Querer não é poder

O povo sempre cria perspectivas de melhoras quando uma eleição se aproxima, embora saibamos que mudanças não ocorrem com a simples troca de governante.

As Eleições Municipais de 2024 serão realizadas no dia 6 de outubro, em primeiro turno, e no dia 27 do mesmo mês, em segundo turno. As eleições ocorrerão em 5.569 municípios brasileiros, dos quais 142 em Mato Grosso. Neste sábado, 04 de novembro, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) realiza um procedimento técnico de migração de bancos de dados para um novo servidor, visando a segurança das eleições.

Vivenciamos o momento em que os partidos despertam, as visitas aos pretensos candidatos se intensificam, fazem listas, promovem cortes, cortejam, tentam demonstrar certo controle no que serão as eleições de 2024. Mas lembro-lhes de um ensinamento de Napoleão Bonaparte: “O diretório murmurará e decretará o que lhe aprouver; eu, porém, continuarei sendo o que sou e meu exército me obedecerá”. Assim se comportarão os candidatos já testados nas urnas, com boa reputação política e sólida base eleitoral.

Em 1927, a cidadezinha de Palmeiras dos Índios (AL) elegeu seu mais famoso prefeito, Graciliano Ramos de Oliveira, o renomado escritor de Vidas secas e Memórias do Cárcere, entre muitas outras. Ele não participou da campanha eleitoral, não abraçou pessoas nas ruas, não fez promessas, não se envolveu em articulações políticas para a escolha dos vereadores, não negociou favores com os fazendeiros, cujo poder se sobrepunha às leis. Graciliano Ramos foi eleito em 7 de outubro de 1927, como candidato único. Todos renunciaram diante da sua inabalável reputação.

Na Assembleia Legislativa, as conversas, nem tão iniciais apontam que pelo menos três deputados confirmarão suas candidaturas para o pleito de 2024. Dos 24 parlamentares estaduais da atual legislatura apenas cinco, Barranco, Júlio, Max, Moreto, Nininho se elegeram deputados depois de terem passado pelo crivo do executivo de seus municípios. Wilson Santos elegeu-se prefeito após ter cumprido mandatos de deputado estadual e federal.

Saindo do parlamento para a disputa local, os deputados já sabem o que os esperam para construir o caminho da vitória. As campanhas, por mais que mudem iniciam sempre com o questionamento íntimo sobre as reais condições para se pleitear a vaga de prefeito. Aí entram as condições financeiras, a atuação consciente como cidadão, base eleitoral, apoio de grupos políticos diversos e importantes. Ainda assim, querer não é poder!

Na disputa existem atores concorrentes que precisam ser analisados para serem vencidos. A construção de aliança prévia com os apoiadores para amplificar a mensagem, ganhar novos acessos as redes sociais, enfim, contar sua história para um número cada vez maior de pessoas dependem muito da reputação, ou seja, do juízo de valor que as pessoas fazem sobre a sua figura pública. Marcelo Vitorino, um expert em Marketing Político tem cursos excepcionais sobre a construção de reputação política e nãos se trata de criar um personagem e sim, organizar a identidade, evidenciar os pontos marcantes já que o eleitor busca identificação de valores semelhantes aos seus nos representantes políticos.

Nesse momento em que o eleitor está ainda espreitando desconfiado, é melhor ser verdadeiro e preparar-se para enfrentar as dificuldades que serão postas a prova, as ameaças, a propagação das notícias falsas a seu respeito e de familiares, sem perder o foco e a fé.

Eles tem ódio, nós temos sonhos

Desde 13 de setembro do ano passado, dia da criação do grupo, faço parte dos 250 comunicadores da região centro-oeste engajados na campanha de Lula. No país, o grupo chegou a 7.800 pessoas, indicadas pelos 10 partidos que formaram a coligação para apoiar a chapa Lula-Alckmin. Lembro-me da primeira mensagem do presidente, em reunião virtual de boas-vindas ao grupo: “nós temos uma vantagem em relação aos robôs do adversário. Somos seres humanos e não queremos perder nossos sentimentos. Vamos colocar nas nossas mensagens aquilo que mais toca o ser humano, vamos colocar nosso coração para falar de amor, de esperança, de futuro. Transmitam muita solidariedade e fraternidade nas mensagens de vocês”.

Edinho, coordenador da campanha, organizou a rede de comunicadores, sobretudo para combater os robôs e fake news. Na primeira reunião virtual, a mensagem de orientação foi significativa: “Nós não vamos competir com a mesma estratégia do gabinete de ódio. Vamos nos organizar, mostrar força, se eles têm robôs, nós temos sonhos”. Com o manual de comunicadores nas mãos, íamos fortalecendo a comunicação de Lula e repostando as mensagens, os vídeos, sendo cada dia mais convencidos que o Brasil dos nossos sonhos precisa ser construído com muitas mãos.

Diariamente e algumas vezes por dia, éramos alimentados com as notícias da campanha, como estava o vira-voto nas redes e nas ruas, como estava repercutindo o desempenho do presidente nas grandes reuniões e nos debates. A reta final, os programas eleitorais, os aliados pelo Brasil afora, o entusiasmo internacional com a possível vitória, o orgulho de Lula pelo povo brasileiro, o respeito pelo Brasil. Nas ruas e nas redes até hoje sob o mantra é que devemos unir os divergentes para enfrentar os antagônicos.

Ao tempo em que nos alimentava a esperança, convivíamos com um presidente que foi um mau militar, preso por indisciplina e processado pelo exército por planejar explodir bombas em quartéis. Depois de 26 anos no Parlamento, com apenas dois projetos de leis aprovados, o deputado omisso, defendeu a tortura e os torturadores, agressivo com as mulheres, chamou uma deputada de ‘vagabunda’, virou presidente e continuou pregando o ódio e espalhando notícias falsas nos quatro anos de mandato. 

Hoje, a posse, diante de uma gigantesca mobilização das polícias do Distrito Federal e da Polícia Federal para garantir a segurança não só do presidente, mas também das delegações estrangeiras com 12 chefes de estado com presenças confirmadas e a população diversa, alegre que está sendo esperada na esplanada. Como disse o Ministro da Justiça Flávio Dino: “Pequenos grupos terroristas e extremistas não vão colocar as instituições da democracia brasileira contra a parede”.

No dia seguinte à posse os desafios: O novo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva começará com o difícil desafio de reverter o isolamento e o desprestígio internacional e regional que marcaram a política brasileira nos últimos quatro anos. O desprezo do governo do ex-presidente Jair Bolsonaro pela governança global produziu uma imagem vergonhosa para um membro do Conselho de Segurança da ONU. Lula precisa limpar a poeira das cadeiras abandonadas pelo governo Bolsonaro nas Américas, a começar pela União das Nações Sul-Americanas (Unasul) e no mundo.

Em suma, o Brasil deve retomar as posições e princípios de convivência internacional, como o compromisso com a paz, os direitos humanos e o desenvolvimento, que nortearam ações dos governos brasileiros por muitas décadas, eliminando os vestígios das posições de Bolsonaro que fizeram do Brasil uma caixa de ressonância para as visões políticas da extrema direita.

Não seja um mau perdedor

Há uma realidade que não pode ser ignorada. Nenhuma manifestação violenta, vigílias bizarras de pessoas com celular na cabeça e lanterna ligada para enviar sinais para extraterrestres, marchas nas frentes dos quartéis, pneus ardendo em chamas para bloquear estradas, teria acontecido se o presidente Bolsonaro não fosse um mau perdedor. O fato de haver sumido, ter deixado passar tão longo tempo sem uma palavra sequer aos seus eleitores, sem declarar aceitar o resultado soberano das urnas, mostra o quão pouco ele se importa com a governabilidade do país, com o movimento conservador, patriotismo, com a política e com seus eleitores.

  As manifestações violentas e antidemocráticas não teriam acontecido se o presidente Bolsonaro tivesse vislumbrado o tamanho da força que teria para comandar a oposição no país. Mas conscientemente escolheu o silêncio perigoso como senha para demonstrar sua crença nessas teorias da conspiração. Ele é, por isso, moralmente responsável pelos dias de caos e violência que vivemos. Deixando claro para os que se fizeram de desentendidos, que violência não é apenas um ato que deixa mortos e feridos.

Bolsonaro perdeu uma eleição que vários institutos de pesquisa anunciaram que ele perderia, não foi uma surpresa, não deu zebra. Perdeu para um ex-presidente da República que deixou o governo, após dois mandatos com índice de aprovação altíssima, superior a 80%, sem contar que o cidadão Bolsonaro, extremista, indisciplinado e rude foi um adversário potente contra o Presidente Bolsonaro, que tentou a reeleição. Perdeu e espelhou-se em Donald Trump! Ele e seus seguidores desafiaram os resultados de maneira semelhante a Trump e seus partidários republicanos após a eleição presidencial de 2020 nos EUA. Igualmente argumentaram, sem provas reais, que a eleição havia sido fraudada por todos os tipos de métodos, desde a fraude cibernética, até a falha no número de patrimônio das urnas. 

O jornal americano The New York Times, logo após as eleições brasileiras, publicou um artigo dizendo que o que acontece em Washington nem sempre fica em Washington, que Trump deixou como legado, um manual sobre como envenenar a política com desinformação, mentiras e tentar desacreditar os resultados eleitorais e as transições pacíficas de poder e o manual está sendo exportado e implantado além dos Estados Unidos e se tornando uma ameaça transnacional à democracia.

Disse ainda que os métodos de Trump foram rigorosamente adotados no Brasil por Jair Bolsonaro, que divulgou notícias falsas, desinformação durante sua presidência, semeou desconfiança no sistema eleitoral nos últimos anos e, por último tentou desacreditar o processo eleitoral depois de perder a eleição para Lula no mês passado. Os métodos de Trump foram repetidos na Colômbia nas eleições de maio, quando o candidato da direita radical inspirado no ex-presidente americano perdeu à eleição e contestou a contagem de votos. Como aconteceu nos EUA, a sustentação frágil da denúncia deu em nada. O presidente eleito, Gustavo Petro tomou posse em 7 de agosto.

Até o momento Bolsonaro não reconheceu a derrota, não cumprimentou o vencedor, não seguiu nenhum rito, rasgou o protocolo. Insiste e aposta na tese mal ajambrada que a eleição foi roubada em vários estados, no segundo turno e apenas nas urnas que ele teve menor votação. Ao cair na toca do coelho das teorias da conspiração de Trump, Bolsonaro sabotou o próprio final do mandato, delegou responsabilidades inerentes ao seu cargo de presidente nas semanas que não foi trabalhar. Agarrou-se ao seu partido, PL, para assumir a peça jurídica da anulação de parte dos votos do segundo turno, como resposta, o partido levou uma multa salgadíssima do Tribunal Superior Eleitoral por haver acionado a justiça de forma irresponsável (litigância de má-fé).

Parafraseando o ministro Barroso, diria que eu humanamente perdi a paciência!

Quando os iguais se juntam em uma realidade distópica

A ocasião e o contexto que a pessoa existe são assimilados à sua essência, aos valores que a pessoa preza e prega. E nos espaços onde os laços humanos foram substituídos por redes de relacionamento e os grupos se identificam por ações que os distinguem dos que estão fora de suas redes, são os iguais se juntando, ignorando que viver em sociedade é não ter controle sobre tudo e que as regras que orientam minhas ações são exatamente as mesmas que orientam as ações dos outros sobre mim.

Há muitas coisas acontecendo que são perturbadoras e expressam um movimento perigoso em que parte da sociedade está se envolvendo em situações delirantes e se tornando cada vez mais radical. Os iguais não querem se misturar, construíram uma realidade distópica, onde tudo está organizado de forma opressiva e invocam Deus para justificar os discursos de ódio, a exclusão e a vingança, mas quem leu a Bíblia conhece o principal mandamento de Deus, no livro de João 15:17 “este é o meu mandamento: amem-se uns aos outros,” ou em 1 João 4:20: “Se alguém afirmar: ‘Eu amo a Deus’, mas odiar seu irmão, é mentiroso, pois quem não ama seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê”.

Narro aqui pouquíssimos acontecimentos pesquisados na última semana para externar uma questão intrigante: a quantidade de pessoas que estão se expondo em solidariedade a um movimento onde falta humanidade, ética profissional e respeito às divergências.

Na cidade de Sinop, o diretor de uma escola particular demitiu um professor que criticou em suas redes sociais, o bloqueio das estradas no estado; uma empresária de Alta Floresta, em áudio escancara o preconceito, a xenofobia e crueldade ao dizer que já verificou como foi a votação dos funcionários e vai demitir um a um dos que votaram no candidato adversário ao dela, proferindo um discurso carregado de ódio, inclusive contra Deus, a quem ela acusa de tê-la abandonado depois de tantas orações fervorosas, de joelhos e promete que não mais o louvará. Ainda, no inconcebível áudio, a empresária ameaça separar-se do marido se este, ainda que por trabalho, pisar em terra nordestina. Ah, o Nordeste não perde muito!

O que dizer do áudio do médico sul-matogrossense, que causou pânico em mais de 10 mil eleitores, onde ele, carregado de ódio e desprezo disse: “quem votou no Lula e chegar morrendo no hospital, vai morrer. Porque eu não vou ajudar”. O doutor é diretor clínico do Hospital Regional de Nova Andradina e literalmente cuspiu no juramento de Hipócrates. “A saúde do meu doente será a minha primeira preocupação”.

Em Cuiabá, vários empresários estão sendo expostos numa “lista negra” intitulada ‘Empresas cujos donos são petistas’, com indicação de que suas empresas devem ser boicotadas pela classe empresarial e por clientes partidários do candidato que perdeu as eleições.

Aconteceu com o Restaurante Le Farine e sua proprietária tornou pública sua indignação, desacataram familiar do proprietário do tradicional Chopão. Também citado na lista, o médico, Dr. Michel Patrick emitiu nota repudiando veementemente a exposição a qual fora submetido, registrou boletim de ocorrência para que o covarde autor/a da nota seja identificado e responsabilizado criminalmente.

Li mensagens de mães ensinando filhos pequenos a excluir e se afastar do convívio de colegas, cujos pais sejam de “esquerda” e ouvi o áudio da inescrupulosa professora desligando alunos “de esquerda” do grupo de orientação no mestrado, por mensagem de WhatsApp, que aliás, é a forma única de comunicação válida que esses tipos conhecem.  

Fechar o comércio, acampar, orar, fazer churrasco na frente aos quartéis, grudar na frente de caminhões, dar berros e sair marchando, cantar o hino nacional 10 vezes ao dia, são direitos inquestionáveis, cada um com a porção de loucura que lhe é inerente, todavia, não é sinal de progresso observarmos que onde antes havia acampamentos das pessoas amontoados debaixo de lona preta, reclamando um lote de terra, vê-se tendas climatizadas, pagas por certo com dinheiro de grandes empresários, dos quais muitos gozam do benefício da renúncia fiscal ou algo que o valha para abrigar um grupo de pessoas birrentas, egocêntricas, que se nutrem de notícias falsas e não suportam o fato de suas vontades não terem prevalecido nas urnas.

Interesses pessoais e a grandeza do estado

Embora estejamos (povo e instituições) acostumados a realizar eleições, Charles-Alexis de Tocqueville, pensador e político liberal francês, adverte: “é sempre necessário considerar o tempo que precede imediatamente a eleição e aquele durante o qual ela se realiza como uma época de crise nacional”. O homem contemporâneo pode ter se esquecido de Tocqueville, que também chama à atenção para a importância do princípio da participação popular, onde é importante a vigilância do cidadão aos políticos que elegem para que a vontade popular não seja corrompida.

Séculos mais tarde, estamos envolvidos num momento de pré-eleições gerais e o sentimento é um misto de tensão pela advertência citada acima e alegria por entender o momento como convite para a participação efetiva em uma festa democrática, para a libertação da política alienada e tosca que não me representa e votar com a esperança de estar contribuindo para diminuir o fosso que separa o poder da sociedade e o fosso que separa o capital dos visíveis bolsões de pobreza.  

“O espírito democrático pode fazer maravilhas, mas não produzirá mais que um governo sem virtude e sem grandeza, se cada um de seus membros estiver mais preocupado com seus assuntos privados do que com as questões públicas; mais com seus interesses pessoais do que a grandeza do seu estado”, ensina Tocqueville, para quem os indivíduos ocupados exclusivamente com coisas de interesses pessoais, se entregam a uma certa cegueira social e esse comportamento gera indiferença para com a gestão da coisa pública.

Estamos sempre nos perguntando quem será afetado e beneficiado pelas ações dos políticos. Tocqueville aponta a política como um meio de reconduzir os homens uns aos outros, obrigando-os a saírem de seus confortos individuais para se ajudarem mutuamente. A partir daí, os homens aprendem a submeter a sua vontade à dos outros e a transformar seus esforços particulares em ação para o bem comum. Como outras associações, a política tem a missão de fazer com que os homens se unam para a concretização de objetivos, que seriam impensáveis de serem realizados sem a comunhão dos esforços.

Em geral uma ação política que reflete na felicidade de pessoas de uma comunidade distante e pobre, não repercute minimamente aqui na capital ou nas cidades mais ricas; uma escola que ensina uma criança quilombola ou indígena em uma comunidade longínqua e esquecida não recebe nenhum reconhecimento pelo esforço, pelos quilômetros vencidos. Embora os homens sejam mais facilmente notados quando estão inseridos num contexto coletivo e solidário, as dificuldades do outro são percebidas apenas nos seus arredores, não além.

Se não agora, quando você vai votar para se sentir representado? Deputados, senador, governador e presidente devem ter propostas de ações que cheguem em todas as comunidades e cidades, que o bem-estar proporcionado a uma região do estado seja aclamado nas outras regiões, que os irmãos que não precisarem mais ir para a fila dos ossinhos sejam exaltados como fruto do esforço coletivo dos homens e mulheres desse estado tão rico.  

Aqui muito se tentou, pouco se fez

Aqui muito se tentou, pouco se fez… a inteligência é minguada*

Os políticos afinam seus discursos, os dirigentes partidários saem a campo a procura de outsiders, de preferência com discurso de exaltação da ética e da honestidade para disputar as eleições de outubro próximo. Essa estratégia, contudo, é centenária e foi assim na busca de um nome fora das oligarquias que dominavam a política no interior de Alagoas, que um dos maiores escritores brasileiros elegeu-se prefeito.

Em 1927, a cidadezinha de Palmeiras dos Índios elegeu seu mais famoso prefeito, Graciliano Ramos de Oliveira, o escritor de renome mundial autor de obras como,  Vidas secas e Memórias do Cárcere, entre muitas outras.

Administrativamente, o município de Palmeiras dos Índios, no agreste alagoano, não ia bem, precisava de mudança. Graciliano Ramos, relutou e por fim aceitou concorrer convencido por amigos de diferentes grupos políticos que apostaram na sua honradez. Aceitou o desafio não sem antes disparar contra os que duvidaram dele: “Apareça o filho da puta que disse que eu não sabia montar em burro bravo!”

Não participou da campanha eleitoral, não fez promessas, não se envolveu em articulações políticas para a escolha dos vereadores mesmo ciente que Palmeira dos Índios não fugia do padrão das cidades pequenas e pobres do agreste, onde o poder dos fazendeiros se sobrepunha ao interesse coletivo e os figurões afrontavam as leis vigentes. Graciliano Ramos foi eleito no pleito de 7 de outubro de 1927. Não teve adversário.

Sem se amedrontar com os poderosos, começou a cobrar o cumprimento das leis, negando favores aos políticos tradicionais da região. Cobrava resultados dos auxiliares e impaciente substituia ocupantes de cargos de confiança que não cumprissem horário e as ordens do prefeito, sem considerar o parentesco com seus apoiadores.

Proibiu a movimentação de gado, cavalos, porcos pelas ruas, muitos propretários insistiam na prática. O prefeito ordenou que todos os bichos encontrados nas ruas fossem recolhidos e o propretário, multado. Ao saber que seu pai, Sebastião Ramos, não acatara a ordem, mandou o fiscal multá-lo. Magoado, o pai veio reclamar com o filho prefeito. Alarmado ouviu de Graciliano que “prefeito não tem pai” e que mandaria apreender os animais toda vez que fossem deixados soltos na rua.

Em outro episódio, Graciliano demitiu seu secretário de Finanças ao desconfiar de sua lisura no cuidado com os cofres do município. O secretário era o irmão do vice-prefeito, que imediatamente foi até o prefeito reclamar da exoneração e dizer que, se o irmão saísse, ele sairia também. O escritor não se abalou e continuou a governar sem vice-prefeito.

Se de um lado a sua postura desassombrada contrariava interesses das oligarquias, por outro ganhava a simpatia da gente comum, pelas obras realizadas, construção de escolas, estradas, nas quais utilizava a mão de obra dos presos.

Ao fim do primeiro ano de mandato Graciliano escreveu no relatório de prestação de contas: “Dos funcionários que encontrei restam poucos: saíram os que faziam política no trabalho e os que não faziam coisa nenhuma”. Os relatórios sobre as contas de Palmeiras dos Índios chamavam a atenção do governador, pela austeridade nos gastos relatados e pela escrita inusitada, que narrava a situação do município e dos moradores com bom humor e ironia.

A administração de Palmeira dos Índios começou a figurar como um exemplo de trabalho e honestidade, o que colocou o município em uma situação de destaque e  levou o governador a convidar Graciliano Ramos para assumir a chefia da Imprensa Oficial do Estado.

Dois anos após tomar posse, Graciliano Ramos aceitou o convite do governador, renunciou à Prefeitura de Palmeira dos Índios em 30 de abril de 1930, para assumir a Imprensa Oficial do Estado, em Maceió. As pessoas que tiveram seus interesses contrariados comemoraram a sua saída da prefeitura. Tempo depois, Gracialiano Ramos foi nomeado o equivalente a Secretário de Educação do Estado de Alagoas.

Palmeiras dos Índios é hoje o quarto maior município de Alagoas.

*frase de Graciliano Ramos num dos relatórios de prestação de contas enviados ao governador de Alagoas.

Sambam no Congresso todos os dias

Não é verdade que o Carnaval encobre atos escusos do Congresso Nacional e dos políticos em geral em esferas abaixo. Divertir-se não exclui a possibilidade de continuar exercendo marcação cerrada na tramitação de assuntos relevantes para o bem-estar da nação.

Não há como colocar samba na economia, na falta de segurança, na reforma educacional em andamento. Acontece que o Carnaval se estabeleceu no país assim como os problemas acima citados e uma coisa não deve tirar o foco da outra.

O samba desce a avenida aqui nos trópicos e a vida segue seu ciclo inexorável com os progressivos registros de ataques do Aedes Aegypti, transmitindo dengue, zika e chikungunya e a novidade do surgimento de muitos casos de febre amarela, sobretudo em Minas Gerais, mortes por excesso de velocidade, condução sob influência de álcool e outras substâncias, mas sob a ótica do turismo e não da cultura, é preciso deleitar o mundo com a imagem das mulheres seminuas!

Pode não ser este um momento de ensinar ou aprender, mas nem é tampouco um momento de sentir-se seduzido só porque não resistiu e assim como eu, foi espiar a festa pagã. Ao fazermos uma leitura racional sobre o Carnaval, não podemos simplesmente assimilar a falação sobre a perda de produtividade do país no período porque estamos diante de um evento colocado pelos turistas, no nível de eventos esportivos globais, como as Olimpíadas.

Além disso, o carnaval gera uma imensidão de empregos temporários, no ano passado, algo em torno de 250 mil pessoas, entre costureiras, bordadeiras,cenógrafos foram contratados pelas escolas de samba e blocos para produzir o show.

Na representação do teatro da vida, sigamos lutando com equilíbrio entre informação e ação, trabalhando entre ética e estética, o tolerável e o intolerável. Gostar ou não de Carnaval, não importa a ninguém senão a si mesmo, portanto, não se debulhe em críticas vãs, tampouco se perca a ponto de desconectar-se da realidade.

Nenhum ser perde a noção do meio termo, do equilíbrio e bom senso somente porque é carnaval. Alguns perdem essas noções básicas de civilidade porque bebem.

Depois do carnaval seremos sacudidos pela votação da reforma da previdência e suas pequenas maldades, que deve elevar o valor da contribuição e a idade mínima para o cidadão aposentar, além disso, o tempo de contribuição deve subir para míseros 49 anos. Tranquilo, né?

Também em pauta, o pacote anticorrupção, votado misteriosamente numa manobra no meio da noite e ainda reforma do ensino médio. Diante do sinistro que nos espera, saibamos que a imagem que o carnaval sustenta no exterior principalmente, é fruto das plantações da mídia brasileira, que ora endeusa e veste a fantasia, ora  excomunga os foliões e a desordem.

Na Orla do Porto de Cuiabá, a mágica batida dos tamborins do grupo Olodum não deixou ninguém ficar profetizando ou filosofando se em tempo de carnaval os brasileiros são malandros ou heróis.