Hoje a mulher forte, amanhã a mulher doente

Abraçar as lutas faz parte da nossa jornada humana. Mas se você não diz não, seu corpo dirá. A vidas de pessoas com doenças crônicas são relacionadas ao bloqueio de emoções negativas, onde as pessoas são incapazes de focar suas próprias necessidades emocionais e são movidas por um senso de responsabilidade de atender as necessidades dos outros. Tem dificuldade em dizer não. A ampla gama de doenças vai desde o câncer, artrite reumatoide e esclerose múltipla até distúrbios inflamatórios intestinais, síndrome da fadiga crônica e esclerose lateral amiotrófica, asma, psoríase, enxaquecas, fibromialgia e uma série de outras condições.

Dr. Gabor Maté, médico húngaro, naturalizado canadense, de renome mundial, especialista em traumas e os impactos na saúde física e mental, autor de vários livros, é conhecido por suas descobertas inovadoras, as quais, aborda em seus livros e palestras, conectando os pontos entre saúde, ciência, medicina e doença, avaliando que a enfermidade não decorre apenas de falhas genéticas ou biológicas, mas que as disfunções podem ser causadas pelo estresse endêmico e repressão emocional. Atribuir nossas enfermidades à hereditariedade é simplista, confortável, diz ele. Significa que não precisamos olhar para a vida das pessoas nem examinar a sociedade em que elas vivem.

“Eu nunca fico bravo, em vez disso, eu crio um tumor”, diz um personagem de Woody Allen em um dos filmes do diretor. Dr, Gabor diz que há muito mais verdade científica contida nesse comentário engraçado do que muitos médicos reconheceriam. Apesar de todos os progressos técnicos, a prática médica ocidental tradicional rejeita, segundo ele, ‘militantemente’, o papel das emoções no funcionamento fisiológico do organismo humano. A rejeição da unidade entre mente e corpo é um caso típico de negação.

A chocante realidade das mulheres como absorvedoras de emoções, leva Gabor Maté a investigar o papel das mulheres como amortecedoras emocionais, revelando uma verdade muitas vezes esquecida sobre seu papel social.  Um tópico cercado de estereótipos e conceitos errôneos. Pressões e expectativas sociais pesam muito sobre os ombros das mulheres. Da pressão para ter uma determinada aparência às oportunidades desiguais ou limitadas de carreira, são desafios que muitas vezes passam despercebidos ou não são mencionados.    

As mulheres sempre tiveram o papel de amortecedoras emocionais de suas famílias, porque assumem o estresse de pais, cônjuges e filhos, e se sentem culpadas quando não conseguem protegê-los. Desde os anos 30, quando a mulher entrou efetivamente no mercado de trabalho o papel do estresse não foi compartilhado pelos gêneros e a mulher que trabalha, continua quase sempre  desempenhando solitariamente o mesmo papel em casa.  Então esse é um papel de gênero, não determinado biologicamente, mas ditado por uma certa visão patriarcal da posição das mulheres na sociedade.

Em nossa cultura, tanto homens quanto mulheres podem se ver sob forte pressão para suprimir e trair seu verdadeiro eu para se encaixar, para ser aceito. Mas as mulheres geralmente são as escolhidas para cuidar dos outros, negligenciando suas próprias necessidades emocionais, o que tem causado adoecimento coletivo e as levado a consumirem desproporcionalmente medicamentos antidepressivos para suportar o fardo da consequência complexa de todos os relacionamentos pessoais e sociais que abraça.

A violência contra a mulher não é um processo inevitável

Os números e estudos sobre a violência contra a mulher desmentem a ideia de que o perigo está em cruzar com um estranho em uma rua escura. “Em 84% dos casos de estupro, o estuprador é uma pessoa próxima e em 65%, o estupro foi cometido dentro de casa”, dados do Instituto Patrícia Galvão.

A violência contra a mulher segue adicionando requintes de sadismo e crueldade ao ato de subjugar e humilhar a mulher. Essa semana, em Primavera do Leste, na frente de outra criança, um homem agrediu um bebê de apenas três meses de idade. A cena aterrorizante foi gravada pela mãe, que também foi agredida pelo marido. Quanto mais chorava, mais apanhava o bebê, que apresentou lesões na cabeça. Segundo relatos da mulher, o casal já havia se separado devido as agressões que sofria, sem, no entanto, haver denunciado antes.

No estado vizinho de Goiás, um médico, ginecologista, de 73 anos, com cara de avô confiável foi preso em Goiânia após denúncias de uma série de crimes sexuais contra pacientes, depois que o marido de uma das mulheres, que o denunciou por crime sexual entrou abruptamente no consultório do médico e deferiu-lhe alguns socos.  A partir do episódio, que foi amplamente noticiado, muitas outras mulheres se encorajaram a denunciar as violações que sofreram em consultas com o ginecologista ao longo dos anos. Alguns casos, datam de 1994, já devem estar criminalmente prescritos.

O fato em Goiás aconteceu no mesmo momento em que um outro médico ginecologista recebia a sentença de ter que cumprir 35 anos e 11 meses de prisão por crimes sexuais contra 45 vítimas, que eram pacientes.

Fora do Brasil, a situação envolvendo médicos se repete. Dois meses atrás, um famoso oncologista americano estava proferindo uma palestra, num centro médico lotado, quando foi interrompido e agredido, ao vivo, pelo marido de uma paciente, de quem ele teria abusado sexualmente durante uma consulta médica.

Citei casos ocorridos recentemente em casa e no consultório médico porque envolvem relacionamentos que deveriam ser de confiança mútua, porém, percebe-se nos que os médicos sentiam o consultório como um campo seguro para praticar os crimes, ficavam a sós com as vítimas, com portas trancadas e confiavam no silêncio das mulheres, visto que há estudos que comprovam que 8 em cada 10 vítimas não denunciam, o que mostra como o trauma, a vergonha e o medo da exposição são barreiras para que as mulheres vítimas de violência denunciem, o mesmo sentimento de controle acontece dentro de milhares de casas.

A Comissão de Constituição e Justiça do Senado aprovou um Projeto de Lei que determina o afastamento imediato do lar de homens que usam violência sexual, moral e patrimonial contra as mulheres, o que já está previsto na Lei Maria da Penha, contudo a proposta da senadora Danielle Ribeiro, inclui outras formas de agressão, que foram se incorporando as práticas de violência, como, a vingança pornográfica virtual, difusão de informações falsas, vulgarização da vida privada, entre outras…

Medidas propostas transformadas em leis há centenas, a efetividade destas não está em questionamento, porque um artigo aqui, outro ali vai fechando o cerco contra os agressores, vai derrubando por terra a tese de que isso ‘vai dar em nada’. Um dia dá, como o caso do médico de Goiás, que desde 1994 assediava e violava pacientes, 29 anos depois, está preso.

Não e não penso que as mulheres tenham que ter jogo de cintura para sair das situações de violência, pelo simples fato de que as situações de violência não deveriam mais acontecer. A violência contra a mulher não é um processo inevitável e pode ser prevenida com mais educação e punição cada vez mais rigorosa.

Problema feminino não é mero complemento

ACâmara dos Deputados comemorou com a devida honra os 10 anos de criação da Secretaria da Mulher na Casa, que hoje tem uma bancada de 92 deputadas (já incluída Gisela Simona) num universo de 513 parlamentares. A sub-representação ainda é gritante, já que a União Interparlamentar indica que a participação de mulheres nos parlamentos global é de 26%. Por aqui, patinamos em míseros 17%.

Embora o percentual de mulheres eleitas seja menor do que o de homens, os indicadores da Câmara Federal, publicados pela Agência Câmara de Notícias, registram que as deputadas apresentam mais projetos, proporcionalmente que os homens. Desde a criação da Secretaria da Mulher, em 2013, até o final de 2022, as leis aprovadas a partir de proposições e articulação da bancada feminina, que já foi chamada de “Bancada do Batom”, tem pautas ligadas a saúde, combate às diversas formas de violência, educação, mercado de trabalho, assistência e garantias de direitos.

Pois bem, é inegável que o cenário da participação da mulher na política está longe de ser o ideal e volto a um passado recente para lembrar da pré-campanha do Senador americano Bernie Sanders, principal rival de Joe Biden no Partido Democrata às eleições de 2020, onde também concorria, uma mulher, a senadora Elizabeth Warren. Com um discurso alinhado às pautas femininas foi Bernie Sanders o escolhido pelas mulheres famosas em seus trabalhos e discursos pela igualdade de tratamento, pagamento e prestígio a homens e mulheres nas mesmas condições de classe e de trabalho.

 A filósofa Nancy Fraser, professora de Filosofia e Política, sempre apontou as mulheres como as principais responsáveis ​​pela segurança e sobrevivência das famílias e das comunidades. De acordo com Fraser, as mulheres são as responsáveis ​​globalmente pela criação da próxima geração, tentando proteger as crianças quando fogem da violência em casa e enfrentam as fronteiras militarizadas que prendem até crianças.

Ela liderou um movimento intenso demonstrando às mulheres que embora a Senadora Warren fosse um nome respeitável, o discurso e as pautas que ela defendia não representavam os ideais femininos e feministas, da grande maioria dos trabalhadores com salários baixos. E as mulheres representavam essa maioria e aumento do salário-mínimo, aumentaria a liberdade feminina, tanto em casa quanto no trabalho. E dar as mulheres mais direitos nas negociações, daria a elas uma arma mais poderosa na luta contra o assédio e agressão sexual, sobretudo nos locais de trabalho. Puxou coro para que o apoio das mulheres fosse para o candidato que havia pautado o aumento do salário-mínimo, questões de gêneros, uma colocação da mulher por inteira dentro da sociedade como mote principal da campanha.

Criticada por apoiar um candidato homem, Nancy Fraser justificou: “Não nos interpretem mal. Gostaríamos de ver uma mulher presidente tanto quanto qualquer outra pessoa. Mas isso não pode nos custar a chance de construir um movimento que possa realmente melhorar a vida da grande maioria das mulheres”.

O respeito às pautas femininas não é prioritário em país nenhum, mas ganham relevância, cobranças e impulsionam positivamente a agenda dos grandes líderes. Ainda, um complemento. Ao final, Bernie Sanders recuou à candidatura e para apoiar Joe Biden, o fez assumir publicamente os compromissos assumidos com as lideranças femininas e feministas, apresentadas a ele pela filósofa Nancy Fraser.

Daqui há pouco começa a campanha para 2024 e não basta escolher uma candidata ou candidato que tenha alguma proposta feminina no seu programa. Precisamos apoiar uma campanha comprometida com a mudança estrutural que as mulheres precisam.