O político que fala e faz

Oescritor Dias Gomes em O Bem-amado, recorreu aos imaginários políticos do ano de 1962, quando escreveu a novela; como os políticos, as promessas e os coronéis. A novela se passa na fictícia Sucupira, onde Odorico Paraguaçu, líder político e coronel abastado, vereador, candidata-se a prefeito, tendo como plataforma política a construção de um cemitério na cidade. Odorico vence a eleição e já empossado como prefeito, arquiteta planos para construir o cemitério. Odorico Paraguaçu é um político de palavra e ensina que, em política: “os finalmentes justificam os não obstantes”.

O prefeito Odorico pergunta ao seu fiel secretário de finanças, Dirceu Borboleta se há recurso no caixa da prefeitura para executar a obra. Dirceu diz que encontrou um restinho de recurso destinado a melhorar a luz da cidade. Anima-se Odorico respondendo que com um restinho já se faz um cemiteriozinho e argumenta quer não há necessidade de se melhorar a luz porque não há necessidade de se ler a noite. Desvia-se a verba e constrói o cemitério. Os falecidos hão de vir! Ordena que a banda se mantenha ensaiando a marcha fúnebre de Chopin, escreve o discurso, coloca o coveiro em alerta e decide não inaugurar o cemitério sem um morto.

Quando era ainda vereador em Sucupira, Odorico prometeu acabar com o futebol no largo da igreja e acabou, prometeu acabar com o namorismo e o sem-vergonhismo atrás do forte e acabou. Esse era o grande trunfo de Odorico, um político que se fez pela linguagem, pelo discurso e pela credibilidade de cumprir as promessas, mesmo se valendo dos desvios de verba, da desapropriação de terreno. Dias Gomes, nessa novela crítica, recheada de práticas não republicanas, que muitos de nós sabemos que ainda existe, mas a obra, contextualizada, retratava o imaginário do mundo político daquela época em que a palavra empenhada tinha peso.

O cemitério acabou sendo inaugurado com o enterro do prefeito Odorico Paraguaçu, assassinado por Zeca Diabo.

As eleições municipais trazem à tona personagens perdidos, que prometem o que não podem fazer ou que não sabem como irão realizar, fazem promessas inconstitucionais e de responsabilidade de outro nível de poder. Entretanto, a credibilidade, tão essencial na imagem de um candidato é, pois, a capacidade que o sujeito deve ter para se fazer acreditar naquilo que ele afirma, uma arma que expõe a imagem de si mesmo de maneira estratégica, que tem como objetivo convencer o auditório; por isso, ao planejar a campanha o candidato deveria fazer introspectivamente, uma pergunta: Como fazer para eu ser levado a sério?

Cientistas e analistas políticos afirmam que frequentemente os discursos inflamados servem apenas para influenciar eleitores desavisados e vulneráveis e tem pouca ligação com o que realmente pretendem fazer os candidatos depois de eleitos. Até porque, depois de eleito, o candidato não governa sozinho. Depende de aprovação de outros poderes para executar os planos e ações. E os candidatos (todos) sabem muito bem disso e se insistem em transitar entre a linha das promessas vãs e do desrespeito aos eleitores só revela que o candidato é essencialmente um vendedor de ilusões e que dirá qualquer coisa para conseguir o seu voto.

Aristóteles, em Retórica, considera que a persuasão se dá, sobretudo por meio do ethos, que é a imagem que o candidato apresenta de si no discurso. Assim define Aristóteles: “Éthos é o apelo que se serve da credibilidade, da autoridade, do caráter ou do background do orador, da identificação com sua terra, para levar a audiência a confiar nele e então aceitar os seus argumentos.”

O político é o reflexo da sociedade que o elege

Oex-presidente Barack Obama, ao participar do evento “Cidadão Global”, em 2017, disse que muitas pessoas dizem que odeiam os políticos e os governos, mas que a política e o governo são reflexos de nós mesmos. Se uma sociedade é saudável, a política também será, se a sociedade está doente, a política também será.

Após seis anos foram presos pela Polícia Federal, por determinação do ministro Alexandre de Moraes, relator do inquérito, o deputado federal pelo Rio de Janeiro, Chiquinho Brazão, o conselheiro do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro, Domingos Brazão, irmão do deputado e Rivaldo Barbosa, chefe da Polícia Civil do Rio de Janeiro na época do crime, em 2018, acusados de serem os mandantes do assassinato da vereadora Marielle Franco e de seu motorista Anderson Gomes. Marielle foi assassinada porque tentava impedir que grupos das milícias ocupassem espaços de representação política nas comunidades, infiltrando nas associações, fazendo intermediação política inclusive com os poderes constituídos na cidade do Rio de Janeiro.

A prisão do deputado federal Chiquinho Brazão, ocorrida em março passado, precisou ser chancelada pela Câmara Federal, que conforme explica a Agência Câmara de Notícias, a Constituição Federal prevê que um deputado só pode ser preso em flagrante de crime inafiançável. Nesse caso, a Câmara precisa referendar a prisão por maioria absoluta, em votação aberta.

A Câmara dos Deputados colocou a votação no plenário e 277 parlamentares votaram a favor de manter preso e sem fiança o deputado Chiquinho Brazão. Por incrível que possa parecer houve 129 deputados, dos quais, 5, de Mato Grosso, Abílio Brunini, Amália Barros, Coronel Assis, Coronel Fernanda e José Medeiros, votaram pela libertação do mandante do crime e 28 outros se abstiveram de votar. Para manter a prisão preventiva, são necessários 257 votos, ou seja, a maioria absoluta dos membros da Câmara.

Apesar do chulo argumento de sair em defesa das prerrogativas do Congresso Nacional frente ao Supremo Tribunal Federal, a maioria da bancada bolsonarista de todos os estados votou favorável a soltura do mandante do assassinato. ‘Votei pelo respeito à Carta Magna e pelas prerrogativas dos deputados federais, blábláblá…´  

A classe política é, sem tirar nem pôr, o reflexo da sociedade que a elege. E assassinos com assento no Parlamento federal não é novidade alguma. Em 1963, o pai do ex-presidente Fernando Collor de Mello, o ex-senador Arnon de Mello, foi armado ao Senado Federal para matar um adversário político, Silvestre Péricles. Atirou, errou o alvo e acertou José Kairala, que estava no último dia de suplência de outro parlamentar. Arnon de Mello foi preso em flagrante e ficou detido durante sete meses. No final do processo, ele foi inocentado e voltou para as suas atividades de senador da República e seguiu a vida, sendo um mau exemplo.

Em 1998, o médico e deputado federal Talvane Albuquerque Neto, foi condenado por ser o mandante do assassinato da deputada federal eleita Ceci Cunha, morta a tiros horas depois de ter sido diplomada, junto com três parentes. Albuquerque Neto foi condenado a 103 anos de prisão. Para a Justiça, o motivo do crime foi político: com a morte de Ceci, o médico assumiria o seu mandato; motivação semelhante já originou tentativa de assassinato aqui em Cuiabá, lembram?

Ao pesquisar os casos relembrei a macabra história do ex- coronel e Deputado Federal Hildebrando Pascoal, que torturava suas vítimas, cortando-as em partes com motosserra. Foi denunciado em 1997, preso em 1999, condenado a mais de 100 anos de prisão por fazer parte de grupo de extermínio e tráfico de drogas.  

Na história bem recente do Parlamento federal tivemos o caso perverso da parlamentar, pastora e mandante de crime, Flordelis, que foi condenada a 50 anos de prisão pelo assassinato do marido, o pastor Anderson do Carmo, morto dentro da garagem da própria casa com mais de 30 tiros, no meio do mandato da ex-deputada.

Querer não é poder

O povo sempre cria perspectivas de melhoras quando uma eleição se aproxima, embora saibamos que mudanças não ocorrem com a simples troca de governante.

As Eleições Municipais de 2024 serão realizadas no dia 6 de outubro, em primeiro turno, e no dia 27 do mesmo mês, em segundo turno. As eleições ocorrerão em 5.569 municípios brasileiros, dos quais 142 em Mato Grosso. Neste sábado, 04 de novembro, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) realiza um procedimento técnico de migração de bancos de dados para um novo servidor, visando a segurança das eleições.

Vivenciamos o momento em que os partidos despertam, as visitas aos pretensos candidatos se intensificam, fazem listas, promovem cortes, cortejam, tentam demonstrar certo controle no que serão as eleições de 2024. Mas lembro-lhes de um ensinamento de Napoleão Bonaparte: “O diretório murmurará e decretará o que lhe aprouver; eu, porém, continuarei sendo o que sou e meu exército me obedecerá”. Assim se comportarão os candidatos já testados nas urnas, com boa reputação política e sólida base eleitoral.

Em 1927, a cidadezinha de Palmeiras dos Índios (AL) elegeu seu mais famoso prefeito, Graciliano Ramos de Oliveira, o renomado escritor de Vidas secas e Memórias do Cárcere, entre muitas outras. Ele não participou da campanha eleitoral, não abraçou pessoas nas ruas, não fez promessas, não se envolveu em articulações políticas para a escolha dos vereadores, não negociou favores com os fazendeiros, cujo poder se sobrepunha às leis. Graciliano Ramos foi eleito em 7 de outubro de 1927, como candidato único. Todos renunciaram diante da sua inabalável reputação.

Na Assembleia Legislativa, as conversas, nem tão iniciais apontam que pelo menos três deputados confirmarão suas candidaturas para o pleito de 2024. Dos 24 parlamentares estaduais da atual legislatura apenas cinco, Barranco, Júlio, Max, Moreto, Nininho se elegeram deputados depois de terem passado pelo crivo do executivo de seus municípios. Wilson Santos elegeu-se prefeito após ter cumprido mandatos de deputado estadual e federal.

Saindo do parlamento para a disputa local, os deputados já sabem o que os esperam para construir o caminho da vitória. As campanhas, por mais que mudem iniciam sempre com o questionamento íntimo sobre as reais condições para se pleitear a vaga de prefeito. Aí entram as condições financeiras, a atuação consciente como cidadão, base eleitoral, apoio de grupos políticos diversos e importantes. Ainda assim, querer não é poder!

Na disputa existem atores concorrentes que precisam ser analisados para serem vencidos. A construção de aliança prévia com os apoiadores para amplificar a mensagem, ganhar novos acessos as redes sociais, enfim, contar sua história para um número cada vez maior de pessoas dependem muito da reputação, ou seja, do juízo de valor que as pessoas fazem sobre a sua figura pública. Marcelo Vitorino, um expert em Marketing Político tem cursos excepcionais sobre a construção de reputação política e nãos se trata de criar um personagem e sim, organizar a identidade, evidenciar os pontos marcantes já que o eleitor busca identificação de valores semelhantes aos seus nos representantes políticos.

Nesse momento em que o eleitor está ainda espreitando desconfiado, é melhor ser verdadeiro e preparar-se para enfrentar as dificuldades que serão postas a prova, as ameaças, a propagação das notícias falsas a seu respeito e de familiares, sem perder o foco e a fé.

Vencendo a visão estereotipada de poder

Sete décadas após a aprovação do voto feminino no México, o eleitorado mexicano se prepara para eleger, pela primeira vez, uma mulher como Presidente da República, num país onde ocorrem milhares de feminicídios e violência política contra mulheres. Ocorre que as duas maiores forças políticas mexicana, a coligação conservadora, a Frente Ampla, e o partido progressista Morena, escolheram mulheres para as representarem no pleito eleitoral de junho de 2024. A eleição presidencial será decidida entre duas mulheres.

Nos últimos anos, a classe política mexicana deu passos extraordinários no sentido de estabelecer a paridade entre homens e mulheres nas principais instituições do país. Em 2014 o governo mexicano promoveu uma grande reforma político-eleitoral, incentivando a participação política das mulheres nos processos eleitorais em todos os níveis. Uma das medidas foi o fortalecimento e ampliação dos poderes do Instituto Nacional Eleitoral (INE) que pode desde o início do processo, rejeitar o registro do número de candidatos de um gênero que exceda a paridade.

O resultado da reforma foi sentido na eleição seguinte, onde houve um avanço histórico na representação das mulheres no Congresso Federal. As candidatas eleitas ao Senado chegaram a 49% e 49,2% para a Câmara dos Deputados, além uma mulher ter sido eleita, pela primeira vez, governadora da capital do México. Hoje, as mulheres representam 50% da Câmara dos Deputados, o Supremo Tribunal é liderado por uma mulher e a composição ministerial do Governo tem exatamente o mesmo número de homens e de mulheres.

As candidatas a presidente são mulheres de boa formação, talhadas na política e na vida empresarial e venceram as primárias de seus partidos. Cláudia Sheinbaum, é uma cientista, integrante da elite cultural mexicana, ex-governadora da Cidade do México, integrante do atual governo progressista de Obrador e Xóchitl Gálvez, a outra candidata é engenheira, uma mulher de origem humilde, descendente de um povo indígena, que teve uma história de sucesso como estudante universitária e empresária, é senadora.

No Brasil, de uma bancada de 513 parlamentares federais, apenas 92 são mulheres (17%). Inicialmente, no governo Lula havia 37 ministérios, dos quais 11 eram ocupados por mulheres. No decorrer de 9 meses, 2 mulheres já foram substituídas por homens. Agora são 38 ministérios e apenas 9 ministras.

No Brasil, desafios antigos e recentes são basicamente os mesmos. Em muitos lugares, as mulheres ainda não são vistas ou aceitas como líderes confiáveis e capazes devido aspectos culturais quanto ao gênero. Existem muitas abordagens críticas à utilização das quotas, que foram estabelecidas como ferramenta para promover a igualdade de gênero e garantir que as mulheres tenham a oportunidade de participar minimamente da vida política.

Apesar dos avanços na representação das mulheres em cargos de poder, um número surpreendente de pessoas em toda parte que ainda não confia nas mulheres para liderar de forma eficaz. O senso comum reverbera que as mulheres não são agentes políticos eficazes, decididas e autoritárias, características tradicionalmente associadas aos homens e aos líderes. Vê-se que as noções de liderança estão ainda intrinsicamente ligadas às percepções de masculinidade.

Apesar dos preconceitos, muitas crenças mudaram com o tempo. Mas não podemos confundir a representação das mulheres nas escolas, universidades, no mercado de trabalho, como a mesma coisa que representação política, porque se pensarmos que já existe equilíbrio de gênero, é menos provável que pensemos no quão importante é eleger mulheres para cargos políticos. Assim, crenças erradas podem levar a distração quanto a eleição de mulheres.

Para alcançar a igualdade de gênero na política não é necessário mudar a imagem das mulheres ou dos homens, mas mudar a imagem dos papéis dos líderes. O líder não precisa necessariamente ser um homem forte, que grita, hiperfocado na economia, o que representa uma visão estereotipada do poder, tanto para homens quanto para mulheres.

Problema feminino não é mero complemento

ACâmara dos Deputados comemorou com a devida honra os 10 anos de criação da Secretaria da Mulher na Casa, que hoje tem uma bancada de 92 deputadas (já incluída Gisela Simona) num universo de 513 parlamentares. A sub-representação ainda é gritante, já que a União Interparlamentar indica que a participação de mulheres nos parlamentos global é de 26%. Por aqui, patinamos em míseros 17%.

Embora o percentual de mulheres eleitas seja menor do que o de homens, os indicadores da Câmara Federal, publicados pela Agência Câmara de Notícias, registram que as deputadas apresentam mais projetos, proporcionalmente que os homens. Desde a criação da Secretaria da Mulher, em 2013, até o final de 2022, as leis aprovadas a partir de proposições e articulação da bancada feminina, que já foi chamada de “Bancada do Batom”, tem pautas ligadas a saúde, combate às diversas formas de violência, educação, mercado de trabalho, assistência e garantias de direitos.

Pois bem, é inegável que o cenário da participação da mulher na política está longe de ser o ideal e volto a um passado recente para lembrar da pré-campanha do Senador americano Bernie Sanders, principal rival de Joe Biden no Partido Democrata às eleições de 2020, onde também concorria, uma mulher, a senadora Elizabeth Warren. Com um discurso alinhado às pautas femininas foi Bernie Sanders o escolhido pelas mulheres famosas em seus trabalhos e discursos pela igualdade de tratamento, pagamento e prestígio a homens e mulheres nas mesmas condições de classe e de trabalho.

 A filósofa Nancy Fraser, professora de Filosofia e Política, sempre apontou as mulheres como as principais responsáveis ​​pela segurança e sobrevivência das famílias e das comunidades. De acordo com Fraser, as mulheres são as responsáveis ​​globalmente pela criação da próxima geração, tentando proteger as crianças quando fogem da violência em casa e enfrentam as fronteiras militarizadas que prendem até crianças.

Ela liderou um movimento intenso demonstrando às mulheres que embora a Senadora Warren fosse um nome respeitável, o discurso e as pautas que ela defendia não representavam os ideais femininos e feministas, da grande maioria dos trabalhadores com salários baixos. E as mulheres representavam essa maioria e aumento do salário-mínimo, aumentaria a liberdade feminina, tanto em casa quanto no trabalho. E dar as mulheres mais direitos nas negociações, daria a elas uma arma mais poderosa na luta contra o assédio e agressão sexual, sobretudo nos locais de trabalho. Puxou coro para que o apoio das mulheres fosse para o candidato que havia pautado o aumento do salário-mínimo, questões de gêneros, uma colocação da mulher por inteira dentro da sociedade como mote principal da campanha.

Criticada por apoiar um candidato homem, Nancy Fraser justificou: “Não nos interpretem mal. Gostaríamos de ver uma mulher presidente tanto quanto qualquer outra pessoa. Mas isso não pode nos custar a chance de construir um movimento que possa realmente melhorar a vida da grande maioria das mulheres”.

O respeito às pautas femininas não é prioritário em país nenhum, mas ganham relevância, cobranças e impulsionam positivamente a agenda dos grandes líderes. Ainda, um complemento. Ao final, Bernie Sanders recuou à candidatura e para apoiar Joe Biden, o fez assumir publicamente os compromissos assumidos com as lideranças femininas e feministas, apresentadas a ele pela filósofa Nancy Fraser.

Daqui há pouco começa a campanha para 2024 e não basta escolher uma candidata ou candidato que tenha alguma proposta feminina no seu programa. Precisamos apoiar uma campanha comprometida com a mudança estrutural que as mulheres precisam. 

Nós somos a terra do golpe

Começo esse artigo apropriando-me de uma aula do historiador Leandro Karnal, numa entrevista, onde ele faz uma retrospectiva sobre os golpes de estado a que a população brasileira já foi submetida: “Nós nunca tivemos uma guerra civil. Tivemos revolução Farroupilhas, Balaiada, Sabinada, Cabanagem, separação de São Paulo, nada disso foi guerra civil, foram revoltas, regenciais e com bons motivos. Guerra civil é coisa de argentino e colombiano. Nós nunca vivemos uma guerra civil”. 

Continua Karnal: “O estado brasileiro é uma sucessão de golpes desde a Proclamação da República em 1889, pelo menos, para lembrar que a independência em 1822 foi um golpe, a maioridade em 1840 foi golpe, 1891 foi outro golpe, nesse caso, Floriano Peixoto, a revolução de 1930 foi um golpe, 1937 houve golpe, em 1945 Getúlio é derrubado por um golpe, tentam derrubá-lo em 1954 com um golpe, há um contragolpe em novembro de 1955. Ou seja, nós somos a terra do golpe. Ou seja, isso é uma tradição e uma tradição de violência”. Houve a tentativa de golpe para barrar a posse de João Goulart em 1961, o sangrento golpe militar de 31 de março de 1964, o golpe de 2016, presumido por muitos historiadores, para derrubar Dilma Rousseff do poder.

Em outra entrevista Karnal é enfático e irônico: “Quando eu vejo alguém defendendo a volta dos militares eu olho para a idade. Se for um jovem eu me sinto no dever de explicar o que é o arbítrio, o que é a cassação de direitos como o habeas-corpus, o que foi o AI-5, o que é tortura de mulheres grávidas, o que é o fim da liberdade da imprensa, o que foi a barbárie da concentração de renda durante a ditadura militar e se for uma pessoa de idade, eu atribuo à falta de memória que a idade pode estar provocando na pessoa”. Ambas entrevistas, embora atualíssimas ocorreram no ano de 2016. 

Tem havido golpes e fumaças de golpes ao longo da nossa história, mas a tradição da violência não é algo fácil de aceitar. Ver a capital do país depredada por seus próprios filhos, ver a violência explodir das incubadoras montadas nas portas dos quartéis foi um momento de apavorante desolação e perda de fé nessa parcela significativa da população envolvida em um mundo sombrio de negacionismo, fake news e discurso de ódio, que guardou todos os detalhes sórdidos do episódio no Capitólio, nos Estados Unidos para repeti-los aqui. Em ambos os casos, o levante do mar de pessoas raivosas e mal-intencionadas foi estimulado pelos presidentes que, derrotados não aceitam o resultado das eleições.   

Não punir severamente as pessoas envolvidas no ato de selvageria ocorrido em Brasília pode perpetuar a instabilidade política, fragilizar a democracia. É necessário que sejam responsabilizados criminalmente, por isso, alegra-me que estas pessoas e quem as financiou estejam sendo identificadas, processadas e presas, sejam jovens ou idosos, estejam elas nas forças armadas, no congresso, no agro ou qualquer outro setor econômico.

Não baixemos à guarda, eles não merecem confiança! Chega de dar voz a lunáticos e malfeitores, que tentam justificar suas bandalheiras alegando estar defendendo o Brasil e a população brasileira das garras do comunismo. Narrativa, no mínimo digna de deboche!

Não esperava que o Supremo ficasse quieto

Não está em curso uma colisão contra a democracia brasileira. O que temos é um presidente que não acredita na democracia e um presidente eleito que acredita, são brasileiros de diferentes lados do espectro político que exibem antipatias e hostilidades recíprocas em níveis alarmantes. Não parece estar claro que uma identidade política anti-Bolsonaro não depende de vinculação prévia do cidadão ao Partido dos Trabalhadores. A distância ideológica de Bolsonaro é um dos pontos cruciais para muitos brasileiros terem se afastado dele e temerem que o Brasil continuasse nas mãos do grupo que governa o país até 31 de dezembro próximo. O coordenador do grupo de transição, vice-presidente Geraldo Alckmin, ao encerrar as atividades, atônito falou da bagunça generalizada que encontrou, apagão de dados, sistemas que deixaram de ser alimentados desde 2020.

Restaurar o consenso, o respeito pelas diferenças políticas, a esperança do maior número possível de brasileiros no novo governo é um propósito que deve ser severamente perseguido a partir de janeiro, essa é a aposta para conter o ímpeto dos políticos divisionistas, que estarão na oposição. Estamos vivendo um tempo de enfraquecimento dos laços partidários, do envelhecimento das práticas dos líderes políticos com mandatos, baixo nível de confiança na política como forma efetiva e única de diminuir as desigualdades sociais, não estamos sós, como país, vivendo o drama vergonhoso de ter parcela da população (que seja insignificante, numericamente) pedindo retorno da ditadura militar. Chega, né?

Enquanto o presidente derrotado destilava ataques à justiça, à mídia e ao sistema eleitoral, o Ministro Alexandre de Moraes reformulava seu trabalho em torno da proteção da democracia brasileira, autorizado pelos novos e amplos poderes que lhe foram concedidos desde 2019. A cada pequena erosão das normas democráticas, surge a figura do Ministro Alexandre de Moraes, para restaurar às fissuras, chamando à responsabilidade os que covardemente incitam e se escondem atrás dos indígenas (por serem inimputáveis), dos caminhoneiros, por serem seus empregados, das donas de casa, por serem suas esposas. Ou você já presenciou um grande empresário ou parlamentar dormindo em barraca na frente de algum quartel, aqui ou em Brasília?

O dinheiro de poucos tem sustentado a arruaça de ‘bois de piranha’ que viajaram para Brasília para fortalecer a ebulição da radicalização, queimando carros aleatoriamente pelas ruas, dificultando as perspectivas de consenso democrático. Essa semana foram expedidos 100 mandados de busca e apreensão contra alguns acusados de incitar e financiar atos antidemocráticos. A esses, a sugestão seria a leitura de obras que relatam as atrocidades cometidas pelos militares na época sombria do fechamento do congresso, da existência dos centros de tortura, do DOI-Codi. Então, chega de proselitismo, de pregação de falsas crenças. O TSE pós eleição tem tarefas a cumprir, o Ministro Alexandre de Moraes não pode nem deve ser o guardião solitário da nossa democracia.

Porém, por ora, tem servido a punição rigorosa daqueles que tentam tumultuar o processo eleitoral democrático, nenhum passo atrás rumo às trevas, nenhuma leniência com, seja lá quem for, que estiver atravancando nosso caminho para inaugurar um novo tempo no nosso país.  

Na política e no futebol, raramente perde quem deu o seu melhor

Temos que nos sentar com algum desconforto se quisermos ter uma coexistência pacífica e civilizada uns com os outros. Ser continuamente consumido em ver o outro como errado e fracassado nos impede de experimentar uma gama mais ampla de relacionamentos, de fazer novas descobertas e talvez também de nos maravilhar com a diversidade da vida e aprender com as derrotas.

Desarmar o espírito não é fácil, mas que arrogância desmedida é essa que nos faz crer que nascemos fadados à vitória, sempre? Milhares de pessoas não conseguiram absorver e superar a derrota na política e agora, no futebol. Há pessoas que não sabem o que é uma derrota, porque se recusam a reconhecê-la e vivem em estado de negação. Na verdade, aquele que nunca foi derrotado talvez nunca tenha, de fato, lutado.

Há uma tradicional frase que diz que política, futebol e religião não se misturam. Na prática, não é assim. Política e futebol se misturam há muito tempo e isso voltou latente durante a ditadura militar brasileira, quando o presidente Castelo Branco determinou intervenção dos militares na Confederação de Futebol. Em 1970, o Presidente Médici, que era apaixonado por futebol, tentou interferir na escalação da seleção brasileira, porque não gostou da convocação de Dadá Maravilha, o que levou o técnico João Saldanha a rebater corajosamente: “ele escala o ministério dele, que a seleção escalo eu”. João Saldanha mais tarde foi demitido, dizem, como ato de retaliação de Médici

Um sopro de esperança contra a ditadura militar nasceu dentro do grandioso clube do Corinthians. Atento ao cenário da época, quando a Ditadura Militar começava a perder força, o sociólogo Adilson Monteiro Alves decidiu que um movimento a favor do voto popular e da democracia deveria começar dentro do Parque São Jorge. E ao lado dos craques, Sócrates, Casagrande e Wladimir, iniciaram o movimento chamado Democracia Corinthiana. O nome foi criado pela lenda da publicidade brasileira, Washington Olivetto, que estampou frases de efeito nas camisas do time, com mensagens pedindo o restabelecimento das eleições e a volta da democracia no país. A democracia Corinthiana apoiou e vestiu a camisa da campanha das ‘Diretas Já’, idealizada por Dante de Oliveira. 

Também em plena ditadura, o ex-presidente do Flamengo Márcio Braga, ao candidatar-se anunciou na imprensa que a democracia brasileira começaria com eleições livres, sem interferência da diretoria do Flamengo. Novamente o presidente Médici tenta interferir, mas Márcio Braga venceu o candidato apoiado pelo presidente.

Pelo mundo afora, políticos populistas como o italiano Silvio Berlusconi, acreditaram na conexão entre política e futebol, como uma forma de legitimar a entrada dele na política e adotou como estratégia de campanha o lema de fazer com que os italianos falassem de política tanto quanto eles falavam sobre futebol.

Recentemente, no conflituoso momento pós-eleições, quando os manifestantes conservadores trancaram a Rodovia Presidente Dutra, no Rio de Janeiro, pedindo intervenção militar no país, foi a destemida torcida organizada do Corinthians que desobstruiu a estrada. Em São Paulo, a torcida liberou a marginal Tietê e levantou faixas com frases em favor da democracia brasileira.

Na prática da política e do futebol se leva em conta a preparação. Anos talhando, o político, o discurso e o jogador, o preparo físico e ambos, trabalhando suas habilidades. A política é coletiva, o futebol também. O time tem que estar coeso e em ambos os casos, há adversários, igualmente constituídos, treinados, almejando a mesma posição. Alguém vai perder e muito raramente perde quem deu o seu melhor!

O jogo tem que ser limpo, quem ganhar, leva

Neste momento uma das maiores democracias do mundo está realizando o que muitos descrevem como a eleição presidencial mais importante e dramática dos últimos anos, como admitiu o ex-assessor de Trump Steve Bannon em entrevista a uma emissora inglesa. Os jornais mais importantes do Brasil e do mundo também tratam essa eleição, como a mais importante desde a redemocratização do país.

À medida que a apuração dos votos se aproxima, meu medo é que Bolsonaro permaneça no poder, usando um segundo mandato para minar de forma efetiva as instituições que sustentam nossa democracia. O destino da democracia do Brasil e das relações dos outros países com o Brasil será decidido nessas eleições, asseguram senadores democratas americanos, demonstrando grande interesse na eleição e preocupação quanto as declarações do presidente Bolsonaro quanto a desconfiança no sistema eleitoral e se ele vai acatar pacificamente o resultado das urnas.                                                            

O desprezo de Bolsonaro pela democracia está bem documentado. Em mais de uma ocasião, ele afirmou que só deixaria a presidência “morto, preso ou vitorioso e nunca serei preso”. Embora nunca tenha registrado percentual maior que 35% nas pesquisas, Bolsonaro repete que se obtiver menos de 60% dos votos, é porque algo anormal aconteceu.

São falas desconexas de um presidente que passou a maior parte do seu governo atropelando todas as regras do estado brasileiro, por puro desdém pelas instituições, enquanto sua política econômica empurrou 33 milhões de brasileiros para a pobreza, para a fome, os abalos também foram sentidos nos cortes erráticos em áreas sagradas que abrigavam o pensamento crítico; as universidades, onde o corte de orçamento foi justificado por ser uma área de foco contínuo do comunismo.

Todo ódio e descaso destilados ao longo desses intermináveis quatro anos deixaram fissuras profundas mais de 660 mil famílias brasileiras atingidas pela pandemia, que viram pela televisão seu presidente imitar pacientes morrendo com falta de ar. Bolsonaro fez inimigos políticos, armou a população civil como se estivesse formando um exército particular, porque percebeu que os militares brasileiros devolveram o poder aos civis, depois de 21 anos do golpe, assegurando que haviam cumprido  a missão de pacificar o país e preservar a democracia, portanto não há sinais eminentes da possibilidade de golpe.

 O Alto Comando do Exército inclusive assegura que em suas reuniões não se tem tratado de assuntos de natureza política e todos os 16 generais da cúpula indicaram que vão reconhecer com tranquilidade o resultado das urnas.

Como diz o narrador na nova campanha do TSE “Paz nas Eleições”: “O jogo tem que ser limpo, tanto no futebol quanto na política, adversário não é inimigo e uma eleição em clima amistoso é vitória da democracia”. 

É muito difícil arejar os grupos políticos

A política é um espaço por onde passam todos os acontecimentos. A política não é nada mágica; são pessoas tomando decisões em nome de outras pessoas e se você quer uma política melhor, mude as pessoas que estão tomando as decisões. Fácil falar! Renovação, embora pareça, não é pauta.

Thomas Hobbes, filósofo inglês, quando escreveu Leviatã afirmou: “Considero como inclinação geral de toda a humanidade um desejo perpétuo e irrequieto de poder e mais poder, que cessa apenas com a morte”. Séculos mais tarde, Friedrich Nietzsche, filósofo alemão, em Assim falou Zaratustra reforçaria a sede do homem pelo poder: “Onde encontrei vida, ali encontrei vontade de poder; e até mesmo na vontade do servo encontrei a vontade de ser senhor”.

Quando se trata de política, a fase atual é de pessimismo, falta de confiança nos partidos e nos políticos, polarização irritante, inflação, discursos moldados em tons de ódio, preconceito e deboche, pouca entrega, quase nada, sobretudo do governo federal em terras mato-grossenses.

Aí então, acreditando que na democracia há espaço de divergência, de independência e inovação, surgem candidatos que propagam discurso de franqueza com a realidade estadual e nacional, tentando fazer política com grandeza, reconhecendo os bons mandatos, a boa administração do estado e valorizando o eleitor. Candidatos que se colocam para promover a política, discutir os problemas, manter a sedução e esperança permeando nossos dias.

Pouco compreendidos são preteridos quando se colocam em rota de colisão com políticos tradicionais e compadrios de grupos de poder mas na verdade isso é muito comum e os homens agem assim sempre que podem. Não é fácil ter espaço para novas lideranças em um grupo político, no sentido de ser respeitado e valorizado nos movimentos futuro do grupo. Em uma eleição, desenha-se o cenário e os atores preferidos da próxima eleição, com participação de aliados, do grupo e dos compadres.

Mesmo quando o candidato se torna um importante ‘player’, quando cresce com independência num espaço já ocupado por políticos tradicionais tem que lidar com a desconfiança dos que habitam em estado distante e de lá pressionam e interferem nos palanques daqui. O candidato que que se distancia da polarização, que cresce e aparece paga o preço. O novo está prejudicado. Parece que agrada ao povo, a garantia dos milhões despejados pelas emendas parlamentares, reforçadas pelas vultosas quantias do imoral orçamento secreto.

No contexto da política atual, precisei voltar a Max Weber, sociólogo alemão, que escreveu sobre a política como vocação e dedicou aos políticos vocacionados três qualidades: paixão, senso de responsabilidade e senso de proporção, o que dá ao bom político a exata noção da sua missão. Weber reconhece que o político pode viver ‘da política’, quando a política é a fonte de sobrevivência do indivíduo e pode viver ‘para a política’, quando o indivíduo se entrega à política independente do ganho financeiro.

Por mais políticos por vocação, indivíduos que vivam para a política, que se dedicam à política como objetivo de vida, equilibrando seu sucesso, sacrificando suas convicções, se o contexto exigir.