Faço o que é certo, aconteça o que acontecer

O sociólogo alemão, Max Weber, fez uma conferência em 1919 para demonstrar que muitas pessoas se dedicam a política por convicção e senso de responsabilidade para com a sociedade. A ideia central de Weber foi externar suas observações sobre a política exercida por vocação, por um chamamento interior, onde o político age segundo seus princípios morais e ideais, vive para a política, para o bem comum, sem, contudo, ignorar que o poder e bem comum entram em tensão frequentemente.

O político em Weber é responsável pelo que suas decisões causam. É a ética da responsabilidade. O cenário político do parlamento estadual está repleto de discussões necessárias para o bem comum; estão em pauta; a saúde mental, feminicídio, qualidade dos serviços de distribuição de energia, déficit habitacional, desigualdade social & riqueza. O povo está vindo, curioso, querendo conhecer seus direitos quanto a qualidade dos serviços distribuídos; o povo está vindo furioso, temendo ser despejado, cobrando políticas habitacionais humanizadas, políticas públicas para controlar a violência nas escolas, o avanço do feminicídio, o descontrole da saúde mental, que dias atrás, numa audiência foi demostrado a conexão entre o número de acidentes de trânsito e o descontrole emocional, causado pela negligência com a saúde mental dos motoristas. O parlamento estadual está com a agenda voltada para a ressonância das dores da sociedade.

É difícil estabelecer sentimento de compreensão diante das desigualdades sociais em um estado considerado tão rico. A política ideal de acordo com o estoicismo é aquela que respeita a razão, a justiça e a fraternidade. Marco Aurélio, imperador romano e filosofo estoico escreveu em seu livro chamado Meditações: “O que não é bom para a colmeia não é bom para a abelha.” A filosofia antiga e a sociologia moderna convergem quando expressam que a ação política deve ser orientada pela ética e não por paixões e que servir ao bem comum exige caráter e resistência moral diante das seguidas tentações do poder.

A política é para servir. Nenhuma dor, nenhuma invasão de área, nenhum feminicídio deve ser invisibilizado. Então, o parlamento pode se abrir ainda mais. De modo que, os temas que incomodam a sociedade, embora alguns tenham alto custo político, sejam endossados pela Casa Legislativa, mais do que se gasta tempo com discursos fragmentados que só confirmam o preconceito de muitos contra os desvalidos que precisam de políticas públicas. Não digo isso como uma crítica a políticos ou partidos específicos.

Faço parte do grupo de pessoas que acredita que a política é uma atividade nobre na qual as pessoas, em sua maioria, dão o seu melhor, muitas vezes com grande custo pessoal. Portanto, é apenas uma observação sobre esse tempo político estranho, proximidade de eleições, que nos afoga em desinformação e conteúdo de baixíssima qualidade no discurso e nas redes sociais.

Isso não é exclusivo da política. Falo de política, porque a vivo intensamente como cientista social. A diferença com a política é, que através dela decidimos quem controla o Estado, que é um dos principais instrumentos para melhorarmos nossas vidas juntos. Por isso, é especialmente importante que a política faça sentido e pareça uma atividade normal vista de fora, preferencialmente uma atividade exercida por vocação. A vida é futurista e acelerada, tudo muda ao nosso redor, não temos tempo para sermos nostálgicos.

Inclinação de ser correto

A moralidade não deveria ser uma questão de obediência às regras. O homem que não rouba porque tem as mãos atadas atrás das costas por medo de cair em tentação e ser pego, não é um homem moral. É claro que a escolha moral não ocorre em um vácuo, do nada, ela ocorre em um contexto específico, onde as ações saudáveis ​​vem acompanhadas de motivações igualmente saudáveis.

Muitos filósofos procuram explicar por que não podemos evitar ser moral. A moralidade, além de ser um conjunto de compromissos ou escolhas, é de fato, a expressão da nossa relação fundamental e inescapável com o mundo, onde nós existimos como seres que se criam juntos e o fato de nos comunicarmos um com o outro, compartilharmos o mesmo mundo, nos coloca face-a-face em pelo menos, aparente contexto.

É o olhar para o rosto do outro que nos recorda de nossas obrigações morais. O rosto do outro é que nos interpela e desperta para a vergonha, para a culpa. Esse conceito lindo do acesso ao rosto é do filósofo francês Lévinas.

Nos tempos pós-modernos, os impulsos morais precisam ser domesticados, embora a maioria dos homens saiba lidar responsavelmente com as consequências produzidas por suas ações. Agir moralmente não significa agir contra a inclinação natural; é o agir inclinado pelo cultivo das virtudes acumuladas.

Isso representa uma aceitação do que mundo moderno tem procurado escapar: da responsabilidade. A responsabilidade moral é o oposto da obrigação de ser moral, o que baseia-se no medo da punição ou em interesses particulares. A responsabilidade vai além do que um homem pode ou não fazer pelo outro. É uma relação de cuidado para com a necessidade do outro.

A moralidade deveria existir misteriosa, inexplicável e incapaz de ser reduzida a um mero seguimento de regras que indicam o que e quando fazer as coisas, onde começam e terminam os deveres, o que naturalmente produz uma limitação na responsabilidade espontânea. Essa concepção frágil de moralidade conduzida e vigiada presta-se para o estado assumir de vez o papel de educador moral, executor e agente fiscalizador para que as regras não sejam quebradas.

O Estado torna-se o defensor da moral e da razão, o que facilita justificar suas ambições infinitas. Porém, nos estudos sobre a moral contemporânea, grande parte das teses promovem o desmascaramento dessa utilização do poder do Estado como sendo necessário.

Mas, por fim, não há uma sociedade perfeita, os indivíduos não são perfeitos, a moralidade é muitas vezes, contraditória e a incerteza sempre nos acompanhará. Mas vale agir correto, mesmo que seja para acalmar a ansiedade moral e existencial e para obter respostas às indagações diante de quadros incompreensíveis do comportamento humano.

A moralidade da qual falamos é o que todo ser racional deveria escolher. Porém, como muitas outras virtudes, quanto mais dela se necessita mais dificilmente está disponível.