O mundo pode ser um lugar assustador às vezes

Arthur Schopenhauer, filósofo alemão, que cito com frequência, mostrou-me que o sofrimento inevitável da vida humana está alicerçado na nossa essência, que a dor e o sofrimento não são acidentais e evitáveis, mas sim essenciais e inevitáveis. Diz ele que não é a dor e o sofrimento, mas sim felicidade, que é apenas uma parte acidental da nossa existência. O argumento mais forte de Schopenhauer reside no argumento que a vida humana é um sofrimento multifacetado entre a dor e o tédio, que são os ingredientes dos quais a vida é composta. Concluo então, que a felicidade verdadeira e duradoura não é possível e não deve, portanto, ser o objetivo, o ponto essencial a ser perseguido em nossa existência.

Embora estejamos sempre argumentando que a vida é melhor hoje do que foi no passado, se você prestar atenção às manchetes dos jornais, provavelmente concluirá que a vida não parece tão boa. Estamos convivendo com várias situações de violências, sobre as quais as autoridades não têm sequer noção do que fazer para conter; são tiroteios nas escolas, como ocorreu essa semana em Barra do Bugres, a brutalidade policial ocorrida também recentemente no estado, na cidade de Cotriguaçu. Mulheres, de todos os estratos sociais seguem sendo vítimas de violência de seus parceiros, que ignoram solenemente as leis.

O sociológo polonês Zygmunt Bauman usa uma metáfora poética e angustiante, chamada de modernidade líquida e amor líquido para explicar os rompimentos afetivos e morais que surgem com bastante frequência em nossas vidas, causados pela fragilidade dos sentimentos e dos relacionamentos que construímos com laços frouxos, que favorecem os rompimentos, a violência, a quebra dos códigos de convivência.

Bauman cita Schopenhauer no livro ‘Modernidade Líquida’ e diz que não é de todo surpreendente que as relações tenham se tornado mais fugazes, descuidadas e violentas dada a tendência social da busca pela satisfação das necessidades momentâneas. A maioria dos nossos relacionamentos hoje são mais meras conexões do que relacionamentos, uma modernidade líquida onde muitas coisas, como o compromisso com o outro, a verdade, os bons sentimentos parecem escapar-nos pelos dedos.

Ele então argumenta, seguindo Schopenhauer, que o primeiro fato de nossa existência é que nos encontramos em um mundo que nos dá a oportunidade de fazermos a escolha moral entre o bem e o mal e que a necessidade de estarmos sempre fazendo escolhas não é uma garantia infalível de que faremos boas escolhas, em um mundo onde as utopias contemporâneas querem que celebremos o desmantelamento, o abandono dos ideais duradouros como um ato de nossa emancipação.

Assim, entre a desilusão completa de Schopenhauer e a percepção de Bauman de que é a estética e não a ética o elemento que nos integra, mantenho minha responsabilidade de agir sem ferir o outro, mas creio ser prudente descer o nível da expectativa quanto o outro e aceitar que o que era sólido, aos poucos se derrete e cabe-nos continuar o percurso.

Sinais ameaçadoramente contemporâneos

Em uma semana estaremos votando no segundo turno da eleição presidencial. Sempre temos escolha: podemos deixar que as circunstâncias de nossas vidas nos endureçam e nos tornem cada vez mais ressentidos e temerosos, ou podemos deixar que elas nos abrandem e nos tornem mais tolerantes e gentis. Eu escolhi abri mão do voto secreto e me posicionei sem discutir, sem invadir a privacidade de nenhum amigo para criticar ou atacar e na mesma linha também não permiti invasão nas minhas páginas para me questionarem. O tempo todo dessa interminável campanha, eu fui civilizadamente fiel às minhas convicções e cuidadosa no trato com as pessoas. 

Para acalmar a incerteza e preencher lapsos de ignorância, recorri à leitura. De forma desordenada cronologicamente, ia de “As origens do totalitarismo”, de Hannah Arendt à Platão, que catalogou algumas formas de governo experimentados pela humanidade, até o best-seller dos cientistas políticos americanos, “Como as democracias morrem”. Assustada, assinalava as coincidências encontradas nos fragmentos de nossa democracia, que foram ficando pelo chão.

Ao ler o título do último capítulo de ‘As origens do totalitarismo’, parei e pensei: sim, é isso que estamos vivenciando: Ideologia e terror: uma nova forma de governo. Não temos um presidente governando a nação, temos um homem obcecado pelo estabelecimento de padrões morais, escorados na família tradicional, na fé e patriotismo cegos, independentemente de o governante, ele mesmo, ser um bom cristão, cultivar valores morais no seio da família. Nessa perspectiva, importante é incutir e pregar a moralidade como uma ideia central, mas ser, de fato, um cidadão moral, não vem ao caso. 

Bolsonaro teceu uma estratégia de investir fortemente no apelo cristão e messiânico, dando ‘evidências públicas de ser um bom cristão’, ao mesmo tempo em que reverbera o desprezo pelas minorias, pelos pobres, pelos que não são conservadores, então, tem pregado para seduzir e mobilizar sua base religiosa conservadora.

Uma implicação interessante na análise de Arendt é que o governante totalitário normalmente não é justo ou sábio; ele é simplesmente aquele que veio para quebrar conscientemente o consenso, colocar o pé na porta das instituições que regulam seu poder. Exatamente como aqui, agora, há uma grande massa disposta a renovar a compra de uma narrativa que os enfeitiçou quatro anos atrás e que transcende a compreensão de valor e de realidade. 

Embora as observações de Hannah Arendt, obviamente não podem explicar tudo sobre os complexos desenvolvimentos políticos de hoje, não deixam de ser reveladoras, pois fornecem informações sobre os mecanismos que permitem que tantas pessoas aceitem prontamente viver de mentiras. “Num mundo incompreensível e em perpétua mudança, as massas haviam chegado a um ponto em que, ao mesmo tempo, acreditavam em tudo e em nada, julgavam que tudo era possível e que nada era verdadeiro”.