mundo gastasse um milhão de dólares por dia, eles levariam 476 anos para esgotar todo o patrimônio deles.

O economista Piketty se juntou a ONU, FMI e Banco Mundial para apelar pelo estabelecimento de metas contra as desigualdades e na introdução do seu livro Uma breve história da igualdade diz que o momento é oportuno, que existe um movimento voltado para a igualdade e insiste no argumento de que as escolhas dos governos a respeito de seus sistemas educacionais e tributários serão sempre políticas e ideológicas e daí resulta o acirramento da desigualdade, com a distribuição de riqueza e poder para as instituições e suas estruturas.

Piketty vai além e ataca o que ele chama de desvio dos partidos socialistas e democratas, que se distanciaram da classe pobre para se tornaram clubes dos vencedores do sistema educacional, ou seja, diz ironicamente, que a esquerda eleitoral se tornou um tipo de esquerda brâmane, casta do hinduísmo que atrai professores, homens letrados com renda bem acima da média.

Sobre o Brasil, em entrevista ele assinalou que houve um pequeno progresso nos segmentos inferiores da distribuição da renda, beneficiados por programas sociais mas que os pobres ganharam às custas da classe média, não dos mais ricos e acha deprimente constatar que décadas de democracia foram incapazes de produzir mudanças e tirar o país dentre os mais desiguais do mundo.

Não podemos deixar de estabelecer vínculos entre a dura realidade da vida e a natureza destrutiva dos sistemas que recompensam a ganância e o lucro acima de qualquer outro valor humano, enquanto milhões de pessoas vivem na pobreza extrema, sem água potável, serviços de saúde regulares, moradia digna e educação para os filhos.

A pobreza urbana e a indiferença do poder público

“Políticas de combate à pobreza urbana: um quadro geral de ação”. Este estudo é o resultado do projeto “Cidades: a gestão das transformações sociais e do meio ambiente”, um projeto de pesquisa-ação realizado pelo programa MOST e dado como contribuição para a Unesco, foi coordenado por Geneviève Domenach-Chich, que atribuiu ao Projeto Cidades o objetivo de incentivar iniciativas destinadas a melhorar a qualidade de vida e incentivar os cidadãos a desempenhar o seu papel no ambiente urbano.

O Projeto foi implementado como parte de uma estratégia para combater a pobreza e beneficiar as populações urbanas mais carentes. Fica claro também que os moradores devem ter iniciativas pró-ativas para melhorar sua própria condição de vida.

O projeto contribui para a formação de agentes locais nas áreas de gestão social e ambiental, desencadeia um processo de desenvolvimento e facilita a transição de uma estratégia anti-pobreza para uma estratégia de desenvolvimento, contribui para a construção de uma cultura democrática com senso de preocupação comum com o bem-estar, através de parceria entre as pessoas e os seus representantes eleitos e, portanto, visa reduzir a distância entre as pessoas e o poder local. O elatório lança luz sobre instituições como reguladores da vida social, um papel que nem as associações de bairro nem as ONG de desenvolvimento podem assumir, apenas o poder público.

A democracia deveria ser uma arena pública para lidar com os conflitos. Entretanto, um grande problema que enfrentam os projetos de desenvolvimento urbano é o fenômeno muitas vezes observado que os pobres são suspeitos para a política e para os políticos. As pessoas carentes se sentem distantes da arena política e das questões da sociedade. Esse distanciamento quase sempre é criado pelos compadrios políticos e pela perda de legitimidade dos órgãos públicos ou simplesmente pela ausência deles onde o cidadão pobre vive. O poder local não pode ficar desacreditado, não se pode creditar as ONGs ou associações o cumprimento de deveres que são de responsabilidade do poder público.

Não há nenhuma forma outra de combater a pobreza sem estar pronto para lidar com os conflitos que inevitavelmente são desencadeados em um ambiente urbano, porque as pessoas sistematicamente tornam o poder público o alvo de suas denúncias, as pessoas se ressentem desse distanciamento. Os órgãos democráticos devem ouvir as vozes dispersas da sociedade civil, das populações marginalizadas pela pobreza.

A pobreza é muito mais do que renda, é a falta de comida, de trabalho, dinheiro, abrigo e roupas. Pobreza é a sensação de impotência diante da vida, é não ter voz, não ter liberdade, é ansiedade e medo do futuro, da extorsão, da brutalidade. A maioria dos pobres urbanos são condenados a viver no isolamento social; é como viver num cativeiro, esperando ser resgatado. Enquanto isso, a criminalidade aumenta, a violência explode. E estas formas marginais de comportamento ocorrem exatamente porque o poder público local deixa de desempenhar o seu papel de acolher os mais necessitados.

De modo geral as pessoas pobres não têm sido capazes de tirar proveito das novas oportunidades econômicas por causa da falta de conexões, de informações, de habilidades, de apoio e de crédito. Os pobres, que trabalham principalmente no setor informal, experimentam uma vida insegura e imprevisível; os trabalhos não são confiáveis ​​e tem baixos retornos. Para os pobres ouvidos na pesquisa uma vida boa ou bem-estar é a paz de espírito, é uma boa saúde, o sentimento de pertencer a uma comunidade, segurança, a liberdade de escolha e ação e uma fonte estável de renda, para que não falte comida.