A construção do nós contra a violência

Violência não é entretenimento, não é brincadeira e não é aceitável sob nenhuma circunstância. As últimas semanas tem nos mostrado imagens duras de violência por toda parte do globo. É isso que temos? É isso que assistiremos. Não vale fugir da verdade difícil, tampouco suavizar a personalidade dos que estão por trás das notícias cruéis.

Violência de adolescentes é sintoma de negligência, não é acaso. Um grupo de jovens endemoniados de Florianópolis, movidos pelo tédio de suas vidas sem significado, buscaram no âmago de suas fantasias e desvios comportamentais, formas brutais de tortura e as testaram em uma cadela dócil, que há dez anos vivia na comunidade. Abandonada agonizando, foi socorrida e teve que ser eutanasiada devido à gravidade das lesões internas e externas. Situações dessa natureza afrontam nossos valores fundamentais de convivência social, de respeito à vida.

A diversão dos adolescentes chocou o mundo e rezemos para que a comoção que o caso gerou, faça a justiça agir no limite do rigor (quase nenhum) das medidas socioeducativas aplicadas a menores delinquentes e assassinos. Se não forem duramente punidos, os adolescentes que torturaram a cadela Orelha poderão eleger um humano, possivelmente a mulher com quem se relacionarem, como suas futuras vítimas de violência.

A trajetória de risco que esses adolescentes inspiram precisa ser interrompida pela educação, pela punição, ou ambos. A brutalidade deles não merece compreensão, relativização ou silêncio, principalmente porque a violência não surge do nada. É preciso ligar o alerta contra esses meninos maus, que não demonstraram nenhum sinal de culpa ou arrependimento e os pais de alguns dos envolvidos no crime de tortura contra a cadela, tentaram intimidar testemunhas. Li que a crueldade contra animais é sinal de alerta que aponta para falhas na educação emocional, na formação ética e estimula à demonstração de força e reconhecimento dentro do grupo ou dentro de um relacionamento.

Essa desorganização emocional aliada a traços perversos exige reflexão coletiva. A maioria dos nossos valores não são inatos. São aprendidos, quando estimulados. Educar as crianças, no sentido de formar consciência cidadã, fortalecer a educação emocional, a empatia e o respeito são cruciais. Pais e educadores precisam ensinar as crianças a lidar com seus impulsos, com suas raivas, para que na adolescência já sejam capazes de nomear seus sentimentos e controlar seus impulsos.

Um vídeo gravado por uma câmera de monitoramento, dois dias atrás, também em Santa Catarina, mostra uma senhora, sem nenhuma razão, agredindo verbalmente o vendedor de uma loja, descarrega-lhe uma série de xingamentos de cunho racista e encerra `não gosto de negro`. O preconceito, a falta de respeito não nasceram naquele momento. São condutas alimentadas. Foi registrado boletim de ocorrência e sua imagem está sendo divulgada para, pelo menos criar-lhe algum constrangimento.

Recentemente, em Várzea Grande, um homem atropelou violentamente uma senhora, percebeu o corpo destruído no asfalto e fugiu. Foi perseguido, trazido à cena do crime e justificou, possivelmente com ironia, que não atropelou a vítima, ela sim, colidiu com o carro em altíssima velocidade. O ser humano ali foi objetificado, sua dor, a dor dos familiares não foi reconhecida. O comportamento violento do assassino veio à tona; o homem já havia feito duas outras vítimas, com outras armas, em circunstâncias de violência extrema. Se não cumprir a pena adequadamente, a quarta vítima, no tiro ou no trânsito, será uma questão de tempo.