A dificuldade de criar consensos e a estabilidade de pequenos acordos

O tempo não precisa ser perdido alimentando ressentimentos. O segredo é manter os pés em movimento até que a paisagem mude, porque nenhum sentimento ou posicionamento é definitivo. Li um poema do poeta austríaco Rainer Maria Rilke que diz que nenhum sentimento que temos é permanente. Nem o pavor paralisante de uma derrota nem a euforia de uma vitória. Tudo passa. A alegria e a tristeza e tudo o que há entre elas. Cada sofrimento, cada luta logo se transforma, por isso nenhuma experiência isolada, nenhum posicionamento deve definir a sua vida inteira. “Deixe tudo acontecer com você: a beleza, o terror, a dor, a surpresa. Apenas continue.”

A  vida implica convivência, envolve sentimentos e sofrimentos. A vida pede sentido. A vida é finita.

Embora não exista uma sociedade plenamente consensual, o esforço para criar consenso não significa eliminar o antagonismo, tão necessário para nosso crescimento pessoal, basta ter compromisso com a escuta de contextos adversos. Porém, temos vivenciado que o diálogo contemporâneo tem sido tensionado por conversas que não buscam o reconhecimento das diferenças, a convivência pacífica com o desacordo, busca sim, mobilizar ressentimentos, medos e desconfianças.

Veremos que os desafios do ano novo não são novos; estamos há quase 10 anos mergulhados em dissenso, promovendo o esvaziamento do convívio público com muitas pessoas, envoltos em diálogos assimétricos, onde a maioria fala a partir de seus próprios conceitos e privilégios, enquanto deveríamos reconhecer a legitimidade do outro como interlocutor, mesmo que seja de ideais que nos desafiam.

Muito de nossos pensamentos e emoções não são baseados e nem sequer reflexos de fatos que estão acontecendo, são mais, ruídos de crenças e histerias.

Falamos em apostar mais no diálogo, porque o consenso sempre causou desconfiança e desconforto aos estudiosos, como a belga Chantal Mouffe, uma crítica, que acredita que busca cega pelo consenso pode calar a diversidade, alongar a conformidade e para ela a pluralidade de ideias deve estar acima da perseguição de um estilo de vida consensual. Sem consenso, porém abraçando cada movimento, cada tempo com harmonia, valorizando o diálogo, com respeito a expressão da vontade do outro. Se não alcançamos o consenso, que saibamos viver com a estabilidade de pequenos acordos.

Enquanto o consenso tem caráter exigente e distante, quase uma ficção, o diálogo possível não precisa levar a concordância, mas a possibilidade de coexistência com o conflito, com o desacordo e com as diferenças.

Em 2026, ano de eleições gerais vozes dissonantes vão ecoar por toda parte do país para falar sobre política. Lembremos que a política é mantida pela ação e palavra de pessoas que pensam diferentes, comungam crenças diferentes, o que torna o diálogo mais importante do que os acordos. O dialogo sem ruído, pressa e julgamento ganha força por promover consensos temporários, revisáveis, indispensáveis numa campanha política e na vida social, onde temos falado muito e escutado pouco e nos fechado em certezas próprias, para evitar desilusão. Novamente, o poeta: “Deixe tudo acontecer com você: a beleza, o terror.  Apenas continue.” E as desilusões vão ficando para trás.

Ainda que não nos reconheçamos como partes de um projeto de vida comum, que tenhamos disposição para conviver com as diferenças de gênero, raça, cultura, religião e modo de vida, porque as diferenças se não são absorvidas podem ser retratadas, não como parte da pluralidade e sim, como ameaças, que abrem caminhos para discursos de ódio, posições autoritárias e idolatria.

O desafio é grande, os espaços digitais, que são ferramentas essenciais para construir e reconstruir vínculos se tornaram, muitas vezes, arenas de debates irresponsáveis e normalização do divisionismo.  Se não há como evitar as mídias sociais, passemos a utiliza-las em convivência respeitosa.