Cenários complexos

Adentramos um período caracterizado por incerteza e insegurança econômica e política, sobretudo. Como escreveu Zygmunt Bauman nada mais parece fixo e a própria tecnologia que avançou como uma perspectiva de progresso inadiável, propaga tanta informação, que não podemos absorvê-la para descobrir o que está realmente acontecendo. Qualquer um, de qualquer lugar pode usar a tecnologia para qualquer propósito, sem respeito algum às instituições e aos especialistas. Ao falar sobre os avanços tecnológicos, o sociólogo e escritor brasileiro Sérgio Abranches observa que a democracia permaneceu analógica enquanto a sociedade se tornou digital.

Em uma longa entrevista a um respeitado veículo de comunicação sobre economia, Abranches analisou detalhadamente o fluxo dos desacertos políticos atuais e inicialmente já deixou claro que com esse congresso que elegemos nenhuma reforma estrutural jamais acontecerá. Acusa o legislativo brasileiro de colocar a faca no pescoço do executivo nas discussões e chantagens que envolvem as emendas parlamentares, utilizadas, grosso modo, para alimentar processo de reeleição dos parlamentares.

Um estudo publicado pelo Instituto Não aceito Corrupção revela que foram destinados 106 bilhões de reais em emendas em nos últimos 5 anos, ignorando completamente os indicadores sociais  dos municípios.

A crônica política, segundo Abranches gira em torno de uma versão do ‘conflito entre os poderes da República, na qual são protagonistas uma Presidência que não está funcionando a pleno vapor, um Congresso dominado pelo centrão, conglomerado de partidos amorfos, hospedeiros de caciques expoentes do fisiologismo e um Judiciário intrometido.

Ao falar sobre os grupos grandes no Congresso Nacional, como o antigo e sempre oportunista centrão, Abranches observa o grupo não age coletivamente e que os interesses pessoais e paroquiais tornam o grupo inerte politicamente, mas voraz na ocupação de cargos e nem por isso, responde com lealdade ao governo, nem mesmo quando em votação está algum projeto de interesse público. De acordo com Sérgio Abranches, o poder Judiciário está sendo forçado a intervir e preencher as lacunas, tentando corrigir as omissões de um poder Legislativo fraco, que não responde nem se provocado.

Abranches confirma a percepção que citei acima de que uma transformação rumo a incerteza, exaustão e insatisfação está acontecendo em toda parte e esta transformação está diminuindo a capacidade dos governos, mesmo os mais democráticos de atender as necessidades da população. Esses sentimentos negativos concentram insatisfação até com a democracia, porque ela não está sendo representativa nem está levando avanços a população brasileira.

No fim das contas, esse cenário marcado por insatisfação e insegurança traz enorme volatilidade eleitoral, o que pode beneficiar ou prejudicar qualquer candidato. Elaborar estudos ouvindo as pessoas falar sobre política está ficando perigoso para quem preza o respeito pelo pensamento alheio e a imprevisibilidade pode ter um impacto significativo nas perspectivas políticas do Brasil de 2026. Por ora, a situação política do Brasil em 2025 é uma mistura complexa de oportunidades, desafios e desconfiança.

Partidos não estruturam o voto

É certo que o voto há muito deixou de ter identidade partidária e estudos buscam analisar as razões desse distanciamento, considerando que são claros os sinais de descrença do eleitorado em relação aos partidos políticos e seus dirigentes. Fato é que os partidos não se esforçam para criar vínculos nem com os filiados imagina então, com o eleitor. Como vingança, o eleitor ignora a filiação partidária dos candidatos enquanto definem seus votos.

Isso tem feito o mesmo eleitor manifestar simpatia por candidatos de partidos adversários históricos e isto não lhes parece incoerência. Em termos práticos, os partidos apoiam candidatos cuja curva da pesquisa oscila pra cima.

A confusão observada tem sido tamanha que há dirigente partidário numa coligação formal com determinado candidato e seus filiados pedem votos publicamente para candidato de chapa adversária. O fato é que os partidos sendo insignificantes, não conseguem moldar ou conter os políticos filiados. Embora o judiciário esteja expandindo os parâmetros de seu poder para dentro da política, chama a atenção a falta de rigor quanto a fidelidade partidária.

Vê-se nos atos públicos, no material dos candidatos a aliança informal, mas não secreta de candidatos de coligações adversas sem pudor algum, compartilhando candidatos que nenhuma lógica ideológica conseguiria explicar.

A crise geral de representação política que vivemos tem empurrado questões que tradicionalmente tem sido resolvidas pelos poderes Legislativo ou Executivo para serem apaziguadas pelo judiciário. Esse fenômeno está em pleno vigor no Brasil como consequência direta da crise perene que vive o sistema político, que deixa a porta aberta para os tribunais se tornarem lugares de debates políticos.

Diante de tudo isso, o judiciário orienta decisões sobre a lealdade partidária, coligações, doações financeiras, tempo de propaganda, respostas e outros, dando um tom caracterizado por normas interpretativas, interesses, poder e até ativismo ideológico. A campanha trava num determinado momento, aguardando decisões judiciais, como no caso do deferimento de candidaturas, que em alguns casos, ocorreu apenas a 10 dias do pleito.

As disputas proporcionais são também confundidas devido a um arranjo legal porque ao votar num candidato do partido de sua preferência o eleitor pode ser surpreendido ao ajudar eleger candidato de outro partido, porque o preenchimento das vagas é baseado no cálculo dos quocientes eleitorais essa incongruência acaba elegendo um candidato com menos voto.

Via de regra, as campanhas eleitorais são regidas por incoerências programáticas múltiplas. Esta não seria exceção.