A política não é uma escola de produzir vilões

As pessoas, cenários e eventos não estão congelados no tempo. Eles são processos e os processos, por definição, são sujeitos a mudanças constantes e evoluções em muitas direções.

Além disso, eles carregam em si um monte de contradições. É exatamente isso que torna o processo político dinâmico, contraditório e apaixonante.

Nas últimas semanas assistimos uma série de eventos, encontros e falas verdadeiramente impactantes. Pesquisas de intenção de votos, possibilidades de coligações inimagináveis, alinhamentos de discursos, comparações com situações de um passado recente e fotos, muitas fotos para mostrar que estão se movimentando, mudando de cidades e de palanques.

E você engrossa o percentual dos eleitores que diz que não acompanha a política e sequer se importa em conhecer os candidatos. Isso não pode ser sério! E o que significa seu desinteresse para a política e para a democracia?

Todos nós formamos expectativas e acabamos ficando desapontados com o corporativismo, com a corrupção, com os perfis simpáticos criados para enganar o cidadão. Lembre-se que os políticos saem do nosso meio, não possuem poderes mágicos para resolver nenhum problema e são, assim como eu e você, pessoas imperfeitas. Não são, portanto, heróis infalíveis nem vilões.

As candidaturas podem ser marcadas por polêmicas, mas que sejam também repertórios de boas demandas. O ambiente onde transitam os políticos não são arenas de guerra. O que implica contudo assegurar, que este não é um mundo de evidências gentis.

Leituras e estratégias colocadas à luz do dia exporiam obstinação e teimosia, traições e negações, que faria qualquer explicação, mesmo de gênios brilhantes, perder-se.

As pesquisas divulgadas enfatizam a falta de interesse dos cidadãos pela política, a desconfiança nas propostas e apontam a tendência de elevado número de pessoas a anular o voto. Claro que isso é lícito mas é angustiante o desperdício da oportunidade, num momento que o número de eleitores aumenta e encolhe o interesse e a confiança na política. Esse abismo real precisa ser revertido.

Em meio as todo esse barulho, ouso afirmar que a sede do governo, do Parlamento estadual e do Congresso Nacional não são escolas que produzem vilões. Façamos uma distinção. Os que por ventura estão lá foram pinçados equivocadamente da sociedade e merecem ser alijados do sistema, por serem assumidamente brandos no exercício do poder, desleixados ou por manterem-se perto demais de interesses conflitantes.

Pode ser que não tenhamos debates públicos apaixonantes, que sejam então civilizados e atraentes porque o público está efetivamente disperso e eventualmente pode despertar para votar em candidatos independentes o suficiente para sustentarem suas candidaturas fora do sistema de alianças tradicionais.

Uma moral em casa e outra na praça

Precisamos acordar com o sentimento de que algo bom irá acontecer, mesmo que ao longo do dia nossa esperança seja alvejada por fatos imprevistos e negativos.

Não alienar-se, nem tampouco entregar-se à sensação de que caminhamos para o fim do mundo, diante dos fatos que têm abalado nossos dias. Como escreveu Benedetto Croce, filósofo italiano, que foi senador em seu país: política não se faz com água benta, mas em nenhum caso, é lícito romper a fé.

Para além do inferno das delações e operações, a vida pulsa e a cidade, o Estado e o país não podem parar.

Na coluna do economista Ricardo Amorim, uma boa nova. O PIB de Mato Grosso deve crescer mais de 5% neste ano capitaneado pelo agronegócio, claro. Na contramão da notícia de Amorim, os indicadores sociais apontam que o Brasil acaba de ganhar exatamente 5,9 milhões de novos pobres.

Geraldo Alckmin lança-se efetivamente candidato à presidência da República e quer antecipar a agenda de campanha percorrendo a BR-163, de Santarém até Cuiabá, para avaliar a questão da infraestrutura no país.

Há general do Exército ameaçando intervenção militar se o Judiciário não conseguir solucionar os problemas dos políticos com a corrupção. O general já levou bronca do superior que, em nota, reafirma o compromisso da instituição com a legalidade, estabilidade e legitimidade.

Sabe que está rolando o maior festival de música do planeta no Rio de Janeiro? O Rock in Rio é um show também de diversidade e política. Onde a dragqueen brasileira, Pabllo Vittar dividiu o palco com estrela internacional e levantou o público com danças ousadas e muito carisma, mas o coro que tem unido a galera, é político: “Fora Temer”.

Tento ser otimista, porém, o ânimo se arrefece quando leio que Bolsonaro e Magno Malta lideram a votação popular para eleger o “Congressista do ano”. O consenso é sempre condicionado às circunstâncias, e neste caso é também humilhação à pátria.

Haveremos de caçar jeito de viver, de aprender com os erros nossos e dos outros e estabelecermos um parâmetro novo que nos impeça de avançar o sinal, mesmo quando o momento parecer propício e vantajoso.

Reconheço a inquietação e desordem do momento e qualquer análise crítica e séria deve passar pela construção das novas relações necessárias para elaborar um novo projeto de desenvolvimento para o país porque, da forma que está, o Estado brasileiro está incontrolável.

Eu nunca vi estes diálogos acontecerem, embora toda filosofia política prega que no âmbito do Estado, a vida política se constitui de um processo de elaboração permanente de diálogo. Quem sabe agora?

O ponto no qual chegamos deve ser tão discutido quanto à necessidade de encontrarmos uma forma de seguir adiantenuma concepção democrática de responsabilizar quem deve ser responsabilizado, cobrar ressarcimento de quem levou vantagens indevidas, garantir o direito pleno de defesa ao que sente-se injustiçado.

Mas, a vida não pode parar, as instituições não devem ficar estagnadas apesar de terem sido atingidas em sua essência. Não há mais como ter uma moral em casa e outra na praça.