Os complexos rituais da cultura xinguana

No universo Xinguano o velho é dono da história; o homem, dono da aldeia; e a criança, uma entidade intocável, é dona do futuro.
Faço aqui, um breve exercício de retrospectiva das histórias que ouvi e vivenciei nas viagens ao Parque Indígena do Xingu, de onde extraí a mais pura essência do respeito aos povos originários e suas ancestralidades, suas crenças, como o medo dos mamaés, espíritos que vivem no mundo oculto, alguns, malignos, como Anhangu, um espírito exigente e perigoso. A força do sobrenatural que reside na onça branca que vive no fundo do rio, quem a vê adoece e morre e ela não pode ser abatida porque levaria consigo para a profundeza do rio, todos da aldeia. Ainda, a inexplicável força de cura dos Pajés Sapaim e seu irmão Tacumã, homens que tinham profunda intimidade com o mundo espiritual.

 Sua criação foi resultado da luta política, envolvendo os irmãos Villas Bôas, o Marechal Cândido Rondon, Darcy Ribeiro e muitos outros. 11 municípios fazem divisa com o Parque. O indígena continua sendo visto como um ser exótico e o Parque Indígena do Xingu é hoje uma ilha cercada pelo avanço da soja, pecuária, madeireiras e estradas. 

No mês de outubro de 2003, passei quatro dias, sediada no Posto Indígena Leonardo Villas Bôas, entre os Kamaiurá e Yawalapiti, região denominada Alto Xingu. Nos Kamaiurá, distante, cerca de 10 quilômetros, vivem os indígenas de língua Tupi. O grande chefe Aritana Yawalapiti, surge como uma lenda viva, um homem, que reorganizou e manteve seu povo unido após vencer várias invasões e ataques quando habitavam outras terras, sofreram muitas baixas e se mudaram muitas vezes, até se estabelecerem no Parque Indígena do Xingu. Interferia com autoridade pelo povo xinguano, falava cerca de 9 línguas indígenas.

Os símbolos míticos iam surgindo sutilmente. A fabricação dos corpos dos guerreiros, que sofriam escoriações profundas nas costas e braços antes das grandes celebrações, para que o sangue fraco fosse eliminado antes das lutas corporais huka-huka, um espetáculo, com o qual se encerrava o Kuarup; o respeito indescritível aos mortos; a superstição; a confiança no poder de cura dos pajés, a fabricação dos corpos nas relações sexuais continuadas até que o bebê se forme; a reclusão, que marca a evolução de um estágio de vida para outro e garante a privacidade e equilíbrio para viver as transformações; os guardiões da flauta, que percorrem as ocas apresentando as virgens recém-saídas da clausura. As virgens andam graciosamente atrás dos guardiões e se escondem tímidas quando estes param para apresentá-las a algum parente. Esse ritual marca passagem da infância para vida adulta e no final da cerimônia de apresentação, as jovens indígenas estão prontas para casar-se.

O sensível cerimonial dos homens de mãos dadas em círculo para conhecer a criança que nasce na aldeia. E por fim, o ritual do Kuarup (nome de uma madeira), que revive a narrativa religiosa dos índios do Xingu, centrada na figura de Mawutzinin, um ser eterno, comparado a Deus, responsável pela criação dos primeiros seres humanos a partir de troncos de árvores.  O ritual começa com a chegada dos três troncos (Kuarup), e o choro das famílias em frente aos troncos, adornados com algodão e penas.

Em 2013 visitei a terra indígena Capoto-Jarina, onde vive o cacique e pajé Raoni Metuktire, líder Kayapó, revestido de sua autoridade de líder de uma nação indígena reconhecido e respeitado no mundo inteiro, com seu labret no lábio, sua cultura e seus protocolos, a seu tempo e hora. Voltei ao Parque Indígena do Xingu em 2013 e 2014. Aritana faleceu em 05 de agosto de 2020, devido a complicações causadas pela Covid-19.

Não calar nada

Escrevo livremente neste espaço do RDNews há 12 anos. Aqui, torno público e dou ênfase às minhas pesquisas, estudos sobre questões de gênero, desigualdade social, processos migratórios e política.  A sociologia me encoraja a de me expor, me aproxima de muitos, me distancia de alguns poucos, me traz reconhecimento e críticas, que aceito e utilizo no meu processo de crescimento pessoal. Neste espaço, aprendi a liberar meus textos de padrões rígidos dos artigos acadêmicos ou científicos e ganhei visibilidade como cientista social.

Após a apresentação de trabalho publicado e processo seletivo, percebo a indescritível honra de adentrar no Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso, uma Casa centenária, fundada pelo então presidente do Estado de Mato Grosso e Arcebispo Dom Francisco de Aquino Corrêa e entre seus membros estão destacados sobrenomes da sociedade e da política mato-grossense, comprometidos com a prestação de um trabalho contributivo para ajudar a preservar, acompanhar e narrar a história que Mato Grosso vai construindo.

A vida, o passado, a sensação profunda de pertencimento a região do Araguaia, onde nasci, em Ponte Branca, Barra do Garças, onde morei, levou-me naturalmente a escolher como patrono um homem que viveu mais de 50 anos às margens do Rio Araguaia, o bispo emérito da Prelazia de São Félix do Araguaia, Dom Pedro Casaldáliga, um migrante, evangelizador, defensor dos direitos humanos, sobretudo dos indígenas, que foi enviado ao Brasil em plena ditadura militar. Foi ordenado bispo e marcou a data com a divulgação de uma Carta Pastoral chamada Uma Igreja da Amazônia em Conflito com o Latifúndio e a Marginalização Social, onde denunciava que indígenas e trabalhadores viviam em regime de escravidão. Pela dureza de sua escrita, dizia: “Todos temos momentos de comunicação emocionada, intensa”.

Dom Pedro sofreu perseguições políticas, ameaças de morte, que ele respondia com a linha de uma poesia sua: “Eu morrerei de pé, como as árvores. Me matarão de pé”. Os governos militares abriram vários processos de expulsão do Brasil contra Dom Pedro, porque desconfiavam do envolvimento da Prelazia e do bispo com os movimentos da Guerrilha do Araguaia. Teve, porém, em todos os momentos, a defesa vigorosa do Arcebispo de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns. Permaneceu e fortaleceu a Prelazia, que respondia por 15 municípios e fazia divisa com Pará e Tocantins. Sua voz tornou-se nacional e internacionalmente respeitada. Escreveu vários livros. Contribuiu com a criação do Conselho Indigenista Missionário, CIMI e Comissão Pastoral da Terra. Teve sua vida retratada no filme “Descalço sobre a terra vermelha” e biografia escrita pela jornalista Ana Helena Tavares, “Um bispo contra todas as cercas: a vida e as causas de Pedro Casaldáliga”.

Ao completar 75 anos apresentou, conforme a tradição, pedido de renúncia à Prelazia. Eu o conheci em 2006, morando na casa pastoral, ativo nos trabalhos religiosos e comunitários, sendo visitado, entrevistado por pessoas de várias partes do mundo. Recebeu título de Doutor Honoris Causa da Unicamp, deu nome ao Campus da Unemat em Luciara. Mais tarde foi acometido pelo Mal de Parkinson. Continuou com o trabalho pastoral.

Aos 92 anos, em tratamento em Batatais-SP, nos deixou, não sem antes tratar de seu próprio sepultamento. Pediu para ser enterrado em um pequeno cemitério, onde eram sepultados os indigentes, debaixo do pé de pequi. Assim foi feito!

Viveu e morreu com o lema que perseguiu:

Não ter nada.

Não levar nada.

Não poder nada.

Não pedir nada.

E, de passagem, não matar nada, não calar nada.

Somente o Evangelho como uma faca afiada.