A difícil tarefa de criticar sem agredir

Estamos acostumados a debater temas políticos nos limites entre o que o outro pensa e o que quero ouvir, entre a necessidade quase doentia de uns impor sua linha de raciocínio aos outros, sob a pena da contra crítica baseada nas argumentações de ódio. Ainda assim, precisamos conversar muito! Há novas realidades carentes de serem conhecidas e discutidas com respeito às pluralidades. E como trazer temas polêmicos para o centro das discussões sem limitar o discurso e com civilidade?

A crítica é de fato, um jogo. Críticas carregadas em momentos emocionais são geralmente agressivas, de conteúdo duvidoso e despertam portanto, respostas igualmente raivosas e desprovidas de checagem. Criticas são inevitáveis. Vamos ser criticados porque num determinado momento cometemos algum erro ou na contramão da compreensão, quando estamos indo bem demais. Independentemente da motivação ou falta dela, as criticas deveriam ser válidas como um instrumento a nos orientar o rumo, mas que nada!A crítica agressiva implica nada mais do que a imposição de critérios de superioridade para desrespeitar e ridicularizar o outro. Justo não é, mas é o que se vê!

São poucos os que conseguem tecer uma abordagem geral de um quadro desfavorável, com respeito, considerando o contexto que tenha gerado tal quadro.  Poucos pensam que a sociedade está vendo, ouvindo e repudiando a gritaria, que muitos indivíduos fazem uso de reflexão, sem estarem presos aum lado ou outro e não porque estão desalinhados com o sistema, mas ao contrário, porque o sistema permite o contraditório e as interpretações distintas da gritaria e dos xingamentos.

É compreensível que o fenômeno das eleições sempre provoca sentimentos fortes nas pessoas, a disputa é instigada no centro, na periferia, nos debates e na TV e a produção, que deveria explorar o conhecimento e as propostas, apela para o ataca, responde, rebate, suspende, tira do ar, corta tempo e assim, ignorando os elementos que dão clareza e sustentação ao pleito, a hora está chegando e a semana deve ser impiedosamente tensa e panfletaria.

Em vários, quase todos os contextos, a vida contemporânea tem se recriado, porém no quesito eleições, aqui, ali, lá fora tem sido ainda igual a desatenção com quem espera um jogo limpo.A política ainda não encontrou um meio eficiente de progredir na velocidade que as mídias avançam, que as informações chegam às pessoas. Truncada, com reforma para inglês ver, a lei eleitoral não encontrou ainda formas para enfrentar suas próprias deformações efragmentações.

Eu cá, no meu mundinho, preocupada em ter voz, em fazer-me respeitar pelos senhores que querem comandar o espaço que habito, acredito que é possível viver uma nova configuração de valores, com quebra de paradigmas do modo de pensar, perceber e usar as palavras sem baixar o nível.

É importante ter voz

Uma das formas de negação da dignidade humana é o silêncio. Silêncio imposto pelos algozes, silêncio por escolha própria, por temer a dicotomia das palavras, que dependem da boa ou má intenção de quem as interpreta.

O silêncio dos que recolhem a voz é uma das características dos vulneráveis, dos que são explorados e abandonados.

Ao soltarmos a voz vamos tecendo histórias, cruzando o tempo, as subjetividades e reflexões mais densas sobre experiências, memórias, atitudes e posturas.

Tem sido ampliado o espaço onde podemos criar narrativas sobre o que pensamos do nosso lugar no mundo, sobre as injustiças que presenciamos ou sofremos. Ter voz importa! Na verdade, fazer uso da voz de forma eficaz e crucial para legitimar as lutas que empreendemos, seja na política, na vida social e familiar.

Falar o que se sabe, perguntar o que não se sabe, escrever, comentar artigos é um poderoso instrumento itinerante de praticar a democracia, de defender-se dos excessos dela ou apenas gozar do direito à voz que as conexões contemporâneas oferecem através da internet, dos blogs, jornais e sites e aplicativos de mensagens.

Não há mais espaço para o obscurantismo que humilha e desacredita e para sair desse desânimo, desse desencanto, o professor Nick Couldry, da Universidade de Londres escreveu um livro intitulado, “Ter voz importa”. O termo “voz”, usado pelo autor sugere justiça e democracia, através da qual podemos ajudar a promover mudanças políticas ou denunciar desagregações.

Justamente pelo poder que o discurso livre articula, alguns setores da mídia negam relevância à voz e creditam a esta, apenas um poder de aspecto ilusório. Esse discurso opera para desconsiderar algo importante, que pode contribuir para a construção de visões alternativas para se enxergar e sanear as crises.

A todo tempo algum acontecimento aparentemente fora do nosso alcance perpassa nossas vidas, podemos então, oferecer a voz como algo que pode ser um grito individual ou coletivo, um processo que não é necessariamente político em si mesmo, pois pode nos conectar com diversos enquadramentos e ser aplicado a variados contextos para além da política..

Ter voz é um processo de dar significado à vida de alguém, é dar crédito. Nós todos queremos ter voz. E eu decidi falar da voz como um valor individual, uma marca da liberdade de expressar consentimento, indignação e propostas para que em certo momento não haja tamanho distanciamento entre o que ressoa e o que é feito.

Há uma variedade de demônios que nos espreitam. A impunidade é um deles. E a luta contra a Impunidade implica assegurar o direito inalienável de conhecer a verdade sobre violações e quebrar o silêncio só reforça o objetivo de usar a voz, não como instrumento de show, mas de debates sérios, que podem, com esperança, influenciar e chegar a algum lugar.

Mãos vazias

Para quem já tinha tão pouco, sentir a fúria do vento e da água levando tudo foi devastador. O furacão Matthew, uma tempestade de categoria assustadora atingiu o Haiti, destelhando casas, arrasando a plantação e tombando cerca de 900 pessoas ao chão. Uma nova onda de pobreza extrema, de fome e doenças se instala no pequeno país caribenho, que ainda se encontra longe de recuperar-se do terremoto que arrasou o país em janeiro de 2010.

É preciso olhar para a história, ler relatos das lutas para entender o que prende e sufoca o desenvolvimento da primeira república negra da América a tornar-se independente. Também conhecido como a Pérola Negra do Caribe no período colonial, o Haiti fez história ao renascer livre de um levante de escravos. Estudei o Haiti e o migrante haitiano por três anos e ainda tento entender como o Haiti tem sobrevivido às constantes ameaças à sua soberania, devido a sua localização estratégica para os Estados Unidos; situa-se entre a República Dominicana e Cuba e entre uma coisa e outra já se vão 212 anos de muita provação.

O país tem vivido crises cíclicas. As catástrofes não são acidentais. O Haiti localiza-se no caminho dos furações, terremotos e tempestades tropicais. Além disso, tem sido alvo de sucessivas intervenções externas, atravessou longos períodos de ditaduras. A instabilidade política é constante desde que o país foi conquistado pelos espanhóis, depois tomado pela França, que importou escravos da África para trabalhar nas plantações de cana de açúcar. Num dado momento, em 1804 a população escrava percebeu que superava a população de pessoas livres e esse fato ocasionou um levante de escravos contra as tropas francesas e declararam a independência.

Porém, ao longo dos anos tem sido governado por juntas provisórias e ditadores, como o médico François Duvalier, o Papa Doc, que emergiu no cenário da sucessão,apoiado pelos Estados Unidos e elegeu-se presidente pelo voto em 1957. Ao assumir o poder, instaurou uma ditadura personalista, sangrenta e declarou-se presidente vitalício. Ao morrer foi substituído por seu filho, Jean-Claude Duvalier, o Baby Doc, cujo governo envolveu-se em sucessivos episódios de violência entre milícias e desrespeito aos direitos humanos. Denunciado, Baby Doc caiu.

Ao eleger o ex sacerdote Jean-Bertrand Aristide, o haitiano apostou na paz duradoura, mas Aristide foi deposto por um golpe de estado e a partir da queda de Aristide os enfrentamentos políticos e sociais cresceram, agravando a crise econômica e social. A deposição de Aristide motivou um verdadeiro êxodo de haitianos para os Estados Unidos.

O Brasil relaciona-se diplomaticamente com o Haiti desde 1928. É parte importante na direção da Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (MINUSTAH). É, atualmente o único país do mundo que adota política migratória especial de concessão de vistos de caráter humanitário para os migrantes haitianos, considerando a vulnerabilidade do cidadão haitiano diante de cada tragédia experimentada pelo Haiti.

Em Jeremie, a principal cidade do departamento de Grand’Anse, o furacão causou a destruição de cerca de 80% das casas. E um dos moradores relata: “De todas as informações que chegam, a situação é pior do que esperávamos. É uma situação muito grave. Não tenho nada, não sobrou nada. Minhas mãos estão vazias”.

Sem dramas

O PMDB foi novamente o partido que mais elegeu prefeitos no país. Mérito que o partido conquistou também em 2004, 2008 e 2012, quando era governado pelo PT e agora polariza com o PSDB, a liderança nas Capitais.

A cidade do Rio de janeiro acabou dando o exemplo de um colégio eleitoral independente, ao eliminar os candidatos que exibiram comportamentos inadequados; Flávio Bolsonaro e a homofobia herdada e os deslizes agressivos do candidato João Paulo, acusado de agredir a ex-mulher.

O poder sai definitivamente das mãos do PMDB e a disputa fica cerrada em posições díspares, o bispo da Universal de um lado e o “libertário” do Psol do outro lado.

São Paulo surpreendeu ao eleger João Dória, candidato novato, em 1º turno, mas redimiu-se e elegeu o veterano político Eduardo Suplicy, que de senador sai a vereador mais votado da história da cidade de São Paulo.

Nem perplexa nem decepcionada com o resultado da eleição em Cuiabá! 17 capitais brasileiras terão novas eleições em 30 de outubro. Aqui, aconteceu o que todos esperavam. O Procurador Mauro fez pouco mais do que segurar os 58 mil votos que tivera em 2014, quando saiu candidato a deputado federal. No panorama geral do Estado, o PSDB faz o maior número de prefeitos; considerando a questão de gênero, 15 mulheres comandarão cidades em Mato Grosso, em 2012 foram eleitas 20 prefeitas.

Considerados eleitos, muitos perderam, o que vale dizer que algumas pesquisas induzem a coordenação de campanhas ao erro ou candidatos teimosos ignoram o rumo apontado pelas pesquisas. Não dá para fazer coro a máxima de que não se transfere votos. As vezes sim, e isso depende da conjuntura, do engajamento! Veja o caso de Sinop, o Juarez fez a sucessora.

Com relação à reeleição seguimos com a mesma ideia de que não há verdade absoluta sobre o tema. Alguns prefeitos candidatos à reeleição deram show, arrebanhando a média de 70% dos votos; porém 33 candidatos à reeleição não conseguiram se reeleger e há nomes inacreditáveis como Pitucha, de Alto Garças, Rossato, de Sorriso e Percival, de Rondonópolis.

Comparando, é praticamente a mesma proporção dos prefeitos com mandatos que se reelegeram e que perderam. Enfim, no topo por muito tempo, a não ser os ditadores, somente Jorge Sória, um tipo de prefeito vitalício, que há 27 anos administra a cidade portuária de Iquique no Chile.

Permeada pela crise econômica e pelo enxugamento proposto pela mini reforma política, sobretudo quanto a doação provenientes apenas de pessoas físicas, a eleição ocorreu sem a pirotecnia dos megamarketeiros. Os candidatos ficaram em posições relativamente igualitárias. Valeu andar de casa em casa, olho no olho, a credibilidade, a confiança. Acho que todos os que concorreram devem ser unânimes em repetir o apóstolo Paulo:

“Combati o bom combate, terminei a corrida, guardei a fé.”

Quando argumentar não vale a pena

Algo mudou com relação a capacidade dos indivíduos de desenvolverem bons argumentos, esticar as horas contrapondo-se às ideias de seus opositores, sem perder o equilíbrio, sem esboçar reações agressivas, sem deixar escapar obscenidades.

Não refiro-me exclusivamente as mídias sociais não, mas obviamente estas são instrumentos confortáveis atrás das quais os corajosos se escondem para destilar a intolerância com o pensamento, com a vontade e com a hesitação do outro.

Hannah Arendt adverte que a abertura ao diálogo é a precondição da humanidade, em todos os sentidos e que o diálogo verdadeiramente humano é totalmente permeado pelo prazer com o que a outra pessoa diz.

Porém, como dialogar com indivíduos que carregam a convicção de que suas opiniões são expressões da verdade, ou melhor, são as únicas verdades existentes? A opinião dos outros, se diferentes, são meras opiniões.

A mania de sermos o tempo todo passionais é idiossincrasia de gente temperamental que traz o coração na boca e nesse momento político então, a coisa descamba. Os barris de pólvoras estão cheios. Será que é tão difícil defender um ponto de vista, uma candidatura sem perder a cabeça? Confesso que muitas vezes calo-me, sufoco a defesa de uma idéia ou de uma pessoa, sobretudo por entender que a melhor resposta muitas vezes é virar as costas e seguir.

Entretanto não bastasse o policiamento que permeia as mídias, descrevo um tempo de prolongada inquietação que tem conseguido arrefecer a disposição e levar ao anonimato indivíduos que algum tempo atrás expunham-se a si próprios e suas posições políticas  e a respeito de vários outros temas, levando em conta as circunstâncias e a finalidade dos debates.

Dialogar deve estar fora de moda.

Em termos práticos, a comunicação que temos conseguido estabelecer exibe hoje a feiura das pessoas que não respeitam o outro, que não procuram palavras adequadas exatamente porque querem polemizar e provocar. E provocam, sobretudo, silêncio e o desencanto, porque não vale a pena comprometer-se em discussões atravessadas por ressentimentos.

Por questão de especial apreço a quem lê meus artigos, declino de enveredar-me pelo caminho desgastado da intolerância, de escrever com perturbação e descontrole, tentando encarnar em todos os textos, um culto a minha personalidade.

Nenhum ser humano é perfeito, ninguém tem familiares e amigos perfeitos, a vida não é um jogo onde ganha-se sempre e a convivência na maioria das vezes não contamina uns com os pecados dos outros. O ideal seria se estabelecêssemos relações cambiantes: eu te respeito, você me respeita.

O novo não é todo claro

A corrupção é intolerante. Deriva-se de ações violentas e criminosas. Não há outro caminho para combater a corrupção senão a punição severa e o repatriamento dos valores subtraídos ilegalmente. A corrupção não é fruto da esfera racional do ser humano e sim da crença e do ponto de vista, nem tão errôneo assim, de que poucos são punidos ou de que a punição se dá segundo critérios partidarizados.

Parece-me que um sentimento de confiança se estabeleceu de hora para outra, mas calma com o andor, pois o santo continua sendo de barro. O esperado impeachment, a cassação do ex-presidente da Câmara dos Deputados aconteceu e isso realmente nos remete a um novo capítulo da história política brasileira.

Os fatos, porém, devem ser entendidos particularizados e com detalhes. Grande maioria dos deputados que votaram pela cassação de Eduardo Cunha, jogaram para a plateia, já que a cassação seria inevitável, pois igualmente, muitos tem histórico de investigação pela Justiça.

O atual presidente, deputado Rodrigo Maia, que não responde a nenhum processo, foi captado numa troca de mensagens com Léo Pinheiro, da empreiteira OAS, pedindo doação.

Passar o país a limpo não é tão simples. A ministra Carmen Lúcia, presidente do Supremo Tribunal Federal tomou posse dizendo que não conhece um ser humano que não aspire por Justiça e reconhece que os cidadãos brasileiros não hão de estar satisfeitos com o sistema Judiciário.

Assumiu então a responsabilidade de encontrar soluções para reformar o incongruente e disfuncional sistema Judiciário do país, onde processos e pessoas mofam aguardando julgamentos.

Considerada uma workaholic, uma pessoa que trabalha até o limite das forças, a ministra não enfrentará nenhum fato novo. Convive com a lentidão e ineficiência da Justiça na mais alta corte do país desde 2006, quando tornou-se membro da Suprema Corte.

Em sua posse, na semana passada, lá estavam eles, os infiéis da causa pública, os indignos do poder; ministros e parlamentarescitados e denunciados, contrapondo com os discursos pregando rigor absoluto e enxugamento nas benesses concedidas com dinheiro público.

Fica assim, uma leve esperança em dias melhores, tempos mais austeros, como tem que ser. Enfim, quase tudo novo; o Presidente da República, da Câmara Federal, do Supremo e logo teremos novos prefeitos. Vejamos agora se as pautas se renovarão.

Chega de badalações, bajulações e palavras cordiais. Todos nós queremos um Brasil mais justo e a isso não chegaremos juntando cacos. Pluralizando o que escreveu Cecília Meireles, eu diria que precisamos aprender com a primavera a deixar nos cortar para voltarmos sempre inteiros.

Espaços luminosos ou opacos?

Há várias contribuições para o plano de governo dos candidatos a prefeitos, sobretudo no sentido de tornar as cidades mais humanas, valorizando os espaços de uso comum e tentando, de certa forma, abolir a tendência ou a lógica dos projetos que marcam a divisão entre centro e periferia.

O arquiteto Jaime Lerner, que foi governador do Paraná por dois mandatos e prefeito de Curitiba por três, lança um livro com ensinamentos valiosos sobre mobilidade e racionalidade no uso dos espaços públicos e, em entrevista, acerta um alvo: os candidatos que pretendem ir além de administrar recursos e obras carimbadas com selo do governo federal.

Diz ele que os gestores continuam a incentivar a criação de bairros distantes, que são alcançados apenas por carro, muitos nem linha de ônibus tem.

Lembra Lerner que mobilidade significa colocar moradia perto dos locais onde se acha emprego, pois levar infraestrutura para longe custa uma fortuna e a dependência de carro leva esta categoria de residentes, a se endividar para adquirir automóvel. A onda é explorar a dinâmica da cidade humana e promover soluções para os problemas urbanos e não sublinhar problemas deletérios.

Lerner condena a moda de se criar uma mini cidade dentro dos condomínios, onde se tem espaço para tudo, dentro dos limites dos muros altíssimos e convivência limitada a classes sociais distintas. Em vez disso, propõe, a reorganização de determinadas ruas, para que sejam espaços vivos, de cultura, compras e lazer, só assim, as pessoas sentirão vontade de viver suas cidades. Poucos exemplos em Cuiabá: talvez São Gonçalo Beira Rio e a Praça da Mandioca.

Ao comparar as gestões de prefeito e governador, assegura ter sido melhor prefeito, pois pode trabalhar diretamente com a sociedade e  as experiências mostraram resultados com menos tempo, o que permitiu que as equipes trabalhassem mais rápido e mostrando resultados efetivos em vez de  gastar tempo adaptando projetos nacionais, concebidos sem análise acurada das especificidades locais.

Ao estudar Geografia Humana tive a oportunidade de despertar para os ensinamentos do grande mestre, o geógrafo Milton Santos, que diz que a vida metropolitana deve sempre ser refeita, tanto na forma quanto no dinamismo, para não acabar compartilhando espaços plenos de tédio, angústia e medo.

Assegura que os condomínios caros são construídos longe do centro da cidade, justamente para empurrar os pobres para mais para longe ainda. E aí, voltamos ao Jaime Lerner, quando falou que os espaços públicos da periferia há muito são demarcados por obras de escolas, creches, postos de saúde e igrejas, que funcionam sem nenhum sentido de rede solidária.

Ser prefeito da cidade de Cuiabá hoje é não temer abraçar as adaptações rumo a modernidade, o que significa, entre outras coisas, construir um futuro atraente, mais informal e democrático para seus residentes. Hoje em dia, nos meios de aferição da qualidade de vida nas cidades, o que conta, não é o número de carros que trafegam pelas ruas e sim, o planejamento para tornar a vida dos seres humanos mais feliz.

Poder local

É comum não nos darmos conta dos direitos que temos, do modo como não os reivindicamos e os exercemos. É neste contexto que participar das eleições não é apenas fazer valer um direito, mas também uma forma de manifestar poder e exercer a cidadania que nos permite ter a nossa quota na escolha de quem vai governar nossa cidade nos próximos quatro anos.

Ainda que as pessoas expressem maior apreço pelo cenário nacional é nas eleições municipais que se inicia de fato o processo político nacional.

A experiência que se acumula legislando ou exercendo cargo no Executivo dos municípios é que mais tarde, dá realce a vida dos que aspiram voos mais altos. O poder local é que proporciona a implementação das políticas públicas com interface direta com o cidadão, visando assegurar proteção e atendimento básico, com prestação de serviço que vai desde a coleta do lixo, distribuição de estacionamento público, saúde, transporte, escola. É o desenvolvimento aliado à justiça social.

A melhor maneira de tornar-se influente no lugar onde se vive e trabalha, é participar da política local, atitude que além de fornecer o impulso necessário para revigorar a rede da democracia, é o melhor momento para se colocar, dar voz aos planos e sonhos e para fazer cobranças.O exercício da cidadaniaentretanto, não se limita a liberdade de expressar atendência política, de votar, enfim.

Porém, é nesse contexto quase familiar que a cidadania se confirma, que a escolha do Prefeito deve pairar.Para que o prefeito possa efetivamente, desempenhar bem suas funções, é necessário transformar o serviço público em “serviço para atender bem o público”, com profissionalização e humanização.

Vivemos tempos difíceis, é preciso cuidar da população com carinho, lembrando que projetos para cultura e esporte são instrumentos inclusivos indispensáveis para a plena afirmação da dignidade humana em todas as dimensões.

Agora, por mais que sejamos capazes de elaborar uma extensa lista de razões pelas quais estamos cansados de votar, pode-se tentar uma estratégia nova, invertendo a ordem do desânimo e aprimorando a participação, cedendo ideias, projetos, estando atentos ao que falam e se nos ouvem.

Tomando esse conjunto de cuidados, alerte-se ainda para o fato que agora muitos candidatos exploram o poder financeiro, os amigos influentes, os supostos padrinhos com elevado grau de dignidade, mas não é nessa conjuntura de palanque imponente que devemos votar.

Apesar da dependência ainda usual dos municípios brasileiros pelas transferências de repasses estaduais e federais, a descentralização está cada vez mais na ordem do dia dos municípios.

Aprende-se a confiar

Haveria uma ingenuidade otimista em admitir que a confiança é uma habilidade que pode ser estimulada e aprendida? Ativar o botão para o modo “confiar” num momento de mudança política, leva a reflexão sobre a área que temos sido ativos, os valores que temos negligenciado, sobre as escolhas que temos feito e sobre quem temos prejudicado com nossas convicções e consciência tardia. Não há como corrigir o que já foi. Aprende-se.

Sem querer adotar uma opinião depreciativa, aprende-se que o homem contemporâneo não avalia as consequências de sua mente excitada e indolente. Aprende-se que a corrupção é rasteira e nem sempre dá sinal que está instalando-se.

Aprende-se que os governantes colocam os interesses pessoais acima dos interesses de todos os outros cidadãos, que sabem fazer uso do mal e que o povo nem sempre é moralmente bom e honesto e em muitos casos, aprecia ser seduzido. Aprende-se…por isso é difícil confiar no bom senso dos homens.

Aprende-se que o ideal de igualdade de oportunidades não é sempre um ideal atraente, pois o vulgo nos cobra acúmulo de riqueza, prazeres, boa posição, obediência às leis divinas. Sob muitos aspectos a vida cotidiana torna-se cada vez mais difícil. É grande a pressão e as formas de errar são abundantes.

Nosso hábito tem sido a desconfiança, a alegação que as experiências vividas mais provocam do que aliviam o sofrimento. A sociedade contemporânea tem sido marcada por um contínuo esvaziamento de sentido e cada vez mais os indivíduos sentem-se desconfiados, motivados a isolar-se num sofrimento ético. Ainda assim, é preciso confiar.

Aprende-se a confiar como um caminho possível, ainda que entre suspiros e preocupações, mas as relações recíprocas são as únicas a assegurar condições nas quais podemos gozar de paz verdadeira e duradoura. Aprende-se a confiar lentamente, dependendo de exercícios e práticas a esse respeito.

Entretanto, confiança não é instintiva. A vida com intencionalidade nos joga em algum nível de desconfiança, de insatisfação. A vida nos instiga a desconfiar do inesperado. São as agruras da própria existência humana.

Então, uma relação real deve vislumbrar a confiança como a essência e o sentido da vida e mais do que uma questão de tempo, a confiança se estabelece não permitindo lacuna entre o que se deve ser e o que é.  E isso vale para todas as estâncias da vida.

E eu com isso?

Nada. Nenhum evento da vida deve ser ignorado. Há uma estranha e inegável simbiose em tudo que nos acontece. Um fato está intrinsicamente ligado a um problema mal resolvido ou a um caso de sucesso, ao amor que negamos ou ao amor que doamos. É disso que é feito nossos dias.

Um pequeno pedaço de papel jogado na rua. Não. Não é pequeno exemplo de displicência. É falta de educação cidadã, é falta de importar-se com as consequências ambientais que bueiros entupidos podem causar. Falar aos cotovelos é falta de zelo com as palavras, é sobretudo, arrogância de quem pensa que pode sobrepor seu modo rude de agir sobre outros. É bom lembrar sempre que as verdades de uns pouco, ou quase nada dizem a outros.

Civilidade e respeito mútuo são elementos vitais para construirmos uma rede de relações saudáveis, com debates vigorosos, discussões ideológicas, desacordos, sem que isso cause desconforto algum. Dentro desse prisma devemos nos sentir encorajados e encorajar outros a falar, escrever, ouvir, aprender, sem medo da censura, do gatilho pronto a ser puxado pelos que prezam viver nas zonas confortáveis e evitam explorar questões difíceis de confronto.

Mundo pequeno, mentes estreitas não toleram a criação, as perspectivas de exploração do florescimento de ideias novas. Apesar disso, sigamos compromissados  com a liberdade, com a controvérsia, com a pluralidade.