Escolas cívico-militares, contrárias à ideia de uma escola democrática

Uma das principais bandeiras do governo Bolsonaro na educação foi o emblemático programa de escolas cívico-militares. No decreto justifica-se que a gestão de escolas públicas convencionais seria compartilhada com os militares das Forças Armadas, Policiais e Bombeiros militares, os quais não atuariam em sala de aula, dariam apoio no acolhimento e preparo dos alunos na entrada dos turnos, no intervalo de aulas e nos períodos de encerramento dos turnos, colaborariam nos projetos educativos extraclasses baseados em princípios militares. Então, onde justifica que militares abandonem seus postos para ficar à disposição das escolas para exercerem funções desqualificadas no contexto do próprio texto do decreto?

Criado em setembro de 2019 por meio de um decreto, o programa apresentou-se com o objetivo de diminuir a evasão escolar e inibir casos de violência na escola e na comunidade a partir da disciplina militar. É possível regatar o discurso de lançamento do programa, onde, tanto o ex-presidente quanto o ex-ministro da educação à época, se exultavam da possibilidade de que a presença dos militares nas escolas públicas pudesse resgatar os valores da ‘sagrada’ família brasileira e instaurar a ordem, a moral e o patriotismo.

O educador Anísio Teixeira, no livro A autonomia para a Educação ensina que “embora todos os regimes dependam da educação, a democracia depende da mais difícil das educações e da maior quantidade de educação e há educação e educação. Há educação que é treino, que é domesticação. E há educação que é formação do homem livre e sadio”.

Considerando a sociedade diversa que vivemos, há artigos e estudos consensuais de que as escolas cívico-militares sugiram na contramão da democracia. E a pluralidade, as políticas de inclusão são, quase sempre, recebidas com desconfiança pela população mais conservadora, que segue martelando o discurso de que os princípios democráticos da liberdade desmantelaram os valores da família e corromperam a ordem moral que havia no passado.

Ademais, os bons índices alcançados por muitas dessas escolas deve-se ao fato que as matrículas são triadas, portanto são escolas que abrigam alunos que apresentariam desempenho destacado em qualquer escola. O outro ponto que usam para justificar a presença de militares nas escolas é que melhora a segurança na escola e na comunidade, ninguém duvida disso, mas esse objetivo pode ser alcançado por meio de parceria, sem a militarização do ensino e os jovens que queiram este tipo de formação e carreira têm a opção de procurar escolas militares bem-conceituadas existentes.

O fato é que os colégios militares não atendem à pluralidade que está presente na sociedade brasileira. É um projeto que foi concebido valendo-se de um equivocado plano de impor disciplina aos jovens, subtrair a autonomia de profissionais com formação continuada na área educacional, que estão na condução da gestão escolar. O professor de Ciência Política da Unicamp, Wagner Romão disse que o Programa Nacional de Escolas Cívico-Militares foi uma infeliz ideia, iniciada num contexto permeado de programas de caráter autoritário e de retrocesso e não vê nenhuma fundamentação que sustente a militarização dentro das escolas públicas, o que afronta, inclusive a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. 

Mais de 350 municípios declararam que pretendem insistir na implantação do modelo, entretanto, em ato comemorado por educadores, de fato, o presidente Lula extinguiu o programa.

Uruguai – caso de sucesso na educação

Entrando no segundo mês do ano de 2022, o mundo da educação está em um momento crucial. A pandemia continua a atrapalhar o aprendizado diário das crianças em todo o país, trazendo ansiedade e incerteza para o início de mais um ano letivo.  

Parece que é impossível recuperar tudo o que foi perdido em termos educacionais nos  últimos dois anos  e a pergunta de um aluno do Centro de Educação Unificado Casa Blanca, em São Paulo, para a sua professora ecoou como um grito de socorro para que a escola fique aberta. “Professora, demora muito a hora da janta? Na minha casa não tem gás, então de manhã eu só comi bolacha”. A pergunta do aluno é a constatação de que a merenda distribuída pelos governos, sobretudo municipais, é grande aliada no combate à fome e no desenvolvimento da criança, que também têm acesso ao lazer e serviços de saúde por meio da escola. 

Profissionais da educação do Banco Mundial e UNICEF fizeram um estudo sobre as reais possibilidades de se reverter as perdas educacionais ocasionadas pela pandemia, conforme o esperado, mostram que o impacto da pandemia no aprendizado dos alunos do ensino fundamental e médio é muito significativo, deixando os alunos em média cinco meses atrasados ​​em matemática e quatro meses atrasados ​​em leitura, por ano letivo. A pandemia inegavelmente acabou atingindo mais duramente os alunos historicamente desfavorecidos, que não conseguiram acessar a internet o tempo necessário, ou tempo algum.

O Uruguai é a história de sucesso na análise do Banco Mundial. O país se adaptou rapidamente ao ensino digital e em plena pandemia as crianças uruguaias continuaram a aprender, sem interrupção. Eis a razão: Nos últimos dez anos, o governo uruguaio investiu maciçamente em infraestrutura escolar, conteúdo digital e capacitação de professores, montou centros de suporte digital de última geração para as escolas, deixando o país bem preparado para migrar para o ensino online quando as salas de aula fechassem. Implementou a política de “um laptop por criança” e criou até uma agência estatal para atender as demandas da educação digital.

Quando as escolas fecharam, o governo conseguiu responder rapidamente distribuindo material digitalmente e personalizando o ensino remoto para o nível de aprendizado de cada aluno. Resultado do investimento? 98% dos alunos usam a educação remota regularmente, inclusive nas áreas rurais.

De modo geral o que os pesquisadores constataram foi a realidade de professores que desconheciam atividades digitais básicas, governos que não investiram em  infraestrutura digital para apoiar o aprendizado online, o que ocasionou as perdas educacionais e negou às crianças a possibilidade de se manterem em contato com colegas de classe e professores. Embora a aprendizagem digital não produza os mesmos resultados que a educação presencial, o investimento governamental em tecnologia usada de forma eficaz e includente pode preencher as lacunas educacionais e evitar a perda de aprendizado, como ocorreu no Uruguai.

Na maioria dos lugares, os sistemas educacionais tiveram que lidar com fechamentos de escolas, com acesso desigual às ferramentas de tecnologia, fundamentais para o ensino à distância. Ao mesmo tempo, houve muita discussão e observação sobre os danos sofridos pela educação de crianças e adolescentes, consequencia do distanciamento duradouro dos alunos com o ambiente escolar, acumulado desde o ano de 2020.

A questão central agora é investir na recuperação do aprendizado, olhar para o país vizinho e usar a experiência da pandemia como um catalisador para melhorar a educação de modo geral.