Se você é neutro em situações de violência, você escolheu o lado do agressor

O mundo é um lugar caótico em Hobbes, Saramago, Galeano, entre tantos outros filósofos e escritores.

Vivemos num mundo que é um desastre autêntico, disse José Saramago em entrevista a Jô Soares. José Saramago, escritor português, morreu na Espanha no ano de 2010. Aos 78 anos de idade, ganhador de um prêmio Nobel, saudável, disse que simplesmente não se conformava com o mundo em que vivia, que o mundo que poderia ser, não inteiramente justo, porque sabia que Justiça absoluta não existia, mas queria que fosse um pouquinho mais humano, que a desumanidade não fosse tanto quanto era, que a exclusão social, não fosse tanto quanto era, que o abandono de continentes inteiros, guerras completamente absurdas tornavam o mundo uma angústia total.  Sem ilusão, foi isso que ele tentou passar aos seus leitores.

Eduardo Galeano, escritor uruguaio disse que o mundo nunca esteve tão louco, no sentido feio da palavra loucura, louco no sentido de um mundo que destina seus maiores recursos e suas maiores energias ao extermínio de si próprio, do planeta, da casa onde vivemos. Galeano alerta que precisamos recuperar a visão horizontal, solidária, respeitar os demais e saber que por sorte, somos todos diferentes nesse mundo e não temos o direito de impor aos demais nossa própria verdade como se fosse a única verdade possível.

Thomas Hobbes, filósofo inglês, compartilhou uma visão extremamente pessimista da natureza humana, descreve o mundo em estado de natureza como um ambiente caótico, onde a competição, o conflito e a busca pelo interesse próprio dominam os homens. Em sua obra mais importante, “Leviatã” (1651), Hobbes argumenta que, na ausência de um poder capaz de intimidar todos os homens e de um contrato social para frear as ações egoístas, os seres humanos seriam naturalmente propensos ao conflito, a competição e violência. O homem em estado de natureza seria um lobo lutando contra outro lobo, fadado a uma vida solitária, embrutecida e curta. 

O ativista político e pelos direitos humanos, formado em sociologia, o americano Martin Luther King lutou contra a segregação racial nos Estados Unidos, promoveu marchas e bradou durante anos, diante de uma multidão de negros que sofriam injustiça racial que quem aceita o mal sem protestar coopera com ele e quase todos os seus discursos eram encerrados assim: “O que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons”.

Duas situações de violência me pesaram os ombros semana passada e as revelo aqui. Pessoas “muito boas” silenciaram quando o jogador Vini Jr. desabou em choro em uma entrevista coletiva, alertando que não aguenta mais os xingamentos racistas dirigidos a ele, sobretudo na Espanha. O choro de Vini Jr. repercutiu no mundo do futebol, com alguns afagos solidários e com a expressão de desprezo do ex-goleiro da seleção do Paraguai, Chilavert, que criticou o choro do atacante brasileiro dizendo que futebol é coisa de macho e que o Brasil é país mais racista que ele conhece.

Em Cuiabá, no centro da cidade, uma senhora de 80 anos foi morta, roubada e abusada por um homem que trabalhava ao lado de sua casa. Não há exatamente uma palavra que descreva tamanha indignação e repulsa ao fato. Se tentasse, eu descreveria horror e pavor exalando de seus olhinhos incrédulos. Nem tudo é sobre nós e os nossos. Temos que ter a mesma disposição para cobrar quando a violência é praticada contra outros também. Não pode existir em nossa consciência zonas silenciosas, onde certos delitos repousam invisíveis.

Não é possível nos mantermos constantemente em crise de medo, por isso, fazer menos do que podemos, não serve para o mundo.

Discursos poderosos de uma luta inacabada

A justiça é representada por uma mulher, a própria ideia de justiça, de democracia com a balança é feminina e no entanto, nós continuamos em desvalor profissional, social, econômico e é exatamente sob a égide de uma Constituição que 35 anos depois de seu primeiro momento de vigência, estampou expressamente que homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações  nos termos dessa Constituição e mesmo sendo obrigação atuar igualmente as possibilidades desta construção conjunta muitas vezes nos é negada. Dizem que nós fomos silenciosas historicamente, Mentira! Nós fomos silenciadas, mas sempre continuamos falando, embora, muitas vezes não sendo ouvidas. Trecho de discurso da Ministra Carmen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal, hoje, a única mulher na atual composição do STF que tem 11 integrantes.

A Ministra, disse ainda que o país precisa pensar sob o prisma da promoção da paz. Um país que assassina milhares de mulheres precisa muito que todos nós comecemos a pensar na construção da paz e não apenas no combate à violência. E citou os números assustadores dos feminicídios consumados e tentados.

Trechos do discurso postado numa mídia do STF, recebeu comentários misóginos, deselegantes e polarizados. Sobre comentários maldosos após a fala de uma mulher, a Ministra disse que o discurso de ódio contra as mulheres tem se acentuado e que é um discurso de ódio diferente do discurso contra os homens. É sexista e de costumes, para atingir a família. Apontou que esses comentários são enormemente prejudiciais num momento em que há um esforço centrado pela maior participação das mulheres na política e o medo da exposição diante de ataques de misoginia, preconceito e sexismo as afastam da disputa. 

Dez anos atrás, a atriz Emma Watson, conhecida e querida por ter feito o papel da eterna Hermione da saga Harry Potter lançou a campanha HeForShe, um projeto que visa a participação de homens na luta das mulheres por igualdade de gênero. Em um evento para a apresentação da campanha realizado na ONU, ela pronunciou um discurso poderosíssimo, onde falou sobre o feminismo e liberdade. Disse que precisamos ver gênero como um espectro, ao invés de dois conjuntos de ideais opostos., que devemos nos esforçar e parar de nos definir pelo que não somos e nos definir pelo que somos. O projeto HeForShe é baseado no propósito de liberdade e convida os homens a se engajarem na luta para emancipar suas esposas, filhas, irmãs do preconceito existente.

Disse a atriz que os homens estão aprisionados em estereótipos de gênero e quando eles conseguirem se libertar, as coisas irão mudar para as mulheres como consequência natural. Se os homens não precisam ser agressivos a fim de serem aceitos, as mulheres não se sentem compelidas a serem submissas.

Enquanto a discriminação e as desigualdades persistirem, enquanto as meninas e mulheres forem menos valorizadas, sendo mal pagas para executarem o mesmo trabalho que homens, submetidas a violência dentro e fora de suas casas, o potencial humano para criar um mundo pacífico e próspero não será realizado.  O fato é que a discriminação existe. No contexto global, apenas a Islândia teve a coragem de se declarar como um país onde as mulheres conseguiram igualdade de gênero em todas as etapas de suas vidas.

Normalmente, mulheres não tem as mesmas oportunidades que os homens e as mulheres que não se conformam com o sistema, que tentam quebrar os padrões normatizados, são chamadas de descontroladas e feministas. O fato é que uma mulher que aspira um cargo político, a direção de uma empresa, o faz pelas exatas mesmas razões que qualquer homem. Basicamente, porque ela entende e firmemente acredita que é capaz de fazer trabalho.

As mudanças que podem ter efeito poderoso em nós

Acontecimentos pessoais, política, religião, atos de guerra e epidemias podem alterar inesperadamente a nossa relação com o mundo que nos rodeia. Esta é uma das coisas boas da condição humana, a maneira como moldamos nosso mundo diante das mudanças que somos forçados a absorver. Se as mudanças tecnológicas conseguiram proporcionar a emancipação do homem comum, agora é necessário criar um mundo mais relevante, num cenário mais existencialista, o ser humano com seu todo, livre, responsável por sua existência.  

Apesar dos últimos anos terem sido marcados por progressos significativos em vários domínios, como a ciência, a medicina e a tecnologia, ao mesmo tempo, o número de problemas na sociedade atual tem estagnado ou aumentado constantemente, conforme uma lista elaborada pela ONU sobre os 10 maiores problemas do mundo atual e suas possíveis soluções, as quais, se foram tentadas, falharam.

Estudo realizado pela Fundação Getúlio Vargas, Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada e Banco Mundial, em parceria com o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, aponta, talvez, o único dado positivo das pesquisas que li durante a semana. 3 milhões de famílias beneficiárias do programa Bolsa Família saíram da pobreza extrema neste ano. Em Mato Grosso, ainda há 265 mil famílias que recebem o benefício do Governo Federal.

Em julho de 2023 foi publicado o Anuário Brasileiro de Segurança Pública com dados produzidos pelas Polícias e Tribunais de Justiça dos estados brasileiros, que mostraram o crescimento dos feminicídios, das violências sexuais, das agressões em decorrência de violência doméstica, bem como dos acionamentos ao número de emergência, indicando o crescimento de todas as formas de violência contra mulheres.

Os números reforçam a tese de que o Estado brasileiro tem falhado na tarefa de proteger as meninas e mulheres: os feminicídios e homicídios femininos tiveram crescimento de 2,6% este ano, 1.902 mulheres foram assassinadas e os estupros apresentaram crescimento de 16,3%. Percebe-se pelos noticiários, pelas vezes que nos assustamos e que reagimos indignadas que os assassinatos e as demais formas de crimes contra a vida de mulheres tiveram crescimento.

As questões ambientais, outro tema que ocupa a lista de grandes problemas mundiais, de forma direta e transversal, mas aqui no Brasil, podemos tratá-los como tragédias anunciadas, repetidas de tempo em tempo, sem punição e sem reparo de danos causados. No ano de 2015 assistimos perplexos, uma das maiores tragédias ambientais do país, que matou 19 pessoas em Mariana, MG, soterradas na lama tóxica dos rejeitos de minério de ferro. 8 anos depois, nenhum réu foi punido criminalmente e os crimes ambientais, como a lama tóxica que percorreu quase 600km, devem prescrever em até um ano. 

Se a justiça tivesse agido, punido diretores da empresa Samarco, possivelmente teria barrado a ganância e o descaso com vidas humanas pelas grandes corporações e não teria acontecido Brumadinho quatro anos depois, deixando um rastro de 270 pessoas mortas. Quatro anos depois de haver causado a tragédia, a empresa Vale registrou um aumento expressivo (33,6%) nos lucros líquidos.

Presenciamos a tragédia anunciada em Maceió semana passada. Vidas foram poupadas graças a ação rápida e vigilante da prefeitura, porque entre vidas, de pessoas da classe média baixa e pobres, o mundo corporativo sempre fará a opção pela expansão de seus negócios. Enfim, as mudanças que podem ter o efeito poderoso sobre nós e nossa existência neste planeta, estão acontecendo a passos de formiga e sem vontade.

Podem me matar em nome do ódio, ainda assim, vou me levantar

No site do Senado Federal já é possível acessar a 10ª edição da pesquisa de opinião nacional, ‘Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher’ realizada pelo Instituto DataSenado em parceria com o Observatório da Mulher a cada dois anos e tem por objetivo ouvir mulheres brasileiras acerca de aspectos relacionados à desigualdade de gênero e agressões contra mulheres no país. O levantamento mostra que 30% das mulheres já sofreram algum tipo de violência doméstica ou familiar provocada por um homem. Enquanto 64% das mulheres que recebem mais de seis salários-mínimos declararam ter sofrido violência física, esse índice chega a 79% entre as vítimas com renda de até dois salários-mínimos.

A pesquisa é restrita à violência no âmbito familiar, porque há uma comissão formada para estudos e apresentação de soluções, vindos de todos os segmentos da sociedade, para garantir segurança e integridades às mulheres e as crianças, que tem presenciado muitos dos assassinatos. Fora do círculo familiar, os índices seguem escandalosos. A violência contra mulheres e meninas sempre permeou escamoteada ou visível em todos os ambientes sociais, inclusive nas escolas e  universidades. Essa semana foi divulgado o caso do professor do tradicional Colégio São Gonçalo, assediando insidiosamente meninos e meninas, manifestando o mal uso do poder e admiração, que certamente os professores têm e exercem sobre os alunos.

Também essa semana, uma estudante do curso de relações internacionais da Universidade Estadual da Paraíba, surpreendeu a reitoria e o público presente na abertura de um fórum internacional, ao usar o microfone para denunciar por assédio moral e sexual um dos mais famosos professores da instituição, professor doutor em ciência política, com estudos publicados e discursos enfocando a diminuição da violência, a construção da paz. Em ambos os casos, os professores foram afastados de suas funções em sala de aula, foi aberto processo de sindicância e tal. Punições iniciais brandas, apenas um sopro diante de tantos abusos.

As quatro mulheres selvagemente assassinadas na cidade de Sorriso mancharam de forma indelével nossa reputação como um estado violento, que tem sido incapaz de fazer o enfrentamento real da violência contra as mulheres. O assassino, foragido da justiça, condenado por vários crimes, inclusive na cidade vizinha, transitava e trabalhava livremente na imponente cidade de Sorriso.

Com força devemos repudiar a libertação prematura, menos de um ano de encarceramento do assassino da ex-namorada e seu atual namorado, cometido pelo filho de um eminente político. Todo e qualquer avanço, depende muito da punição severa aplicada aos casos, sobretudos dos que ganharam destaque na mídia. A notícia da prisão domiciliar do assassino de um duplo homicídio, com narrativas artificiais é um balde de água gelada em toda luta das mulheres pelo direito de continuarem vivas depois de romper relacionamentos abusivos.

De uma forma ou outra, a semana foi marcante em decepções acerca do tema. Maya Angelou, a extraordinária escritora americana, me vem à mente com um risco de esperança no verso:

“Pode me atirar palavras afiadas,

dilacerar-me com seu olhar,

você pode me matar em nome do ódio,

mas ainda assim, como o ar, eu vou me levantar.”

O alimento do ódio, da violência e da vingança

Voltaire, o mais expressivo representante do iluminismo francês, escreveu em O Tratado sobre a Tolerância, 1763: “Digo-vos que é preciso olhar todos os homens como nossos irmãos. Como! meu irmão, o turco? meu irmão, o chinês? o Judeu? o siamês? – Sim, sem dúvida. Não somos todos filhos do mesmo pai e criaturas do mesmo Deus?

A ordem está em colapso e está sendo substituída pelo caos. Isto tem acontecido nos últimos dez anos. A pandemia fez parte disso, a invasão russa da Ucrânia faz parte disso, o que está acontecendo agora em Israel e na Palestina faz parte disso. “Se não reconstruirmos a ordem, a situação só piorará. Ela se espalhará por todo o mundo e pode até levar à Terceira Guerra Mundial. E com o tipo de armas e tecnologia atuais disponível, poderia levar à aniquilação da própria humanidade”, disse o escritor, historiador e pensador israelense, Yuval Harari, ao dar entrevista sobre o que considera ter sido o “11 de setembro de Israel”: o ataque terrorista surpresa do grupo palestino Hamas contra o estado de Israel.

Harari, se tornou um dos mais importantes e lidos pensadores dos últimos anos. Já vendeu mais de 45 milhões de livros em todo o mundo, manifestou-se veementemente contra o ataque terrorista do grupo palestino Hamas, sem, no entanto, aliviar Israel de culpa: “Há muito que se criticar sobre a forma como Israel abandonou as tentativas de fazer a paz com os palestinos, e manteve milhões de palestinos sob ocupação durante décadas, mas isso não justifica as atrocidades cometidas pelo Hamas e o mais sensato seria impor sanções e exigir a libertação de reféns e o desarmamento desse braço armado do terrorismo”. Segundo o autor, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu é um primeiro-ministro incompetente, que construiu sua carreira dividindo a nação contra si mesma.

O presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, pronunciou dizendo que as políticas e ações do Hamas, que controla a Faixa de Gaza, não representam o povo palestino, e que são as políticas, programas e decisões da Organização para a Libertação da Palestina que representam legitimamente o povo palestino. Disse também que o ataque do Hamas deixou a população palestina profundamente vulnerável às retaliações.

As guerras em curso nos dão provas que genocídios estão acontecendo debaixo dos nossos olhos, vidrados na superficialidade das coisas e das ideias. A humanidade, deve despertar para compreender que a violência não pode ser justificada, que todas as vidas merecem igualmente serem protegidas e colocadas no mesmo patamar de importância, o árabe, o judeu, o ucraniano e tantos outros que estão vivendo sob ameaças de bombardeios, de corte de água, luz, comida e sem ajuda humanitária.

O fanatismo religioso, não é obviamente o único componente do ataque terrorista, mas é incômodo saber que o fanatismo religioso opera numa lógica onde o foco está na vida em outro mundo, portanto não importa os danos e sofrimentos que causem aos outros nesse plano terrestre.

No velório de uma criança palestina morta pelo bombardeio de Israel, havia uma faixa: “É com grande orgulho que velamos nossa filha…que foi martirizada em nome da nossa religião”. O Hamas plantou cenas de ódio e de dor terrível nas mentes de milhares de pessoas, que terão, desde então, dificuldade para reiniciar um processo de paz.

O renomado intelectual judeu Noam Chomsky, reconhecido por sua atuação em questões de geopolítica e direitos humanos, fez declarações fortes a respeito da situação atual na Palestina. Criticou as ações de Israel e denunciou que Tel Aviv comanda uma limpeza étnica contra as populações palestinas. “A ousadia das ações israelenses é surpreendente. Fazem o que querem, sabendo que os EUA os apoiam. Não se trata de um esforço para acomodar a população palestina, trata-se simplesmente de livrar-se deles”.

O conflito do oriente médio envolve situações complexas e todos os cidadãos e países acabam sendo, ao mesmo tempo, perpetradores e vítimas. O Papa Francisco disse que o populismo, o terrorismo e o extremismo não ajudam a chegar a uma solução para o conflito entre israelenses e palestinos, mas alimentam o ódio, a violência e a vingança.

O mundo pode ser um lugar assustador às vezes

Arthur Schopenhauer, filósofo alemão, que cito com frequência, mostrou-me que o sofrimento inevitável da vida humana está alicerçado na nossa essência, que a dor e o sofrimento não são acidentais e evitáveis, mas sim essenciais e inevitáveis. Diz ele que não é a dor e o sofrimento, mas sim felicidade, que é apenas uma parte acidental da nossa existência. O argumento mais forte de Schopenhauer reside no argumento que a vida humana é um sofrimento multifacetado entre a dor e o tédio, que são os ingredientes dos quais a vida é composta. Concluo então, que a felicidade verdadeira e duradoura não é possível e não deve, portanto, ser o objetivo, o ponto essencial a ser perseguido em nossa existência.

Embora estejamos sempre argumentando que a vida é melhor hoje do que foi no passado, se você prestar atenção às manchetes dos jornais, provavelmente concluirá que a vida não parece tão boa. Estamos convivendo com várias situações de violências, sobre as quais as autoridades não têm sequer noção do que fazer para conter; são tiroteios nas escolas, como ocorreu essa semana em Barra do Bugres, a brutalidade policial ocorrida também recentemente no estado, na cidade de Cotriguaçu. Mulheres, de todos os estratos sociais seguem sendo vítimas de violência de seus parceiros, que ignoram solenemente as leis.

O sociológo polonês Zygmunt Bauman usa uma metáfora poética e angustiante, chamada de modernidade líquida e amor líquido para explicar os rompimentos afetivos e morais que surgem com bastante frequência em nossas vidas, causados pela fragilidade dos sentimentos e dos relacionamentos que construímos com laços frouxos, que favorecem os rompimentos, a violência, a quebra dos códigos de convivência.

Bauman cita Schopenhauer no livro ‘Modernidade Líquida’ e diz que não é de todo surpreendente que as relações tenham se tornado mais fugazes, descuidadas e violentas dada a tendência social da busca pela satisfação das necessidades momentâneas. A maioria dos nossos relacionamentos hoje são mais meras conexões do que relacionamentos, uma modernidade líquida onde muitas coisas, como o compromisso com o outro, a verdade, os bons sentimentos parecem escapar-nos pelos dedos.

Ele então argumenta, seguindo Schopenhauer, que o primeiro fato de nossa existência é que nos encontramos em um mundo que nos dá a oportunidade de fazermos a escolha moral entre o bem e o mal e que a necessidade de estarmos sempre fazendo escolhas não é uma garantia infalível de que faremos boas escolhas, em um mundo onde as utopias contemporâneas querem que celebremos o desmantelamento, o abandono dos ideais duradouros como um ato de nossa emancipação.

Assim, entre a desilusão completa de Schopenhauer e a percepção de Bauman de que é a estética e não a ética o elemento que nos integra, mantenho minha responsabilidade de agir sem ferir o outro, mas creio ser prudente descer o nível da expectativa quanto o outro e aceitar que o que era sólido, aos poucos se derrete e cabe-nos continuar o percurso.

A responsabilização da mulher pela violência contra ela mesma

Apesar dos esforços significativos feitos pelos governos, os assassinatos de mulheres relacionados a gênero permanecem em níveis inaceitáveis na sociedade brasileira. Muitas vezes, esses assassinatos são o culminar de episódios repetidos de violência de gênero, o que significa que poderiam ser evitados por meio de denúncias e intervenções de familiares, vizinhos e amigos. Outras questões, como a dominação masculina explícita, quando a mulher se recusa a beber mais, recusa sexo, decreta o fim do relacionamento estão nas cenas dos crimes excessivamente violentos, indicando sadismo e misoginia.  

Desde 1827 um pequeno livro chamado “As confissões de um feminicídio não executado”, de autoria de William MacNish, que narrou sobre como seduziu, engravidou, abandonou e assassinou uma jovem, que a palavra feminicídio tem sido usada. A palavra, a princípio era entendida como todos os assassinatos de mulheres, independentemente do motivo ou do status do assassino.

Diante do aumento dos casos, ganhou amplitude e a definição foi adaptada para o assassinato de mulheres por homens pelo fato de serem mulheres. Hoje, destaca-se o feminicídio no contexto das relações desiguais de gênero e da noção de poder e domínio masculino sobre as mulheres, “o assassinato de mulheres por homens motivados por ódio, desprezo, prazer ou um sentimento de propriedade das mulheres”, ou seja, sexismo.

No livro citado, escrito em 1827 fala pela primeira vez em feminicídio e culpa recai sobre a mulher. O recente caso de violência estarrecedora contra uma mulher ocorrido em Cuiabá essa semana, mostrou que pouco mudou a prática de culpar a vítima por sua própria morte. A desequilibrada interpretação social do comportamento livre, das roupas femininas como provocativos surge da objetificação dos corpos femininos e esse argumento, além de reforçar uma concepção objetificada das mulheres, aumenta a vulnerabilidade delas à agressão e as colocam responsáveis diretamente por seus próprios ataques e mortes.

Quando o comportamento de uma mulher é descrito como livre, ela é igualmente reduzida a um objeto sexual despersonalizado, um corpo onde só existe as partes sexuais.  Além disso, um desejo específico é atribuído a ela, o desejo de atenção sexual dos homens. Essa atribuição não é uma forma de respeito à autonomia da mulher.

Ao contrário, nega sua autonomia ao ignorar a credibilidade pessoal, profissional, atributos pessoais interiores. A responsabilização da mulher pela violência contra ela mesma é como uma desculpa moral, que sugere que um homem excitado não consegue se controlar, que um homem abandonado não consegue reconstruir a vida.

Para desafiar essas crenças e os danos que elas causam, devemos rejeitar a linguagem que transfere a responsabilidade pela violência masculina para as mulheres, não importam as circunstâncias. Sorte tem os homens que não são obrigados a monitorar seu comportamento e roupas para evitar “provocar” as mulheres porque o desejo sexual feminino não é um elemento potencialmente perigoso com o qual os homens devem negociar para se protegerem de ataques violentos e assédios sexuais.

No Senado Federal tramita um projeto de lei apresentado pelo senador Fabiano Contarato para tentar estancar a prática machista de culpar a mulher vítima pela violência sofrida, que, além propor alteração na legislação penal estabelece regras adicionais nos casos de inquirição de vítimas e testemunhas de crimes contra a dignidade sexual, a fim de obrigar os agentes públicos a não atuarem ou permitirem a revitimização da ofendida, normalmente exposta com desprezo nas peças processuais ao terem fotos e fatos íntimos citados pelos advogados dos acusados, sem repreensão de juízes e promotores. (Agência Senado)  

A violência contra a mulher não é um processo inevitável

Os números e estudos sobre a violência contra a mulher desmentem a ideia de que o perigo está em cruzar com um estranho em uma rua escura. “Em 84% dos casos de estupro, o estuprador é uma pessoa próxima e em 65%, o estupro foi cometido dentro de casa”, dados do Instituto Patrícia Galvão.

A violência contra a mulher segue adicionando requintes de sadismo e crueldade ao ato de subjugar e humilhar a mulher. Essa semana, em Primavera do Leste, na frente de outra criança, um homem agrediu um bebê de apenas três meses de idade. A cena aterrorizante foi gravada pela mãe, que também foi agredida pelo marido. Quanto mais chorava, mais apanhava o bebê, que apresentou lesões na cabeça. Segundo relatos da mulher, o casal já havia se separado devido as agressões que sofria, sem, no entanto, haver denunciado antes.

No estado vizinho de Goiás, um médico, ginecologista, de 73 anos, com cara de avô confiável foi preso em Goiânia após denúncias de uma série de crimes sexuais contra pacientes, depois que o marido de uma das mulheres, que o denunciou por crime sexual entrou abruptamente no consultório do médico e deferiu-lhe alguns socos.  A partir do episódio, que foi amplamente noticiado, muitas outras mulheres se encorajaram a denunciar as violações que sofreram em consultas com o ginecologista ao longo dos anos. Alguns casos, datam de 1994, já devem estar criminalmente prescritos.

O fato em Goiás aconteceu no mesmo momento em que um outro médico ginecologista recebia a sentença de ter que cumprir 35 anos e 11 meses de prisão por crimes sexuais contra 45 vítimas, que eram pacientes.

Fora do Brasil, a situação envolvendo médicos se repete. Dois meses atrás, um famoso oncologista americano estava proferindo uma palestra, num centro médico lotado, quando foi interrompido e agredido, ao vivo, pelo marido de uma paciente, de quem ele teria abusado sexualmente durante uma consulta médica.

Citei casos ocorridos recentemente em casa e no consultório médico porque envolvem relacionamentos que deveriam ser de confiança mútua, porém, percebe-se nos que os médicos sentiam o consultório como um campo seguro para praticar os crimes, ficavam a sós com as vítimas, com portas trancadas e confiavam no silêncio das mulheres, visto que há estudos que comprovam que 8 em cada 10 vítimas não denunciam, o que mostra como o trauma, a vergonha e o medo da exposição são barreiras para que as mulheres vítimas de violência denunciem, o mesmo sentimento de controle acontece dentro de milhares de casas.

A Comissão de Constituição e Justiça do Senado aprovou um Projeto de Lei que determina o afastamento imediato do lar de homens que usam violência sexual, moral e patrimonial contra as mulheres, o que já está previsto na Lei Maria da Penha, contudo a proposta da senadora Danielle Ribeiro, inclui outras formas de agressão, que foram se incorporando as práticas de violência, como, a vingança pornográfica virtual, difusão de informações falsas, vulgarização da vida privada, entre outras…

Medidas propostas transformadas em leis há centenas, a efetividade destas não está em questionamento, porque um artigo aqui, outro ali vai fechando o cerco contra os agressores, vai derrubando por terra a tese de que isso ‘vai dar em nada’. Um dia dá, como o caso do médico de Goiás, que desde 1994 assediava e violava pacientes, 29 anos depois, está preso.

Não e não penso que as mulheres tenham que ter jogo de cintura para sair das situações de violência, pelo simples fato de que as situações de violência não deveriam mais acontecer. A violência contra a mulher não é um processo inevitável e pode ser prevenida com mais educação e punição cada vez mais rigorosa.

Uma fração das histórias de guerras

A enviada especial da Agência das Nações Unidas para Refugiados, Angelina Jolie, visitou dias atrás o Iêmen em uma tentativa de chamar a atenção para as consequências catastróficas do conflito que dura sete anos. Em conversas com famílias iemenitas, incluindo famílias deslocadas e refugiados, Jolie ouviu sobre suas perdas e como o conflito destruiu suas vidas. São pessoas que estão vivendo em abrigos, o conflito fez com que perdessem suas casas, entes queridos, os meios de subsistência e arruinou o futuro de seus filhos.

Jolie é a enviada especial para refugiados desde 2011. O trabalho da atriz tem sido dar voz aos refugiados e em audiência com autoridades locais, pediu que todas as partes envolvidas na guerra evitem atingir civis e garantam acesso humanitário desimpedido a todas as pessoas necessitadas e passagem segura para civis para fugir de áreas de conflito. Com autoridade de quem fala pela ONU, o apelo da atriz pode resultar em demonstração de compaixão e solidariedade internacional.

Viver em um campo de refugiados impacta a vida das pessoas, dificulta muito a vida das mulheres e crianças, que são a maioria da população deslocada. Jolie passou o dia internacional da Mulher entre os refugiados e desabafou ao deixar o país, três dias depois dizendo: “o nível de sofrimento humano aqui é inimaginável. A cada dia que o conflito brutal do Iêmen continua, mais e mais vidas inocentes são perdidas e mais pessoas continuarão a sofrer. Vivemos em um mundo onde o sofrimento e o horror dominam as manchetes, que precisa urgentemente de uma solução rápida e pacífica para este conflito e para outras pessoas deslocadas, quem e onde quer que estejam no mundo.”

Em todo o mundo, o número de pessoas deslocadas, a maioria devido à guerra, atingiu um recorde. Em outras palavras, as mortes em batalha podem ter diminuído, mas o sofrimento devido ao conflito não. São mais de 80 milhões de pessoas deslocadas em todo o mundo, A guerra da Síria causou mais de 11 milhões de casos de migração forçada, dos quais 5,6 milhões de sírios são hoje considerados refugiados. A República Democrática do Congo tem o maior número de pessoas deslocadas no continente africano, com quase 6 milhões de pessoas forçadas a deixar suas casas por causa dos vários conflitos  e cerca de 4 milhões de pessoas podem fugir da Ucrânia.

As mortes em combate é uma fração da história das guerras. Não se dimensiona o horror de uma guerra pelo número de mortes que ela causa. Há conflitos que matam principalmente mulheres e crianças pequenas, devido à fome e doenças evitáveis​, há combates que não acarretam milhares de mortes, mas afastam milhões de pessoas de suas casas e o êxodo de refugiados causa devastação humanitária, com crianças desnutridas morrendo de fome e sede.

Uma entidade que monitora conflitos em todo o mundo elaborou no começo deste ano uma lista de dez conflitos internacionais que precisam receber atenção internacional. Entre os listados, estão Iêmen, Etiópia, Sudão e Mianmar, Ucrânia, etc… A `Crisis Group` colocou a Ucrânia no topo da lista, por entender que há riscos específicos na Ucrânia que fazem desse conflito uma ameaça à segurança global, mesmo que os números de mortos e pessoas em grave situação humanitária sejam menores do que em outras partes do mundo, que é a possibilidade (não assumida pelas autoridades) de ataques nucleares.

Com quase vinte anos de progresso nos campos econômicos e sociais, a Ucrânia pode ter um terço da população vivendo abaixo da linha da pobreza e 62% poderão cair na pobreza, segundo dados do PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento). A população fragilizada pela guerra poderá viver traumatizada pela queda alarmante do padrão de vida pós guerra. 

Não há notícia boa?

Por um bom tempo o colapso econômico, o desastre ambiental e a agitação social estão praticamente garantidos. Bem vindos ao persistente mundo pandêmico!

Quase dois anos depois, parece que os indivíduos responsáveis estão vivendo março de 2020, com planos adiados, alegria e riso contidos, medo da nova face do mesmo mal que os tem desafiado desde então. Acabo de ler uma entrevista preocupante que o bilionário americano e fundador da Microsoft Bill Gates, concedeu ao jornal americano Financial Times dias atrás, onde ele, muito provavelmente baseado nas pesquisas que financia através da Bill & Melinda Gates Foundation, alerta para a possibilidade de enfrentarmos nova pandemia, com vírus tão contagioso quanto o Ômicron, porém com taxa maior de mortalidade.

Bill Gates cita médicos e cientistas e faz um chamamento aos governos e donos de grandes corporações para que doem recursos para que Organização Mundial de Saúde e outras organizações possam investir em inovação e desenvolver insumos para vacinas para oferecerem respostas mais rápidas na próxima pandemia global.  Ao Financial Times ele assegura que somente com esforços enormes e grande doação financeira será possível evitar danos e perdas maiores do que as que o mundo vem enfrentando há dois anos.

A entrevista polêmica, não causou surpresa porque no ano de 2015, Bill Gates fez uma bombástica palestra, onde alertou que o mundo enfrentaria uma grande pandemia num futuro próximo. É um exagero dizer que Bill Gates profetizou a chegada da pandemia da Covid-19.  Pela recente entrevista, ele foi duramente questionado por estar falando de um tema sobre o qual ele não tem formação mas  sabemos que a Fundação Bill & Melinda Gates faz doações de valores surpreendentemente altos para financiar pesquisas e desenvolver vacinas contra várias doenças nas populações pobres, principalmente da África. Portanto, ele deve ter informação de pesquisadores e para nosso azar, ele pode saber do que está falando.

Bill Gates tem credibilidade pela visão macro que compartilha do mundo porém,  para muitos médicos que comentaram a entrevista, o que ele disse nem chega a ser uma previsão mas a constatação de fatos simples  incontestáveis pela ciência. Surgem vírus potencialmente perigosos a cada década e uma vez a cada 50 anos, pelo menos, esse vírus se espalha e afeta vários países. Tem sido assim, porém, esse tempo entre uma pandemia e outra tem-se reduzido. A fala de Bill Gates é reforçada então, no sentido que é apenas uma questão de tempo até que um patógeno (vírus, bactérias, fungos…) capaz de causar muito mais danos do que a Covid-19 nos atinja e estabeleça um precedente muito perigoso com a raça humana.

Nos comentários há elogios, agradecimentos e muita desconfiança de que Bill Gates esteja agindo desinteressadamente. Chamado de alarmista, uns creem que ele esteja se transformando num vendedor de vacinas, outros creem que sua fortuna aumente em decorrencia do caos econômico global trazido pela pandemia. Vale também crer que seja possível um indivíduo ser bilionário, ambicioso e ainda assim, seja benevolente, pensa em fazer o bem aos outros e investir bilhões de doláres da fortuna pessoal para oferecer o mínimo acesso à saude para áreas miseráveis do mundo, é um prenúncio disso.

Parecem precauções razoáveis os preparativos pelos governos e organizações para futuras pandemias ou para a longa duração desta, porque milhares de indivíduos brasileiros, mesmo cientes de que suas ações podem levá-los a própria morte, decidiram desde dezembro retornar suas vidas às festas, férias, praias, bares, shows, onde aglomerações são inevitáveis, mesmo sob  os reiterados alertas da fácil propagação da variante Ômicron. É uma aposta compreensivelmente ruim substituir a capacidade de viver com alegria, de jantar fora, divertir-se por ficar dentro de casa, recebendo comida por aplicativo. Mas neste momento, devemos nos sacrificar pelo bem de todos, nos prepararmos cuidadosamente para o futuro porque dependendo da escolha de cada um, a vida segue ou não…

Entendo que o isolamento e as limitações estão asfixiando. É onde estamos agora. Mas onde quer que você olhe, não há vida sem pandemia. Na melhor das hipóteses, as vidas estão sendo mantidas no modo sobrevivência até que o sistema (governos, organizações, grandes corporações, bilionários, cientistas) se sobreponha ao colapso e restabeleça uma nova ordem onde possamos voltar a viver segundo nossas vontades e interesses.