É possível adiar o fim do mundo

Ideias para adiar o fim do mundo” é o título de uma palestra do fabuloso ativista indígena Ailton Krenak. Claro que esse título é uma provocação mas há muito de uma ideia de apocalipse no ar que respiramos atualmente. E a proposta de Krenak para adiar o fim do mundo é exatamente para que possamos ter tempo de contar ou viver mais uma história. É o tempo que precisamos para aprender lutar pela sobrevivência com respeito, com reconhecimento às lutas dos outros, para ampliarmos nossa cultura e vivermos uma relação amorosa com os nossos iguais, com todos e com a natureza.

Prestar atenção no que ele fala é mais urgente do que nunca!

A ideia central da palestra, que tornou-se um livro, lançado em 2019 é alertar para o que muitos já perceberam, a autodestruição da vida humana nesse lindo planeta azul. As palavras, quando otimista de Krenak falam de um agir urgente sobre um mundo que agoniza e propõe uma virada de perspectiva para iniciarmos, em coletividade, um processo de transformação social, cultural, ambiental para salvarmos não apenas as populações originárias ameaçadas em todo mundo, como a dele próprio. Ele fala sobre todos nós, que somos abraçados por este espaço mágico chamado Terra, mas alerta que não somos os únicos seres que o planeta abraça.

Ele conta sobre um pesquisador europeu que foi aos Estados Unidos visitar um território indígena. Ele havia pedido que alguém da aldeia intermediasse o encontro dele com uma anciã que ele queria entrevistar. Quando foi encontrá-la, a anciã estava imóvel diante de uma rocha. O pesquisador esperou bastante até que finalmente perguntou: “Ela não vai conversar comigo, não?” o interlocutor respondeu: “Vamos esperar, ela está conversando com a irmã dela”. “Mas é uma pedra”, disse o pesquisador e o facilitador da conversa disse: “Qual é o problema, é a irmã dela!

Krenak nos tira a sensação da qual sempre nos gabamos, de sermos os donos do planeta e torce para que o casulo humano imploda  e se abra para uma visão de vida não limitada. Krenak encantou Lisboa com essa fala, proferida no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, onde entre uma metáfora e outra falou das pequenas constelações de pessoas felizes, que ainda experimentam o simples prazer de estarem vivos, cantando, dançando e fazendo chover, gerando, sem querer, grande intolerância na humanidade que ele chama de zumbi, aqueles que não toleram tamanha leveza, felicidade e fruição.

Ao longo do texto ele se mostra convencido que precisamos partir para a construção de uma nova humanidade, porque, do jeito que as desigualdades e injustiças se instalam, vivemos, o que ele chama de uma condenação antecipada do fim do mundo. E uma das ideia para adiar o fim do mundo é, diante da certeza que estamos em queda como civilização, aproveitar e ressignificar a queda e recomeçar a partir dela. É indispensável que reflitamos sobre o começo, o fim e com sorte, que tenhamos algum tipo de recomeço.

A crise da qual Krenak fala refere-se à nossa humanidade, a nossa experiência como seres humanos.  O mundo está atravessando muitas crises; terremotos, epidemias, a incontida violência contra mulheres e meninas, crise climática, conflitos em larga escala, invasões, massacres e guerras, além da fome que traz em seu bojo crises humanitárias devastadoras.

É muito importante viver a experiência de circular pelo mundo, de poder contar uns com os outros, promover mudanças na forma de vida, sem jamais recorrer a práticas desumanas contra qualquer outro ser. O que Krenak faz em suas palestras é questionar qual o mundo estamos deixando para as futuras gerações e compartilhar a idéia de um outro mundo possível.

Para quem não conhece Ailton Krenak, ele é um líder indígena mineiro, ativista do movimento socioambiental e da defesa dos direitos indígenas. Jornalista, escritor, que desde a década de 1980, dedica-se a articulação do movimento dos povos indígenas. Discursou no Congresso Nacional, durante as discussões sobre os direitos indígenas na Assembleia Constituinte. Palestrante, reconhecido nacional e internacionalmente, foi o grande sucesso da Festa Literária Internacional de Parati – FLIP 2019, quando lançou o livro “Ideias para adiar o fim do mundo”.

O sacrifício pelo livre pensar de Giordano Bruno

Revi o filme sobre o filósofo Italiano Giordano Bruno, que havia assistido há certo tempo na sala de aula, quando cursava Ciências Sociais.
Filipe Bruno nasceu em Nola, Itália em 1548 e recebeu o nome de Giordano quando ingressou no convento São Domingos, onde foi ordenado sacerdote.
Inquieto e independente, teve problemas com seus superiores desde o período de estudante e até processo por insubordinação foi instaurado contra ele. Mas, por outro lado, seu talento intelectual despertou a admiração de muitos.
Criticava o pensamento intelectual da época e teve que fugir de Nápoles para Roma e depois para a Suíça, onde estudou o pensamento teológico protestante, que ao final, considerou tão restritivo quanto o dos católicos.
Viveu também na França, conquistou a simpatia de Henrique III. Viajou para a Inglaterra, mas não integrou-se com os docentes de Oxford, tampouco com os Luteranos na Alemanha.
Foi denunciado ao Santo Ofício por seu interesse pela magia.
Bruno era um visionário, alimentava sua filosofia com a teoria de que o universo era infinito, com vida inteligente em outros planetas. Bruno também discorria sobre os poderes extraordinários de seres humanos e ainda, ridicularizava alguns milagres de Cristo e até a virgindade de Maria.
O filme mostra todo o processo e a execução do filósofo, que foi torturado durante oito anos, até ser condenado à morte na fogueira, em 1600. Morreu sem negar seus pontos de vista filosóficos, suas teorias contrárias aos dogmas da Igreja Católica.

A Filosofia de Giordano Bruno
Bruno surgiu num momento de intolerância religiosa e poderia ser considerado um mago-filósofo, que mantinha-se dentro dos limites da ortodoxia cristã. Seu pensamento porém, conduzia à magia sob o pretexto de que é necessário aceitar o diferente, com a riqueza de seus pontos de vista. Uma mistura de filosofia e alquimia.
O pensamento de Giordano Bruno era holistico ( teoria segundo a qual, o homem é um todo indivisível, que só pode ser explicado o físico e psíquico conjuntamente), naturalista e espiritualista.