o alimento do ódio, da violência e da vingança

Voltaire, o mais expressivo representante do iluminismo francês, escreveu em O Tratado sobre a Tolerância, 1763: “Digo-vos que é preciso olhar todos os homens como nossos irmãos. Como! meu irmão, o turco? meu irmão, o chinês? o Judeu? o siamês? – Sim, sem dúvida. Não somos todos filhos do mesmo pai e criaturas do mesmo Deus?

A ordem está em colapso e está sendo substituída pelo caos. Isto tem acontecido nos últimos dez anos. A pandemia fez parte disso, a invasão russa da Ucrânia faz parte disso, o que está acontecendo agora em Israel e na Palestina faz parte disso. “Se não reconstruirmos a ordem, a situação só piorará. Ela se espalhará por todo o mundo e pode até levar à Terceira Guerra Mundial. E com o tipo de armas e tecnologia atuais disponível, poderia levar à aniquilação da própria humanidade”, disse o escritor, historiador e pensador israelense, Yuval Harari, ao dar entrevista sobre o que considera ter sido o “11 de setembro de Israel”: o ataque terrorista surpresa do grupo palestino Hamas contra o estado de Israel.

Harari, se tornou um dos mais importantes e lidos pensadores dos últimos anos. Já vendeu mais de 45 milhões de livros em todo o mundo, manifestou-se veementemente contra o ataque terrorista do grupo palestino Hamas, sem, no entanto, aliviar Israel de culpa: “Há muito que se criticar sobre a forma como Israel abandonou as tentativas de fazer a paz com os palestinos, e manteve milhões de palestinos sob ocupação durante décadas, mas isso não justifica as atrocidades cometidas pelo Hamas e o mais sensato seria impor sanções e exigir a libertação de reféns e o desarmamento desse braço armado do terrorismo”. Segundo o autor, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu é um primeiro-ministro incompetente, que construiu sua carreira dividindo a nação contra si mesma.

O presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, pronunciou dizendo que as políticas e ações do Hamas, que controla a Faixa de Gaza, não representam o povo palestino, e que são as políticas, programas e decisões da Organização para a Libertação da Palestina que representam legitimamente o povo palestino. Disse também que o ataque do Hamas deixou a população palestina profundamente vulnerável às retaliações.

As guerras em curso nos dão provas que genocídios estão acontecendo debaixo dos nossos olhos, vidrados na superficialidade das coisas e das ideias. A humanidade, deve despertar para compreender que a violência não pode ser justificada, que todas as vidas merecem igualmente serem protegidas e colocadas no mesmo patamar de importância, o árabe, o judeu, o ucraniano e tantos outros que estão vivendo sob ameaças de bombardeios, de corte de água, luz, comida e sem ajuda humanitária.

O fanatismo religioso, não é obviamente o único componente do ataque terrorista, mas é incômodo saber que o fanatismo religioso opera numa lógica onde o foco está na vida em outro mundo, portanto não importa os danos e sofrimentos que causem aos outros nesse plano terrestre.

No velório de uma criança palestina morta pelo bombardeio de Israel, havia uma faixa: “É com grande orgulho que velamos nossa filha…que foi martirizada em nome da nossa religião”. O Hamas plantou cenas de ódio e de dor terrível nas mentes de milhares de pessoas, que terão, desde então, dificuldade para reiniciar um processo de paz.

O renomado intelectual judeu Noam Chomsky, reconhecido por sua atuação em questões de geopolítica e direitos humanos, fez declarações fortes a respeito da situação atual na Palestina. Criticou as ações de Israel e denunciou que Tel Aviv comanda uma limpeza étnica contra as populações palestinas. “A ousadia das ações israelenses é surpreendente. Fazem o que querem, sabendo que os EUA os apoiam. Não se trata de um esforço para acomodar a população palestina, trata-se simplesmente de livrar-se deles”.

O conflito do oriente médio envolve situações complexas e todos os cidadãos e países acabam sendo, ao mesmo tempo, perpetradores e vítimas. O Papa Francisco disse que o populismo, o terrorismo e o extremismo não ajudam a chegar a uma solução para o conflito entre israelenses e palestinos, mas alimentam o ódio, a violência e a vingança.

Uma fração das histórias de guerras

A enviada especial da Agência das Nações Unidas para Refugiados, Angelina Jolie, visitou dias atrás o Iêmen em uma tentativa de chamar a atenção para as consequências catastróficas do conflito que dura sete anos. Em conversas com famílias iemenitas, incluindo famílias deslocadas e refugiados, Jolie ouviu sobre suas perdas e como o conflito destruiu suas vidas. São pessoas que estão vivendo em abrigos, o conflito fez com que perdessem suas casas, entes queridos, os meios de subsistência e arruinou o futuro de seus filhos.

Jolie é a enviada especial para refugiados desde 2011. O trabalho da atriz tem sido dar voz aos refugiados e em audiência com autoridades locais, pediu que todas as partes envolvidas na guerra evitem atingir civis e garantam acesso humanitário desimpedido a todas as pessoas necessitadas e passagem segura para civis para fugir de áreas de conflito. Com autoridade de quem fala pela ONU, o apelo da atriz pode resultar em demonstração de compaixão e solidariedade internacional.

Viver em um campo de refugiados impacta a vida das pessoas, dificulta muito a vida das mulheres e crianças, que são a maioria da população deslocada. Jolie passou o dia internacional da Mulher entre os refugiados e desabafou ao deixar o país, três dias depois dizendo: “o nível de sofrimento humano aqui é inimaginável. A cada dia que o conflito brutal do Iêmen continua, mais e mais vidas inocentes são perdidas e mais pessoas continuarão a sofrer. Vivemos em um mundo onde o sofrimento e o horror dominam as manchetes, que precisa urgentemente de uma solução rápida e pacífica para este conflito e para outras pessoas deslocadas, quem e onde quer que estejam no mundo.”

Em todo o mundo, o número de pessoas deslocadas, a maioria devido à guerra, atingiu um recorde. Em outras palavras, as mortes em batalha podem ter diminuído, mas o sofrimento devido ao conflito não. São mais de 80 milhões de pessoas deslocadas em todo o mundo, A guerra da Síria causou mais de 11 milhões de casos de migração forçada, dos quais 5,6 milhões de sírios são hoje considerados refugiados. A República Democrática do Congo tem o maior número de pessoas deslocadas no continente africano, com quase 6 milhões de pessoas forçadas a deixar suas casas por causa dos vários conflitos  e cerca de 4 milhões de pessoas podem fugir da Ucrânia.

As mortes em combate é uma fração da história das guerras. Não se dimensiona o horror de uma guerra pelo número de mortes que ela causa. Há conflitos que matam principalmente mulheres e crianças pequenas, devido à fome e doenças evitáveis​, há combates que não acarretam milhares de mortes, mas afastam milhões de pessoas de suas casas e o êxodo de refugiados causa devastação humanitária, com crianças desnutridas morrendo de fome e sede.

Uma entidade que monitora conflitos em todo o mundo elaborou no começo deste ano uma lista de dez conflitos internacionais que precisam receber atenção internacional. Entre os listados, estão Iêmen, Etiópia, Sudão e Mianmar, Ucrânia, etc… A `Crisis Group` colocou a Ucrânia no topo da lista, por entender que há riscos específicos na Ucrânia que fazem desse conflito uma ameaça à segurança global, mesmo que os números de mortos e pessoas em grave situação humanitária sejam menores do que em outras partes do mundo, que é a possibilidade (não assumida pelas autoridades) de ataques nucleares.

Com quase vinte anos de progresso nos campos econômicos e sociais, a Ucrânia pode ter um terço da população vivendo abaixo da linha da pobreza e 62% poderão cair na pobreza, segundo dados do PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento). A população fragilizada pela guerra poderá viver traumatizada pela queda alarmante do padrão de vida pós guerra. 

O livreiro de Cabul

Que fique claro que interpretar uma cultura é algo extremamente delicado. No livro “A interpretação das culturas”, o antropólogo Clifford Geertz, aproxima a definição de cultura como o modo de vida global de um povo; o legado social que o indivíduo adquire do seu grupo; uma forma de pensar, sentir e acreditar; a forma pela qual um grupo de pessoas se comporta realmente; um conjunto de orientações padronizadas para os problemas recorrentes; um comportamento aprendido, entre outras citações conceituais.

Porém, a jornalista norueguesa Asne Seierstad possui uma formação que lhe concede credibilidade para que eu sugira a leitura desse livro, no momento em que é muito importante acompanhar a retomada do poder do Afeganistão pelos Talibãs. Licenciada em jornalismo, russo e história da filosofia na Universidade de Oslo, Asne foi correspondente para jornais noruegueses na Rússia e na China, cobriu a guerra do Kosovo, Chechênia, Afeganistão e Iraque.

A jovem jornalista foi para o Afeganistão no final de 2001 para cobrir a queda do governo do Talibã. Ao chegar em Cabul, encontrou o dono de uma rede de livrarias, o afegão Shah Mohammed Rais, 53 anos, formado em engenharia civil, um homem erudito, que tinha uma filial das livrarias em um hotel parcialmente destruído pelos frequentes ataques dos Talibãs.

Por quase três décadas, Shah Mohammed Rais, no livro de Asne, retratado como Sultão Khan, desafiou as autoridades, enfrentou a perseguição de sucessivos regimes repressivos, tanto comunistas quanto talibãs para levar livros aos cidadãos de Cabul. Ele foi detido, interrogado e preso pelos comunistas e também viu soldados analfabetos do Talibã queimarem pilhas de seus livros nas ruas. Muçulmano comprometido Khan é apaixonado por livros.

Estabelecida a confiança entre ambos, a jornalista foi morar na casa de Shah Mohammed Rais e sua família para documentar a rotina da vida doméstica da família (no livro citada como Família Khan). A jornalista viveu quatro meses com a família afegã e depois escreveu um relato detalhado da experiência, no qual ela retratou o livreiro como um intelectual liberal em público, um homem que lutou pela liberdade de expressão no Afeganistão, mas oprimiu e reprimiu as mulheres de sua própria família.  Dessa narrativa nasceu o livro “ O livreiro de Cabul”, que se tornou um best-seller, traduzido para mais de 30 idiomas.

No livro não há muitas citações de fatos históricos, tampouco foca na instabilidade nas zonas tribais entre  Afeganistão e Paquistão. A autora concentra maior atenção na denúncia da sociedade afegã, que sistematicamente nega às mulheres dignidade e autonomia. As mulheres afegãs, mesmo após a queda do Talibã permaneceram estruturalmente subordinadas aos homens afegãos.

Em outra parte do livro, a autora reforça traços de conflito cultural nas práticas diárias do “livreiro”, como o abuso e descaso dele contra as pessoas com as quais convive. Ele manda para o Paquistão sua fiel há 16 anos para abrir espaço na casa para uma segunda esposa que havia comprado, uma jovem de 16 anos. Força o filho de 12 anos a trabalhar o dia todo no saguão de um  hotel, vendendo doces em uma barraca úmida que a criança chamava de “o quarto sombrio”. O mais surpreendente é que “o livreiro” nega ao menino acesso à educação. A irmã do Sultão Khan, Leila é praticamente uma escrava doméstica, faz todos os trabalhos da casa e é proibida de sair as ruas. Leila aprendeu inglês e sonha trabalhar como professora, mas precisa que um de seus parentes se dê ao trabalho de acompanhá-la a sede da Secretaria de Educação para preencher os documentos necessários,mas eles não lhe dão atenção.

Ao receber um exemplar do livro em inglês, o “livreiro de Cabul” sentiu-se traído pela jornalista norueguesa e uma batalha judicial foi travada contra a autora do livro, que se recusou a pedir desculpas à família. O “livreiro” e sua jovem esposa alegaram que suas rotinas foram deturpadas, que a família fora difamada. Não temos como saber se houve exagero ou deturpação em algumas passagens, resta que são surpreendentes as intimidades reveladas, as realidades da vida diária no Afeganistão, esse pedaço de universo tão fechado para nós ocidentais.

Outras duas sugestões interessantes que adentram o universo da cultura afegã são: O Caçador de Pipas e a Cidade do Sol.

*Título do livro de Asne Seierstad