Desconstrução de narrativas

Antes das eleições, os cientistas sociais e políticos são convidados a avaliar uma série de cenários e, oportunamente, surgem uma gama de futuristas, analistas políticos e outros prognosticadores sobre os possíveis rumos das eleições de 2026. Em um momento político marcado por desinformação, ameaças de interferências externas, algumas medidas econômicas impopulares há sinais para uma evidência de que as eleições podem ser imprevisíveis.

As ameaças à democracia geradas pelas últimas campanhas são significativas e é preciso intensificar os esforços para monitorar a interferência e a violência disseminadas online, visando as próximas eleições. O que estamos vendo é que a desinformação e potenciais incitações à violência partem de vários políticos, que em tese, deveriam envidar esforços para preservar os valores democráticos.

Diversos estudos que antes demonstravam que cidadãos atentos às informações das pesquisas ajustavam suas previsões na direção que elas apontavam, hoje refletem que a influência das pesquisas na intenção do voto não é necessariamente forte. O momento, portanto, ainda é de manter as expectativas baixas, para não perder quando se espera ganhar e ter que suportar tanto o desconforto da imprevisibilidade quanto um resultado que não corresponde às suas próprias preferências. A literatura sobre expectativas eleitorais e avaliações políticas de partidos ou candidatos está repleta de exemplos de pensamento inflado e positivo.

Em sete meses o cenário estará visível a olho nú e ficarão à mostra os perfis polidos com honestidade e as ranhuras e rachaduras maquiadas em outros. Por ora, aproximam-se as eleições, os candidatos chovem e os eleitores pululam, como escreveu Lima Barreto, no livro “Coisas do Reino do Jambon: sátira e folclore, onde ele critica as lutas políticas e o verdadeiro combate que são travados em nossas eleições.

Ouvi uma conversa de pessoas jovens sobre dúvidas quanto à própria falta de informações para votar. Elas diziam que não acompanham a política de perto, porém, estão sobrecarregadas com a informação disponível e não sabem o que é confiável e o que não é. Mesmo assim, o número de eleitores jovens em Mato Grosso cresceu consideravelmente. Quando as pessoas estão confusas e não sabem em quem confiar, elas ficam vulneráveis e acabam encontrando narrativas alternativas ‘atraentes’ que não encontram nos grandes veículos de comunicação. Indivíduos com visões cínicas sobre política também devem, logicamente, demonstrar menos confiança no processo eleitoral e estar menos satisfeitos com a democracia.

Se aceitamos, como a maioria dos sociólogos, que as representações e ideias culturais desempenham um papel ativo na formação da realidade social e sob certas condições, as teorias sociais podem afetar o comportamento das pessoas e a aparência da sociedade. E na medida em que as ações que as teorias inspiram são controversas, seu uso político pode ser também, o uso político de teorias sobre eleições deve ser flexível. Porque quem entra na política sabe exatamente o tamanho de suas expectativas e potencialidades, mas os cosméticos do marketing podem agregar muitas coisas para mudar substancialmente um perfil.

Os diversos crimes que mancham nossa reputação como sociedade

Os dias têm sido pesados em Mato Grosso. Parece haver a intenção de alguns cidadãos de atuar firmemente para que o estado não saia do ranking que lidera de estado violento, o que mais matou mulheres no ano passado, segundo o relatório publicado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Na cidade de Peixoto de Azevedo, um crime brutal foi cometido por Wendel Santos, que apareceu em vídeo esfaqueando a própria esposa, diante da câmera de segurança da casa, na frente da própria filha e do filho da vítima. Percebeu-se no registro das câmaras que a mulher já sofria violência doméstica e em um episódio brutal de enforcamento, havia desmaiado.  Cinco meses atrás a vítima havia postado aparentemente feliz, anunciando que estava noiva do assassino.

Atos de violência cometidos contra motoristas de aplicativos tem sido percebidos no estado, porém, a bandidagem resolveu elevar o nível da violência, da preocupação e medo. Três motoristas foram encontrados mortos em três dias, vítimas do mesmo procedimento cruel dos marginais.  Usaram uma mulher para chamar os carros, anunciavam assalto e com ou sem reação da vítima, a matavam. Três bandidos e a mulher foram presos, confessaram os crimes e também o instinto de serial killer, já que a intenção do grupo era assassinar um motorista por dia. A classe política se reuniu com as forças de segurança, para em conjunto com a classe de motoristas encontrar uma solução para tornar as corridas menos arriscadas.

Em Belo Horizonte, diante das ameaças que os motoristas sofriam, uma comissão foi criada na Câmara Municipal para discutir formas de proteger a vida desses trabalhadores. A maior aposta recaiu sobre a instalação de um botão de pânico que pudesse ser acionado pelo celular quando o motorista se sentisse ameaçado. A tecnologia já estaria disponível nas plataformas, mas a Polícia Militar mineira afirma que não tem capacidade para processar toda informação, nem estrutura para atendimento de cada acionamento de um botão de pânico e que o correto seria que as próprias plataformas monitorassem o sistema e acionassem a PM sempre que necessário. 

O terceiro caso estarrecedor são os crimes ambientais cometidos por um barão da pecuária, no município mato-grossense de Barão de Melgaço. O malfeitor possui 11 propriedades dentro do Pantanal Mato-grossense e com auxílio de grandes advogados e engenheiros florestais, já tentou alterar até o curso de um rio.  Esse cidadão se chama Claudecy Oliveira Lemes e é imputado a ele o mais grave dos  crimes ambientais: desmatou uma área de 81 mil hectares no Pantanal Mato-grossense, utilizando uma mistura de 25 agrotóxicos, inclusive o veneno conhecido como agente laranja, que os soldados americanos despejaram sobre as florestas do Vietnã para desmatá-las por completo e não servirem de esconderijo para os vietnamitas. E mesmo que não seja exatamente esse veneno, há o crime.

O desmatador está preso? Claro que não. Onde, nesse país, você viu fazendeiro rico ser levado preso por crimes ambientais? Apesar de que o Ministério Público Estadual firmemente recorreu da decisão frouxa do juiz que negou o pedido de prisão do cidadão, imputando-lhe algumas restrições óbvias.

Li o Termo de Ajustamento de Conduta que o fazendeiro havia assinado com o Ministério Público e Secretária de Estado de Meio Ambiente, em 2022, referente a três inquéritos civis datados de 2019, 2020, 2022, originários de autos de infração. Ao assinar o Termo de Ajustamento de Conduta, o fazendeiro se comprometeu a fazer reposição florestal, o que era uma mentira, porque o agrotóxico usado impede o crescimento da vegetação nativa para sempre e ganhou um presente: o arquivamento dos três inquéritos.

Provavelmente o caso veio à tona agora, devido ao descumprimento de alguma cláusula do documento, como talvez, o não pagamento da vultosa multa aplicada, R$ 21.386.550,00 (vinte e um milhões, trezentos e oitenta e seis mil e quinhentos e cinquenta reais). O que entristece é perceber que os desmatamentos ocorriam nessa proporção alarmante, com conhecimento das autoridades desde o ano 2019, ano de abertura do primeiro inquérito.