Cenários complexos

Adentramos um período caracterizado por incerteza e insegurança econômica e política, sobretudo. Como escreveu Zygmunt Bauman nada mais parece fixo e a própria tecnologia que avançou como uma perspectiva de progresso inadiável, propaga tanta informação, que não podemos absorvê-la para descobrir o que está realmente acontecendo. Qualquer um, de qualquer lugar pode usar a tecnologia para qualquer propósito, sem respeito algum às instituições e aos especialistas. Ao falar sobre os avanços tecnológicos, o sociólogo e escritor brasileiro Sérgio Abranches observa que a democracia permaneceu analógica enquanto a sociedade se tornou digital.

Em uma longa entrevista a um respeitado veículo de comunicação sobre economia, Abranches analisou detalhadamente o fluxo dos desacertos políticos atuais e inicialmente já deixou claro que com esse congresso que elegemos nenhuma reforma estrutural jamais acontecerá. Acusa o legislativo brasileiro de colocar a faca no pescoço do executivo nas discussões e chantagens que envolvem as emendas parlamentares, utilizadas, grosso modo, para alimentar processo de reeleição dos parlamentares.

Um estudo publicado pelo Instituto Não aceito Corrupção revela que foram destinados 106 bilhões de reais em emendas em nos últimos 5 anos, ignorando completamente os indicadores sociais  dos municípios.

A crônica política, segundo Abranches gira em torno de uma versão do ‘conflito entre os poderes da República, na qual são protagonistas uma Presidência que não está funcionando a pleno vapor, um Congresso dominado pelo centrão, conglomerado de partidos amorfos, hospedeiros de caciques expoentes do fisiologismo e um Judiciário intrometido.

Ao falar sobre os grupos grandes no Congresso Nacional, como o antigo e sempre oportunista centrão, Abranches observa o grupo não age coletivamente e que os interesses pessoais e paroquiais tornam o grupo inerte politicamente, mas voraz na ocupação de cargos e nem por isso, responde com lealdade ao governo, nem mesmo quando em votação está algum projeto de interesse público. De acordo com Sérgio Abranches, o poder Judiciário está sendo forçado a intervir e preencher as lacunas, tentando corrigir as omissões de um poder Legislativo fraco, que não responde nem se provocado.

Abranches confirma a percepção que citei acima de que uma transformação rumo a incerteza, exaustão e insatisfação está acontecendo em toda parte e esta transformação está diminuindo a capacidade dos governos, mesmo os mais democráticos de atender as necessidades da população. Esses sentimentos negativos concentram insatisfação até com a democracia, porque ela não está sendo representativa nem está levando avanços a população brasileira.

No fim das contas, esse cenário marcado por insatisfação e insegurança traz enorme volatilidade eleitoral, o que pode beneficiar ou prejudicar qualquer candidato. Elaborar estudos ouvindo as pessoas falar sobre política está ficando perigoso para quem preza o respeito pelo pensamento alheio e a imprevisibilidade pode ter um impacto significativo nas perspectivas políticas do Brasil de 2026. Por ora, a situação política do Brasil em 2025 é uma mistura complexa de oportunidades, desafios e desconfiança.

O combate à interferência estrangeira nas eleições de 2026

A interferência e manipulação eleitoral estrangeira não é incomum na história de eleições democráticas. Em 1796, o presidente americano George Washington reclamava da interferência francesa no processo eleitoral americano. Desde o início do século XX tem havido reiteradas denúncias de interferência americana, governo e corporações nos países da América Central. Recentemente, em dezembro de 2024, o principal tribunal constitucional da Romênia cancelou dramaticamente as eleições presidenciais depois que os serviços de segurança alertaram que o governo russo estava promovendo ataques virtuais agressivos contra o processo eleitoral do país do Leste Europeu.

ARTICULISTA DO DIA

Olga LustosaO combate à interferência estrangeira nas eleições de 2026

Por Olga Lustosa 30/03/2025, 05h:00 – Atualizado: 30/03/2025, 08h:09https://www.facebook.com/plugins/like.php?app_id=1393828624201403&channel=https%3A%2F%2Fstaticxx.facebook.com%2Fx%2Fconnect%2Fxd_arbiter%2F%3Fversion%3D46%23cb%3Df288be4b8e1542d4e%26domain%3Dwww.rdnews.com.br%26is_canvas%3Dfalse%26origin%3Dhttps%253A%252F%252Fwww.rdnews.com.br%252Ff0f582888bc8f6b81%26relation%3Dparent.parent&container_width=0&href=https%3A%2F%2Fwww.rdnews.com.br%2Fcolunistas%2Folga-lustosa%2Fo-combate-a-interferencia-estrangeira-nas-eleicoes-de-2026%2F209104&layout=button_count&locale=pt_BR&sdk=joey

Olga Lustosa

Ainterferência e manipulação eleitoral estrangeira não é incomum na história de eleições democráticas. Em 1796, o presidente americano George Washington reclamava da interferência francesa no processo eleitoral americano. Desde o início do século XX tem havido reiteradas denúncias de interferência americana, governo e corporações nos países da América Central. Recentemente, em dezembro de 2024, o principal tribunal constitucional da Romênia cancelou dramaticamente as eleições presidenciais depois que os serviços de segurança alertaram que o governo russo estava promovendo ataques virtuais agressivos contra o processo eleitoral do país do Leste Europeu.

A Rússia, de acordo com avaliações da inteligência americana, trabalhou com o  objetivo de apoiar a candidatura do presidente Donald Trump ano passado. Um grupo russo chamado Storm-1516 foi rastreado pela Microsoft, tentando agir para favorecer Donald Trump. A Rússia, também foi pega contratando secretamente um grupo de comentadores americanos conservadores, empregados através de uma plataforma digital de fachada, para publicar dezenas de vídeos com comentários políticos e notícias falsas, favoráveis a Trump.

Na Alemanha, o governo negou veementemente as alegações do presidente do comitê de inteligência do Parlamento Federal de que a recente eleição federal do país, ocorrida em 23 de fevereiro, passado, foi manipulada por atores estrangeiros. O advogado e político alemão, Konstantin von Notz, do Partido Verde, disse ao jornal Financial Times que houve influência ilegítima no processo de tomada de decisão na última eleição e que o governo alemão tinha que reconhecer que as eleições foram manipuladas com sucesso.

O governo alemão negou, reforçou a negação em todos os canais que pode, porém, um porta-voz do Ministério Federal do Interior e Assuntos Internos admitiu, que não houve interferência no processo eleitoral durante a eleição federal, no sentido de fraude, mas que no período que antecedeu a eleição federal e até sua véspera, houve inúmeras tentativas de influência estrangeira no espaço da informação, com objetivo de quebrar a confiança do povo no processo e influenciar a direção do voto, sobretudo dos eleitores mais qualificados. Apontou o governo russo de haver realizado várias operações no espaço de informação, usando meios clandestinos online.

2026 vem aí com muito mais requinte e não podemos subestimar o impacto da divulgação de vídeos falsos, de notícias pessoais requentadas para manchar a reputação dos candidatos, menos ainda, podemos subestimar o impacto da interferência de ricaços brasileiros e sobretudo americanos no convencimento da direção do voto, num estado que sequer sabem onde se localiza.

A próxima eleição presidencial brasileira (2026) pode ser palco de uma guerra entre tecnologia, notícias falsas e interferência de estrangeiros, no caso, o bilionário Elon Musk e Presidente Donald Trump, assim esperam muitos do núcleo mais próximo de Bolsonaro. Musk já se posicionou no cenário político brasileiro e já desafiou a justiça para defender que discursos de ódio e fake news proliferassem na sua rede social. Há também esperança de que a megaestrutura de seu satélite de comunicação possa ser usada para interromper comunicações ou facilitar ataques cibernéticos ao processo eleitoral no Brasil.

Enfim, já nomearam Elon Musk como o outsider que tentará manipular as eleições brasileiras em 2026. Na contramão, há o fato de que as mídias sociais mais usadas no Brasil, que podem realmente influenciar o tráfego de informações são todas da Meta, do Sr. Mark Zuckerberg.

Mapa político de 2024 não é prévia de 2026

Osegundo turno segue quente em Cuiabá e em outras 50 cidades brasileiras. O segundo turno é uma eleição em que se aproveita a maioria das experiências aplicadas no primeiro turno, mas é um novo momento muito complicado, com espaço de tempo muito curto para trabalhar as novas estratégias e tem o desafio interno, dentro da campanha de acomodar, de abrir espaço para as novas adesões, para os novos apoios, que irão, ao final, na contagem dos votos, fazer a diferença.

Essa questão de flexibilizar para receber novos apoios é tão importante que li uma entrevista do presidente do PL, afirmando que: “o pessoal da extrema direita do partido precisa aceitar a aproximação com o centro e o diálogo com setores da esquerda para vencer as eleições de 2026”.

Então, as eleições locais nem terminaram e estão sendo utilizadas por políticos e analistas políticos como o termômetro do apoio público aos governos e partidos para as eleições gerais, em 2026. Em análises locais e nacionais percebo que as eleições que ainda não findaram serão mais do que a escolha dos 5.568 prefeitos e 57.119 vereadores país afora. Desse resultado surgirá um mapa desenhando dos possíveis rumos do Brasil na próxima eleição. Não diria que os futuros prefeitos e vereadores serão cabos eleitorais dos candidatos de 2026 mas seguramente serão as pessoas que influenciarão os eleitores no próximo pleito.

Estudando os impactos e influências das eleições municipais nas eleições gerais, há forte tendência entre os cientistas políticos de que a eleição municipal não é uma prévia da eleição geral até porque o que foi colocado à vista em 2024 foi a avaliação das forças políticas, do desempenho dos partidos e dos parlamentares com mandato. O eleitor gosta de parlamentar que atua fortemente nos municípios e obviamente quem tem grande número de prefeitos e vereadores entre os apoiadores sai com larga vantagem. Isso nem é teoria política, é matemática.

Embora os analistas creiam que os resultados das eleições municipais expressem preocupações locais e não tendências nacionais, eu creio que os eleitores utilizam as eleições em arenas locais para expressarem a satisfação ou insatisfação com os governos estaduais e nacional.

A dinâmica das duas eleições, contudo, não obedece a mesma lógica, tanto que o PT em 2020 teve um dos mais fracos desempenhos desde a fundação da sigla e elegeu apenas 183 prefeitos. Dois anos depois, nas eleições gerais, retomou a Presidência da República, elegendo o presidente Lula para o terceiro mandato. De acordo com o cientista político Rafael Cortez, professor do Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP), a ligação entre os dois pleitos se dá mais no campo das ideias da elite política, porque o eleitor não guarda relação nem preferencias entre as duas eleições e o efeito de uma eleição sobre a outra vai se diluindo.

Vamos acompanhar o desempenho do PSD, de Gilberto Kassab, que terminou o primeiro turno como o partido com a maior capilaridade política do País, elegeu 888 prefeitos de norte a sul e espera estar na disputa direta para a presidência da República ou no Palácio dos Bandeirantes em São Paulo. Vamos observar para ver até que ponto ter mais prefeitos e vereadores significa estar bem-posicionado para uma grande disputa.

Em alguma medida, é claro que a eleição municipal dá o cenário de poder com que os partidos vão jogar quando forem construir os seus palanques e suas estratégias eleitorais, num ambiente que já foi modificado para melhor em 2024. 241 pessoas LGBTQIA+ foram eleitas vereadoras, um aumento de 400% na representação nos legislativos municipais. As eleições municipais mandam recado para 2026.

Os cabos eleitorais com bom trabalho de base

Somos atraídos por políticos que nos inspiram e são bons em comunicar no que acreditam, porém, há uma leva de candidatos sem perfil, sem conteúdo, sem empatia e sem conexão com o eleitor, sem pautas prioritárias tentando conseguir votos para serem eleitos. Campanhas há certo tempo têm ligação muito intrínseca com as redes sociais, que devidamente impulsionadas podem proporcionar ao candidato, com ou sem conteúdo, uma visibilidade enorme.

Após duas semanas, vencidas as limitações da lei eleitoral, as dificuldades burocráticas e de planejamento, os candidatos estão nas ruas com adesivaço, bandeiraço, reuniões filtradas nas residências de apoiadores nos bairros mais distantes do centro de Cuiabá, tentando exibir campanhas volumosas. Liguei para um amigo, liderança importante no movimento comunitário e ouvi dele a confirmação de um comportamento que observo; os voluntários de campanha, fora do grupo familiar e de amigos, são pouquíssimos.

Me disse o líder comunitário que as mesmas pessoas frequentam reuniões de vários candidatos que disputam a vereador até que sejam contratadas como cabo eleitoral por um ou outro. É um engano crer que estas pessoas desenvolvam vínculo com o candidato e suas bandeiras. Quando surgiram os cabos eleitorais eram normalmente militantes dos partidos dos candidatos, hoje, considerados ultrapassados, a grande maioria são contratados, remunerados ou não e quase nunca tem ligação com a militância do partido e atuam na faixa intermediária fazendo a conexão entre o candidato e a população, grande parte, sem conhecimento das regras eleitorais, da linha ideológica do partido e do candidato para quem pede votos. Praticamente apenas o cabo eleitoral com bom trabalho de base em um bairro importante, abre portas para o candidato.  

Certa vez li uma entrevista com ex-governador de Rondônia e senador, Confúcio Moura, onde ele dizia: “sua campanha política inicia no dia que você nasce e vai crescendo a cada passo, de acordo com os sentimentos e ações que permeiam seu crescimento pessoal e sua posição política, que a eleição se ganha muito antes do pleito, com ações sociais, participando de reuniões em organizações de bairro.”

O passado do político tem que ajudá-lo a neutralizar a tempestade ininterrupta de ´fake news´, a falta de afinidade de muitos colaboradores que sequer conseguem repetir meia dúzia de propostas do candidato. A conquista do espaço eleitoral tem que refletir a identidade do candidato, porém, o tempo exíguo joga para as mídias sociais ou pessoas desqualificadas o papel de divulgar e promover as ações da campanha. Marcelo Vitorino, em artigo recente e direcionado a eleição municipal, disse que não adianta correr desordenadamente, queimando etapas, querendo estar em todos os lugares, sem antes sensibilizar e motivar o eleitor com suas propostas. A pressa é inimiga da vitória, ensina Vitorino.

Sexta-feira passada iniciou o horário político nos meios de comunicação tradicional e agora candidatas e candidatos aos cargos de prefeito, vice-prefeito e vereador podem realizar propaganda eleitoral nas ruas, na internet e no horário eleitoral gratuito. Meios para se tornar conhecido tem, a propaganda eleitoral é uma ferramenta fundamental que permite que os candidatos apresentem suas propostas e ideias à população. Aí reside o problema!

Os vários níveis da participação política

Reclamações sobre a perda de interesse pela política são ouvidas por toda parte. Depois ouve-se o discurso sobre a crise de representação de inúmeras categorias. Em muitos casos a sub-representação deriva da não participação. Seria possível esquecer a política?

A política, antes, é o mundo que emerge entre nós, o mundo que emerge através das nossas interações uns com os outros, ou através das formas como as nossas ações e perspectivas individuais são agregadas em coletividades, embora alguns cientistas políticos a definam simplesmente como o exercício do poder, o poder como influência sobre as ações de outro, poder de moldar agendas e preferências políticas, ou como foi definida pelo cientista político Harold Lasswell: a política trata de “quem recebe o quê, quando e como”.

Faz realmente diferença em nossas vidas escolhermos quem nos governa. Benjamin Constant no livro Escritos de política disse ser a democracia a autoridade depositada nas mãos de todos. Os cidadãos possuem direitos individuais que estão acima da autoridade que os governa, como a liberdade individual, liberdade de opinião e liberdade religiosa. Para alguns, o critério central de uma democracia é o poder dos cidadãos escolherem o seu governo através de eleições competitivas; para outros, este fator é menos importante do que a igualdade de oportunidades para todos os cidadãos na obtenção de posições de liderança política; para outros, estes dois critérios perdem a importância se a participação efetiva dos cidadãos nos vários níveis da vida política não for alcançada.

Chega da visão fatalista de que não temos escolhas reais a fazer na política. Um voto não elege diretamente o prefeito, o vereador, mas se o seu voto se juntar a um número considerável de outros, o seu voto será sem dúvida importante no resultado eleitoral final. Todos podemos empreender ações para influenciar diretamente o envolvimento político através das instituições eleitorais. Precisamos nos envolver não apenas por causa dos ideais sublimes da democracia, mas porque é nossa responsabilidade como cidadãos. Devemos prestar mais atenção na verdade, nas propostas porque, gostemos ou não de política, os políticos serão eleitos, irão cobrar impostos e definir novas as regras que afetarão a vida de todos.

Precisamos ler, estudar para entender a efervescência singular da movimentação política, afinal recai sobre o mês de agosto a expectativa dos registros de candidaturas, acesso aos recursos do fundo partidário, abertura de contas, confecção de material visual, gravações decepção com aliados, rasteira partidária. Agosto parece não ter fim!

As pessoas normais não são especialistas na maioria das questões políticas, mas entendem bem as grandes divisões nas posições políticas de progressistas e conservadores, as redes sociais e a proliferação de canais de mídia através da Internet e da TV desempenharam um papel importante, permitindo que as pessoas se comunicassem com pessoas como elas, sem perder o olhar para os que pensam diferente. Ou seja, as pessoas estão gravitando nos espaços dos seus iguais, mas estão lendo sobre os outros candidatos também. Como li dias atrás, numa estratégia de cima para baixo, os partidos estão espalhando combustível dentro de seus campos, promovendo a divisão entre os candidatos em busca de assegurar crescimento das bancadas.

Qualidades que políticos modernos devem ter

2024 será o superano das eleições no mundo. Cerca da metade da população mundial, 4 bilhões de eleitores, em 80 países, segundo cálculos da Agência France Presse-AFP irão às urnas em 2024, incluindo Estados Unidos, Rússia e a Índia, com incríveis 945 milhões de indianos convocados para as eleições gerais neste país que é o mais populoso do planeta com 1,428 bilhão de pessoas.  

No dia 6 de outubro, data do primeiro turno das Eleições Municipais 2024, 152 milhões de eleitores estarão aptos a votar para prefeito, vice-prefeito e vereador em 5.568 mil municípios do país, lembrando que as eleições municipais são estratégicas para partidos e políticos para o planejamento das eleições gerais de 2026.

Mato Grosso tem mais de 2.5 milhões de eleitores aptos a votar. Cuiabá representa 17,4% do eleitorado total do estado com 439 mil eleitores.

Uma boa combinação de certas características pessoais, habilidades e talentos são necessários para determinado profissional, empresário, cantor ser bem-sucedido. Mas será que o mesmo se aplica à política, à ciência e à arte de governar? A política é uma atividade muito importante, cujas ações e determinações são imprescindíveis para desenvolver cidades, comunidades e nações.  Por enfrentar muitas críticas e pressão implacável o universo da política é muitas vezes desgastante.    

Os políticos têm as maiores responsabilidades nas sociedades democráticas, mas a maioria deles não está necessariamente equipado com as qualidades e competências ideais. Algumas qualidades que bons políticos modernos devem ter incluem honestidade (alguém que honra os seus compromissos), autoconsciência, deferência para com os outros (colocar os outros em primeiro lugar) e alguém que cumpre com o que diz.

Se olharmos para os políticos em geral, raramente os vemos com estes traços ou qualidades de personalidade. Muitos ainda são literalmente analfabetos outros justificam a corrupção, colocam os seus próprios interesses em primeiro lugar e raramente cumprem o que prometem.

Por esta razão muitos cidadãos optam por não participar da vida política e também por se sentirem frequentemente ignoradas ou com poder limitado para influenciar uma mudança ou tomada de decisões. Outra barreira é a pobreza, a lida diária para sobreviver. As pessoas comuns precisam correr atrás do ganha pão e concentram suas horas em atividades de sobrevivência.

De toda forma a política é inegavelmente atraente. No livro ‘Como não ser um político’, o autor, um ex diplomata, ministro britânico e deputado por oito anos, Rory Stewart, fala de si mesmo, um homem genuinamente decente, com um desejo real de alcançar resultados políticos positivos, que se sentiu desconfortável por ter que conviver com a hipocrisia política e com a ignorância dos colegas que o rodeava. Deixou a lição de que a política é uma cultura que privilegia a campanha em detrimento de uma governança cuidadosa, pesquisas de opinião são mais importantes do que debates aprofundados sobre políticas e que anúncios são feitos onde nada é implementado.

Nada a fazer. As eleições se aproximam e até a ONU tem publicado artigos e chamamentos orientando as pessoas a se informarem e participarem ativamente dos pleitos eleitorais.

Apesar dos avanços, as mulheres vão para disputa em desvantagem

As as eleições de 2024 a ministra Cármen Lúcia estará à frente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), teremos então, uma mulher conduzindo as eleições, uma mulher que acredita que é possível garantir um ambiente seguro para as mulheres, sem violência política, acredita que as urnas eletrônicas são confiáveis e que assegura que os votos colocados nelas serão contabilizados e apurados e quem for proclamado eleito, será empossado.

Para incentivar a participação feminina na política, a Comissão Gestora de Política de Gênero do TSE criou o projeto ParticipaMulher, que reúne informações sobre a história do voto feminino, como e quem são as primeiras mulheres a conquistar espaços de relevância no meio político e notícias que abordam a progressão dessa participação.

Apesar dos avanços e esforços, fato é que, as candidatas vão para a eleição em desvantagem, como tem sido neste país que ainda tem 14 municípios que não elegem nenhuma mulher vereadora desde a virada do século, no ano de 2000. Das 5.568 câmaras municipais, 842 são compostas integralmente por homens.

As eleições municipais deste ano, comandadas também em Mato Grosso por uma mulher, são uma oportunidade de aumentar esse número, para que haja proteção real a cota de gêneros, combate as tentativas de fraudes dos partidos políticos em relação à cota de gênero, para que avancemos no sentido de chegar a uma participação cada vez mais paritária entre homens e mulheres na política brasileira e o princípio de tudo é o apoio dos partidos políticos às candidaturas femininas.

O levantamento publicado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) aponta que a participação de mulheres não correspondeu a um terço das vagas em nenhuma das 26 capitais. Já para vice-prefeitas, houve aumento significativo, foram 3.985 mulheres, o que corresponde a 21,2% do total das candidaturas femininas registradas, em todos os níveis. 30 municípios brasileiros elegeram a primeira mulher vereadora em 20 anos.

As chapas formadas somente por mulheres (concorrendo a prefeita e a vice-prefeita), como ocorreu em Jaciara, com Andréia e Zilá, em Santo Antônio de Leverger com Francieli e Giseli, correspondem pouco mais de 2% do total de chapas registradas em 2020. As chapas em que as mulheres assumiram a disputa para prefeitura, mas com um homem como vice, corresponderam a 11% do total.

Porém, o número de vitórias é bem maior para as chapas com homens na disputa pela chefia da prefeitura e mulher como vice. A pós-doutora em Ciência Política pela Universidade de São Paulo Teresa Sacchete, explica que o aumento de candidaturas com mulher de vice não está nem um pouco associado ao fortalecimento de candidaturas femininas ou capacitação das mulheres para que em uma próxima eleição, elas possam ser cabeças de chapa. Ela acredita que as mulheres foram colocadas na posição de vice estrategicamente para que o candidato possa utilizar maior fatia dos fundos de financiamento partidário.

O que prevaleceu mesmo nas eleições municipais de 2020 foi a supremacia dos homens nas prefeituras. As chapas compostas apenas por homens representaram 73% das vitórias. Apenas 651 prefeitas foram eleitas, contra 4.750 prefeitos. Vereadoras eleitas foram 9.196 contra 48.265 vereadores, ou seja 84% de homens nas Câmaras Municipais.

Trabalhar a imagem o quanto antes, anúncios podem esperar

As eleições estão tão distantes, que somente esta semana o Tribunal Superior Eleitoral fez as audiências públicas para colher sugestões para o aperfeiçoamento das resoluções que serão aplicadas nas Eleições 2024. Nas reuniões ampliadas, coordenadas pela vice-presidente do TSE, ministra Carmem Lúcia, transmitidas ao vivo pelo canal do TSE no YouTube, foram lançadas propostas sobre os mais abrangentes temas que envolvem as eleições, de pesquisas eleitorais, registros de candidaturas ao Fundo de Financiamento de Candidaturas.

Após a avaliação das propostas da sociedade, as minutas serão levadas para serem apreciadas pelo Plenário do TSE. O prazo final para a votação das normas que regerão as eleições municipais de 2024 vai até 5 de março. 

As articulações estão no centro das campanhas políticas. A construção de uma candidatura é complicada, as articulações políticas e os arranjos partidários levam tempo e, às vezes, não há o que fazer senão esperar pelos diagnósticos, pelas análises e aceitação de partidos políticos, enquanto isso, pode-se avaliar o potencial de votação dos partidos pretendidos, a penetração e receptividade nos bairros. Pode-se agora, debruçar sobre os adversários, sobretudo os que trabalham pautas similares as suas.

Em muitas campanhas que trabalhei, não percebi grande preocupação dos candidatos quanto à concorrência, porém, é importante conhecer e compreender quem disputará os mesmos votos que você.

É óbvio que, quanto maior o tempo de preparação, mais fácil será a vida do candidato durante o período eleitoral. E os candidatos que têm mandato saem efetivamente na frente, pois já tem estabelecido uma certa linha de comunicação com os eleitores, já tem uma marca política construída através de suas realizações, os eleitores se veem em suas narrativas e entendem a diferença que faz votar em você. As coisas ficam bem mais fáceis. 

Embora, uma das decisões mais importantes no período de decisão e planejamento de campanha seja exatamente quando anunciar a pré-candidatura, há nas literaturas de marketing político a recomendação que esse anúncio seja feito preferencialmente, após o Carnaval. É que, após o Carnaval as atenções se voltam intensificadas para as eleições. E a ideia de anunciar a candidatura é pressionada pela necessidade de trazer apoios importantes para o projeto antes que outros, mas, por outro lado, a comunicação com grande antecedência pode tornar o candidato alvo de ataques de concorrentes, desnecessariamente.

O prazo de filiação é de até 6 meses antes da eleição, ou seja, início de abril e as convenções partidárias que escolherão os candidatos serão realizadas no período entre 20 de julho e 5 de agosto e, somente depois disso, os nomes dos candidatos podem ser registrados na Justiça Eleitoral pelos partidos, que tem até o dia 15 de agosto para oficializar.

É muito comum candidatos deixarem para se filiar nos últimos dias. Não há por que ter pressa para tomar e anunciar uma decisão que pode mudar os rumos da sua vida. Trabalhar a imagem, sim, o quanto antes. O anúncio do partido, a filiação podem esperar. No mais, é fazer o que todos os pretensos candidatos fazem, ser participativo, marcar presença em eventos ou locais relacionados ao público que deseja atingir.

A força da máquina pública é gigante

Uma pesquisa, divulgada recentemente, feita no estado de São Paulo, pela APPC Consultoria e Pesquisa, revela que quase 50% dos eleitores paulistas estão muito interessados nas eleições de 2024, algo que evidentemente gostei de tomar conhecimento. A decisão de efetivamente participar das eleições ou simplesmente votar é um fenômeno complexo, que envolve causas múltiplas e não vou aqui creditar apenas as questões ideológicas porque ainda não nos libertamos das influências de familiares, religiosos, amigos e patrões para votarmos inteiramente sob nossa própria inspiração.

Algumas dificuldades serão enfrentadas pelos partidos, que se agruparam em federações no ano de 2022. (uma variante mais elaborada das antigas coligações). Para a próxima eleição, esses partidos terão que lançar candidaturas conjuntas, para prefeito e vereadores, ou seja, a federação tem que ser mantida por pelo menos quatro anos, em que pese a cultura da baixa duração dos casamentos políticos.

A baixa representatividade feminina na política brasileira ainda é um fato constrangedor. Verificando as estatísticas publicadas pelo Tribunal Superior Eleitoral, sobre os números das últimas eleições municipais de 2020, é difícil explicar como pôde, um contingente feminino de 52% do eleitorado ter elegido 4.750 (87.9%) prefeitos e apenas 651 prefeitas (12%); 48.265 vereadores (84%) e apenas 9.196 (16%) vereadoras.

Esperamos que haja mudança significativa no número de mulheres eleitas em Mato Grosso no próximo ano, porque no ano de 2020 apenas 15 municípios elegeram prefeitas e na Capital, dos 25 vereadores eleitos, há apenas duas mulheres. Ouros 54 prefeitos de MT já foram reeleitos e estão fora da disputa, mas nas próximas eleições, com o poder da máquina pública ainda nas mãos terão chances de interferirem no processo e fazerem seus sucessores, controlando a agenda e a mídia a favor dos candidatos do grupo, o que quebra a paridade, torna o pleito desigual, mas é fato corriqueiro nas eleições brasileiras. 

Há tempos eu li o caso de um prefeito de Itabaiana, cujo filho candidatou-se a deputado estadual no estado de Sergipe. A propaganda eleitoral do candidato a deputado adotou a cor azul em todas as peças publicitárias e ficou conhecida como “a onda azul”. E o que fez o pai prefeito para empurrar a campanha do filho? Pintou todos os prédios públicos, praças e meio-fio da cidade de azul, balões azuis subiam aos céus nas inaugurações públicas e a cor foi adotada também no site e nas mídias sociais do município. O Ministério público, atento, identificou que o então prefeito utilizou a cor para deliberadamente tornar desigual a disputa e promover a campanha do filho e denunciou ambos.

Não adiantou a defesa alegar que o azul era cor do uniforme do time da cidade, do brasão… Azul é uma cor linda, lamentável que a corrente azul que atravessou a cidade tenha sido bancada com recursos públicos. Aplausos para o Tribunal Superior Eleitoral, que cassou o deputado eleito com o protagonismo descarado do pai, houve retotalização dos votos para a Assembleia Legislativa de Sergipe, que teve sua configuração alterada. O prefeito concluiu o mandato e ainda elegeu o sucessor.

Mais retrocessos do que avanços na minirreforma eleitoral

Sob o pretexto de reduzir os gastos das campanhas eleitorais e de que a nova lei possa valer já para as eleições municipais de 2024, a Câmara dos Deputados aprovou de afogadilho, praticamente sem debate algum com a sociedade a minirreforma eleitoral. Foram 367 votos favoráveis e apenas 86 votos contrários.

A esperança de muitos críticos da minirreforma é que ao ser analisada no Senado Federal, uma Corte com tradicional função revisora, certos desvios e flexibilização sejam corrigidos, na formulação de um novo relatório. O ex-juiz Márlon Reis, idealizador e relator da Lei Ficha Limpa, em vigor desde 2012, filiado ao PSB diz que: “É muito importante que a população cobre o Senado. Não é possível que essa atrocidade passe lá”.

A Associação Nacional dos Membros do Público – CONAMP emitiu nota manifestando preocupação e contrariedade com a aprovação de muitos pontos que representam graves retrocessos na legislação eleitoral, como o enfraquecimento no combate à fraude na cota de gênero, imposição de sanções mais brandas, exclusão das candidaturas negras dos critérios de distribuição de recursos do Fundo Partidário e do tempo no horário eleitoral gratuito, pela concessão de anistia total aos partidos que não destinaram os valores mínimos para as candidaturas negras, bem como aqueles que não repassaram o acréscimo ao mínimo de 30% para as candidaturas femininas nas eleições passadas.

As críticas recaem no reconhecimento unânime que o texto alivia punições a partidos e políticos que cometerem irregularidades e atenua os desvios da lei de cota para negros e mulheres. Uma alteração considerada retrocesso prevê que os recursos destinados às campanhas femininas poderão financiar despesas em comum com candidatos homens, desde que haja benefício (?) para a mulher, ou seja, a destinação de recursos a candidaturas femininas ficará condicionada a autonomia e o interesse do partido, o que abre brechas para reduzir os repasses às candidaturas femininas.

A minirreforma afrouxou geral ao dispensar a apresentação de certidões judiciais de “nada consta” pelos candidatos, documentos que revelam a lista de processos que o político responde nos meios judiciais sob o argumento que não faz sentido perder tempo e recurso em certidões judiciais para apresentar ao próprio Poder Judiciário. Reduziu o tempo que o político ficava afastado da vida pública ao ser condenado pela lei da Ficha Limpa; o período de inelegibilidade. Os oito anos agora, começa a contar a partir do momento da perda do mandato. O ex-juiz Márlon Reis, ao analisar as interferências na lei idealizada por ele desabafou: “Eu diria que foi a maior contribuição para a participação política do crime organizado que já se ousou tentar até o momento no Brasil”.

Candidatos que usavam recursos ilegais nas campanhas, respondiam a processos, muitos terminaram em cassação, sob a minirreforma, a cassação será substituída pelo pagamento de multa de até R$ 150 mil. A boca de urna que é ilegal, mas sempre existiu tête-à-tête e a luz do dia, passou a ser oficializada na forma virtual, está liberada a propaganda na internet no dia da eleição.

Criticada, porém aprovada por uma maioria inquestionável, a lei, se sancionada pelo presidente até 05 de outubro, nos possibilitará a vivenciar mais retrocessos do que avanços significativos. Não somos ingênuos a ponto de acreditar que o afogadilho para aprovar a Lei deu-se porque os parlamentares brasileiros estão preocupadíssimos com o custo das campanhas.

Com efeito, no bojo das referidas propostas legislativas há claro enfraquecimento no combate à fraude na cota de gênero, exigindo-se requisitos cumulativos para o reconhecimento do ilícito, bem como imposição de sanções mais brandas.

Exclui as candidaturas negras dos critérios de distribuição de recursos do Fundo Partidário e do tempo no horário eleitoral gratuito. Concede anistia total aos partidos que não destinaram os valores mínimos em razão das candidaturas negras, bem como àqueles que não repassaram o acréscimo proporcional ao mínimo de 30% para as candidaturas femininas nas eleições 2022.

Reserva para candidaturas negras apenas 20% dos recursos públicos para as campanhas, independentemente da porcentagem de candidaturas negras do partido, bem como deixa a critério dos partidos a aplicação deste recurso público nas circunscrições que melhor atendam as diretrizes e estratégias partidárias. Torna mais branda a sanção pela captação ilícita de sufrágio, ou seja, pela compra de votos, possibilitando a sanção do ilícito apenas com a pena multa sem a cassação do registro ou diploma do candidato, conforme a gravidade do caso.

Enfraquece diversos pontos de transparência e controle dos recursos públicos repassados aos partidos nas prestações de contas anual e de campanha, bem como dificulta a imposição de sanções aos partidos que cometem irregularidades. Reduz a contagem dos prazos de inelegibilidade previstos na Lei na Ficha Limpa, inclusive para os condenados por crimes graves e condenados por improbidade administrativa.

Ademais, restringe sensivelmente a possibilidade de incidência da inelegibilidade por improbidade administrativa e nas hipóteses de rejeição de contas de agentes públicos. Assim, sem prejuízo da necessidade de ajustes pontuais na legislação eleitoral.