Filhos como instrumento de vingança

Tragédias familiares merecem respeito e a observação dos limites éticos para se adentrar nas histórias alheias. No entanto, o crime ocorrido na cidade de Itumbiara, no estado vizinho de Goiás, onde um pai atirou contra os dois filhos e em seguida tirou a própria vida, precisa ser entendido no contexto da violência brutal e da frieza que dominaram o coração sedento por vingança de um homem adulto, consciente, de 40 anos. Não há que se ter complacência, sequer devemos explorar outros ângulos de acontecimentos anteriores ao crime. Duas famílias foram destroçadas pela crueldade e o único culpado pela tragédia diminuiu-se na covardia e tirou a própria vida, pela incapacidade total de responder pela atrocidade cometida.

Esse tipo de violência tem nome: violência vicária, que consiste na estratégica de ferir o outro através de quem ele mais ama e reúne os elementos que vimos no caso acima: crise conjugal, os filhos foram escolhidos como armas simbólicas ou instrumentos de chantagem psicológica e suicídio após o crime. Falar sobre essa tragédia é necessário para retirar dela o rótulo e o disfarce de apenas um ‘drama familiar’.

O pai teve tempo para escrever carta e publicá-la nas redes sociais, arrepender-se e apagar a mensagem, houve tempo para trazer galões de gasolina para incendiar a casa, se o plano 1, de assinar as crianças a tiros falhasse. Houve, portanto, frieza, premeditação. A história de `coitadinho, ninguém pensa na dor insuportável que ele estava sentindo’, não deve uma linha de reflexão válida porque a violência, o assassinato não pode ser a resposta ao que nos machuca. Um homem descontrolado, incapaz de lidar com suas emoções matou os filhos para destuir a mãe deles. Então, usar os filhos como instrumento de chantagem para amedrontar ou humilhar ou ainda, para manter o cônjuge homem ou mulher atados a relacionamentos falidos não é algo incomum.

Usar o filho como arma ou usar a arma contra o filho é uma dinâmica não apenas de crueldade, mas de disputa de poder e vingança emocional dentro das relações familiares, onde conscientemente assim articulam o pensamento: ‘Se não posso controlar meu parceiro, controlo aquilo de mais importante que o liga a mim, nesse contexto, o filho deixa de ser percebido com amor e torna-se a arma para ferir o outro, o instrumento da vingança final. Quem nunca ouviu uma destas frases antecederam as tragédias? “Ela nunca mais vai ser feliz ou ela vai sentir a minha dor”. O crime torna-se a mensagem de que a dor será para sempre. Tragédia semelhante aconteceu praticamente no mesmo dia na Bahia, onde um pai matou a filha de 15 anos e tirou a vida em seguida; aconteceu há dois anos com uma delegada de Polícia do estado do Pará, que teve os dois filhos do casal de 12 e 9 anos assassinados pelo ex-marido, que igualmente, tirou a própria vida.

Na lógica da vingança, da violência indireta, quem deveria proteger produziu o horror coletivo. Não, não foi uma explosão momentânea e sim, uma violência perturbadora, planejada para matar duas vezes. As crianças não eram alvos, mas se tornaram o instrumento para destruir a mãe psicologicamente, para sempre.

Com a mãe viajando, no abraço do pai estaria a segurança das duas crianças de Goiás, porém, pai não pensou nos filhos um só instante, tomou a sua dor como ‘a maior do mundo’ e atirou nos dois garotos, para fazer sangrar o coração da mãe. No Brasil não há um controle sistemático, estatístico para filicídio – pais que matam seus filhos – mas encontra-se registros do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e do UNICEF que indicam centenas de casos de mortes intencionais. No contexto do crime conjugal indireto – matar o filho para atingir o parceiro ou parceira, as mães aparecem em casos de bebês e pais aparecem mais ligados a mortes de crianças maiores.