Imagine Dragons e Richarlison espalhando conscientização sobre saúde mental

Li várias entrevistas, rela

tos de pacientes e médicos, proposta da Organização Mundial da Saúde e do Governo Federal sobre saúde mental. Estigma, discriminação e violações de direitos humanos contra pessoas com problemas de saúde mental são comuns em várias comunidades; 20 países ainda criminalizam a tentativa de suicídio. Em todos os países, porém, são as pessoas pobres que correm maior risco de problemas de saúde mental e que também são as menos propensas a receber tratamentos adequados.

Um levantamento da consultoria Alvarez & Marsal aponta um crescimento anual de 12% a 15% nos últimos quatro anos em atendimentos de saúde no Brasil devido a transtornos mentais. O país tem o 3º pior índice de saúde mental do mundo, conforme dados do relatório global anual Estado Mental do Mundo 2022. No primeiro semestre de 2023, em comparação com o mesmo período de 2022, houve um aumento de 37% na aquisição de antidepressivos, segundo mapeamento de uma empresa de plano de saúde.

 As estatísticas fizeram acender a luz vermelha no Governo Federal e o Ministério da Saúde anunciou que no Programa de Aceleração do Crescimento (Novo PAC 2024) vai construir 150 novos Centros de Atenção Psicossocial (Caps) em cidades de todas as regiões do país. Essa ampliação promove a inclusão de 13,4 milhões de pessoas na Rede de Saúde Mental do Sistema Único de Saúde (SUS). 1.148 municípios se inscreveram. Serão investidos R$ 339 milhões, nos locais com menor taxa de cobertura; onde haja proposta de Caps de funcionamento 24h e de Caps Infanto-Juvenil. Os Caps atendem pessoas de todas as faixas etárias que apresentam sofrimento mental grave e persistente, incluindo aqueles relacionados ao uso de álcool e outras drogas.

As mulheres são desproporcionalmente afetadas pelos transtornos mentais, como ansiedade e depressão, comparadas aos homens. Suas emoções são reprimidas para cuidarem de outros antes de si mesmas, com a necessidade de conciliar atividades profissionais e familiares, diante da desigualdade de gênero, questões reprodutivas, cobranças pela gravidez, implicações e depressão pós-parto, violência doméstica.

O relatório Esgotadas: empobrecimento, a sobrecarga de cuidado e o sofrimento psíquico das mulheres, desenvolvido pela ONG Think Olga, indica que 45% das mulheres brasileiras apresentaram diagnóstico de ansiedade, depressão, ou outros tipos de transtornos mental no contexto pós pandemia. A ansiedade, transtorno mais comum no Brasil, faz parte do dia a dia de 6 em cada 10 mulheres brasileiras.

Quando pessoas famosas se abrem para relatar seus dramas, aumenta a fresta de esperança sobre a conscientização sobre o tema. A honestidade e a abertura dessas pessoas são importantes para quem vive situação semelhante.

Em emocionante entrevista à ESPN Brasil, o jogador brasileiro Richarlison contou que disse ao pai que queria desistir depois de lutar para se motivar para sair do quarto e participar de treinos. “Eu estava chegando ao meu limite, sabe? Não sei, não vou falar em me matar, mas eu estava com uma depressão lá e queria desistir”. Libertou-se do preconceito, do medo de ser taxado de louco e procurou ajuda, participou de sessões de terapia, que acredita ter ajudado a salvar sua vida. Percebeu a repercussão positiva da sua coragem de se abrir e encoraja colegas jogadores de futebol a se observar e procurar ajuda nos primeiros sintomas.

O vocalista e líder da banda americana Imagine Dragons, Dan Reynolds é outra personalidade, entre milhares, que entre uma música e outra faz confidências ao público sobre sua condição: um quadro cíclico de depressão, que vai e volta há muitos anos. De família Mormon, recebeu boa educação, foi para a Universidade, mas essa condição não o livrou da solidão e depressão.

Sempre criativo e emotivo ele disse que sente os sintomas de depressão desde muito jovem. Artista bem sucedido, shows com ingressos esgotados ao redor do mundo, às vezes perde o interesse em tudo e precisa se afastar para silenciar a voz interior que o assombra. Escrever músicas se tornou uma experiência terapêutica, além da aceitação do terapeuta formal em sua vida, ainda assim, diz Reynolds, que amor próprio tem sido um de seus maiores desafios.

 “…quando sentir o meu calor, olha nos meus olhos. É onde meus demônios se escondem”, escreveu Dan Reynolds.

A correlação enttre a violência contra a mulher e saúde mental

A violência contra a mulher tem várias faces. Cada mulher é diferente e o impacto individual e cumulativo de cada ato de violência depende de muitos fatores complexos. Embora cada mulher sofra violência de forma única, há muitos efeitos comuns de viver com o estigma da violência e viver com medo. Antigamente as mulheres mantinham-se em silêncio sobre a violência, mas agora estão encorajadas a denunciar e procurar ajuda. A justiça de gênero, todavia, não pode ser estabelecida enquanto as estruturas misóginas não forem resolvidas.

Há um ano, os pesquisadores que participaram da Reunião Ordinária do Conselho Nacional de Saúde para debater as consequências da masculinidade sobre a saúde das mulheres, corroboraram a tese de que a violência contra a mulher tem alta correlação com transtornos mentais. Depressão, ansiedade, transtorno do sono, transtorno de estresse pós-traumático, ideação suicida e distúrbios mentais podem estar diretamente relacionados com relações abusivas e violentas contra as mulheres.

Enquanto foi diretora-executiva da ONU Mulheres, Michele Bachelet, médica, ex-presidente do Chile trabalhou focada em pesquisas e literaturas sobre a violência contra as mulheres por acreditar que essa violência é uma das violações mais frequentes dos direitos humanos, e, está enraizada no desequilíbrio de poder entre os gêneros, além de ser uma ameaça para a saúde das mulheres e dos seus filhos e sobretudo, um fator de risco para o desencadeamento de problemas de saúde mental das mulheres.

A violência é como uma pandemia silenciosa e não deixa nenhum país ou comunidade intocados. A violência é vivenciada por mulheres em casa, no local de trabalho, consultórios médicos e em espaços públicos, sem tréguas.

O livro ‘Violência contra as mulheres em todo o mundo’ e ‘Aspectos específicos da violência’, lido e adotado por Bachelet, examina o efeito da violência contra as mulheres na sua saúde em geral, na sua capacidade de trabalho, nas relações familiares e nas diversas formas de traumas e fornece provas substanciais da difusão da violência contra as mulheres em todo o mundo, destacando particularmente a desigualdade de gênero, como causa profunda da violência, que detona diretamente a saúde mental das mulheres.

A Organização Panamericana de Saúde, formalmente já reconhece a violência de gênero contra a mulher como um fator de adoecimento mental e desde então, várias perspectivas de estudos foram abertas, relacionando diretamente a violência praticada por parte do parceiro íntimo, do ex-parceiro, abuso sexual por parceiros do trabalho, situações de coerção, como causas de resultados fatais, como homicídios e suicídios. Fora essas tragédias, normalmente, a violência leva à vários transtornos de ansiedade, já citados e outros, como exaustão emocional, auto culpa, perda de humor e isolamento.

O livro, as pesquisas, são apelos a uma maior sensibilização na promoção de mudanças no sistema de tratamento de violência nas políticas de saúde mental.

Todavia, apesar das evidências, a maioria das políticas e programas de saúde mental não inclui voluntariamente a questão da violência como causa primeira para investigação, ainda.

Enquanto isso precisamos confrontar a masculinidade tóxica de quem é o vetor da violência contra as mulheres, porque são eles que espancam e matam.