O que a vida quer da gente é coragem

Vivo com a impressão de que avançamos muito na história e progredimos na vida. Guerra, política, religiões, economia e desigualdade social existem de alguma forma há milhares de anos. No entanto, é surpreendente que muitos não pensam nem se preocupam com as guerras, com as possibilidades de mudanças através da política. Porém, se as coisas mudaram para melhor, essa é uma pergunta que todos precisamos nos fazer continuamente.

Muitos países estão passando ou acabaram de passar por mobilizações gigantescas motivadas por questões internas, como França e Estados Unidos, Brasil, na Austrália, em solidariedade a situação humanitária na Faixa de Gaza e no Nepal, uma impressionante multidão de jovens, bem jovens, chamados de geração Z, ou seja, estudantes, mobilizados através das mídias sociais derrubaram o governo em 9 de setembro passado, após uma escalada de protestos contra a corrupção, nepotismo e um sem-número de proibições do uso das redes sociais. O primeiro-ministro renunciou, uma juíza assumiu o cargo e a vida segue.

É indiscutível que o jogo político pode mudar. Em ambientes democráticos, para que um governo funcione, o povo precisa mantê-lo sob controle e expressar suas reivindicações. As situações turbulentas, os momentos adversos podem ser transformados. E quando leio uma pesquisa Quaest, de 2025 que 38% entre pessoas não ricas declararam ser nenhum pouco interessadas em política. Cito, então, uma passagem do livro Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, dita pelo personagem Riobaldo: “O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.”

Não importa se você mora no Florais, Alphaville ou no Pedra 90, Dr. Fábio ou Contorno Leste. Todos, sem exceção precisam de políticas públicas para si, para seus empregados ou familiares. O rasgo que se tornou a antigamente linda avenida Rubens de Mendonça interfere negativamente na minha vida, na sua e de todos. Não era onde os ricos desfilavam seus carrões? Contudo, ainda é, entre lama, poeiras, desvios e cones por onde passam os ônibus que transportam trabalhadores para o Centro Político, Shopping e comércios, levam os estudantes para as escolas e ambulâncias levando doentes. Como não se importar, não pronunciar uma palavra sobre isso?

Distanciamento ideológico não é a mesma coisa que indiferença ou apatia política. Donald Trump impôs sanções a exportação de produtos brasileiros, você minimamente leu o porquê dessa doidera? Sabe quem foi o anticristo que interferiu junto ao governo americano e incentivou a punição a milhares de exportadores brasileiros? Você entendeu por que é necessário defender a soberania do país diante de interferência estrangeira?

Dias atrás a Câmara Federal aprovou a PEC da blindagem, que proibia prisão e processo de parlamentares que cometessem qualquer tipo de crime, sem autorização prévia dos colegas deputados e senadores e a blindagem se estenderia ainda a presidentes de partidos políticos. Fomos salvos por uma multidão que foi às ruas e pela lucidez que paira sobre a grande maioria dos senadores brasileiros. O Senador Alessandro Vieira, relator da PEC, ao ler seu voto, absolutamente contrário, disse que a aprovação seria um abrigo seguro para criminosos se instalarem na Câmara e no Senado e citou a frase mencionada acima, tirada do livro de Guimarães Rosa.

A Conferência do Clima – COP30, desorganizada ou não, está se aproximando, com 180 países comprometidos em atualizar suas metas climáticas, entre as quais, cita-se investimento em energia limpa. A organização cumpre a expectativa de integrar os povos originários no preparo e na agenda das discussões e estender maior proteção as suas terras. O governo brasileiro vem com a promessa de combater rigorosamente e zerar o desmatamento até 2030. Vamos nos preparar, ler e questionar para quando novembro chegar?

A justiça pode ser afável

O triste episódio envolvendo a cabelereira Sylvia Mirian Tolentino de Oliveira, que perdeu o filho assassinado com dez tiros e, durante a audiência de instrução, na presença do assassino e seu advogado recebeu voz de prisão do juiz que conduzia o caso é uma matéria que teve grande repercussão na imprensa local e nacional, e merece ser publicada, republicada, analisada e criticada pelas pessoas que nutrem um mínimo de consideração pela dor do outro.

Como pode um homem, supostamente pai, não compreender a indignação de uma mãe que é colocada em frente ao assassino do filho? Um advogado, que em entrevista, sem nenhuma convicção, dizer que se sentiu ameaçado com as palavras de D. Sylvia? Quanto melindre por causa das palavras subjetivas ditas pela mãe da vítima, que teve a vida revirada e grita por justiça!

O reparo do lamentável caso deve vir através da ação imediata do Ministério Público, que atento, pediu afastamento do juiz, por entender que ele agiu claramente parcial, garantindo os direitos apenas do réu durante a audiência. À D. Sylvia coube o tolhimento de seus direitos e a humilhação pública. 

Precisamos falar sobre um meio de furar essas bolhas de arrogância que permeiam o judiciário e não somente o judiciário e apoiar pessoas, que mesmo dentro de sua simplicidade as desafiam, sobretudo num momento em que se propaga a justiça restaurativa, conciliação e empatia para resolver conflitos. A mediação é tida como um procedimento que se vale da empatia, um caminho lúcido e razoável para que as partes minimizem os efeitos da indignação e dor e de forma recíproca cheguem a um ponto comum para resolver o processo.  

Os Juízes não são seres diferentes dos humanos, não são infalíveis e erram, embora esse reconhecimento vá contra o imaginário alimentado pela própria justiça do juiz mítico, implacável, como se ao vestir a toga, a subjetividade dos pensamentos e ação dos magistrados desaparecessem, para que não se igualem aos outros seres humanos.

Mas justiça não combina com desumanidade, com indiferença. Há pouco tempo viralizou o vídeo de um magistrado, humildemente ouvindo atento uma senhora analfabeta lhe contando como conseguiu assinar o documento. Certamente o respeito e afabilidade do magistrado com a senhora não interferiu na decisão do processo.

É evidente e minhas palavras não retiram a grandeza e profundidade do cargo, tenho dois amigos juízes, por quem nutro a mais absoluta admiração, sob o ponto de vista profissional e comportamental. Me perdoem se os comprometo de alguma forma citando-os, mas Dr. Jamilson Haddad e Yale Mendes são dois homens afáveis e corteses, que proferem suas sentenças, que interferem no destino das pessoas, sem, contudo, desqualificá-las ou ignorarem suas indignações e dores.

Não custa ter empatia pela dor da D. Sylvia e esperar que o desfecho do caso seja revestido de humanidade, ainda que seja depois de toda a exposição da audiência de instrução na mídia.

A grande mentira da sociedade contemporânea

Aempatia é geralmente definida, no senso comum, como a capacidade de compreender e compartilhar os sentimentos do outro. Portanto, se você está com dor e eu sinto sua dor, se você está ansioso, eu vivo sua ansiedade, se você está triste e eu me entristeço e será exaustivo o peso que carregarei, estou sendo empática. E isso é diferente de compaixão. Compaixão significa que eu dou importância à sua preocupação, eu a valorizo, eu me preocupo com você, mas não necessariamente entro em seus sentimentos e na busca de solução para eles.

Muita gente pensa que isso é apenas uma distinção verbal, que não tem tanta importância, mas na verdade, os dois sentimentos têm consequências diferentes e nem todos os seres humanos são capazes de demonstra-los. A falta de compaixão e empatia foram expostas essa semana no episódio envolvendo duas médicas do estado do Amazonas, que gravaram um vídeo zombando das crianças que chegaram aos gritos numa unidade de saúde após serem atingidas por um raio. Mesmo diante do quadro das crianças, resolveram gravar um vídeo para as redes sociais. Elas riam debochadamente e uma delas disse que as crianças gritavam e se contorciam como se estivessem sendo exorcizadas.

A empatia é sobre colocar-se no lugar das crianças que aguardavam atendimento, ajudar cobrar providências, independentemente de você ter filhos pequenos porque o sentimento de empatia não é sobre você e seu entorno. Em suma, a empatia é ver o mundo de outra pessoa através dos olhos dela naquele momento e sentir na pele a dor que ela sente. Pode soar um pouco demais imaginar que existem pessoas que podem captar tão profundamente as vibrações de outras pessoas, debruçar sobre suas dores, mesmo diante da nossa predileção por relações ligeiras, onde há sempre algo que nos atrai para que não permaneçamos muito tempo parados na mesma notícia.

 Não importa como você defina empatia. Mas ela decorre do interesse de entender e conhecer o problema que aflige o outro. Tem a ver com conhecimento, com valores éticos e ação. Não precisamos de poderes intuitivos e mágicos para elevar outras pessoas, para nos colocar à disposição para ajudar e tentar reparar erros e injustiças. O que podemos fazer para ajudar pode importar muito mais do que como nos sentimos diante do drama dos outros. Ser emocionalmente sensível pode garantir a satisfação a você mesma, mas não garante que você tomará medidas necessárias para efetivamente ajudar alguém.

O terrível terremoto que abalou cidades da Turquia e da Síria produziu imagens que por si expressam a dor imensurável dos que agonizavam debaixo dos escombros e o desespero de familiares diante das buscas, a imagem da criança sendo alimentada com água numa tampa de garrafa, único objeto que cabe no exíguo espaço onde ela está presa. Esse tipo de imagem abala todos os seres humanos, acende a chama da compaixão, a empatia, no entanto, faz a pessoa ir além, a interessar-se pelas ações de resgate e pelo menos buscar no mapa a localização da tragédia, ler sobre as dificuldades encontradas pelas equipes de resgate para chegar ao local. Não se vira a página rapidamente diante de uma tragédia.

 A empatia, em tempo de vigilância on-line, pode ser apenas uma ilusão sedutora. Até porque, no fundo, tendemos a ser empáticos por aqueles que nos são semelhantes. Se temos filhos, nos sensibilizamos por fatos que ocorrem com crianças, se somos mulheres, tendemos a demonstrar mais empatia por situações vividas por mulheres. Na verdade, sentimos muito menos empatia por pessoas que não fazem parte da nossa cultura, que não compartilham nossa rede de conhecimento e relacionamento. Este é um fato terrível da natureza humana e talvez opere em um nível subconsciente, mas sentimos que isso acontece.