Se o afobado come cru, o atrasado perde o trem

Há quem diga que está cedo para articulações políticas, pesquisas, tomadas de decisões visando as próximas eleições. Luiz Carlos Mendonça de Barros, engenheiro e economista, foi presidente do BNDES e ministro das Comunicações do governo FHC, escreveu uma belíssima crônica, em 2003, respondendo a uma comunicação do governo recém-eleito de Lula, que pedia calma e dizia que a política econômica havia acabado de assumir e estava sendo cobrada de forma afobada e que ‘o afobado come cru’. Mendonça de Barros não perdoou o uso de uma metáfora popular na fala do presidente. Escreveu que a sociedade e os que entendem a função de presidente da República esperam uma certa liturgia na comunicação do governo e completou, recorrendo também a sabedoria popular; se o ‘afobado come cru’, o ‘atrasado perde o trem’.

Discutiam ali, o orçamento, liquidez monetária, controle de inflação, rentabilidade de investimentos e Mendonça de Barros escreveu que o excesso de confiança de Lula na qualidade de sua gestão era perigoso e ingênuo, e, novamente recorreu a uma metáfora popular, dizendo que ‘é preciso de alma e porrete’ para enfrentar os descompassos da economia. As metáforas utilizadas na crônica encaixam perfeitamente no momento político que vivemos, há pouco mais de um ano das eleições. É preferível comer cru a perder o trem e é igualmente preferível se lançar transparente e corajosamente nas articulações do que alimentar recuo especulativo e frouxidão.

Em momentos de crise de confiança na política, seja por motivação interna ou externa, quando se pensa no Brasil de hoje em dia e nas próximas eleições, poucos se sentem tranquilos. Estamos transitando entre os extremos, com o volume emocional ligado muito alto. Nos dividimos entre; animados ou desanimados; com medo ou com confiança no futuro; triste ou feliz; seguro ou inseguro; com mais medo ou com mais esperança. A violência simbólica da discussão política presencial ou, mas mídias sociais é creditada as campanhas publicitárias e equipes de mídia dos candidatos, segundo o psicólogo brasiliense Gilberto Godoy, para quem as eleições têm sido dominadas por raiva, medo e discursos emocionais, onde um é bom, e o outro é mau. Um presta, e o outro não presta.

Por essa razão não é cedo para explorar e massificar nomes que em lugar do medo, possam transmitir a esperança. Não é cedo para afinar o discurso que, em vez da divisão, do comportamento radical e intolerante pregue a promoção do bem-estar social, da construção de casas, escolas, creches, hospitais. Não é cedo para mostrar aos 2,6 milhões de eleitores que você não é só retórica, que você, candidato, discute ideias e planos e não apenas emoções, impressões e fantasias.

Em Cuiabá, semana passada, o presidente do Supremo Tribunal Federal, Ministro Luís Roberto Barroso, lembrou que a polarização entre grupos políticos rivais sempre tensionou as eleições no Brasil; nos anos 1930 a 1964, o período de Getúlio Vargas trouxe polarização entre o PTB e UDN, com o PSD, tentando, sem sucesso, a conciliação. No período mais recente, houve a polarização entre o PT e PSDB e agora PT e PL (ou bolsonarismo). Observamos que a polarização, contudo, se deu muito mais em torno de figuras políticas fortes, como, Vargas, Lula e Bolsonaro do que em torno de conteúdo e pautas partidárias.

A cura é falar mais e mais sobre política para melhorar a qualidade do voto, para assegurar que as divergências não reproduzam radicalismos, ódios ou paixões violentas, para que, enfim, as relações voltam a ser reconstruídas com equilíbrio e civilizadamente.

hoje, os eleitores falam

Aristóteles já dizia que a democracia é o governo onde domina o número, isto é, a maioria, O resultado das eleições é uma das principais manifestações da soberania popular. Em função disso, não importa quão apertada seja uma disputa eleitoral, o resultado das eleições sempre refletirá a vontade do povo, e o candidato eleito sempre deverá governar para todos, em vez de governar apenas para seus eleitores. No Brasil, é importante discutir e relembrar a importância da democracia, do pluralismo. Relembrar como foi custoso e demorado a volta do Estado Democrático de Direito, do direito de participar, expor a opinião, assumir posições sem receio de ser perseguido.

Todavia, a história eleitoral é escrita pelos vencedores. O tema da derrota eleitoral é pouco discutido na Ciência Política, embora a derrota eleitoral seja parte inerente do jogo democrático e oferece importante subsídio para a compreensão do momento político da disputa, das pautas levantadas até os apoios recebidos e forma de comunicação adotada pelo candidato. Nas democracias, perder eleições livres e justas é uma parte normal da política e o consentimento dos perdedores é necessário para a sobrevivência do próprio governo democrático.

Para quem tem cargo eletivo, caso dos dois candidatos de Cuiabá é ainda mais difícil compreender a derrota, a falta de reconhecimento, porque como parlamentares, eles vêm comunicando com eleitor há anos. Mas aí entra a questão da modernidade líquida do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, onde os laços construídos são frouxos, a admiração é infiel e os ambientes onde se dão as relações são instáveis, ambíguos e inseguros.

A vitória de um não significará necessariamente a derrota do outro. Ambos estão na metade de seus mandatos parlamentares.

Contudo, certos tipos de derrotas podem provocar redefinições ou até ruptura política na trajetória do candidato, porque o indivíduo contribuí muito com seu tempo e energia para propagar o plano de governo escrito baseado na ambição do eleitor, do partido e pelo caminho estão percalços e contratempos de toda sorte; traições de grupo, falta de empenho e ultimamente as pesquisas enviesadas que mais confundem do que orientam o marketing das campanhas, além dos falsos profetas que ensinam o que fazer e como se comportar no dia 2, no dia 1 antes da eleição.

Falo sobre o derrotado hoje, um dia antes da eleição, porque todos se voltarão para aplaudir o vencedor e ele não conduziu sozinho sobretudo o segundo turno das eleições em Cuiabá. Cuiabá, que nos deu o maior líder político que este estado já teve, Dante de Oliveira, derrotado ao senado no ano de 2002 e quem estuda e participa da política tem plena convicção que, se não fosse morte prematura meses antes do início das articulações para a eleição de 2006, Dante pleno da sua grandeza política se elegeria para o cargo que disputasse. Ele queria ser deputado federal.

José Serra, ao reconhecer a derrota para Dilma Rousseff, disse em seu pronunciamento: “Não é adeus, é até logo. Quero agradecer aos brasileiros de todos os cantos do nosso território. No dia de hoje, os eleitores falaram. Nós recebemos com respeito e humildade a voz do povo nas ruas. Quis o povo que não fosse agora”. Na eleição seguinte, em 2014 José Serra elegeu-se senador com mais de 11 milhões de votos.

Já pensando nas próximas eleições, não sei como estas serão trabalhadas porque a maioria das campanhas migraram para a internet, que tem mostrado que é um espaço para reunir os iguais, para combinar agenda, sem controvérsias, sem aceitação às diferenças. Ninguém está ali para abrir a própria visão, para conhecer o plano de governo do outro. Ou há xingamento ou silêncio. Não há troca, não há interação mínima entre os que pensam diferente, só cercadinhos que se odeiam.

Eleição – coisa complicada

Em Mato Grosso, somente a capital do estado pode ter as eleições decididas no segundo turno. No Brasil apenas 103 cidades poderão ter segundo turno. Na reta final, analisados os recursos, o Tribunal Regional Eleitoral já divulga as candidaturas barradas pela justiça eleitoral. No estado, 11.100 cidadãos solicitaram registro, sendo 368 candidatos a prefeito, 374 a vice-prefeito e 10.358 candidatos a vereador, sendo 446 em Cuiabá, dos quais 23 foram considerados inaptos ou deferidos com recurso, conforme o DivulgaCand Contas.

Na data de 20 de setembro o DivulgaCand Contas registrava 15.571 candidatos a prefeitos, 15.814 candidatos a vice-prefeitos e 431.967 candidatos a vereadores no país inteiro. As nossas eleições são verdadeiros combates, a eleição municipal é gigantesca, movimenta números expressivos; mais de 155.912 milhões de eleitores, quase meio milhão de candidatos nas 5.569 cidades do país. Ao todo, 29 partidos receberão R$ 4.961.519.777,00 somente do Fundo Especial de Financiamento de Campanha, valor estabelecido pelo Congresso Nacional para gastos com a corrida eleitoral deste ano.

Esta será a maior eleição municipal de todos os tempos, entretanto, desse total de eleitores, aproximadamente 20,5 milhões não são obrigados a votar, são os maiores de 70 anos e as pessoas de 16 e 17 anos, ou seja, 1 em cada 7 eleitores não é obrigado a votar.  

As eleições municipais despertam muito interesse na turma de Brasília tanto que 83 deputados federais e 4 senadores entraram na disputa, apesar do ambiente ser favorável à reeleição dos prefeitos. Porém, nunca se tem como certa nenhuma movimentação no tabuleiro político eleitoral antes das eleições, com exceção do jovem prefeito de Recife, João Campos (PSB) que é, segundo pesquisas, o único candidato de capital com vitória assegurada no primeiro turno. O candidato tem 67% das intenções de votos. Em Mato Grosso, Kalil Baracat, prefeito de Várzea Grande tem a excelente pontuação de 57,9% das intenções de votos.

Dia 16 de setembro passado, 20 dias antes do 1º turno das eleições foi o prazo estipulado para que todos os pedidos de registro de candidaturas estivessem julgados e as decisões publicadas. Para quem efetivamente pretende ser candidato é necessário que não incida em nenhuma das cláusulas de inelegibilidade, que entre as causas mais comuns tem-se a ausência da quitação eleitoral, desincompatibilização de cargos nas datas previstas em lei ou incidência nas cláusulas da Lei da Ficha Limpa, que veta candidaturas de pessoas condenadas por determinados crimes ou improbidade administrativa, que por exemplo, impossibilitou a candidatura do Presidente Lula em 2018, no caso do tríplex e Fernando Haddad, à época, assumiu a candidatura. O ex-presidente Bolsonaro está inelegível por 8 anos por abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação, inclusive oficial, para divulgar informações falsas sobre o processo eleitoral brasileiro.

O combate a desinformação é prioridade para a Justiça Eleitoral. O Tribunal Superior Eleitoral coloca à disposição do eleitor várias formas de denunciar as propagandas e campanhas irregulares, por exemplo, o aplicativo Pardal. Para denunciar especificamente a disseminação de notícias falsas, pode-se acionar o Sistema de Alerta de Desinformação Eleitoral – SIADE ou o SOS Voto, pelo telefone 1491. Em caso de dúvida se a informação divulgada pelo candidato é verdadeira ou falsa, recorra ao Fato ou Boato na capa do site do TSE, que faz conferência das informações e fontes das mesmas.

A Ministra Cármen Lúcia, Presidente do TSE disse que o voto é compromisso de esperança que se põe na urna para guardar a Democracia que construímos juntos, com todas as diferenças que nos fazem plurais na unidade que é o Brasil.