A música aprece quando a política abandona seus limites éticos

A música vai além do campo do entretenimento e se consolida como linguagem política, que mobiliza afetos, constrói identidades coletivas e é excelente ferramenta de contestação, propaganda ou resistência, sobretudo em contextos autoritários. Na América Latina, canções conhecidas denunciaram ditaduras, quando o povo e a mídia foram silenciados. Na África do Sul, músicas foram armas simbólicas contra o apartheid. No Brasil, a música restabeleceu a verdade quando o discurso público foi reprimido. A atuação de cantoras e cantores reforçaram a ideia de que o poder também se constrói por símbolos compartilhados e poucos símbolos são tão poderosos quanto uma música cantada coletivamente em um espaço público.

 “Pra não dizer que não falei das flores” música lançada em 1968, por Geraldo Vandré, mais do que uma música, virou um hino, um manifesto público cantado, o maior símbolo da resistência brasileira contra a ditadura militar. A letra é direta, um ato de convocação imediata para a luta, algo intolerável para o regime autoritário da época. “Vem, vamos embora, que esperar não é saber. Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”. A música foi censurada e Vandré, perseguido pelos militares, se exilou no Chile.  

Foi Fafá de Belém a cantora que deu voz à rua e através dela a cultura assumiu a mediação entre o povo e os militares em um momento de transição incerta no País. A ditadura militar já durava vinte anos. Fafá trocou o palco pelos palanques de grandes comícios, onde cantava para multidões, ao lado de Dante de Oliveira e Ulysses Guimarães, transformando o hino nacional em um ritual cívico. Era uma artista popular, mas rompeu o silêncio confortável ao cantar nas Diretas Já, e ensinou que conquistar a democracia não é pauta apenas de políticos, mas do povo. Mesmo com a derrota da Emenda Dante de Oliveira, o movimento das ´Diretas Já´ marcou o início irreversível da redemocratização. Fafá de Belém cantou e o país reaprendeu a falar. Quando a política brasileira adoeceu, a música falou por ela.

A cantora argentina Mercedes Sosa transformou suas músicas em hinos de resistência política no contexto da ditadura militar de seu país, 1976-1983, período de repressão violenta e desaparecimento de pessoas por parte dos governos militares. Usou a sua música Todo Cambia como linguagem alternativa de protesto, capaz de driblar a censura: “Muda o que é superficial, muda também o profundo. Muda o modo de pensar, muda tudo neste mundo”. Transformou a música Gracias a la Vida, escrita por Violeta Parra, em um hino à dignidade humana, em período de violações de direitos em quase toda América Latina. Foi presa e forçada a buscar exílio político. Mercedes Sosa não representava apenas o protesto, mas sobretudo a resistência, a ideia de que o regime muda, o político passa, o povo permanece.

Em Max Weber, a autoridade nem sempre é institucional, pode ser carismática, fundada na legitimidade moral da causa. O cantor Bruce Springsteen consolidou-se como uma autoridade legítima, que critica o governo americano desde o período de Ronald Reagan e mais duramente, os governos de Donald Trump. Tem sido uma das vozes mais contundentes da crítica moral e política à violência institucional, ao autoritarismo retórico e à diluição da democracia nos Estados Unidos sob Trump e pede sistematicamente o impeachment do presidente. Sua música e seus discursos são acusações diretas e intensas contra a violência. Desde que escreveu a letra de ´Born in the U.SA.` em 1982 crítica as guerras financiadas pelos Estados Unidos: “Então eles colocaram um fuzil na minha mão, me enviaram para uma terra estrangeira Para matar o homem amarelo. Eu nasci nos Estados Unidos”. O patriotismo de Bruce Springsteen é muito crítico e quando um artista com a legitimidade cultural de Springsteen denuncia políticas violentas, ele retira o monopólio do patriotismo das mãos do autoritarismo e nos lembra que democracia exige vigilância constante.

Candidatos com forte marca pessoal

Nos dicionários de política, pragmatismo político é a estratégia em que candidatos tomam suas decisões baseados na conveniência e no que funciona politicamente para vencer a própria eleição em vez de seguirem os princípios ideológicos ou programáticos de seus partidos. A teoria, criticada como falta de coerência e de compromisso por uns, é justificada por outros, como a arte do possível, necessidade de se formar coalizões para vencer e governar.  Por isso nas eleições de 2024 vimos centenas de casos de políticos ideologicamente contrários, se unirem para eleger o mesmo candidato a prefeito, refletindo uma dinâmica considerada bizarra, se analisada de fora, mas necessária para dinâmica da política regional ou local.

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso perguntado certa vez se sua reeleição, considerada tranquila em 1998 iria favorecer politicamente seus aliados disse não acreditar que voto se transfere. Ele pontuou que no Brasil o personalismo é muito forte e que cada candidato entra para a disputa com sua biografia e esta não se transfere, tampouco pode ser fundida com a história dos partidos ao qual pertencem. Portanto, políticos fortes, que não dependem tanto de recurso partidário, tampouco do tempo de horário político do partido, correrão desatrelados, no sentido de sofrer menor controle das legendas e vão acabar, fazendo campanha centrada na robustez da própria imagem e na base construída, independente da máquina partidária ou da imagem de uma liderança maior no estado ou nacional.

Alguns meses nos separam das eleições de 2026 e o que temos colocado claramente é que as eleições acontecerão em um cenário que tem a esquerda unificada em torno do presidente Lula; a extrema-direita, ameaçando rachar, mas ainda sob a liderança do ex-presidente Bolsonaro e os conservadores divididos entre Lula e Bolsonaro. Lembremos que desde 2018 a polarização política entre democracia e autoritarismo vem pautando a política brasileira e deve ainda permear as eleições de 2026.

Esse cenário para 2026 é detalhado pelo Observatório Político e Eleitoral (OPEL)  uma iniciativa conjunta do Núcleo de Estudos sobre a Democracia Brasileira (NUDEB), do Laboratório de Partidos e Política Comparada (LAPPCOM) e do Grupo de Pesquisa Democracia e Teoria para realizar pesquisas sobre política e eleições, numa tentativa de compreender as dinâmicas do sistema político brasileiro e o comportamento das forças políticas durante os períodos eleitorais. O monitoramento cobre todos os estados nas eleições nacionais e as capitais nas municipais. O levantamento mostra acentuada melhora na avaliação do governo federal e que o presidente Lula pontua na frente de todos os eventuais candidatos lembrados, inclusive aumentando a vantagem em relação a alguns deles, considerados candidatos fortes, como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas.

A Quaest também divulgou pesquisa na primeira semana de outubro a aponta praticamente resultado semelhante, fazendo uma ressalva interessante, através do seu diretor: “Lula não consegue captar toda sua aprovação, assim como a oposição não consegue captar toda a rejeição ao governo. É uma clara demonstração de que há uma parcela insatisfeita com todos os nomes, mas que acabará votando em um lado ou outro”.

O pragmatismo político na modernidade líquida, na análise do sociólogo Zygmunt Bauman se manifesta na fluidez e na falta de compromissos de longo prazo. Em vez de ideologias fixas, a política se torna um jogo de adaptação constante a interesses individuais e de curto prazo, marcada pela instabilidade, individualismo e pelas relações frágeis entre os políticos e os partidos ou lideranças nacionais.

41% dos mato-grossenses não se identificam com a direita, esquerda ou centro

Um novo ‘player’ no cenário das eleições de 2026, não significa esquentar figuras tradicionalmente conhecidas para disputar o executivo estadual.  Um novo jogador seria uma figura que despertaria o senso de novidade e alternativa viável, que se posicionaria como uma terceira via ou renovação plena. Não percebo nenhum movimento que indique a existência dessa figura. Um novo player, que não seja retratado com um aventureiro surge em tempos esporádicos, quase sempre para tirar votos de um grupo e redesenhar a campanha com a criação de um novo grupo, como ocorreu em 2002.

É de conhecimento de todos e confirmado pelo Instituto de Pesquisa DataSenado, em estudo do ano passado sobre o posicionamento político dos brasileiros, que Mato Grosso é uma das cinco unidades da federação, num grupo em que estão Rondônia, Santa Catarina, Paraná e Roraima, com maior número de eleitores de direita, cerca de 36%, 9% se declararam progressistas e 8% do centro, enquanto 41% não se identifica com nenhuma destas tipificações e 6% não quiseram responder. Chama atenção o número de mato-grossenses que não se consideram de direita, nem de esquerda e nem de centro. É por aí a campanha: sem player novo e alto investimento político para conquistar esses 41%.

Senão, vejamos, o caminho natural promove a candidatura do vice-governador Otaviano Pivetta, um político forte, prefeito que transformou a pacata Lucas do Rio Verde num importante polo do agronegócio do estado, foi deputado estadual, é vice-governador, com visibilidade e independência. As variáveis indicam que o grupo teria ainda as opções de fomentar as candidaturas do presidente da Assembleia Legislativa, deputado Max Russi, que está na política desde os 22 anos de idade quando se elegeu vereador em Jaciara, onde foi prefeito reeleito, é deputado no terceiro mandato e presidente da Assembleia Legislativa e segue com o projeto de recondução ao quarto mandato e Cidinho Santos, ex-prefeito, ex-presidente da Associação Mato-grossense dos Municípios e ex-senador, que parece mais disposto a investir o tempo e prestígio para eleger o amigo Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, presidente do País.

Por outro lado, o Senador Wellington Fagundes, político há décadas, deputado federal de cinco mandatos, senador reeleito com mais de 825 mil votos, que há tempos sonha e articula a candidatura ao executivo. São 2 grupos separados apenas pelo extremismo e polarização exacerbada que contaminou a política em anos recentes, mas que sempre estiveram próximos, compartilham ideais políticos e colocam em dúvida inclusive, o voto da maioria dos eleitores e o Senador Carlos Fávaro, que ganhou grande visibilidade presidindo entidade ligada ao agro, foi vice-governador do estado, secretário, elegeu-se senador, é ministro da agricultura e deve agregar no seu entorno uma federação progressista, com apoio do presidente da República.

As possibilidades recaem sobre homens conhecidos, com longa trajetória na política. Não são pessoas com tradição de ideário extremista, capazes de incitar cidadãos a invadir, saquear e defecar nas sedes dos poderes. Ao contrário, são homens que entendem que o estado precisa assentar as diferenças para avançar em pautas que nos envergonham, como a epidemia e quase tradição no estado de assassinar mulheres.

Com senso de observação aguçado pela sociologia e ciência política, não percebo nenhuma possibilidade da entrada de um novo ‘player’ na campanha para governo no próximo ano. Não creio que haja cenário, tampouco personagem para encampar tal novidade. Absolutamente diferente do cenário de 2002, quando um ‘player’ novo percebeu a saturação do protagonismo do governo de Dante de Oliveira, que politicamente ocupava demasiado espaço, em importância local e nacional e decretou o seu fim.

Se o afobado come cru, o atrasado perde o trem

Há quem diga que está cedo para articulações políticas, pesquisas, tomadas de decisões visando as próximas eleições. Luiz Carlos Mendonça de Barros, engenheiro e economista, foi presidente do BNDES e ministro das Comunicações do governo FHC, escreveu uma belíssima crônica, em 2003, respondendo a uma comunicação do governo recém-eleito de Lula, que pedia calma e dizia que a política econômica havia acabado de assumir e estava sendo cobrada de forma afobada e que ‘o afobado come cru’. Mendonça de Barros não perdoou o uso de uma metáfora popular na fala do presidente. Escreveu que a sociedade e os que entendem a função de presidente da República esperam uma certa liturgia na comunicação do governo e completou, recorrendo também a sabedoria popular; se o ‘afobado come cru’, o ‘atrasado perde o trem’.

Discutiam ali, o orçamento, liquidez monetária, controle de inflação, rentabilidade de investimentos e Mendonça de Barros escreveu que o excesso de confiança de Lula na qualidade de sua gestão era perigoso e ingênuo, e, novamente recorreu a uma metáfora popular, dizendo que ‘é preciso de alma e porrete’ para enfrentar os descompassos da economia. As metáforas utilizadas na crônica encaixam perfeitamente no momento político que vivemos, há pouco mais de um ano das eleições. É preferível comer cru a perder o trem e é igualmente preferível se lançar transparente e corajosamente nas articulações do que alimentar recuo especulativo e frouxidão.

Em momentos de crise de confiança na política, seja por motivação interna ou externa, quando se pensa no Brasil de hoje em dia e nas próximas eleições, poucos se sentem tranquilos. Estamos transitando entre os extremos, com o volume emocional ligado muito alto. Nos dividimos entre; animados ou desanimados; com medo ou com confiança no futuro; triste ou feliz; seguro ou inseguro; com mais medo ou com mais esperança. A violência simbólica da discussão política presencial ou, mas mídias sociais é creditada as campanhas publicitárias e equipes de mídia dos candidatos, segundo o psicólogo brasiliense Gilberto Godoy, para quem as eleições têm sido dominadas por raiva, medo e discursos emocionais, onde um é bom, e o outro é mau. Um presta, e o outro não presta.

Por essa razão não é cedo para explorar e massificar nomes que em lugar do medo, possam transmitir a esperança. Não é cedo para afinar o discurso que, em vez da divisão, do comportamento radical e intolerante pregue a promoção do bem-estar social, da construção de casas, escolas, creches, hospitais. Não é cedo para mostrar aos 2,6 milhões de eleitores que você não é só retórica, que você, candidato, discute ideias e planos e não apenas emoções, impressões e fantasias.

Em Cuiabá, semana passada, o presidente do Supremo Tribunal Federal, Ministro Luís Roberto Barroso, lembrou que a polarização entre grupos políticos rivais sempre tensionou as eleições no Brasil; nos anos 1930 a 1964, o período de Getúlio Vargas trouxe polarização entre o PTB e UDN, com o PSD, tentando, sem sucesso, a conciliação. No período mais recente, houve a polarização entre o PT e PSDB e agora PT e PL (ou bolsonarismo). Observamos que a polarização, contudo, se deu muito mais em torno de figuras políticas fortes, como, Vargas, Lula e Bolsonaro do que em torno de conteúdo e pautas partidárias.

A cura é falar mais e mais sobre política para melhorar a qualidade do voto, para assegurar que as divergências não reproduzam radicalismos, ódios ou paixões violentas, para que, enfim, as relações voltam a ser reconstruídas com equilíbrio e civilizadamente.

Cenários complexos

Adentramos um período caracterizado por incerteza e insegurança econômica e política, sobretudo. Como escreveu Zygmunt Bauman nada mais parece fixo e a própria tecnologia que avançou como uma perspectiva de progresso inadiável, propaga tanta informação, que não podemos absorvê-la para descobrir o que está realmente acontecendo. Qualquer um, de qualquer lugar pode usar a tecnologia para qualquer propósito, sem respeito algum às instituições e aos especialistas. Ao falar sobre os avanços tecnológicos, o sociólogo e escritor brasileiro Sérgio Abranches observa que a democracia permaneceu analógica enquanto a sociedade se tornou digital.

Em uma longa entrevista a um respeitado veículo de comunicação sobre economia, Abranches analisou detalhadamente o fluxo dos desacertos políticos atuais e inicialmente já deixou claro que com esse congresso que elegemos nenhuma reforma estrutural jamais acontecerá. Acusa o legislativo brasileiro de colocar a faca no pescoço do executivo nas discussões e chantagens que envolvem as emendas parlamentares, utilizadas, grosso modo, para alimentar processo de reeleição dos parlamentares.

Um estudo publicado pelo Instituto Não aceito Corrupção revela que foram destinados 106 bilhões de reais em emendas em nos últimos 5 anos, ignorando completamente os indicadores sociais  dos municípios.

A crônica política, segundo Abranches gira em torno de uma versão do ‘conflito entre os poderes da República, na qual são protagonistas uma Presidência que não está funcionando a pleno vapor, um Congresso dominado pelo centrão, conglomerado de partidos amorfos, hospedeiros de caciques expoentes do fisiologismo e um Judiciário intrometido.

Ao falar sobre os grupos grandes no Congresso Nacional, como o antigo e sempre oportunista centrão, Abranches observa o grupo não age coletivamente e que os interesses pessoais e paroquiais tornam o grupo inerte politicamente, mas voraz na ocupação de cargos e nem por isso, responde com lealdade ao governo, nem mesmo quando em votação está algum projeto de interesse público. De acordo com Sérgio Abranches, o poder Judiciário está sendo forçado a intervir e preencher as lacunas, tentando corrigir as omissões de um poder Legislativo fraco, que não responde nem se provocado.

Abranches confirma a percepção que citei acima de que uma transformação rumo a incerteza, exaustão e insatisfação está acontecendo em toda parte e esta transformação está diminuindo a capacidade dos governos, mesmo os mais democráticos de atender as necessidades da população. Esses sentimentos negativos concentram insatisfação até com a democracia, porque ela não está sendo representativa nem está levando avanços a população brasileira.

No fim das contas, esse cenário marcado por insatisfação e insegurança traz enorme volatilidade eleitoral, o que pode beneficiar ou prejudicar qualquer candidato. Elaborar estudos ouvindo as pessoas falar sobre política está ficando perigoso para quem preza o respeito pelo pensamento alheio e a imprevisibilidade pode ter um impacto significativo nas perspectivas políticas do Brasil de 2026. Por ora, a situação política do Brasil em 2025 é uma mistura complexa de oportunidades, desafios e desconfiança.

Respeito na política significa olhar para dentro, discordar sem deslegitimar

Se a política não servir para melhorar a condição humana seria pura expressão do poder. Não interessaria minimamente nem a mim nem a vocês, escreveu Norberto Bobbio, jurista italiano e senador vitalício da Itália, para quem não devemos assistir às coisas deste mundo com inerte resignação, tampouco com previsões ou apostas. “Deixemos as previsões aos astrólogos, e as apostas aos jogadores. Os primeiros contam com as correntes inexoráveis da necessidade, os segundos confiam no acaso. O homem de razão limita-se a levantar hipóteses, partindo de alguns dados de fato”.

Nicolau  Maquiavel, filósofo italiano, que foi diplomata e homem de estado, conhecedor dos mecanismos e instrumentos de poder, escreveu há quase 5 séculos, O Príncipe, um dos mais importantes escritos sobre política do mundo e ensinou que a natureza humana é variável, que os homens são inconstantes e que, se é fácil persuadi-los de alguma coisa, é difícil fortalecê-los ou mantê-los por muito tempo em tal persuasão, porque o povo sempre tem o desejo de mudança na política,  de mudar os governantes, esperando que algo positivo aconteça. Enfim, uma obra que dialoga conosco até os dias de hoje, é política na prática.

Aqui e agora, as opiniões políticas das pessoas tornaram-se as suas identidades, estamos meio bravos, meio descontentes, profundamente divididos, sem diálogo, cheios de rótulos e estereótipos, reforçando atitudes negativas, distorcendo as interpretações das pessoas sobre posicionamento político. Ainda assim, restamos parte esperançosos e tentando enviar mensagens aos políticos expressando a preocupação e a frustração. Se queres perceber em que nível está o pavio do cidadão leia os comentários escritos abaixo das entrevistas de políticos. Há rasgos enormes de descontentamento, sugestões e acusações, que precisam ser ouvidas e respondidas. Não é cedo para falar de política, para se informar, se posicionar, sem se desculpar pelo lado que você escolher.

Não nos preocupemos com a exatidão dos nossos movimentos à esquerda ou à direita, movamos para criar as condições para um desacordo produtivo, baseado em princípios respeitosos. Insistamos no respeito, sem evitar conversas complexas sobre política. Admitamos que o outro está engajado em projeto de viés contrário e respeitar isso não é ser legal, não é ser tolerante. Respeito na política significa olhar para dentro, discordar sem deslegitimar, falar por si e não pela tribo. Buscar a verdade sobre os candidatos e não seguir um ou outro pela aventada facilidade de vitória.

Nunca é cedo para se debater a política. A construção dos projetos leva tempo para amadurecer, depende de tantas coisas que escapam à compreensão profunda de uma maioria, mas que merecem ser acompanhados com atenção, ainda que em partes. A construção do tipo ideal na política também leva tempo. Não há como buscar no outro o reflexo do nosso caráter, das nossas relações, das circunstâncias, das durezas econômicas e sociais que vivemos. Não deve haver ansiedade por trás da escolha do homem em quem votar, até porque é necessário separar o homem dos rótulos que colam nele, com a finalidade de distorcer a imagem e saciar a sede de espetacularização que há na política, muitas vezes apresentada em um palco para manipular e conquistar a audiência.  

Leia sobre política, converse sobre política, envolva-se com a política. Eleve a voz sempre que precisar cobrar direitos. Vinicius de Moraes escreveu que a maior solidão é a do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana. A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo.

A confiança na política não deve ser fé cega

2024 foi um ano marcante para as eleições, cerca da metade da população do mundo foi às urnas em 76 países, o maior número já registado. Também acabou sendo um ano difícil para os candidatos alinharem seus discursos aos seus partidos políticos tradicionais, resistentes às mudanças e modernização de pautas. Abalados pelo aumento dos preços, divididos por questões culturais e radicalismo político, irritados com a falta de solução para os problemas estruturais de sempre nas áreas da saúde, educação e segurança, os eleitores de toda parte enviaram uma mensagem de frustração.

Muitas pessoas ainda se sentem desconectadas de lideranças maiores, dos partidos e das instituições políticas na capital do estado ou Brasília e, compartilham a crença de que os partidos e líderes do establishment estão fora de contato com os cidadãos comuns, portanto, o eleitor tentou encontrar ressonância de seus sonhos e esperanças nas lideranças locais.

2025, um ano não eleitoral, um ano silencioso que traz maior fluidez em todos os trâmites e relações da vida pública, inclusive, é o ano onde sentiremos os efeitos das mudanças que foram chanceladas nas urnas ano passado e nem sempre veremos ou ouviremos, mas certamente é o ano de avaliação dos apoios políticos e financeiros concedidos nas eleições de 2024, de avaliar propostas para mudanças de partidos, articulações e composições nacionais visando disputas próximas. Há tratativas avançadas para a construção de novas federações, fusão permanente de partidos, troca no comando nacional de partidos importantes, visando ampliar as filiações e fortalecer minimamente o vínculo de confiança entre políticos e povo.

Li o relatório do Edelman Trust Barometer, uma empresa de comunicação global que estuda há mais de 25 anos, por meio de gerenciamento de reputação, a influência da confiança da sociedade no governo, na mídia, empresas e ONGs, lançado em Londres em 25 de janeiro passado, onde o ano de 2025 foi apresentado com uma leitura política preocupante, de um fato que não é novo.

A confiança na classe política foi mencionada como um fator crítico em toda parte do globo e explorada no relacionamento entre governos e as pessoas que dependem de seus serviços. A confiança nas instituições; mídia, governo e classe política em geral, continua a diminuir e a culpa é compartilhada com as próprias pessoas que foram pesquisadas e não conseguem sequer distinguir fatos de informação falsa, um universo de pessoas que se enquadram na categoria de ativismo hostil, sobretudo nas mídias sociais. Ou seja, são pessoas que lamentam, xingam e espalham notícias falsas induzidas por líderes radicais, algoritmos e robôs. 

O relatório encontrou pessoas cautelosas com governos que não cumprem promessas e veículos de mídia que priorizam a espetacularização da notícia em vez de divulgar e esclarecer os fatos relevantes. Ao final, os estudos veem no ceticismo uma força poderosa para a responsabilização e apontam que sem desconfiança, não mantemos as instituições honestas e as democracias fortes. Ainda bem!

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE), na abertura dos trabalhos semana passada declarou, que 2025 é o ano preparatório para as eleições de 2026. Portanto, um ano semi eleitoral. A Ministra Carmen Lúcia, sempre com apontamentos precisos disse que trabalha “com cuidado especial para garantir ao cidadão informação correta, o ano todo, para que haja, sempre, manifestação de liberdade, não exposição manipulada de ódios e violências”.

Em ano sem eleições, as pesquisas de opinião pública relacionadas a postulantes de candidaturas podem ser livremente encomendadas e divulgadas, sem registro na Justiça Eleitoral.  A artilharia montada em 2025 pelos políticos, na construção de suas reputações pessoais e políticas está apontada para as eleições de 2026 e o TSE vigilante, espera que as mulheres em número expressivamente maior se apresentem para ocupar espaços políticos importantes e não sejam abatidas pela violência política de gênero dentro dos partidos. O TSE promete empenho rigoroso no enfrentamento às ´fakes news` para que estas, não interfiram no resultado das eleições e para impedir que a desigualdade financeira promova, como tem sido, a derrota da representatividade das minorias.

Apetite pelo domínio e desumanização do outro

Uma semana de leitura tensa tentando compreender por que os seres humanos são tão terríveis uns para com os outros.  Em uma longa entrevista o psicólogo canadense Paul Bloom, Ph.D em psicologia cognitiva pelo MIT e destacado professor de Psicologia e Ciência Cognitiva na Universidade de Yale fala sobre as raízes da crueldade humana e de início provoca susto, ao dizer que as pessoas cometem atrocidades contra outros, porque acreditam que quem eles estão matando ou violentando não são seres humanos, isso é chamado de violência instrumental, onde há algum fim que querem alcançar, e as pessoas estão no caminho, por isso não pensam nelas como pessoas, mas como empecilhos.

O caso estarrecedor de violência policial praticado em São Paulo semana passada, reforça a tese que muitas vezes um ser humano não enxerga o outro como humano. Um policial arremessa de uma ponte um jovem que havia sido abordado por um grupo de policiais. O caso não parou nos depoimentos mentirosos dos policiais porque uma pessoa assistiu e gravou a cena. O jovem foi deliberadamente jogado no córrego, sem que nenhum policial do grupo houvesse tentado evitar a violência. O policial está preso e outros 12 foram afastados por terem sido coniventes com a brutalidade. Engraçado, se não fosse trágico, mas em depoimento, o policial afirmou que a intenção era jogar o jovem no chão. Como queria jogá-lo no chão se o jogou para o alto?

A explicação do professor Paul Bloom é que as pessoas só são capazes de fazer coisas terríveis a outras pessoas depois de as terem desumanizado. Quando você deixa de apreciar a humanidade de outras pessoas fazemos muitas coisas horríveis. E nas situações degradantes e humilhantes, trata-se de torturar pessoas porque achamos que elas merecem. É também sobre o prazer de ser dominante sobre outra pessoa. Portanto, a desumanização e a soberba são reais e terríveis.

Alto grau de crueldade nasce da desumanização, alguma crueldade nasce da perda de controle, de um desejo instrumental de conseguir algo que se deseja: sexo, dinheiro, poder. O desejo de ter um bom desempenho social tem um peso desagradável e enorme. Se você consegue ganhar respeito ajudando as pessoas, isso é ótimo.  Outros, porém, conseguem ganhar respeito dominando fisicamente as pessoas com agressão e violência, isso é destrutivo, mas acontece muito e é o que estamos narrando neste artigo.  

De 20 de novembro a 10 de dezembro ocorre uma movimentação chamada de “21 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres”, campanha que busca conscientizar a população sobre os diferentes tipos de agressão contra meninas e mulheres em todo o mundo. Apesar dos avanços na legislação, os números relacionados à violência contra as mulheres no Brasil, são alarmantes. Nos movimentos mobilizados para a campanha o que vê são mulheres falando para mulheres, com alcance zero para os companheiros que as agridem e matam.

Temos essa tendência de superestimar até que ponto somos os destaques morais, os justos, os corajosos, os heróis. A questão é que não nos comportamos em situações estressantes da maneira que pensamos ou gostaríamos e Paul Bloom arremata mostrando um estudo de laboratório comprovando que nas condições certas, mesmo diante da insanidade do ato, a maioria de nós é capaz de fazer as coisas terríveis que a princípio condenamos.

Não está sendo fácil pertencer a uma sociedade obcecada pelo poder e pela honra, pelo apetite pelo domínio e punição em vez de preocupada com a atenção e dignidade da pessoa humana.

O estado é o sistema

A busca incessante pela reforma dos sistemas políticos é parte indissociável do progresso do mundo civilizado. Há concretamente descontentamento com a qualidade de muitos serviços públicos, há descrença com a velha forma de fazer política. Há como reformar a máquina pública. Entretanto, não se deve propagar a confusa ideia entre promover reformas e ser antissistema.   Na ciência política e das relações internacionais, o sistema é concebido como um conjunto de princípios, normas, instituições, conceitos, crenças e valores que definem os limites do que é convencional e legitimam as ações dos cidadãos dentro desses limites. Do sistema fazem parte: a ordem política, social, econômica e cultural sob a qual vivemos, a ordem racial e hierarquias de gênero, todas trabalhando juntas como um mecanismo complexo, porém, único.

Para fazer as mudanças que o Brasil precisa, é preciso negociar com esse sistema que aqui está. Não é possível descontruir as instituições por questões de preferências ou bravatas em ciclos eleitorais.

O sistema ordena e controla as funções e relações entre a sociedade humana, a economia, a população e o mundo natural. Este é o ponto de partida para compreender o sistema, isto é, o Estado, cuja característica central é a estrutura jurídica, administrativa e tomada de decisões. O Estado moderno é interligado entre governos, instituições, organizações e grupos informais, como os grupos da sociedade civil, partidos políticos, famílias.  empresas, instituições financeiras. São antissistema os movimentos e pessoas que tratam as instituições com desdém e se opõem radicalmente ao sistema dominante, ao estado, como um todo e ainda, se intitulam como os messias capazes de descontruir a ordem estabelecida.

Todos os dias, frases desconexas, como: “venho para combater o sistema”, “sou um homem da iniciativa privada, sou contra o sistema que aí está”, surgem nos discursos dos homens que se lançam candidatos e não querem assumir que, de fato, pretendem abraçar e serem abraçados pelo sistema. Ora, o sistema, em certo momento já beneficiou a todos os homens públicos e privados. E quem já está na política, seja investindo em candidaturas ou em cargos eletivos ou não, estão promovendo seus crescimentos dentro do sistema. E diante da luz das câmeras, dizem ser contra o establishment, palavra em inglês que melhor define todo o arcabouço que constitui o estado. Isso não vai colar.

Lembro-me de Fernando Collor, candidato à presidência da República em 1989, com discurso antissistema, pregando a destituição do sistema vigente, caçando marajás pelo país. Bradava contra um sistema, que já havia lhe possibilitado ser prefeito de Alagoas e deputado federal. Enquanto presidente, não promoveu ruptura alguma, não reformou parte do sistema que criticou e arrasta consigo ainda hoje, o estigma de haver confiscado as economias poupadas de milhares de brasileiros, além de haver permitido que montassem atrás de si, uma rede gigantesca de tráfico de influência no governo. O resultado, foi a votação a favor da abertura do processo de impeachment dois anos depois da posse.

Pablo Marçal declarou ser antissistema. Criticou tudo, não apresentou proposta alguma para reformar o estado brasileiro, não foi para o segundo turno nas eleições municipais em São Paulo.

Quem não quer verdadeiramente fazer parte do sistema, deve ficar fora da política. Não é possível promover desenvolvimento sem utilizar emendas parlamentares, sem assinar convênios com órgãos do governo federal; não é possível entrar na política e virar as costas para as relações institucionais com o estado e empresas privadas.

Lendas associadas ao nome de Maquiavel

Ainfluência política do pensador florentino, Nicolau Maquiavel (Niccolo Machiavelli) jamais deixou de ser sentida, apesar de os termos ‘maquiavelismo’, ‘maquiavélico’ terem sido vinculados a uma ação política baseada na imoralidade, na violência e na impiedade. Claude Lefort, filósofo francês, sugere que a identificação da política com o maquiavelismo se dá na medida que a política é o mal. Pierre Bayle, no Dictionnaire historique et critique, reforça a opinião dominante, segundo a qual o ensino de Maquiavel, o secretário florentino possui um carácter cínico, irreligioso e demoníaco. O público, à época, estava persuadido de que o maquiavelismo e a arte de reinar tiranicamente eram termos de igual significado.  

Porém, Maquiavel foi um grande intelectual da época Renascentista, Nascido na Itália, em 1469, o pensador é estudado até os dias de hoje por suas teorias de como fazer política. Maquiavel esteve por muito tempo no centro do poder na Itália, enquanto   secretário   e   chanceler   da República. Chefiou missões junto a outros Estados italianos e na França, realizou inovações em diversos campos da   administração, em   especial   a criação de um exército regular. Anos mais tarde, foi preso, torturado, teve sua grande obra O Principe, publicada postumamente.

A verdade é que, quase 500 anos depois de sua morte é imensa a contribuição de Maquiavel para o desenvolvimento político dos Estados Modernos. Observado o contexto dos escritos, de um pensador que nasceu na Itália desconfigurada e totalitária, não conformava com a impotência e a decadência italiana, com a ausência de um Estado Nacional forte e com as humilhações e submissão à vontade das grandes potências, principalmente da França e alimentava o sonho de um dia ver a Itália unificada, sob um governo forte.

Suas reflexões sobre o Estado colocaram-no como um clássico das ciências políticas e um autor indispensável para se entender a dinâmica política ainda hoje. Não por acaso é considerado o pai da filosofia política moderna. Um homem que ensinou que quem pretende fundar um Estado e dar-lhe leis, deve antecipadamente pressupor os homens como maus e sempre prontos a agir em maldade. Ensinou também que os homens costumam ser ingratos, volúveis, dissimulados, covardes e ambiciosos de dinheiro; enquanto proporcionar benefícios todos estão contigo, oferecem-te sangue, bens, a vida até os filhos.

Maquiavel mostrou que uma multidão livre deve ter medo de confiar a sua defesa a um homem só, o qual, quando não conseguir agradar a todos, vai trair a multidão em vez de governá-la. O entendimento desse Tratado Político V levou Jean-Jacques Rousseau, mais de século depois a se pronunciar dizendo que Maquiavel fazia crer que estava dando lições aos reis, mas estava falando indiretamente com o povo. 

Em tempo de campanha política, discursos elaborados por jornalistas e marqueteiros, ouve-se citação das obras de Maquiavel aqui e ali. Que fique claro que virtú, é um termo que expressa habilidade e virtude tipicamente políticas, nada a ver com conteúdo moral ou religioso e que para Maquiavel era muito relevante a participação do povo na política. “Pouco importa ao príncipe as tramas e armadilhas do inimigo se o povo estiver ao seu lado.”