Não há nada certo além da incerteza

Aos poucos vamos recobrando a esperança de retornar aos dias alegres, sem a ameaça avassaladora da Covid-19. O medo, no caso, foi salutar, porque nos fez ter consciência dos perigos e nos obrigou a um refletido recolhimento e parada. Desde os primórdios, a humanidade não teria progredido sem o medo que a alertou dos perigos sucessivos que se apresentavam nos caminhos. Se fizermos um recorte da história, observaremos que as comunidades humanas sempre viveram sob fortes ameaças, de epidemias, tempestades, tremores de terra e guerras.

De todos esses males, os mais mortíferos eram as epidemias. De 1347 a 1350, a Peste Negra dizimou um terço da população europeia. Sem dúvida, as epidemias continuam nos assombrando; a Gripe Espanhola, Ebola, AIDS, que já matou milhares de pessoas no Planeta, desde 1980 mas a guerra se tornou o perigo número um para a humanidade.

Hoje, o medo nos leva a criar muros, grades e distanciamentos, o medo de sair às ruas e estar exposto à pandemia.

O sociólogo, psicólogo e cientista político alemão, Ulrich Beck diz que vivemos num paradoxo, onde as instituições feitas para controlar o medo produzem exatamente o seu descontrole. São tantos os perigos, que o sociólogo se refere ao conceito, relativamente novo, de uma sociedade de risco, reforçada por nossas incertezas.

A análise de Beck sobre os riscos sociais diz que os riscos são objetos de distribuição, entretanto, acaba expondo falta de democratização dos riscos, pois embora, no caso do Coronavírus todos estejam sujeitos a contrair o vírus, as diferenças em recursos econômicos permitem aos que estão em vantagem financeira minimizarem os riscos de morte. (podem guardar a quarentena em casas confortáveis, não utilizam transporte público e não precisam aguardar vaga em UTI quando são diagnosticados positivos).

A civilização é vulnerável, dependemos de sistemas complexos para manter a vida e não somos poupados. Como disse Zygmunt Bauman, em sua síndrome de Titanic, temos medo de um colapso ou catástrofe que possa cair sobre todos nós, atingindo indistintamente. Temos medo do iceberg, espreitando em emboscada.

Não sei dimensionar o risco que corremos. Mas, claro, não é quantidade de risco que importa, mas a súbita impossibilidade de um controle total do mal que nos ameaça num mundo interconectado, mas com certa tendência ao descontrole. Vidas adormecidas e essa reviravolta destruiu ou empurrou para diante quase todas as prioridades.

Apesar de tudo, a mente de muitos rejeitou a tragédia. E talvez o mais incrível obstáculo para a prevenção da contaminação tenha sido a descrença dessa parcela da população. A maioria porém, constatou atônita que o apocalipse não aconteceu apenas na densa floresta tropical do Vietnam, como no épico filme Apocalipse now, de Francis Ford Coppola, estrelado por Marlon Brando. Desta vez, aconteceu em toda parte do planeta.

Escrevi “aconteceu”, numa referência espontânea ao passado. Tomara que esteja realmente passando. Há lugar para esperança!

A mão que afaga é a mesma que apedreja

Vale tudo é um tipo de esporte, considerado agressivo e violento, uma luta com poucas regras e limites em que os mais diversos golpes são aceitos, tem a duração de 15 minutos, divididos em 3 blocos chamados de round. Isso quer dizer que um sujeito tem 15 minutos para espancar o outro, tentar nocauteá-lo. Só que normalmente as lutas se dão em igualdade de peso e potencial de bater e defender-se.

O vale tudo do qual vou falar é o que tem estampado as primeiras páginas de todos os jornais locais e nacionais e tem acontecido no ringue em espaço familiar, na sala, quarto e qualquer lugar público. Sim, tem tido audiência! A luta desigual em força física, tem acontecido inclusive, na frente das crianças e muitas vezes tem a duração de uma noite toda.

O que está acontecendo com os homens? A mão que afaga tem sido a mesma mão que espanca impiedosamente.

Temos lido sobre sessões de tortura, mordidas que arrancaram pedaços da face e dos lábios, casas incendiadas, animais de estimação sendo envenenados. Como pode o amor transformar-se em ódio brutal, como pode compartilhar uma gestação e depois matar o bebê apunhalado com chave de fendas por retaliação ao fim do relacionamento?

O que tem cegado os homens, que explodem em fúria, espancam, atiram, queimam, arrancam coração? Como crer que tenham sido humanos um dia?

O fim, não apenas de um relacionamento mas de tudo na vida é coisa certa, não perceberam ainda?

A ignorância de depositar no outro a responsabilidade sobre a própria felicidade e a confiança de que as coisas vão se ajeitar, de que a violência não vai se repetir tem resultado em mortes absurdas.

Os indomáveis estão à solta, os alvos estão ao alcance e vulneráveis e imagino o medo que tem permeado algumas relações, sobretudo quando baixa a noite.

Não estamos conseguindo superar a violência praticada por homens contra mulheres, na qual o agressor e vítima estão intimamente ligados à explicação dessa violência, quase sempre perpetrada pelos homens para manter o controle e o domínio sobre “sua” mulher. O fato é que, geralmente, as mulheres estão emocionalmente e economicamente envolvidas com seus agressores.

Torna-se cada vez mais evidente que os abusos cometidos contra crianças e adolescentes é tanto mais comum quanto mais severo nos segundo casamentos, com a figura dos padrastos. Mas a agressão contra as mulheres está acontecendo em toda esfera de relacionamentos.

Temos percebido a justiça mais ágil, os assassinos logo presos, mas nas manchetes do dia seguinte um novo rosto com marcas roxas estampará as capas dos jornais. Mais um assassino será preso e assim tem sido cumprido o círculo de sonhos, casamentos filhos, espancamentos e mortes.

Boas práticas e tentativas de diminuir a violência têm acontecido nos Conselho, nos Governos, com adoção de políticas públicas para prevenção e combate à violência, porém todas tem sido ineficientes no sentido literal de seus propósitos, inclusive a ativista Maria da Penha, que cede seu nome à Lei de proteção à mulher, criticou a Lei num evento recente, justamente porque não tem, com efeito, conseguido proteger as mulheres.