A violência é de todos e está em toda parte

A violência é um problema social que afeta a todos os povos, independentemente da raça, idade, condição socioeconômica e cultura. A violência é tão antiga quanto todas as sociedades. A violência na sociedade existe em todos os lugares e conforme definição da Organização Mundial da Saúde é o uso intencional de força física ou poder, em forma de ameaça ou real, com alta probabilidade de causar danos, ferimentos e morte. 80% das mortes por violência ocorrem fora das áreas de conflitos armados.

Diante da impressionante, alarmante e repugnante incidência de violência ocorrida esta semana, independentemente de classe social, cor, raça, idade e método da violência, deparamos com a notícia de um adolescente de 14 anos, que usou a arma do próprio pai para matá-lo e também a mãe e o irmão ainda bebê porque os pais não permitiram que ele viajasse sozinho do interior do Rio de Janeiro para uma cidade de Mato Grosso para conhecer pessoalmente uma namorada virtual. Ao ser apreendido declarou não haver arrependimento algum.

Uma mãe e o padrasto agrediram brutalmente uma criança de menos de 2 anos; um homem jovem apunhalou a esposa e a filha de 7 anos enquanto ambas dormiam. A mulher não resistiu, a criança encontra-se hospitalizada em estado grave. Ontem, um homem foi flagrado por câmeras de segurança, andando pelas ruas segurando uma faca, havia acabado de tirar a vida da esposa e fugia com a tranquilidade de quem sabe que a justiça é pouca.

A sociedade brasileira foi construída em moldes violentos em praticamente todas as instâncias sociais numa cultura herdada, diluída no cotidiano. Fica evidente que tudo que se tem feito até agora não tem sido o suficiente para erradicar o fenômeno da violência tão evidente, em uma cultura caracterizada pelo machismo, possessividade, falta de dignidade humana e pela certeza da pena pouca, da frouxidão das leis e pela mania absurda de normalizar os atos selvagens de seres humanos.

O Papa Francisco, ao tratar da violência, citou o excesso de controle, a possessividade como arma inimiga do bem, que mata o afeto. Disse que a violência decorre, em parte pela pretensão de possuir o afeto do outro, da busca de uma segurança absoluta que mata a liberdade e sufoca a vida, tornando-a um inferno.

Michel Foucault, em Vigiar e Punir narra a execução do condenado Damiens, condenado por tentativa contra Luís XV. foi submetido a um suplício público brutal, que incluía queimaduras com tochas de cera e com metais derretidos e esquartejamento. Tirado da carroça, seu corpo foi puxado e desmembrado por quatro cavalos. Os membros consumidos pelo fogo.

O sofrimento do corpo de Damiens foi exibido para intimidar a população e comunicar que a mão do estado era dura para punir. Com a transição para o Estado Moderno, os suplícios foram substituídos pela punição moderna. Cada nação construiu seu código de punição, as penas passaram a ser calculadas de acordo com a gravidade do crime e o grau de periculosidade do criminoso. Os corpos assassinos deixaram de ser punidos e passaram a ser vigiados por sentinelas e agora a tarefa está a cargo das câmeras.

Não, não vamos voltar a era dos suplícios, deve haver medidas que contemplem o vigiar e o punir rigorosamente.

A aliança com os homens não é opcional, é crucial

Há chamamento global no sentido de reafirmar o compromisso com um futuro mais justo e seguro para as mulheres. Os relatórios unanimemente indicam que as ações passam pelo processo indissociável da educação transformadora, porque as garantias previstas na Constituição brasileira, por exemplo, não foram suficientes para conter o assédio, a discriminação, a desvalorização, a posse, que são, em muitos casos, o indício das tragédias contra a vida de mulheres. Desnecessário reafirmar que todos, homens e mulheres merecem viver seguros e serem tratados com compaixão, dignidade e respeito. E as mulheres, particularmente, deveriam ser capazes de dizer “não” livres do medo da violência.

Não é o que acontece, infelizmente. Mas quando analisamos as ligações entre as formas de violência de homem contra mulher, podemos perceber claramente os sistemas que permitem isso florescer.

O DataFolha/FBSP 2025 divulgou a 5ª edição do documento Visível e invisível: a vitimização de mulheres no Brasil e as principais violências sofridas por mulheres brasileiras no ano de 2024 foram: ofensas verbais (17,7 milhões de mulheres); agressão física (8,9 milhões); stalking (8.5 milhões); violência sexual (5.3 milhões) e divulgação de fotos ou vídeos íntimos na internet (1.5 milhão de mulheres).

A educação não corrompe, ela protege. Precisamos mudar a forma como falamos sobre a violência do homem contra a mulher. Precisamos educar nossos garotos não para serem os mais fortes, os mais espertos, mas, para que sejam mais carinhosos, para que se importem mais com o outro. Ter conversas desconfortáveis é agora é um dos meios para criar espaço de fala e escuta seguras na escola e em casa, desafiando estereótipos preconceituosos, sem desviar o olhar. O desafio real não é apagar a masculinidade, mas expandir a forma como falamos sobre isso. Os meninos precisam ser envolvidos como aliados no trabalho de restauração da convivência amorosa entre os gêneros, porque certamente, eles anseiam um mundo melhor, muito além das narrativas tóxicas da masculinidade que acentua a desigualdade. O que devemos trabalhar não é sobre divisão, é sobre responsabilidade e transformação.

A masculinidade não é inerentemente tóxica, mas algumas expectativas de masculinidade podem ser. Quando pensamos que não nos falta ver nada mais diante do quadro de epidemia de violência contra a mulher, eis que a retórica misógina online cresce dentro da manosfera ou machosfera, um termo usado para identificar comunidades misóginas interconectadas online direcionadas a garotos, com conteúdo certeiro para espalhar o ódio contra as mulheres. A novidade nas mídias sociais é um movimento que opera dentro da manosfera chamado incel, que se refere a uma subcultura online de homens, predominantemente jovens e heterossexuais, que concentram absurdas crenças e normas para reativar teorias biológicas estereotipadas de masculinidade onde o homem deve ter poder sobre a mulher.

O termo incel era apenas uma abreviação de “celibatários involuntários”, porém, mudou ao longo do tempo, e agora o termo se refere a homens que acreditam ser incapazes de estabelecer relacionamentos e tendem culpar as mulheres em particular, pela falta de experiências românticas ou sexuais. O movimento incel se tornou profundamente ideológico, promovendo ódio e violência contra mulheres em plataformas de mídias sociais. De acordo com essa visão de mundo extremamente misógina, o movimento incel espalha a versão de que as mulheres selecionam seus parceiros com base apenas na aparência e na riqueza material, por isso elas são vistas como pessoas imorais e indignas de confiança.

Vai ficando cada vez mais difícil corrigir o impacto que essas comunidades online têm sobre os jovens e suas atitudes em relação às mulheres. A ascensão da retórica misógina volta a assombrar às mulheres. E esta não é uma questão que diz respeito apenas as mulheres: a igualdade de gênero exige aliança em todos os níveis. Se queremos uma mudança real, os homens devem desafiar ativamente as narrativas prejudiciais e movimentos de ‘modinha’ que dominam os discursos de uso de força e controle contra às mulheres.  

O descortinamento de um ato macabro

Cinco anos atrás vivenciamos o pânico de ter a morte nos espreitando à porta, devido ao processo pandêmico que demoramos a entender e a responder com responsabilidade e efetividade. No período que durou o isolamento social, o anúncio quase escandaloso do número de mortes diárias, os procedimentos de cura tão incertos quanto dolorosos, o medo de toda população do planeta se resumia ao medo de perder pessoas queridas e morrer a qualquer momento infectado pelo vírus da Covid-19.

Depois da pandemia, voltamos a perceber os outros medos que antes afloravam, retornamos ao medo insistente do recrudescimento da brutalidade contra a mulher, da necessidade mórbida de fazer o outro sangrar até despedaçar o corpo.  

O recente caso da adolescente Emelly Sena, chocou o perito criminal a ponto de ele interromper seu trabalho para se recompor emocionalmente. Foi um crime gravíssimo, onde todos os métodos de crueldade foram aplicados impiedosamente no corpo frágil e vulnerável de uma menina, de 16 anos, que estava prestes a dar à luz. Emelly foi premeditadamente atraída para o local do crime, barbaramente atacada, amarrada, enforcada, mutilada, teve a filha Liara arrancada do ventre com uma faca. A assassina abriu uma cova, depositou o corpo inerte da adolescente, limpou a cena do crime, cuidou do recém-nascido. Uma cena macabra imbricada à outra, de forma assustadora!

A ideia de que uma mulher possa ser violenta, que chegue até mesmo a matar, parece-nos perturbadora. No entanto, esse crime que acaba de afrontar nossa dignidade humana, foi cometido, declaradamente por uma mulher, possivelmente com a colaboração de um ou mais homens. Os homens cometem crimes em proporção muito maior do que as mulheres, se envolvem em mais delitos graves e agressões. A natureza feminina é de cuidar, não de ferir. E, geralmente, costuma ser assim. A violência tem sido uma especialidade masculina, mas algumas mulheres pervertem a sua própria biologia e mostra-se encaixada no mundo perverso da violência, da brutalidade.

É muito doloroso, é tenso e exaustivo ler sobre uma morte hoje, outra, amanhã logo cedo. Um pacto nacional entre parlamentares e autoridades que dirigem os órgãos de educação, segurança pública, sistema prisional, poder judiciário, saúde, direitos humanos, mães e pais precisa movimentar o país urgentemente para institucionalizar mecanismos de proteção às mulheres, porque até aqui, percebemos que não houve efetividade os bons projetos de leis, o que não desmerece as tentativas de isolar e punir os assassinos de mulheres, independente do sexo.

Crime, parcialmente resolvido, no entanto, nem a atenção da equipe médica do Hospital Santa Helena, ao minuciosamente examinar a falsa mãe e acionar a polícia, nem o trabalho perfeito, rápido e técnico das forças policiais impedirão novos casos de violência.

Onde encontraremos a fórmula de educar os homens e mulheres para que sejam bons, para que olhem uns aos outros com amor e empatia, se não, pelo menos com misericórdia? Causa estranheza e inquietação que entre os sete criminosos que marcaram a sociedade brasileira recentemente, um importante jornal destacou três mulheres; Suzane von Richtofen, Eliza Matsunaga e Ana Jatobá. Acrescentemos aí, Nataly Helen.

A CORRELAÇÃO ENTRE A VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER E A SAÚDE MENTAL

A violência contra a mulher tem várias faces. Cada mulher é diferente e o impacto individual e cumulativo de cada ato de violência depende de muitos fatores complexos. Embora cada mulher sofra violência de forma única, há muitos efeitos comuns de viver com o estigma da violência e viver com medo. Antigamente as mulheres mantinham-se em silêncio sobre a violência, mas agora estão encorajadas a denunciar e procurar ajuda. A justiça de gênero, todavia, não pode ser estabelecida enquanto as estruturas misóginas não forem resolvidas.

Há um ano, os pesquisadores que participaram da Reunião Ordinária do Conselho Nacional de Saúde para debater as consequências da masculinidade sobre a saúde das mulheres, corroboraram a tese de que a violência contra a mulher tem alta correlação com transtornos mentais. Depressão, ansiedade, transtorno do sono, transtorno de estresse pós-traumático, ideação suicida e distúrbios mentais podem estar diretamente relacionados com relações abusivas e violentas contra as mulheres.

Enquanto foi diretora-executiva da ONU Mulheres, Michele Bachelet, médica, ex-presidente do Chile trabalhou focada em pesquisas e literaturas sobre a violência contra as mulheres por acreditar que essa violência é uma das violações mais frequentes dos direitos humanos, e, está enraizada no desequilíbrio de poder entre os gêneros, além de ser uma ameaça para a saúde das mulheres e dos seus filhos e sobretudo, um fator de risco para o desencadeamento de problemas de saúde mental das mulheres.

A violência é como uma pandemia silenciosa e não deixa nenhum país ou comunidade intocados. A violência é vivenciada por mulheres em casa, no local de trabalho, consultórios médicos e em espaços públicos, sem tréguas.

O livro ‘Violência contra as mulheres em todo o mundo’ e ‘Aspectos específicos da violência’, lido e adotado por Bachelet, examina o efeito da violência contra as mulheres na sua saúde em geral, na sua capacidade de trabalho, nas relações familiares e nas diversas formas de traumas e fornece provas substanciais da difusão da violência contra as mulheres em todo o mundo, destacando particularmente a desigualdade de gênero, como causa profunda da violência, que detona diretamente a saúde mental das mulheres.

A Organização Panamericana de Saúde, formalmente já reconhece a violência de gênero contra a mulher como um fator de adoecimento mental e desde então, várias perspectivas de estudos foram abertas, relacionando diretamente a violência praticada por parte do parceiro íntimo, do ex-parceiro, abuso sexual por parceiros do trabalho, situações de coerção, como causas de resultados fatais, como homicídios e suicídios. Fora essas tragédias, normalmente, a violência leva à vários transtornos de ansiedade, já citados e outros, como exaustão emocional, auto culpa, perda de humor e isolamento.

O livro, as pesquisas, são apelos a uma maior sensibilização na promoção de mudanças no sistema de tratamento de violência nas políticas de saúde mental.

Todavia, apesar das evidências, a maioria das políticas e programas de saúde mental não inclui voluntariamente a questão da violência como causa primeira para investigação, ainda.

Enquanto isso precisamos confrontar a masculinidade tóxica de quem é o vetor da violência contra as mulheres, porque são eles que espancam e matam.