Manipulação do sagrado

” Não manda o seu filho para a faculdade. Vai vender picolé na garagem.

Ah, mas eu não criei meu filho para isso.

Cê criou seu filho, para quê?

Para ele ir para o inferno, pô?

Criou sua filha para virar uma vagabunda ou para ser uma mulher santa, digna, de família e cheia de Deus?

Aí ela tem um diploma e é rodada, é doida”.

Transcrição do vídeo com a fala de André Valadão, líder religioso da Igreja Batista Lagoinha, incentivando pais a não mandarem seus filhos para a faculdade, segundo o pastor, um lugar de trevas.

Duramente criticado pela pregação o pastor foi para as mídias sociais bater boca com internautas, ora defendendo sua teologia do domínio e seu discurso fundamentalista, ora explicando-se, tentando reparar a ignorância pronunciada. Tentando remediar, o pastor declarou que tudo que ele fala em púlpito é com compromisso com a palavra de Deus e que não está isento de errar e que suas falas são distorcidas por aproveitadores, que ele não é contra jovens frequentarem a faculdade, e nem contra cristãos na ciência. Contudo, o vídeo está aí para quem tiver estômago para assistir, as palavras ditas em som bem alto, simples e diretas não foram minimamente distorcidas por quem o criticou.

A manipulação emocional é uma tática de persuasão antiga, onde indivíduos podem usar ensinamentos religiosos para provocar emoções fortes nos outros, como culpa, medo da desaprovação divina e de punição ou vergonha, a fim de controlar o comportamento ou as tomadas de decisões dos fiéis vulneráveis. Outra intenção explícita é a imposição como líder religioso autoritário e controlador, que quer explorar sua autoridade para influenciar as ações e escolhas dos seguidores, até para o próprio benefício, ao se pretender ter fiéis que não frequentam universidades, que não tem discernimento para perceber e questionar o abuso, o extremismo, a manipulação. Com fiéis cegos, o dízimo não mingua, os estudos nos Estados Unidos do pastor, são garantidos.

Porque, ele mesmo, foi estudar nos Estados Unidos, sua formação religiosa foi toda moldada em instituições americanas, provavelmente custeada pela Igreja, um negócio da família Valadão desde 1957. Essa não foi a primeira tampouco a segunda vez que Valadão se envolve em polêmica com suas pregações manipuladoras. Já atacou a Igreja Adventista, dizendo que a considera não uma igreja, mas uma seita.

Atacou as pessoas LGBTQIA+ afirmando que Deus lhe disse: “ já meti esse arco-íris aí, se pudesse mataria todas e começaria tudo de novo” e incitou seu público, a ‘ir para cima’ dessa população.

O que o manipulador da fé faz é exatamente isso, tenta mudar as crenças e desejos das pessoas (todos os pais almejam mandar seus filhos para a universidade), oferecendo-lhe razões ruins, disfarçadas de argumentos bons, ou argumentos falhos e falsos disfarçados de argumentos robustos e sólidos, mas ele, o manipulador sabe que suas intenções são ruins e aposta que seus argumentos falhos não serão percebidos.

Enxergamos aquilo que reforça nossas convicções

Cidadãos querem ser candidatos para reforçarem suas convicções políticas, o
pregador aborda o fiel baseado em suas convicções religiosas, a família educa de
acordo com suas convicções morais. A vida porém, é mais saudável num espaço de
múltiplas visões e conflitos.
Temos testemunhado a ascensão do radicalismo por todos os lados e a raiva e
polarização são as forças vitais de qualquer movimento radical. Estou sentindo as
possibilidades de diálogo cada vez mais reduzidas, a capacidade de entendimento cada
vez menos praticada, já nem mesmo tentada. Nos diálogos já não se tenta convencer,
apenas marcar divergência.
O tom em que esses ideais são proferidos me irrita infinitamente. Onde quer que
estejamos estamos construindo muros de ideais, ideologias, intolerância e não
estamos bem intencionados quando propomos diálogo. Diálogo, em tese seria
submeter minhas próprias ideias à sua experiência, sem leva-la em consideração.
Sempre queremos ser vistos como certos, sempre certos. Mas como viver a certeza
diante do pluralismo, que mais remete a tolerância e ao encorajamento de lançar-se à
perspectivas conflitantes? Será necessário aflorar muito mais do que um ajuste
ideológico para cultivarmos a coragem necessária para não erguermos cercas entre o
que pensamos e o que pensa o outro. Precisamos educar nossos corações para o
convício e tolerância.
A sociedade está marcada pela ansiedade, reina uma inabilidade de experimentar
profundamente o que nos chega, o que importa é poder descrever aos demais o que
se está fazendo, reforçar as convicções exibicionistas. Entre nossas exibições e dos
outros, há um contexto a ser explorado, diferenças econômicas e sociais gritantes,
cenários e expressões que são reflexos das realidades individuais.
É fundamental notar que nem toda realidade compartilhada é objetiva. A subjetividade
eleva os níveis da realidade que revelamos. As convicções são geradas e reforçadas
nem sempre com base em valores do conhecimento, mas permeadas pela vaidade e
pelo desmerecimento do que é o outro. Uma das razões, pelas quais se atribui
relevância e valores a objetos, como casas, roupas e carros. Estes, passam a ter
importância porque reforçam e refletem parte do que somos; a superficialidade.
Objetos reforçam convicções. Objetos dão significados a realidade. E assim, o que
temos e a forma como percebemos as coisas em nossas mentes, se tornam nossas
verdades. Sem dar ouvidos, sem perceber o outro, sem adentrar no mundo do outro,
sem sorver conhecimento numa fonte diferente. Não ser capaz de conviver com
realidade, ideais e ideologias diferentes é o que tem nos tornado arredios, arrogantes
ou ignorantes.
Baseada em suas convicções esdrúxulas, ignorando a relevância da cultura e da
leitura, a Secretária de Educação do Estado de Rondônia listou nada menos que 43
obras clássicas da literatura brasileira e as baniu das escolas públicas, por considerar,
segundo o estreitamento de sua visão sobre a educação, que os livros contém
conteúdos inadequados. Entre os autores estão Mário de Andrade, Rubem Fonseca e
Machado de Assis. Partiu ela da premissa egoísta; se eu não gosto, ninguém aqui vai
ler.

Classifico como absurda essa ideia de que só existe uma verdade, e esta é a minha.
Sobre isso o filósofo francês, Foucault disse que as verdades nunca são livres, são
sempre manipuladas e vão gerar formas de comportamentos diversos e
constrangimentos.
Todos os assuntos estão polarizados. Ou somos contra ou a favor, ou somos aliados
ou adversários ferrenhos. Assim é quando discutimos as questões climáticas, religião,
futebol, corrupção, os rumos da economia, indicações ao Oscar e a política segue esta
vertente perigosa.
Por mais que sejamos ideológicos, os opostos não precisam se odiar, tampouco
menosprezar quem tenta fazer a paz reinar entre eles. Considero conviver um
exercício de observação e aprendizado fabuloso. A troca, sem intervenção, me
completa. Valores e princípios diferentes agregam sabor a existência. Acho que nasci
com a intuição para buscar a sabedoria que está no meio.