Quando o debate vira entretenimento, o essencial desaparece

No livro 1984, o fabuloso George Orwell, ensina que “enquanto as pessoas discutem detalhes insignificantes sobre um tema, deixam de perceber que o essencial está sendo decidido sem elas.” É uma forma eficiente de controle político desviar para a superficialidade as discussões e campanhas públicas e políticas. Tem-se falado muito para evitar falar sobre o essencial, que são as denúncias de corrupção, do índice absurdo  de feminicídio, da falta creches, das obras inacabadas. Em meio a tantas prioridades, no estado, na capital do estado e no país é inaceitável que se cobre alinhamento político a um par de chinelos mais do que se cobre políticas públicas de proteção às mulheres.

Hannah Arendt, ao analisar os regimes totalitários mostra enfaticamente como a política perde a importância quando o debate público é substituido por ruídos e banalidades.’ Quando os fatos deixam de importar, qualquer tema irrelevante é jogado no centro de um debate só para ocupar espaço na mídia. Tem-se falado muito de coisas que não ameaçam o poder e tampouco lhe acrescenta coisa alguma. Desvia-se o debate sobre problemas sérios para criar conflito e para tranformar a política em espetáculo.

Resistir a divisão e a espetacularização da política é um exercício de maturidade democrática. Sabemos todos que os chinelos nunca foram alvos da discussão, seu entorno, sim; os bilionários Moreira Salles que detém a marca e as ligações e preferências saudáveis por certos artistas. Isso não tira da empresa o símbolo do estilo de vida brasileiro, alegre, colorido, despojado e as propagandas, além de focar em vender chinelos, quase sempre têm mostrado a pluralidade cultural, social e simbólica do país, o que via de regra, provoca identificação com aquela ideia de que todo mundo usa.

Nem tudo na vida resvala na politica, nem tudo reflete o pensamento raso de quem se divide, no clássico: eu estou de um lado, eles estão do outro. As pessoas adultas seguirão caminhando com o pé direito e esquerdo, ou dando ‘seus pulos’ com os dois pés para sobreviver.

A política não precisa ocupar todos os vazios da experiência humana; temos família, amigos, celebrações, estudos, conversas triviais que não precisam estar impregnadas de manifestação política. Em tempo de incompreensão, é preciso abrandar a radicalização; discordar sem hostilizar, debater sem desumanizar e reconhecer que a identidade de marcas e de pessoas  não se esgota em suas posições políticas e que a linguagem do pensamento crítico não é o ódio. As pessoas precisam de espaço para existir sem ter que tomar partido e se posicionar ou dar explicações o tempo todo.

No sentido figurado,  o excesso de enquadramentos divisionistas e polarizados está causando um profundo cansaço, a convivência cotidiana está se tornando tensa e o ano eleitoral que se aproxima promete deixar de ser apenas um tempo de debate mas um contexto de redução de diálogo e apostas no conflito.

Em tempo de preparação para as eleições de 2026, a ideologia política não deve assumir esse caráter doentio, essa devoção, porque mais do que falar bem ou mal de uma marca, o que percebemos foi o culto nada saudável aos políticos que alimentam a divisão, a polarização e acabam levando os seguidores a se afastarem dos princípios básicos de  respeito e empatia. Sem discussões e paranoias, há outras marcas de chinelo no mercado. Ninguém se importa se você não se sente confortável usando havaianas. Simplesmente mude, sem paixão, porque isso não é sobre política. É um conteúdo aleatório trazido à tona propositalmente para cooptar e alienar a sua mente. 

Os vários níveis da participação política

Reclamações sobre a perda de interesse pela política são ouvidas por toda parte. Depois ouve-se o discurso sobre a crise de representação de inúmeras categorias. Em muitos casos a sub-representação deriva da não participação. Seria possível esquecer a política?

A política, antes, é o mundo que emerge entre nós, o mundo que emerge através das nossas interações uns com os outros, ou através das formas como as nossas ações e perspectivas individuais são agregadas em coletividades, embora alguns cientistas políticos a definam simplesmente como o exercício do poder, o poder como influência sobre as ações de outro, poder de moldar agendas e preferências políticas, ou como foi definida pelo cientista político Harold Lasswell: a política trata de “quem recebe o quê, quando e como”.

Faz realmente diferença em nossas vidas escolhermos quem nos governa. Benjamin Constant no livro Escritos de política disse ser a democracia a autoridade depositada nas mãos de todos. Os cidadãos possuem direitos individuais que estão acima da autoridade que os governa, como a liberdade individual, liberdade de opinião e liberdade religiosa. Para alguns, o critério central de uma democracia é o poder dos cidadãos escolherem o seu governo através de eleições competitivas; para outros, este fator é menos importante do que a igualdade de oportunidades para todos os cidadãos na obtenção de posições de liderança política; para outros, estes dois critérios perdem a importância se a participação efetiva dos cidadãos nos vários níveis da vida política não for alcançada.

Chega da visão fatalista de que não temos escolhas reais a fazer na política. Um voto não elege diretamente o prefeito, o vereador, mas se o seu voto se juntar a um número considerável de outros, o seu voto será sem dúvida importante no resultado eleitoral final. Todos podemos empreender ações para influenciar diretamente o envolvimento político através das instituições eleitorais. Precisamos nos envolver não apenas por causa dos ideais sublimes da democracia, mas porque é nossa responsabilidade como cidadãos. Devemos prestar mais atenção na verdade, nas propostas porque, gostemos ou não de política, os políticos serão eleitos, irão cobrar impostos e definir novas as regras que afetarão a vida de todos.

Precisamos ler, estudar para entender a efervescência singular da movimentação política, afinal recai sobre o mês de agosto a expectativa dos registros de candidaturas, acesso aos recursos do fundo partidário, abertura de contas, confecção de material visual, gravações decepção com aliados, rasteira partidária. Agosto parece não ter fim!

As pessoas normais não são especialistas na maioria das questões políticas, mas entendem bem as grandes divisões nas posições políticas de progressistas e conservadores, as redes sociais e a proliferação de canais de mídia através da Internet e da TV desempenharam um papel importante, permitindo que as pessoas se comunicassem com pessoas como elas, sem perder o olhar para os que pensam diferente. Ou seja, as pessoas estão gravitando nos espaços dos seus iguais, mas estão lendo sobre os outros candidatos também. Como li dias atrás, numa estratégia de cima para baixo, os partidos estão espalhando combustível dentro de seus campos, promovendo a divisão entre os candidatos em busca de assegurar crescimento das bancadas.

O voto transforma sussurro em grito

Posicionar-se politicamente não significa permitir que as pessoas te usem como uma caixa de ressonância para expressar a opinião e opção delas.

A participação política é algo tão incrível quanto ameaçador. Li tempos atrás uma entrevista em que o ex senador republicano Fran Millar, disse não concordar e ter se preocupado com a decisão do governo americano de facilitar o acesso ao voto nas eleições, ampliando o número de urnas e locais de votação, sobretudo em regiões da periferia. Segundo o Senador, isso poderia elevar o número de eleitores negros e outras minorias e poderia promover mudanças não desejadas nos redutos Republicanos, além disso, o Senador disse que preferiria receber votos de pessoas mais educadas do que dos africanos americanos. A esta altura o Senador americano, derrotado, deve ter aprendido que na pequena cabine de votação o valor do voto é absolutamente igual.

A verdade sobre a política é encontrada onde nem todos se preocupam ou tem habilidade para enxergar. No livro O sinal e o ruído, o autor e estatístico Nate Silver diz que as pessoas gostam de política porque gostam de estatísticas, de previsões, tanto do tempo quanto do futuro e que mais de 90% dos fatos políticos são previsíveis, mas que ironicamente, a maioria das previsões são erradas, sobretudo devido às incertezas que permeiam todo o processo eleitoral. O autor tornou-se famoso nos Estados Unidos depois de fazer vários prognósticos corretos sobre o vencedor da corrida presidencial em 49 dos 50 estados americanos.

Falamos muito sobre política na superficialidade, fazemos prognósticos baseados em achismos e por isso  a desinformação política é uma grande preocupação no período que antecede as eleições de outubro próximo. O Brasil é o sexto país no mundo com maior número de usuários de mídias sociais. Com mais de 147 milhões de usuários no país, o WhatsApp é um veículo muito popular e o mais eficaz para disseminar narrativas falsas e desinformação entre os eleitores brasileiros, sem deixar grandes pegadas digitais, o que significa que é impossível saber quantas pessoas viram um conteúdo ou como exatamente o conteúdo viajou, por meio de prints e compartilhamento.

Foi exatamente o que vivenciamos nos períodos críticos da Covid-19. Pesquisadores da Universidade de Pelotas descobriram que a desinformação, alarmes e notícias falsas eram em grande parte transmitidas a partir de bases pró-Bolsonaro, em grupos de WhatsApp. O Telegram tem sido, cada vez mais usado em divulgação para o mesmo fim, com a vantagem que os grupos podem ter 200 mil membros (os grupos do WhatsApp são limitados a 256). É importante ter critério quanto a escolha da fonte de informação que vai alimentar você e sua família.

O período de pré-campanha efetivamente começou e ao perceber a movimentação, você pode estar se perguntando se a sua participação política realmente pode fazer a diferença. Afirmo que sim. A começar, busque informação confiável, seu voto é o passaporte para seu futuro pelos próximos quatro anos. Não votar ou tratar com displicência o voto é rejeitar sua capacidade de influenciar a forma como sua vida será afetada pelas ações governamentais, que via de regra e nunca de forma linear, atingem todos. Individualmente seu voto pode parecer apenas um sussurro, mas quando o seu voto se soma com outros, o sussurro vira grito e todos ouvem.